Stiles acordou se sentindo pessimamente bem. Ok, estranha escolha de palavras, mas era como ele se sentia depois do seu baile de formatura. Ele dançou todas as músicas e com todas as pessoas: Lydia, Kira, Danny, Scott, Malia (que não estava se formando, mas ainda assim estava na festa) e até mesmo Greenberg e o treinador Finstock. Ele bebeu tudo o que podia e o que não podia também graças a identidade falsa de Danny que conseguiu comprar uma garrafa de vodka para cada um de seus amigos. Ele tem quase certeza que beijou o menino novo do time de lacrosse, mais por provocação do que por afeição, mas ainda conta como um beijo. Ele chegou em casa quase ao amanhecer e agora se levantava depois do meio dia com a maior e melhor ressaca que um jovem pode querer.

Quem o visse na festa ontem certamente não entenderia o tamanho da sua euforia por finalmente terminar a high school. Não era vontade de sair da escola, nem a ânsia de ir para a faculdade, longe da supervisão do pai. Era apenas a alegria de ter, literalmente, sobrevivido.

Tirando seu círculo de amigos, mais ninguém sabia por tudo o que o rapaz já havia passado. Ajudando Scott a lidar com a transformação em lobisomem, lutando contra caçadores, assistindo Peter matar Kate Argent, matando Peter, vendo Peter ressuscitar, tornando-se aliado dele, tornando-se aliado de caçadores, lutando contra um bando de alfas, morrendo para salvar seu pai de um Darach. Ressuscitando. Sendo psicologicamente sequestrado por um nogtisune. Vendo Allison morrer, Isaac deixar a cidade, Derek se machucar...

E se ainda fosse pouco, assistir o retorno de Kate Vadia Zumbi Argent como um cosplay mal feito da Mística de X-Men, pra causar mais merda na sua vida. Ele tinha 17 anos e achava que nunca ia ver sua carta de admissão em Berkeley.

Ele ajudou Scott mais uma vez. E Malia e Kira a dominar seus poderes. E Peter a salvar Derek e matar, mais uma vez, a vadia zumbi. E queimar o corpo, com sal e óleo bento. Todo mundo deveria assistir Supernatural, ele pensou quando espalharam as cinzas de Kate no esgoto de três cidades diferentes.

E ele tinha sobrevivido.

E pela primeira vez, naqueles últimos três anos, ele poderia fazer algo realmente adolescente como se embebedar em seu baile de formatura.

Stiles foi direto para o banheiro. Sua cabeça rodava, mas ele estava grato por não ter necessidade de vomitar. Tomou um banho, escovou os dentes e desceu as escadas para ir a cozinha caçar alguma coisa para comer.

Foi quando sua ressaca passou.

Seu pai estava sentado no sofá, parecendo desolado. A sua frente, na mesa de centro um envelope aberto e algumas folhas do que parecia ser uma carta. E ele esfregava o templo, suspirando.

- Pai? O que aconteceu? Você está bem? Precisa ir ao hospital? Vamos, vou chamar Melissa enquanto a gente entra no carro...

- Stiles! – o pai falou alto para fazer o rapaz parar – Estou bem. E mesmo se eu estivesse sentindo mal, dificilmente aceitaria ir com você para o hospital enquanto tudo o que você está vestindo é uma samba canção de Star Wars, com um sabre de luz estrategicamente estampado.

O rapaz arregalou os olhos, percebendo então que não tinha se vestido totalmente e ficando ligeiramente sem graça, sentando ao lado do pai e puxando uma almofada para o colo.

- O que aconteceu então? Eu desci e te encontrei de um jeito que eu não vejo, sei lá, desde que você perdeu o emprego.

O xerife deu um suspiro e ergueu uma mão, para apertar o ombro do filho, enquanto estendia o outro braço e puxava a carta sobre a mesa.

- Recebi esta carta ontem, mas só hoje pude dar atenção.

- De quem é?

- Jedrek Kostchy. Tio da sua mãe.

