Um Lugar Chamado Lovelock
11 Final
Notas iniciais
Stiles ficou sentado na varanda até quase meia noite, esperando Derek voltar. Arya sentada ao seu lado esfregava o focinho em seu braço e gania, como se compartilhasse a sua angústia. Ele tentou o celular, mas era óbvio que ele não iria atender. Se ele quisesse falar com Stiles, não teria fugido daquele jeito.
– Algo errado, querido? – a voz de Carmela poucos metros a frente o fez saltar.
– Oh, não. – ele falou rápido demais.
– Problemas no paraíso? – ela sorriu, se aproximando e esticando uma caneca de chá quente para ele.
Stiles pegou a caneca, apreciando o calor em seus dedos e só então percebeu que estava com frio. Bebericou o chá e suspirou, balançando a cabeça, enquanto a velha vizinha mantinha a expressão carinhosa em seu rosto.
– Você devia entrar, Stiles. – ela aconselhou – Ficar aqui fora não vai fazer Derek voltar mais rápido. Você até pode pegar o carro e tentar encontra-lo em algum lugar da cidade, mas eu duvido que ele queira ser encontrado.
O rapaz devolveu a xícara quase vazia e agradeceu a preocupação. Pegou Arya e voltou para dentro, enrolando os dois na coberta que ele havia trazido do quarto mais cedo e adormeceu no sofá, esperando que quando amanhecesse, Derek estivesse de volta.
Seu pescoço doía quando ele acordou na manhã seguinte, o relógio marcando quase oito horas e Arya lambendo sua camisa, onde o doce havia sido amassado na noite anterior. Não ouviu barulho na casa e subiu para o quarto na esperança de que Derek tivesse retomado velhos hábitos e entrado pela janela.
Mas a cama continuava intacta e não havia sinal nem no banheiro e nem na cozinha que o lobisomem havia passado por ali. Ok, agora era hora de sair e procurar, ele decidiu. Mas não sabia por onde começar. Talvez a casa de Nathan, de quem Derek havia se tornado mais amigo.
Só quando saiu de casa, com a camisa trocada, é que se lembrou que Nathan morava do outro lado da cidade e que Derek havia fugido levando a chave do carro consigo.
– Mas que porra! – ele acabou gritando em frustração.
– Stiles? – Tamara chamou, por trás da cerca de arbustos que ela mostrava ao jardineiro onde podar – O que aconteceu, querido?
– Desculpe, Tamara. Problemas em família.
Ele esfregou as mãos pelo rosto, completamente irritado. Como iria achar Derek sem saber onde procurar e sem ter como sair?
– Vai atrás de Derek? – ela perguntou e Stiles arregalou os olhos, percebendo que toda a vizinhança já devia saber que seu pseudo-namorado havia saído de casa.
– Eu devia ir. – ele respondeu, sentindo-se derrotado – Mas aquele imbecil levou as chaves do carro e não tenho nem uma bicicleta para facilitar.
– Você pode usar a minha. – ela ofereceu, sinceridade e carinho em suas palavras.
E foi como Stiles acabou rodando a cidade com uma bicicleta rosa, com um cesto branco na frente e pequenas flores desenhadas por toda estrutura metálica, pedalando o mais rápido que suas pernas aguentavam, procurando os lugares em que ele pensava que Derek poderia estar.
Ele pedalou quase três horas, a cidade inteira ajudando, indicando direções em que diziam ter visto Derek passar, oferecendo água, e até mesmo uma carona puxada na caminhonete de Simon, o dono da floricultura.
Mas a cada tentativa frustrada, cada lugar em que Derek simplesmente não estava mais, Stiles sentia-se perder o ânimo. Agora tudo o que queria era voltar para casa, antes que as lágrimas que ele sentia arder seus olhos caíssem no caminho.
Assim que virou a esquina para casa, empurrando a bicicleta, notou o táxi de Walter parado em frente a seu jardim. Largou a bicicleta de qualquer jeito na calçada e correu para casa, dando de cara com Derek que saía pela varanda com duas malas nas mãos.
– O que você está fazendo? – ele perguntou, entrando no caminho de Derek.
– Indo pra casa. – Derek respondeu sem olhar para Stiles.
– O quê? Como você... Você vai me deixar aqui assim? Sozinho?
