Um Lugar Chamado Lovelock
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Stiles havia pensado muito e chegou à conclusão de que seria uma grande estupidez de sua parte abrir mão da herança apenas pelo incômodo de passar dois meses trancado numa casa velha. Conversou com seu pai a noite e eles combinaram que ele iria para Lovelock dali a três dias.
Fazer as malas tomou todo seu tempo e ocupou, consideravelmente, sua cabeça. Ele tinha que se preparar não apenas para os dois meses que ficaria em Nevada, mas também para a faculdade. Encaixotou tudo e separou suas coisas em duas pilhas: Faculdade e Inferno.
John assistia a tudo com um sorriso melancólico, sentindo o peito doer antecipadamente pela ausência do filho, mas sempre provocando o menino, dizendo que não a via a hora dele finalmente viajar para que ele pudesse comer um big mac.
Stiles ria e jogava coisas no pai, falando que colocaria todos na delegacia para vigiá-lo, especialmente Kyle, que se tornou amigo da família nos últimos tempos.
Quando chegou o dia de partir, Stiles pegou sua mochila com o notebook, as duas malas com roupas e DVD’s e deixou indicações precisas a seu pai para que enviasse as outras caixas para Berkeley junto com a mudança de Scott.
Ele não queria se despedir dos amigos para não aumentar o nó que insistia em apertar sua garganta desde a noite anterior.
– Você vai me levar ao aeroporto, certo? – ele perguntou ao pai.
– Com certeza. Troquei meu turno hoje para poder aproveitar essas últimas horas com você. Estou orgulhoso, meu filho. Foi uma decisão difícil, mas ainda assim, foi a mais sensata.
– Obrigado, pai! Não seria justo, ter essa oportunidade e abrir mão e depois sobrecarregar você com as contas da faculdade.
O xerife sorriu para o rapaz e eles continuaram tomando seu café da manhã, quando o menino finalmente se lembrou de dizer:
– A que horas é meu vôo?
– Hum?
– Meu vôo, pai. Você não me disse. Comprou a passagem para qual horário?
John não teve tempo de responder, porque a campainha tocou naquele momento.
– Vamos descobrir isso agora. Abra a porta, por favor?
– Como assim “vamos descobrir”, pai? Vai me dizer que comprou minha passagem pela internet? Ou pior, mandou um dos policiais ir lá buscar a passagem? E se ele comprou para o lugar errado? Como eu vou fazer?
– Stiles, menos pânico e mais ação. Vá abrir a porta!
O rapaz se levantou e foi cumprir a ordem do pai, resmungando durante o curto trajeto entre a cozinha e a sala. E quando abriu a porta, sua confusão aumentou ainda mais:
– Derek?
O lobisomem estava ali, de pé, não em sua roupa de serviço como ele deveria estar, já que se tratava de uma segunda-feira. Derek usava um par de jeans escuro, uma camiseta verde água e sua tradicional jaqueta de couro. E o rapaz não sabia se ficava mais chocado com o fato de que o lupino conseguia ser bonito até numa segunda-feira de manhã ou com a presença dele na porta da sua casa no dia de sua partida.
– Vai me deixar entrar? – Derek perguntou, num tom zombeteiro e Stiles deu um passo para o lado, permitindo que ele fosse para dentro de casa.
– Stiles, quem é? – a voz do xerife veio da cozinha.
– Sou eu, xerife. Derek. – o lobisomem respondeu por si só e já foi para o interior da residência.
– Ótimo! Chegou a tempo do café. Ovos mexidos, torrada com manteiga de amendoim e café preto sem açúcar, certo?
Stiles sentia sua boca abrir tanto que era provável que a qualquer momento seu queixo iria abandonar seu rosto e correr para se esconder embaixo do sofá. Havia tanta cumplicidade entre seu pai e Derek naquele momento, tanta familiaridade que seu peito doeu.
– Acho que eu preferia quando você tinha que entrar aqui escondido e pela janela do meu quarto. – ele murmurou, sabendo que o lobisomem iria ouvir de qualquer jeito.
Derek deu de ombros e se sentou à mesa, com sua xícara de café nas mãos, o quase sorriso no rosto, conversando amenidades com o xerife. Foi quando Stiles percebeu que ainda não tinham resolvido a questão do voo.
– Pai, você ainda não me disse a que horas devo estar no aeroporto!
– Relaxa, Stiles! Nosso voo é só as duas da tarde. Temos tempo de sobra de arrumar todas as coisas e ainda passar no Deaton para pegar uma caixinha para a Arya.
– Nosso voo? – Stiles repetiu – Como assim, “nosso voo”?