Stiles franziu a testa tentando se lembrar, mas não conseguiu. Sabia que tinha visitado alguns parentes de sua mãe quando criança, mas depois que ela morreu, ele perdeu o interesse.

- O que ele quer?

- O paraíso? – o xerife se atreveu a brincar com uma risada seca, ganhando um olhar estranho do filho – Seu tio-avô Jed faleceu semana passada, filho. Essa carta quem enviou foi o advogado que está cuidando do espólio. Seus avós maternos faleceram um ano após eu ter me casado com sua mãe. Ela tinha algumas tias e primas por parte de mãe, que nós visitávamos de vez em quando. Acho que só fomos ver seu tio-avô umas três vezes depois que você nasceu. Mas ele se mudou para Nevada e ficou difícil ir até lá.

- Ele era irmão do meu avô?

- Sim, irmão do seu avô. O único irmão dele. E não se casou, nem teve filhos. O que faz de você...

- Seu único herdeiro! – ele concluiu e começou a rir – Pai, vai dizer que justo agora aparece um tio morto rico para resolver a minha vida?

- Tio Jed não era exatamente rico, Stiles. Mas ele tinha uma casa grande, certa quantia no banco e o carro. Além de algumas relíquias de família, que seu bisavô trouxe da Polônia quando veio para a América. E é tudo seu, de acordo com o advogado.

- Wow. – o rapaz se levantou e andou pela sala, coçando a nuca sem saber o que dizer, até que algo clicou em sua cabeça – Mas pai, se eu herdei tudo isso... Quer dizer, podemos vender a casa, o carro, pegar o que tem no banco e isso vai me ajudar na faculdade. Eu ganhei a bolsa, mas tenho que pagar o aluguel e comida e isso vai me impedir de ter que arrumar um emprego e eu posso fazer uma graduação dupla, certo?

- Certo, pelo que o advogado disse, tudo o que você herdou deve dar, no mínimo uns 350 mil dólares.

- Cacete! Desculpe! – ele bateu a mão na boca imediatamente – Então por que você parecia triste?

- É que seu tio-avô era um sujeito estranho e cheio de manias e colocou uma cláusula no testamento.

- E essa cláusula diz o quê, exatamente?

- Que você precisa passar dois meses na casa, se quiser ficar com a herança.

- Vou ter que passar minhas férias na casa desse velho louco pra ganhar 350 mil? Qual o problema?

O xerife apenas ergueu os olhos e Stiles compreendeu. Ele tinha dois meses de férias antes de ir pra faculdade. Dois meses que ele teria que passar na casa do tio-avô. Longe de seu pai, que não podia tirar férias agora, fazia apenas um ano que ele esteve sob auditoria e quase perdeu o cargo. E depois que Stiles fosse para Berkeley, eles não teriam mais muito tempo para se ver.

O rapaz sentou ao lado do pai e suspirou. Ficou quieto por alguns instantes antes de falar:

- Podemos abrir mão. – e vendo que o pai ia protestar, ele completou – Pai, escuta! Até ontem estava tudo resolvido. A gente ia passar três dias pescando e depois eu ia arrumar um trabalho de verão até a faculdade começar e ia pra lá sem contar com herança nenhuma.

- E você acha que eu vou deixar você desperdiçar a chance de se dedicar apenas aos estudos por causa de três dias de pescaria? – o pai dele levantou do sofá e o encarou – O seu futuro é a coisa que mais importa pra mim, rapaz!

- E você é a coisa que mais importa pra mim, pai! Se for te fazer infeliz esses dois meses longe... Se eu pensar que você está aqui sozinho, triste... Acha que eu vou aguentar ficar sei lá onde, por causa de dinheiro?

- Eu não estou triste porque você vai ficar longe, filho. – Stiles ergueu a sobrancelha e virou a cabeça de um jeito que indicava claramente que não tinha acreditado em uma palavra – Ok, eu vou ficar triste. Nunca ficamos mais que uma semana longe um do outro e você é tudo o que eu tenho. Mas o que me deixa triste mesmo é te mandar pra lá sozinho!

