Um Lugar Chamado Lovelock
6 Capítulo 6
Notas iniciais
– Você quer mesmo ir? – Derek perguntou pela décima vez aquele dia, enquanto calçava os sapatos.
– Vai ser legal, Derek. – Stiles respondeu, tentando ajeitar a gola da camisa preta que havia escolhido para ir e a gravata prateada que tinha usado no baile de formatura.
O lobisomem não estava convencido de que uma festa num clube de uma cidade pequena pudesse ser legal. Olhou para Arya que parecia julgar os dois com seus olhinhos caídos e deu de ombros.
– Ok, mas vamos ficar só uma hora...
– E voltar para terminar a temporada de The Walking Dead. – Stiles completou – Já sei, já sei. Céus, não entendo sua fixação com mortos vivos. Não basta conviver com Peter todos os dias?
Derek riu, passando um pouco de perfume e ajeitando o cabelo. Stiles sentou na cama para calçar os tênis, quando o lobisomem falou:
– O táxi chegou.
– Desce lá e diz que estamos saindo. – Stiles o empurrou para fora do quarto e Derek desceu calmamente as escadas.
O taxista, Walter, estava conversando com Derek, de pé na varanda, quando Stiles desceu. Ele pegou Arya no colo, abraçou a cachorra que lhe deu uma lambida na ponta do nariz.
– Fique boazinha, tá? O papai volta logo.
– Stiles! – Derek o advertiu – Ela vai ficar bem.
Mas assim que Stiles saiu para a varanda, ele mesmo foi até a poltrona em que Arya estava e coçou atrás de suas orelhas.
– Desculpe, bebê. Desta vez não podemos te levar.
Walter sorriu mais ainda para os dois e eles seguiram para o clube conversando sobre o tempo, o último jogo da NFL e sobre o que poderiam esperar da festa.
Quando chegaram ao local da festa, os dois tiveram a sensação de que ou Lovelock não era tão pequena ou simplesmente todas as pessoas da cidade estavam presentes ao evento. Stiles agarrou o braço de Derek, um pouco sufocado pelo excesso de rostos desconhecidos e o lobisomem não reclamou, também se aproximando do rapaz para ter ao menos um leve aromar conhecido no meio de tantos perfumes.
O problema maior da festa começou quando algumas pessoas passaram a encarar os dois, estranhando seus rostos, cochichando a medida que passavam. Em menos de dez minutos, parecia que os olhares eram todos sobre eles até que o rosto de Tamara e seu marido, Orson, apareceram no meio da multidão.
– Vocês vieram! – ela exclamou, feliz, apertando as bochechas dos dois.
– Parece que sim. – Stiles respondeu, dando de ombros.
Tamara arrastou os dois por todos os cantos do clube, apresentando aos amigos. Eles conheceram Louise e Simon, donos da floricultura, Erick e Sammy, um casal que era dono da pizzaria, ainda conversaram com Nathan, que tinha uma oficina mecânica e que ficou encantado em saber que Derek estava consertando o corvette.
– Passei anos tentando convencer Jed a arrumar aquela máquina. — o mecânico falou com um sorriso carinhoso.
Derek sentiu um aperto no peito vendo como o homem continuava a falar sobre as maravilhas dos motores de carros antigos. Nathan se parecia muito com seu pai. Não apenas o tipo físico meio robusto, de quem já foi muito forte quando jovem e ganhou alguns quilos com a idade, o cabelo grisalho nas têmporas e os olhos esverdeados que tinham um brilho feliz. O mecânico também tinha o tom de voz apaixonado que o pai do lobisomem usava quando tentava ensinar os filhos como arrumar a corrente da bicicleta, trocar o pneu das motos ou mesmo entender como funcionava o motor de cada um dos carros da família.
Ele pegou Stiles sorrindo para ele, o rapaz claramente feliz ao ver que ele podia conversar, “usando palavras e não rosnados” como ele costumava brincar. Sorriu de volta e se deixou levar pela conversa animada de Nathan, discutindo o que tinha feito no carro e o que pretendia fazer ainda.