– Scott deve chegar amanhã. Falei com ele ontem a noite.
Ele desviou de Stiles jogando as malas no carro e já ia entrar no veículo quando sentiu a mão de Stiles segurando seu ombro. Só então ele se virou e encarou o rapaz, que tinha a expressão mais ferida que Derek já viu.
– Por quê? – foi tudo o que Stiles perguntou.
– Porque você merece mais do que alguém com a alma em pedaços como a minha. Porque não quero ficar com você só porque você se sente sozinho. Porque eu não sou o que você quer, Stiles. E depois que eu for embora, você vai perceber isso também.
Derek entrou no carro, batendo a porta e o táxi arrancou, deixando Stiles para trás, sem palavras.
O carro havia partido há uns cinco minutos, quando Stiles percebeu que havia se ajoelhado na grama e todos os vizinhos estavam olhando para ele, sem saber como agir.
– Querido? – uma voz familiar o fez olhar para cima, a luz do sol brilhando alto sobre os cabelos grisalhos de Carmela.
– Ele se foi. – Stiles murmurou, com medo de que se falasse mais alto a realidade doeria mais – Ele se foi, Carmela. E ele nem me ouviu... Ele disse... Ele disse que não é o que eu quero. Ele disse que não quer que eu fique com ele por estar sozinho, mas... Mas juro para você que trocaria o mundo pra ficar com ele.
– Você não tem que jurar pra mim, meu bem.
– Mas como vou falar isso pra ele? Não posso deixar a cidade ainda e...
– E nem ele! – Tamara veio, falando alto e puxando o rapaz de volta a seus pés – Ele não pode deixar a cidade pelos próximos trinta e cinco minutos que é o horário do ônibus para Carson.
Ele olhou para as duas senhoras a seu lado, os outros vizinhos com brilhos esperançosos no olhar e se agitou, dando passos incertos sem sair do lugar.
– Ok, eu vou... Mas não... Não consigo dar nem um passo mais. Como vou pedalar até o outro lado da cidade e chegar a tempo na rodoviária?
– Isso pede medidas drásticas. – Tamara lançou um olhar sugestivo para Carmela que apenas assentiu com a cabeça.
– Cuide dele enquanto pego as coisas.
Stiles viu sua mão sendo pressionada contra um copo de água que Orson havia trazido e ele bebeu sem pensar no que fazia. De repente um ronco alto, porém suave, chamou sua atenção e ele viu Carmela saindo da garagem de sua casa, com uma jaqueta de couro, um capacete e óculos de aviador, montada em nada menos que uma Harley Davidson FLT Tour Glide.
– Vamos lá, rapaz! Coloque esse capacete e suba aqui. Vamos atrás do seu Sourwolf!
– Você... Você tem uma moto?
– Rá, se você está chocado por ver minha moto, imagina a cara que vai fazer se lhe mostrar minhas tatuagens. – ela riu e Stiles subiu na moto, sentindo o coração descompassar com a montanha-russa emocional que vinha vivendo nas últimas horas.
Stiles não sentia o vento em sua pele e nem mesmo reparava nas casas passando rapidamente a seu lado. Estava focado nas palavras de Derek, no olhar ferido que ele tinha e no modo como seu próprio coração pareceu diminuir ao ver o lobisomem tão frágil. A vontade de protegê-lo do mundo, da dor, da solidão, caindo sobre sua alma de uma forma avassaladora.
Carmela estacionou a moto na entrada da rodoviária, na vaga destinada para idosos e Stiles desceu, tirando o capacete. Deu dois passos a frente e parecia que ia vacilar, mas a senhora tomou sua mão na dela e o guiou por todo o caminho até o setor de embarque.
Stiles viu o ônibus para Carson já com o motor ligado para aquecer antes de partir e, no fundo do veículo, Derek sentado, a cabeça encostada a janela e os olhos fechados. Ele nunca havia visto o lobisomem parecer tão derrotado antes.
– E se ele não me quiser? – ele perguntou para a mulher a seu lado – E se tudo o que ele falou foi um jeito educado de me dispensar?
– Você acredita mesmo nisso? Olhe para ele e me diga se aquela não é a expressão de quem perdeu um grande amor?