O queixo de Stiles caiu. Ele não teve tempo para processar esse detalhe da situação. Scott seria o primeiro da lista a convidar, mas Deaton havia lhe presenteado com 7% da clínica quando ele foi aceito também em Berkeley no curso de Veterinária, desde que ele trabalhasse todo o verão e nas férias escolares.

Lydia tinha uma viagem marcada para a próxima semana: ela iria passar um mês visitando França, Itália e Inglaterra. E ela jurou que o último país escolhido não tinha nada a ver com sua vontade de reencontrar Jackson. Kira iria para o Japão, Danny para o Havaí. Malia tinha curso avançado para tentar recuperar o tempo perdido como coiote.

- Você não me disse onde Tio Jed morava. – ele tentou ganhar tempo enquanto pensava numa solução. Quem sabe Greenberg seria uma boa companhia.

- Lovelock. Uma cidade pequena em Nevada. – o xerife respondeu.

- Love... Que porra de cidade tem um nome assim?

- Stiles!

- Desculpe. Mas sério... Lovelock? – ele respirou fundo – Quando eu... Se eu for... Quando tenho que ir?

- Você tem que estar lá na próxima terça, para a leitura oficial do testamento. Se você não comparecer, todos os bens, inclusive os bens pessoais e de família, ficarão para o Estado. Você teria que pegar um avião até Carson e de lá mais duas horas de ônibus para Lovelock.

O rapaz apenas assentiu e murmurou alguma coisa que soou como “vou pensar nisso” e voltou para seu quarto. Abriu o notebook e fez uma pesquisa rápida sobre a cidade, deixando a cabeça cair sobre o teclado quando percebeu que a tal cidade tinha menos de dois mil habitantes. Seu tio devia ser um sádico para condená-lo a morrer de tédio confinado na casa, completamente sozinho.

Duas batidas na porta do quarto o fizeram apenas responder:

- Pode entrar, pai!

- Ainda sou novo pra ter um filho do seu tamanho.

A voz de Derek fez Stiles quase cair da cadeira. Ele ainda não tinha se acostumado com a imagem de Derek aparecendo pela porta e não pela janela. Assim como não tinha se acostumado a ver Derek com o macacão da oficina mecânica que abriu no meio do ano, depois de terem resolvido o problema da vadia-zumbi.

Depois que o problema Kate Argent virou pó, literalmente, Derek se tornou uma pessoa mais acessível. Brincava mais, respondia as perguntas com frases com mais de três palavras, tinha até adotado um cão: uma beagle que nasceu com um pequeno defeito em uma das patas e o dono do canil não quis colocar a venda. Stiles colocou o nome dela de Arya, porque sabia a paixão secreta de Derek por Game of Thrones e sua óbvia predileção pela Casa Stark. Quando Derek perguntou por que ele não colocou o nome da loba Niméria, Stiles apenas respondeu que era pelo prazer da ironia: Arya era dona da loba, e agora o lobo era dono da Arya.

Agora Derek estava ali, na sua frente, com seu estúpido macacão cinza chumbo, com o emblema Hale’s bordado no bolso na altura do peito e um envelope azul escuro na mão.

- Seu pai me deixou entrar antes de ir para a estação. Isaac mandou isso. Já entreguei o do Scott e o da Lydia. Faltava o seu, mas não te vi ontem.

Stiles abriu o envelope e era um cartão, felicitando pela formatura. Ele sorriu, com saudade do moleque que vivia disputando a atenção de Scott com ele, mas que no fundo não passava de um grande filhote que caiu da mudança.

- Obrigado! – Stiles respondeu e quando olhou para Derek, notou o rubor que cobria o rosto do lobisomem – Oh merda! Um minuto!

Ele correu para o guarda-roupa e vestiu a primeira calça de moletom que encontrou. Achava Derek engraçado. Ele não tinha muita vergonha de se trocar na frente de Stiles ou do resto do bando. Mas quando Stiles é que está semi nu, Derek é a vergonha em pessoa.

