Notas iniciais
É curtinho, mas é fofo...

O dia após a festa foi dedicado a arrumação do sótão. Stiles deixou Derek dormir até quase meio dia. Ele tem certeza que o lobisomem só acordou quando sentiu o cheiro de bacon, salsichas e panquecas com calda, apesar de Derek afirmar que já estava acordado há algum tempo.

Stiles fingiu acreditar, mesmo depois de ver Derek comer oito panquecas, quatro fatias de bacon, três salsichas, um copo de leite e uma maçã. Depois da refeição, ele arrastou o lobisomem para o sótão e os dois passaram a tarde inteira remexendo nas coisas do velho Jed.

– Esses porta-retratos são bem bonitos. – Derek comentou, passando um pano úmido sobre a moldura dourada para tirar a poeira.

– Sim, e tem, tipo, uns quarenta deles espalhados por aí. Sem contar os que estão lá embaixo.

– O que quer fazer com eles? Vai limpar e guardar de novo?

– Não sei... Acho que, por enquanto, vou só tirar as fotos e guardar junto com os álbuns.

Derek concordou e começou a separar as fotos numa pilha sobre a penteadeira que estava num canto do cômodo. Depois de separarem os porta-retratos numa caixa, foi a vez de mexer nos três baús que estavam encostados perto da pequena janela no fundo do sótão.

– Que horror! – Derek saiu de perto, colocando o braço sobre o rosto e protegendo o nariz – Isso cheira como meu tio Stan.

– O quê? – Stiles perguntou, querendo rir do que o lobisomem havia falado.

– Esse cheiro de coisa velha, guardada por muito tempo. Meu tio Stan tinha esse cheiro. Cora e eu odiávamos ter que visita-lo todas as férias, porque ele sempre dava uns abraços esmagadores e nós ficávamos com esse cheiro por semanas impregnado no nariz. Peter costumava falar que ele estava com as dobras mofadas.

Stiles não pode evitar o calor que sentiu dentro do peito ao ouvir Derek falar de sua família assim, de um jeito tão natural, tão livre de culpa e dor. E por isso mesmo preferiu não comentar nada, temendo estragar o momento.

As roupas nos baús estavam inutilizáveis. Muitas tinham sido comidas por traças ou apresentavam manchas amareladas no tecido. Stiles pegou um saco de lixo e jogou tudo fora, amarrando bem o plástico e colocando perto da escada.

– Pelo menos os baús são bons. – ele falou, dando batidas na madeira grossa – Terão alguma utilidade.

– Você pode usar um deles para guardar seus livros, quando se mudar para o dormitório da faculdade. – Derek sugeriu – Depois que dermos um jeito no cheiro que deve ter ficado aí.

Stiles riu e se levantou, batendo a poeira da roupa. Olhou ao redor, notando os móveis que ocupavam boa parte do lugar. Além da penteadeira de madeira escura e torneada, ainda tinha um grande espelho, um relógio de pêndulo, uma escrivaninha com puxadores de ferro, uma cama com colchão de mola, dois cabideiros e um pequeno armário. Era muita coisa, se contasse também tudo o que tinha espalhado pela casa.

– Olha o que encontrei. – Derek chamou, abrindo uma estante que ele ainda não tinha notado.

O móvel em questão continha vários livros e cadernos. Stiles se adiantou e pegou um dos cadernos que tinha a capa de tecido florido. Folheando as páginas, seu rosto se iluminou de tal forma que Derek se sentiu curioso.

– O que é isso?

– Um livro de receitas. – o rapaz falou, satisfeito – Um livro com as receitas da família da minha mãe. Ela sabia tudo de cor , quer dizer, pelo menos as receitas preferidas dela e do meu pai. Carne borscht, czarnina, kapusniak, panquecas de maçã e pierogi. Ela sempre dizia que um dia iria me ensinar, mas... – ele franziu os lábios e respirou fundo, correndo a ponta dos dedos sobre os escritos – Ela não teve tempo.