E só então o xerife pareceu levemente constrangido e falou qualquer coisa sobre ter que ir no quarto, buscar um lenço.
– Você podia arrumar uma desculpa melhor pra sair da cozinha, pai! – Stiles gritou quando o xerife subiu as escadas e cruzou os braços na altura do peito, encarando o lobisomem – Vai me explicar?
– Não tem o que explicar. Estou indo com você.
– Você? Está indo comigo para o fim do mundo? O que tem lá? Vampiros? Wendigos? Filhotes de dragão? Fadas mordentes?
– Você! – Derek respondeu, ligeiramente irritado e ficando vermelho em seguida, virando o rosto para o café que ainda segurava – Você parecia triste de ter que ficar sozinho. De todos os seus amigos, sou o único que posso me ausentar dois meses do serviço. Falei com seu pai, ligamos para o advogado e ele disse que nada impediria você de ter companhia. Então eu me ofereci e seu pai achou uma boa ideia. Era pra ser uma surpresa, não uma tortura como você está fazendo parecer.
Stiles engoliu em seco. De fato havia reagido muito mal, mas nunca sabia o que esperar de Derek. Pelo menos com ele. Com os outros, Derek caiu numa rotina fácil e num tipo de amizade tranquila, com poucas palavras, alguma interação e só. Mas com Stiles, era simplesmente diferente.
Eles conversavam mais, iam ao cinema juntos algumas vezes e discutiam praticamente todas as vezes que se encontravam. E nem todas as vezes a culpa da discussão era do rapaz. Derek parecia apenas incomodado ao lado dele.
Por essas e outras que ele sequer cogitou a possibilidade de convidar Derek para ir junto, afinal, dois meses com Stiles na mesma casa devia ser como o próprio lobisomem falou, uma tortura.
Mas ali estava ele, de pé em sua cozinha, com cara de cachorro chutado e tudo o que Stiles conseguiu fazer foi chegar mais perto, tirar a xícara da mão do lobisomem e dar-lhe um abraço apertado que Derek não correspondeu, chocado demais com o gesto.
– Obrigado. – Stiles disse e se afastou, voltando para sua refeição.
O resto do dia seguiu tranquilo, apesar de Stiles ainda ter a sensação de ter sido anestesiado. O xerife os levou até a clínica veterinária para que comprassem uma caixa adequada para transportar Arya no avião e onde o rapaz se viu obrigado a despedir de Scott.
Chegaram ao aeroporto com quase uma hora e meia de antecedência e mesmo que o voo fosse rápido, Stiles insistiu para que comprassem um monte de revistas de palavras cruzadas e muitos pacotes de balas de goma.
O rapaz se despediu do xerife com um abraço apertado e algumas lágrimas indiscretas escorrendo pela bochecha, mas Derek logo o puxou para longe do pai e deu um aperto de mão com o xerife prometendo que cuidaria do mais novo.
Tudo o que Derek pensou que aconteceria no vôo não aconteceu. Stiles não ficou agitado, não apertou todos os botões para reclinar seu assento, não mudou o canal da TV, não chamou a comissária de bordo 300 vezes apenas para ser chato. Stiles apenas dormiu, com a cabeça em seu ombro, dez minutos depois de decolarem e o lobisomem pensou se ele tinha passado todas as noites em claro depois da notícia sobre a herança.
Pousaram em Carson City e pegaram um táxi para a rodoviária, onde deveriam conseguir um ônibus para Lovelock. Derek ria de Stiles que parecia uma criança emburrada por ter sido acordada, mas eles mal entraram no ônibus duas horas depois de desembarcarem na capital de Nevada e ele tornou a dormir.
Chegaram a Lovelock no início da noite e só então o rapaz pareceu ficar nervoso.
– Tem o endereço aí com você? – Derek pediu e viu Stiles tirar um papel de dentro do bolso da calça – Ótimo!
Ele chamou um táxi e passou o endereço, sentando ao lado de Stiles e com Arya no colo. A cachorrinha tinha se comportado bem a viagem inteira e só agora parecia inquieta.
– Seria bom chegar logo. – Stiles falou baixo, coçando a orelha de Arya – Ela precisa esticar as patinhas. Lembra que Deaton disse que ela precisa de fisioterapia todos os dias?
– Lembro sim. Vamos chegar, deixar as malas e dar uma volta com ela no quarteirão. Vai ser bom, para ela acostumar com o cheiro do lugar.
– Ela e você, né? – Stiles se permitiu brincar e Derek beliscou ele.
O taxista, um senhor de quase 60 anos, observava os dois pelo retrovisor.
– Novos por aqui? – ele puxou conversa – Vieram a passeio?