– Eu não sou... O grande amor da vida dele. Sou só mais...
– Stiles, olhe pra mim. – ela se colocou na frente dele, segurando seus ombros – Você não é só mais um. Você é alguém que ele confia o bastante para ter ao lado durante a lua cheia. Você é a sua âncora!
– O que você está...?
– Meu querido, eu me aposentei como emissária há mais de vinte anos. Mas ainda sei reconhecer um lobisomem quando ele se muda para a casa ao lado da minha. Preste atenção, Stiles, muita gente acredita que lobisomens têm almas gêmeas, companheiros destinados a ficarem com eles para sempre. Mas isso é lenda, ficção, romance adolescente. O amor é uma faísca, Stiles. Você tem que escolher agora o que quer fazer com a sua: deixar ela acesa, brilhando e aquecendo quem estiver por perto ou apagá-la e deixar restar apenas um galho seco, escuro, que não serve para mais nada. – ela sorria mansamente e Stiles pôde finalmente sentir a energia que fluía dela, afirmando sua condição de emissária – Agora deixa essa conversa para outra hora e vai atrás do seu lobo.
Stiles sorriu, sentindo-se esperançoso e correu para o ônibus. Subiu dois degraus, mas o cobrador que estava na porta o puxou pela camisa.
– Cadê sua passagem?
– Minha... Não, eu não tenho uma...
– Então não pode embarcar.
– Não quero embarcar, só quero...
– Chega de conversa fiada, rapaz. O ônibus já vai partir e se você não der o fora daqui vou chamar a polícia.
– Vai chamar o caramba, Leonel.
O cobrador arregalou os olhos vendo Carmela aparecer atrás de Stiles.
– Conheço você desde que usava fraldas e roubava as bonecas da sua irmã para brincar de casinha escondido. E se não quiser que eu conte outros dos seus segredos de quando adolescente, é bom dar licença pro rapaz aí. Você está atrapalhando uma história de amor!
A confusão na frente do ônibus chamou atenção de vários passageiros que começaram a se levantar para ver do que se tratava. Derek tirou os fones de ouvido, sentindo a agitação a seu redor e quando olhou para frente, Stiles estava parado no início do corredor, olhando diretamente para ele.
– Você disse que eu mereço uma pessoa melhor. – o rapaz começou a falar alto, mesmo sabendo que Derek poderia ouvir ainda que ele apenas sussurrasse – Mas você não me perguntou se eu quero uma pessoa melhor. Sei que você não é perfeito, Derek Hale. Mas os seus defeitos eu já conheço, sei como lidar com eles e, acredite, muitos deles já enxergo como qualidade.
Derek viu quando Stiles deu mais dois passos para dentro do ônibus.
– Você disse que não quer ficar comigo só porque eu me sinto sozinho. Mas durante todos esses dias, não me senti sozinho nenhuma vez. É claro que fiquei com saudade de casa, do meu pai, mas nunca ansiei pelo dia de ir embora daqui. Eu olho para aquela casa e penso nela como nossa. E quando vou pra cama, fico feliz que é você, de todas as pessoas do mundo, que me dá boa noite.
O lobisomem levantou, sem tirar os olhos do rapaz, sentindo o peso das palavras afundar dentro de si.
– Você disse, que não é o que eu quero, Derek. E você está certo. Você não é o que eu quero. Querer é tão... superficial. Eu quis a Lydia. E confesso que não sei o que eu faria se a tivesse. Você não é o que eu quero, você é o que eu preciso. E não me venha com essa história de que sua alma está quebrada, ok? Todo mundo tem um pedaço quebrado dentro de si. Só quero que você me dê a chance de tentar consertar o seu coração. De tampar os buracos que tem nele com o meu.
Stiles ficou em silêncio, finalmente, sentindo as mãos tremendo e o coração parecendo ser capaz de sair pela garganta, enquanto esperava uma resposta de Derek.
Resposta essa que veio em forma de beijo. Um beijo apaixonado, urgente, com as mãos de Derek segurando Stiles perto como se tivesse medo de tudo aquilo ser uma ilusão. Stiles riu, feliz, surpreso, aliviado, apaixonado e o som de sua risada fez Derek sorrir e pensar que aquele era o melhor som em todo o mundo, ignorando os passageiros que aplaudiam, assobiavam e gritavam.
