Um Lugar Chamado Lovelock
10 Capítulo 10
Stiles continuou testando as receitas do caderno, Derek continuou consertando o carro, os dois continuaram dormindo juntos. E quando iam para cama, cada um deitava virado para um lado, de costas um para o outro, mas quando acordavam, estavam abraçados. Algumas vezes da mesma forma com que acordaram após a lua cheia, outras com Stiles fazendo Derek de travesseiro ou ainda apenas a mão de Stiles sobre o peito de Derek, acima de seu coração, e os dedos do lobisomem entrelaçados com os dele.
Mas eles não falavam sobre isso. Suas conversas se limitavam aos assuntos domésticos, a lista de compras, a organização da feira de garagem, as estripulias de Arya, ao filme que iam assistir no Netflix.
Nem quando o carro ficou pronto e eles saíram para uma volta pela cidade, para testar o motor, houve mudança de assunto. Não era como se estivessem confortáveis com o silêncio entre eles quando os assuntos triviais acabavam. Pelo contrário, a falta de palavras pesava cada vez mais.
Derek agora não dispensa as corridas, saindo de casa por volta das quatro da tarde e voltando quase ao por do sol para levar Arya para um passeio. Uma rotina que já estava praticamente gravada no seu relógio biológico, tanto que ele não precisava olhar o tempo para saber a hora de voltar para casa. Ele sempre entrava pela porta da cozinha, bebia um copo de água, via o que Stiles estava fazendo para o jantar, pegava a coleira de Arya e saia de novo.
Mas naquele dia, no fim do primeiro mês em que estavam em Lovelock, alguma coisa estava diferente. Stiles não o cumprimentou e parecia focado demais em olhar para a pia vazia.
– Está tudo bem? – ele perguntou se aproximando e Stiles saltou a distância.
– Derek! Não ouvi você chegar. – ele esfregou as mãos no rosto e o lobisomem percebeu que seus olhos estavam vermelhos.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não, nada. Está tudo bem.
– Vai mentir assim, descaradamente? – o lobisomem cruzou os braços e parou na frente do rapaz que olhava para a porta, como se quisesse sair dali o quanto antes.
– Ok, não está tudo bem. Mas não é nada com o que você tenha que se preocupar. Amanhã vou estar melhor.
– Stiles, faça-me o favor! A gente divide uma casa. Mais que isso, a gente divide uma cama. Nós não conversamos muito esses dias, mas porra, você é minha âncora agora. E eu chego em casa, te encontro chorando e você acha mesmo que vou deixar isso passar?
– É aniversário do meu pai! – Stiles gritou, sentindo uma lágrima teimosa escorrer em seu rosto – É só isso. Aniversário do meu pai e fiquei chateado de estar longe dele. Uma sensação ruim de como vai ser daqui uns anos, porque já não tenho minha mãe e hoje eu percebi como vai ser uma merda quando não tiver mais ele por perto também! Desculpa, não dá pra ficar aqui...
O rapaz correu para o andar de cima e Derek ficou um tempo sem reação, até que os soluços de Stiles, vindos do banheiro, o fizeram sair de casa.
Stiles demorou a se acalmar. Se Derek não o tivesse pressionado a falar, ele iria, eventualmente, conseguir controlar sua tristeza. Mas ouvindo suas próprias palavras em voz alta, vendo as reações do lobisomem que já sabia há muito tempo como era viver sem pai ou mãe, ele simplesmente desmoronou.
Seu corpo começou a tremer e ele entrou no chuveiro quente, de roupa e tudo. Demorou um tempo até perceber o que tinha feito e se despiu, com alguma dificuldade, deixando o calor da água amolecer sua pele. Depois de seco e vestido, sentiu a cabeça doendo e desceu para a cozinha para beber um copo de água e uma aspirina. Derek podia pedir alguma coisa para comer depois, mas ele estava totalmente sem apetite.
Tomou o remédio e já ia para o quarto, quando viu a porta da frente se abrir e o lobisomem entrar, carregando uma pequena caixa de papelão branco.
– Traz seu notebook. – ele simplesmente ordenou.