– Mais a negócios. – Derek respondeu.
– Sim, meu tio-avô faleceu e eu...
– Você é o sobrinho-neto do velho Jed? – o taxista interrompeu – Sinto muito, meu rapaz. Seu tio era um sujeito único. Todo mundo aqui gostava dele. E quando eu digo todo mundo, é todo mundo mesmo. Do prefeito ao coveiro. O pobre homem chorou até na hora do enterro. Meu nome é Walter. Se precisarem de qualquer coisa, é só me ligar.
Ele tirou um cartãozinho do bolso entregando para os dois e logo depois parou o carro numa rua larga, toda arborizada e cheia de casas relativamente grandes.
– Chegamos. – ele informou.
Stiles saiu do carro, olhando para a rua iluminada, os amplos passeios e os jardins bem cuidados. Era muito diferente do que esperava.
– Qual delas? – ele perguntou para o taxista.
– Esta aqui mesmo! — ele apontou para a casa em frente a qual tinham parado.
Stiles não queria acreditar. Era uma casa muito grande para um homem que vivia sozinho. Tinha dois andares, uma varanda na frente onde um balanço com almofadas com estampa floral descansavam. Duas janelas de cada lado da porta e mais seis janelas no andar de cima compunham uma fachada elegante.
Ao lado da casa, o portão da garagem estava fechado e cerca de arbustos bem aparados separavam a casa dos vizinhos. Em frente a casa, uma grande árvore deixava cair algumas folhas no caminho de pedras que levava até a frente da residência.
– Quanto é a corrida? – Derek perguntou e pagou o preço pedido por Walter.
Quando o carro saiu, deixando os dois com as malas, a caixa de Arya e a cachorrinha sentada ao lado dos dois é que Stiles respirou fundo e sentiu o peso do que iria viver nos próximos dias. Sentia-se ligeiramente tonto, pensando que se Derek não tivesse ido com ele, certamente teria enlouquecido numa casa tão grande. Ia se sentir sufocado pelo espaço no interior do imóvel.
Derek deve ter percebido as emoções do rapaz, porque soltou a alça da mala e colocou sua mão na parte baixa das costas de Stiles, para que ele se sentisse menos desamparado. O rapaz olhou para ele e os dois ficaram em silêncio por alguns instantes até que uma voz chamou-lhes a atenção.
– Estão perdidos? – era uma voz feminina, meio asmática e idosa.
Quando Derek se virou, viu uma senhora de idade, usando um vestido azul claro, um casaco de lãzinha branco e azul, sapatos pretos bem engraxados e óculos em formato de meia lua. Tinha poucas rugas no rosto, mas seus cabelos brancos, presos num coque com um pente dourado, mostravam que deveria ter quase setenta anos.
– Não! – Stiles finalmente saiu do estado de torpor em que estava e se apressou a responder para a senhora – Vamos morar aqui, por algum tempo, pelo menos. Meu nome é Stiles e me disseram que essa é a casa que pertenceu a meu tio-avô Jed.
– Oh querido! Sou Carmela, sua vizinha da direita! – o tom de voz da senhora mudou completamente e ela andou rápido, puxando Stiles para um abraço – Sinto tanto pelo Jed. Um homem incrível! E você, quem é? – ela deu um olhar de cima a baixo em Derek, arrumando os óculos para enxergar melhor.
– Derek. Derek Hale, muito prazer. – ele sorriu e Stiles teve que segurar a vontade de rir quando percebeu que a senhora tinha ficado ligeiramente corada.
Ela deu um tapinha amistoso na mão de Derek e olhou para Arya, que abanava o rabinho, como todo filhote.
– E essa coisinha adorável?
– Essa é Arya. – Stiles quem respondeu – Nossa bebê!
Ele fazia isso para provocar Derek. Sabia que o lobisomem odiava quando ele tratava a cachorra como uma criança, dizia que isso iria lhe ensinar maus modos. Mas Derek não o repreendeu na frente da nova vizinha. Ela teria muito tempo para se acostumar com as brigas dos dois.
– Tenho que ligar para meu pai, falar que chegamos bem. Acho que ele está mais preocupado com a Arya do que comigo. – Stiles comentou, puxando o celular do bolso.
– Ah e vocês dois devem estar cansados da viagem também. Vou deixa-los entrar. Tenho certeza que em breve vamos ter outras oportunidades para conversarmos. – os olhos dela pareciam brilhar vendo Derek se abaixar para pegar Arya no colo e passa-la para Stiles levar para dentro da casa enquanto ele cuidava da bagagem. – Boa noite, meninos!
– Boa noite, Carmela! – os dois responderam juntos e foram para dentro da casa, finalmente.
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