– Ok, amor desimpedido. – Leonel chamou da porta do veículo – Agora, façam o favor de decidir: o moço aí fica em Lovelock ou o outro vai com ele para Carson?
Atravessando a rodoviária alguns minutos depois, Derek segurando as malas em uma mão e a mão de Stiles em outra, eles apenas se olhavam. Agora sem reservas, apenas deixando seus sentimentos a mostra.
– Finalmente! – Carmela veio abraçando os dois, beliscando suas bochechas e sorrindo – Vocês ficam tão lindos juntos! Minha irmã vai morrer de inveja quando eu ligar e contar a ela que conheci um lobisomem gay.
Derek engasgou, olhando para a vizinha com espanto.
– Ela vivia se gabando que tinha um conhecido uma vampira lésbica. Mas cá entre nós, isso foi no Woodstock. Todo mundo era lésbico naquele lugar. Isso é incrível! Não só conheci um lobisomem gay, como o ajudei a ficar com o amor da sua vida. Isso é mais emocionante do que quando fui emissária daquele bando no Texas. – ela falava sem parar e Stiles ria das expressões de Derek – Oh, espere. Tenho que ligar para a Tamara e pedir pra ela organizar uma excursão para Vegas na próxima lua cheia. Tenho certeza que posso convencer toda vizinhança a ir junto.
– Vegas? – Stiles perguntou, preocupado da vizinha estar querendo arranjar seu casamento com Derek.
– Sim, meu bem. Estamos com esses planos há meses. Agora parece ser uma boa oportunidade, afinal, vocês precisam de um pouco de privacidade na próxima lua cheia. Se na lua passada, que não tinha nada acontecendo, os barulhos na sua casa já foram muito sugestivos, na próxima não quero estar por perto para ouvir.
Stiles soltou uma gargalhada e Derek sentiu as pontas das orelhas aquecendo, a medida que ele corava.
– Acho que só Erin, a senhora Flatcher, não vai querer ir. Mas a Lucy, sobrinha dela, sempre pode entrar lá e esconder o aparelho auditivo. – ela subiu na moto, colocando o capacete e os óculos, antes de sorrir para os dois e completar – Sinto que vocês ainda vão uivar juntos em muitas luas cheias. Lembrem-se disso, meninos, amar é uma questão de escolha.
Carmela saiu com sua moto, fazendo um pequeno zig zag na pista antes de pegar velocidade e deixar os dois para trás, as malas na mão, como se tivessem chegado a Lovelock pela primeira vez.
***
O sol já ia alto quando Stiles acordou, bocejando alto e esfregando os olhos com uma das mãos para espantar o sono. O calor de Derek, debaixo de si era confortável e o mais novo se aconchegou ainda mais sob a coberta fina, abraçando a cintura do lobisomem com força.
– Bom dia! – ele murmurou.
– Bom dia! – Derek respondeu, abaixando o rosto para beijar-lhe a testa – Já fez sua escolha pra hoje?
– Já. Escolhi amar você mais um pouquinho. E você?
– Hum, acho que posso lidar com esse amor por mais um dia.
A risada de Stiles encheu o quarto e eles se levantaram para tomar o café da manhã. O quarto estava cheio de caixas de papelão, assim como o resto da casa, contendo os artigos da mudança que fariam em breve.
Na cozinha, apenas a cafeteira, a geladeira e o micro-ondas, além de duas canecas, dois pratos e alguns talheres não haviam sido embalados. Eles comeram em silêncio, olhando as paredes e a janela da cozinha enfeitada com a cortina colorida.
– Que horas o caminhão chega? – Stiles perguntou, indo até a pia lavar a pouca louça que sujaram.
– As dez. Mas ainda temos que embalar os porta-retratos da sala. Não confio nessa gente pra mexer nas nossas coisas.
Stiles balançou a cabeça concordando e logo foi se juntar a Derek na sala de estar, onde o lobisomem já tirava algumas das fotos das paredes e embrulhava com plástico bolha.
– Gosto dessa aqui. – Stiles apontou para o grande porta-retrato dourado sobre a lareira.