– Hoje não, Der. Estou com a cabeça doendo e...
– Stiles, traz o notebook agora. É importante. – Derek insistiu.
O rapaz suspirou e foi até o andar de cima, voltando em seguida com o computador em mãos. Derek o pegou e apoiou sobre alguns livros que estavam sobre a mesa de centro. Ligou o aparelho, digitou a senha e conectou o modem. Em instantes a luz do Skype piscou e o barulho típico de chamada soou alto pela sala.
O lobisomem clicou em Atender com Vídeo e em instantes a imagem de Scott apareceu.
– Tudo certo aí? – o alfa perguntou.
– Tudo. – Derek respondeu – Conseguiu trazê-lo com você?
– Claro. Tenho uma arma de persuasão infalível.
– E qual é? – Derek franziu as sobrancelhas para o comentário, ao mesmo tempo em que analisava o rosto de Stiles que não parecia ter captado a essência da coisa.
– Minha mãe. – Scott respondeu e recebeu um tapa na nuca que Derek deduziu ser de Melissa.
– Bom, se está tudo pronto aí, aqui também está. – ele disse e abriu a caixa branca que continha um cupcake azul, decorado com confeitos em forma de estrela e uma pequena vela em cima – Segura aqui.
Ele colocou o cupcake na mão de Stiles e tirou um isqueiro do bolso da calça, acendendo a vela. A imagem do xerife apareceu na tela, com os olhos tampados pelas mãos de Parrish. E quando o oficial soltou o rosto do xerife, o sorriso que ele deu lavou toda tristeza do coração de Stiles.
Todos eles começaram a cantar Parabéns a Você e depois do último verso o xerife fingiu soprar a vela, os amigos aplaudindo e Stiles dividido em olhar para o pai e para Derek a seu lado. Ainda conversaram um pouco, Stiles ficando mais tranquilo ao ver que Melissa havia preparado um jantar para seu pai.
Derek pediu licença para o xerife e subiu para tomar um banho e colocar seu pijama. Quando voltou para a sala, Stiles já havia desligado a chamada e estava sentado no sofá, uma coberta sobre o colo e o prato com o cupcake diante de si.
– Não vai comer? – ele perguntou.
– Estava esperando você. – Stiles lhe deu um sorriso feliz, as bochechas coradas e os olhos mais brilhantes que o normal. Partiu o cupcake em dois usando os dedos mesmo e passou uma parte para Derek – O primeiro pedaço vai pra você, não só pelo que fez hoje, mas pelo que tem feito sempre.
Derek segurou o cupcake, mas seus olhos estavam presos aos do rapaz a sua frente. Ele não saberia dizer se foi o ritmo do coração de Stiles acelerando de repente, seu foram suas pupilas dilatando, tornando o âmbar de seus olhos mais escuro ou o modo como Stiles umedeceu os lábios com a ponta da língua que o impulsionou.
Num segundo ele estava olhando Stiles e no outro o mundo se tornou uma explosão de cores por trás de seus olhos fechados, quando seus lábios pressionaram os do rapaz e sua mão amassou o doce contra a camiseta cinza agora presa firmemente entre seus dedos.
Stiles sentiu todo o ar sair de seus pulmões com a surpresa do beijo, mas segurou Derek pela nuca e deixou-se ser beijado com toda a intensidade do momento. Impossível definir quem deu o primeiro passo, abrindo a boca para aprofundar o beijo, mas Derek deixou um soluço escapar quando sentiu Stiles tocar a ponta de seu canino com a língua.
O rapaz sorriu contra a boca do lobisomem e quando eles se separaram, precisando de ar, Derek piscou algumas vezes, olhando atordoado o rapaz a sua frente. A camisa suja de marshmallow, o peito arfando, os lábios vermelhos e inchados.
Antes que Stiles pudesse falar, ele fugiu. Sem pensar para onde ir, sem sequer se preocupar em bater a porta atrás de si, Derek correu. E quando Stiles conseguiu compreender o que estava acontecendo, correu atrás, parando na calçada sem saber o que tinha acontecido entre eles.
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