- Foi mal, eu acordei e desci pra comer, mas meu pai me falou umas coisas e acabei esquecendo.

- Tudo bem. Só passei aqui pra te dar o cartão do Isaac mesmo. Tenho que ir pra oficina.

- Pra que você vai lá, se odeia sujar as garras de graxa e os seus empregados fazem todo o serviço?

Era verdade. Não a parte de Derek odiar se sujar, mas a parte dos empregados. Eram raros os carros que Derek realmente colocava a mão. Ele gostava mesmo de supervisionar a qualidade do serviço dos quatro rapazes que trabalhavam pra ele.

- Como dizem, o olho do dono que engorda o porco. – ele brincou e já ia saindo quando perguntou – Você já escolheu?

- O quê? – Stiles balançou a cabeça, franzindo de leve as sobrancelhas.

- O seu presente de formatura, Stiles. Pare de se fingir de bobo. Só você não recebeu o seu ainda.

Derek fez questão de presentear cada um: Scott pediu um livro que ia usar na faculdade; Lydia quis um cordão de prata com um pingente em forma de triskele (que Derek fez melhor e mandou fazer um medalhão, que ela poderia encher de wolfsbane, para ficar protegida enquanto estivesse no MIT); Kira quis uma cópia do bestiário e Malia pediu ajuda com a sua tatuagem no pescoço. Apenas Stiles não tinha dito a Derek o que queria, quando o lobisomem perguntou há um mês.

O rapaz deu um sorriso triste e respondeu:

- Uma foto.

- Foto?

- Sim, uma foto nossa. Do bando.

- Pra quê você precisa de uma foto nossa, Stiles? Já não cansa de nos ver quase todos os dias? – Derek brincou, mas sentiu o cheiro da tristeza de repente começar a escorrer pelos poros do rapaz.

- Bom, talvez eu não vá poder ver vocês por uns tempos. Ainda não é certeza, mas é provável que eu tenha que passar as férias inteiras na casa do meu tio-avô, numa cidade ridiculamente pequena em Nevada.

- Ele não é uma pessoa legal?

- Ele morreu. Não faça essa cara de velório, porque eu nem me lembro dele. Mas era seu único herdeiro e pra ficar com a herança tenho que morar dois meses na casa, antes de poder vender. Ter uma foto de vocês vai ajudar a aguentar a saudade.

Derek apenas balançou a cabeça, se despediu e saiu da casa, deixando Stiles segurando o cartão de Isaac na mão e olhando para o computador que exibia algumas fotos de uma cidade com casas coloniais e ruas largas com poucos carros.

A caminho da oficina, Derek pensou o quanto foi ruim deixar Beacon Hills pra trás apesar da morte de seus pais. Se mudar havia sido ideia de Laura e não sua. Ele sentia-se perdido numa cidade que não conhecia ninguém, que não conhecia o cheiro das ruas, o nome das lojas. Só não foi pior porque Laura estava com ele. Sempre que saía de casa para a escola ou qualquer outra coisa, sabia que tinha alguém para quem voltar. Uma voz para fazer barulho, para rir, para implicar com ele.

Não conseguia imaginar Stiles sozinho numa casa, numa cidade com nada pra fazer pelo que ele deu a entender, conversando com os amigos apenas pelo Skype. Isso se ele conseguisse uma boa conexão com a internet na casa do tio. Ele ia morrer de tédio ou quebrar a casa inteira antes, por causa de seu TDAH.

E sem pensar novamente, Derek virou o carro tomando um rumo diferente ao da oficina e se dirigiu à delegacia. Precisava conversar com o xerife urgente.

Notas finais
Só para vocês saberem: Lovelock existe sim, fica em Nevada e o tempo de viagem da capital do estado até a cidade é, de fato, duas horas.
Por que to falando isso para vocês? Porque eu gosto de pesquisar as coisas que escrevo nas fics...rs...

Agora sim, façam suas apostas sobre o que pode acontecer nesse período e me deixem reviews lindas para me fazer feliz!