Era um foto dele e Derek, abraçados, encostados ao corvette. Derek de óculos escuros, regata branca e calça jeans e ele de bermuda xadrez de azul e verde, camiseta cinza e chinelo. Era tão íntima que Stiles não conseguia deixar de sorrir para a imagem.
– A minha preferida é essa aqui. – Derek balançou a foto que tinha em mãos.
– Claro que essa seria a sua preferida. – Stiles zombou – Você no meio de um monte de filhotes fofos.
– Vai dizer que você não passava horas só paparicando os primeiros filhotes da Arya e do Luke?
O mais novo se calou. Era verdade, ele não podia ter um minuto livre que ia rolar com os filhotes no quintal de casa. E apesar de Arya e Luke terem outras três crias depois daquela, era da primeira que Stiles sentia mais saudade.
Agora ali, embalando os pedaços de sua vida em forma de fotografias, ele pensava em tudo o que passaram para chegar até ali.
– Vai ser estranho, não vai? – ele perguntou a Derek – Abrir mão disso daqui. Vender a casa.
– Vai. – Derek concordou – Mas não é como se não pudéssemos ficar na casa da Carmela sempre que quisermos vir pra Lovelock. E ainda tem a casa da Tamara, do Nathan, da Elly...
– Se ficarmos em qualquer lugar que não seja a casa da Carmela ela envenena seu suco com wolfsbane. – Stiles brincou, colocando as mãos nos bolsos da blusa de moletom antes de encarar as fotos nas paredes.
Retratos dos últimos oito anos, desde que chegaram naquela cidade pela primeira vez. Um recorte do jornal local com a notícia sobre a venda de garagem que arrecadou fundos para a troca dos aquecedores do asilo, com uma foto dele e Derek no jardim de casa. Fotos de Stiles na faculdade, onde se formou em Criminalística e Inglês, se tornando há pouco tempo um escritor de romances policiais/sobrenaturais em crescente reconhecimento.
Ainda algumas fotos de seus amigos e familiares, do ano que todos foram passar o Natal e ano novo na cidade pequena de Nevada. Fotos de Arya e de Luke, o cachorro que foi presente de Carmela quando deixaram a cidade pela primeira vez. Carmela havia argumentado que não era bom pra Arya ser filha única e arrumou um irmão para ela. Tudo bem que Luke e Arya decidiram que seriam mais que irmãos e logo a primeira ninhada veio com cinco filhotes fofos.
Depois da venda do corvette, por cerca de 320 mil dólares, Stiles não teve coragem de vender a casa onde sua história com Derek começou. O lugar ficou como uma espécie de refúgio para os dois, onde passavam parte das férias, revendo os amigos. A casa em Lovelock era o símbolo da escolha que eles fizeram na rodoviária da cidadezinha há oito anos.
Uma escolha que eles repetiam dia após dia quando acordavam, escolhendo manter o amor entre eles. Um amor que em breve seria oficializado. Dentro de dois meses, Derek e Stiles iriam se casar e a casa em Lovelock só foi vendida para que eles usassem o dinheiro na nova casa que compraram em Beacon Hills.
Eles quase se casaram em Nevada mesmo, para que Carmela pudesse estar presente, já que a velha emissária tinha quebrado o osso ilíaco e não poderia viajar para a cerimônia. Mas ela disse que não precisavam mudar seus planos por conta dela, mas que fazia questão de vê-los antes do casamento.
Passaram as últimas duas semanas com a senhora, Stiles na cozinha fazendo todos os quitutes que ela apreciava e Derek contando detalhes de suas aventuras lupinas, além das estripulias de todos os cinco cachorros que agora eles tinham em casa.
Mas eles tinham que terminar de empacotar suas coisas. Os compradores da casa chegariam após o almoço, para pegar as chaves com eles e queriam estar com tudo pronto para partir no fim da tarde.
Acabaram de embalar as fotos, os utensílios da cozinha e saíram para caminhar pelo bairro, enquanto não dava a hora do caminhão de mudança chegar. Alguns vizinhos lhes deram presentes de casamento adiantado, outros pararam para desejar boa sorte e mais alguns, como a senhora Flatcher, ficou olhando os dois com os olhos marejados enquanto segurava suas mãos sem dizer uma palavra.