Enquanto isso, Stiles continuava sua conversa com Tamara e sua sobrinha, Kendra. Elas falavam sobre o quanto foi difícil organizar o evento, conseguir a banda e as comidas.
– Mas os sócios do clube não pagam por isso? – Stiles perguntou, apontando a mesa do buffet.
– Oh, eles pagam para eventos comuns. – Kendra explicou – Mas hoje é uma festa beneficente.
– Ninguém me disse isso antes. É uma festa em prol do quê?
– Do Asilo St Patrick. – Tamara sorriu, mas seus olhos eram tristes e preocupados – há quase dois meses uma tempestade estragou totalmente o telhado do asilo e os quartos estão começando a apresentar infiltração.
Stiles balançou a cabeça em entendimento e observou com mais atenção as pessoas na festa. Sentiu-se bem ao pensar que todos ali eram capazes de um gesto de caridade e finalmente entendeu o que fez seu tio “perder tempo” numa cidade tão pequena: o coração das pessoas ali parecia maior do que em outros lugares do mundo.
Derek e ele acabaram ficando mais do que a “uma hora” planejada. E o que eles acharam a princípio que seria um problema, se revelou apenas curiosidade comum. Entre os sorrisos simpáticos e a conversa tranquila, eles se separaram um pouco e foram ao redor, aprendendo mais sobre os costumes locais e contando um pouco de sua história.
– Então, ele acusou você de assassinato? – uma mulher perguntava, chocada.
– Sim. – Derek respondeu, mas seu olhar foi carinhoso – Até eu me acusaria se estivesse no lugar dele. Ele só fez o que achava certo.
– E você não ficou com raiva?
– Fiquei possesso. Nós demoramos muito para acertar as coisas entre nós.
***
– E quando eu vi ele caindo na piscina, sem conseguir nadar, eu só me joguei lá, sabe?
– Gente, mas você é bem menor do que ele! – Ellen, uma das organizadoras do baile, exclamou.
– Acho que não pensei muito na hora. – ele deu de ombros – Só tinha que dar um jeito de tirar ele dali.
As três mulheres que o cercavam suspiraram.
***
– Como vocês... – Edgar, dono da farmácia, balançava a mão em gestos vagos – Como vocês chegaram onde estão?
– Depois de muita briga. – Derek respondeu, com um sorriso discreto – Stiles tem um humor muito sutil, eu sou meio esquentado. Colocar nossos temperamentos juntos não foi fácil. Mas, nós acabamos nos salvando tantas vezes que o resto basicamente só aconteceu.
Os homens ali perto balançaram a cabeça, concordando, e Derek sentiu-se tímido, apesar da facilidade que encontrava em conversar com aquelas pessoas.
***
– E seu pai? – Danna, uma professora da pré-escola, questionou.
– O que tem meu pai?
– Como ele reagiu quando soube que Derek ia vir com você?
– Oh, na verdade, a ideia foi dele. Quer dizer, a ideia foi de Derek. Ele que procurou meu pai e os dois combinaram tudo nas minhas costas. Foi uma surpresa descobrir, pouco antes de ir para o aeroporto, que Derek viria comigo. Meio que fez as coisas mais fáceis, sabe?
A professora sorriu e Stiles podia jurar que ela tinha um brilho quase invejoso no olhar.
***
– E o pai dele? – Nathan, que tinha voltado para se despedir do rapaz, acabou ficando preso na conversa.
– O xerife? – Derek franziu a sobrancelha, pensativo.
– Sim, o que ele acha disso tudo?
– Não foi fácil fazê-lo confiar em mim. Não sou o tipo de pessoa mais convencional para sair por aí. Mas Stiles também não é convencional e acho que hoje o pai dele apenas aprendeu a lidar com a situação.
– Vocês se dão bem, então?
– Nós aprendemos a conviver. Por causa de Stiles. Ele confia em mim, sabe que só quero ver seu filho feliz.
Nathan deu um tapinha em seu ombro, um sorriso quase orgulhoso em seus lábios e saiu da festa em seguida.
***
Quando eles finalmente saíram, quase no fim da festa, Stiles tinha no rosto uma expressão calma, uma espécie de quase paz que há meses Derek não via. Eles esperaram o táxi no portão do Country Club e o vento ali fazia o rapaz mais novo tremer um pouco e esfregar as mãos para se aquecer.