Derek se aproximou de Stiles, parando pouco atrás do rapaz e olhou para as linhas escritas com caligrafia delicada. Ele apontou para uma receita na página e comentou:

– Você podia começar com essa aqui.

– Começar? Do que está falando? – Stiles olhou para ele por cima do ombro.

– Começar a testar as receitas. Sua mãe ia lhe ensinar, não é? Esse caderno é, de alguma forma, uma parte dela também. Talvez testar as receitas seja um jeito de se conectar com ela.

Stiles não respondeu, mas sentiu o coração disparar. Sabia que Derek poderia ouvir o ruído forte e acelerado de sua pulsação, mas não conseguia evitar e tampouco se importava com isso. Vendo o lobisomem tão perto de si, a delicadeza com que ele foi capaz de lidar com os sentimentos de Stiles por sua mãe, ele pensou que não podia ter companhia melhor naquele momento.

– E então? – Derek falou novamente – Vai ou não vai fazer essa sier... serin... sernik?

– Você sabe o que é sernik?

– Não. Mas tem um monte de ingredientes.

Stiles riu, fechando o caderno de receitas e se virando para encarar o lobisomem.

– Sernik é um doce feito com requeijão e amêndoas. E além de ser mais complicado, duvido que aqui tenha todos os ingredientes.

– Ok, escolha outra coisa mais fácil. Vá la para baixo enquanto eu acabo com essa arrumação. Depois temos que ver onde conseguir plástico bolha para embalar os porta-retratos e cobertores para envolver os móveis quando você chamar o caminhão de mudança.

– Caminhão de mudança?

– Sim. Você vai precisar de um caminhão de mudanças para levar todas essas coisas quando formos embora.

– Ah... – Stiles olhou ao redor e coçou a nuca – Sobre isso. Eu estava pensando...

– Pensando em quê?

– Que eu não preciso dessas coisas. – ele apontou ao redor – Claro, o caderno de receitas é único. E as fotos. Poxa, tem cada foto do meu avô ali. Sem contar que eu vi duas fotos da minha mãe ainda criança. A TV e a geladeira vão servir lá em casa muito bem. Talvez a poltrona que a Arya gostou. Mas o resto, armário, cama, penteadeira... O que vou fazer com isso tudo? Inclusive as coisas de dentro da casa?

– Aposto que você já tem uma solução para isso. – Derek cruzou os braços, esperando que Stiles concluísse sua linha de raciocínio.

– Bom, sim. Achei que a gente podia organizar uma venda de garagem. O que acha?

– Venda de garagem?

– É, a gente monta mesinhas no jardim, espalha alguns desses móveis em frente a garagem e coloca os vasos, porta-retratos e outras peças de decoração a venda. Não sei quanto vale essas coisas, mas deve dar para arrecadar um bom dinheiro.

– É uma boa ideia.

– Sim, e depois a gente pega o dinheiro e leva para o asilo. Ellen me disse que além do telhado, eles precisam consertar o aquecedor antes do inverno chegar.

Foi a vez de Derek sentir-se aquecido, sua alma vibrando de carinho pelo rapaz que parecia tão maduro quando pensava nos outros e, ao mesmo tempo, tão infantil, inseguro, ingênuo quando tratava de si mesmo.

– Bom, é só uma ideia. Vou pra cozinha agora, fazer um tradicional bolo de chocolate polonês. – ele deu um tapinha na capa do livro e saiu, em direção a escada.

– Ela ficaria orgulhosa de você. – Derek se pegou falando antes que Stiles saísse do sótão – Não apenas pelas receitas, mas pelo resto.

Stiles lhe lançou um sorriso tímido e desceu os degraus de madeira, deixando Derek para trás, mais determinado a fazer uma arrumação descente no sótão se quisessem ter um lucro real para o asilo.