– Tome. – Derek disse, passando a Stiles a jaqueta que havia levado.
– Obrigado! – Stiles agradeceu e esticou os braços para que Derek deslizasse a peça de roupa sobre ele.
Ele apertou o couro macio contra o corpo sorrindo satisfeito e observou o táxi parar. Desta vez não era Walter e sim, Phill, o filho mais velho do taxista que gerenciava o posto de gasolina da cidade, mas cuidava das corridas da madrugada para o pai.
– Gostaram da festa? – o taxista perguntou, olhando para os dois pelo espelho retrovisor.
– Muito. Foi uma noite tranquila, perto do que estamos acostumados. – Stiles olhou para Derek quando respondeu.
O motorista arregalou os olhos, sentindo-se enrubescer, e voltou os olhos para a estrada.
– Cara, estou muito cansado... – Stiles suspirou e deitou a cabeça no ombro de Derek, que se mexeu no banco para aconchegar melhor o rapaz.
– Você, cansado?
– Sim. Acho que sou capaz de dormir antes de chegar em casa.
– Se você fizer isso, vai ficar no banco do carro.
– Mentira, se eu fizer isso, você vai ser um cavalheiro e me carregar pra dentro.
– Se eu te carregar para dentro, vou te largar em cima do sofá.
– Você não faria isso! – ele olhou chocado para Derek que se esforçava para segurar um sorriso.
– Faria. Não quero você dormindo comigo se estiver tão cansado assim.
O motorista engasgou.
– Qual o problema? Não é como se eu roncasse quando estou cansado.
– Não, você não ronca. Mas desenvolve um complexo de borboleta e faz um casulo em torno de si mesmo com todas as cobertas e me deixa sem nenhuma.
– Oh Sourwolf, isso aconteceu uma vez só. – Stiles olhava para o rosto de Derek que ainda fingia uma expressão irritada – Prometo que não roubo seus cobertores. Vou ter certeza que você vai ficar quentinho a noite inteira.
– Chegamos! – o motorista exclamou, como se tivesse pressa que eles descessem do carro.
Derek pagou a corrida e agradeceu, descendo do carro. Mas Stiles resolveu brincar com ele um pouco, e fez corpo mole para sair do veículo.
– Stiles, vamos. Deixa de enrolação. – ele se impacientou, querendo muito entrar em casa e se jogar na cama.
– Hummmm, não consigo me mexer. Muito cansado para andar. – ele resmungou.
– Você está falando sério?
– Muito sério. – a resposta veio baixa, mas Derek notou o sorriso que ele tentava conter.
Antes que Stiles pudesse falar nada, Derek apenas puxou o rapaz pelos braços para tirá-lo do carro e o jogou por cima do ombro esquerdo, batendo a porta do veículo.
– Hei! – Stiles protestou – Não era isso que eu tinha em mente!
– Ou era isso ou eu ia lhe arrastar pelas pernas. – Derek respondeu – E é bom se contentar, porque senão posso lhe dar umas palmadas.
Stiles gargalhou, primeiro com a resposta e depois com o olhar estranho que Justin lhes dirigia.
– Isso é muito kinky da sua parte, Sourwolf. Não se preocupe, Phill. Ele não é violento assim o tempo todo. Obrigado pela corrida.
O motorista entendeu a deixa e saiu com o carro, enquanto Derek fazia questão de balançar Stiles mais do que o suficiente, enquanto o rapaz ria cada vez mais alto e algumas luzes na vizinhança eram acesas.
O lobisomem destrancou a porta da casa e jogou Stiles para dentro.
– Quero ver você roubar meus cobertores agora que está bem acordado. – ele disse e passou pelo rapaz, para subir para o quarto.
– Você vai se arrepender de ter me tirado o sono. – Stiles ameaçou – Você sabe que depois que eu desperto, demoro muito para dormir de novo.
Ele fechou a porta da varanda e subiu para o quarto sem sequer dar notícia dos olhares atentos vindos atrás das janelas vizinhas.
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