Depois que o caminhão de mudança saiu, deixando a casa vazia, Stiles e Derek foram almoçar com a família de Nathan e por volta das três da tarde retornaram para casa, levando um pote de sorvete para Carmela e uma lata de cookies para Tamara e Orson.
As duas vizinhas foram para o jardim com eles aguardar os novos moradores, e mesmo sentada em sua cadeira de rodas, Carmela parecia agitada.
– Vocês ainda não contaram quem comprou a casa. – ela protestava – E se for uma família chata? Uma velha rabugenta que pensa que depois dos 50 tudo o que a gente tem que fazer é jogar bingo e rezar o terço?
– Carmela, tenho certeza que se fosse uma velha desse tipo, vocês davam um jeito de levar ela pra Vegas, pagar um Go Go Boy pra fazer uma lap dance e ela logo se encaixaria no ritmo de vida de vocês. – Stiles brincou.
– Mas é sério, meninos. – Tamara torcia as mãos – Também estou preocupada com isso.
– As duas não têm com o que se preocupar. – Derek respondeu, abraçado a Stiles – Olha lá, o carro deles chegando.
Elas observaram no fim da rua um Peugeout vermelho se aproximar e estacionar na frente da casa. O motorista desceu, tirando os óculos escuros e balançando o cabelo castanho, comprido até os ombros.
O homem sorriu para todos e se virou esperando que outra pessoa descesse do veículo.
– Ian? – a voz de Tamara soou numa mistura de incredulidade e alegria.
– Meninas, conheçam os Macken. – Derek sorriu vendo o olhar surpreso no rosto das duas senhoras a seu lado.
O homem que estava na direção se aproximou, estendendo a mão para cumprimentar as novas vizinhas.
– Olá! Sou Cony Macken, seu novo vizinho. – ele tinha um sorriso simpático – Acho que vocês conhecem o meu marido, Ian?
Cony olhou para o carro, onde Ian estava tirando do banco de trás um grande husky siberiano. Ele atrelou a coleira ao animal e foi com ele para perto do marido.
– Espero que a Tamara não se importe em nos ter como vizinhos. – ele sorriu, dando um abraço na mulher, mãe de um de seus melhores amigos.
– Nem Brian e nem Justin me contaram qualquer coisa. – ela ainda parecia em choque.
– Eles estão com muita coisa na cabeça, com essa história de adoção. Brian me disse que Justin até hoje não consegue trocar uma fralda da Adele sozinho. – Ian comentou – E de toda forma, achei que seria legal fazer uma surpresa!
– O que vieram fazer aqui? – Carmela perguntou, tentando entender o que dois jovens tão bonitos queriam com uma cidade tão pequena.
– Ian sempre gostou de vir aqui com os rapazes. – Cony começou a explicar – E nós queríamos uma mudança no ritmo de vida. Quando vimos na Internet a casa para vender, o anúncio especial, acabamos concordando que era um bom lugar.
– Pedi transferência da unidade e vou trabalhar no Corpo de Bombeiros daqui, e o Cony vai montar um restaurante ao lado da prefeitura. – Ian informou, coçando a orelha do cão, sentado educadamente a seus pés.
– Espera. – Carmela franziu a testa – Anúncio especial?
– Sim, o anúncio de venda da casa. – Ian respondeu.
– Nossa corretora nos mandou o link com as fotos da casa, da vizinhança e o anúncio dizia que era o lugar perfeito para qualquer casal gay, com um cachorro, que quisesse de fato formar uma família. – Cony sorriu – Nós somos um casal, somos gays, temos o Thor – ele apontou para o cão – e queremos muito ser uma família.
– Vocês já são. – Tamara respondeu, com um sorriso imenso – Vocês já são, meninos. Agora só precisam se fazer em casa e vir jantar. Oh céus, Orson! – ela gritou para o marido que estava na varanda, lendo seu jornal – Tire as costelas do freezer. Você come costelas, né, Cony? Que pergunta idiota, você tem sobrenome irlandês, é óbvio que come costela!
– Stiles, querido, pode me empurrar até a cozinha? Se a Tamara vai fazer costelas, tenho que preparar uma torta de maçã pra sobremesa. Com licença, meninos. Se vocês forem felizes a metade do que os antigos donos da casa são, vai ser felicidade para umas três vidas pelo menos.
Stiles fez o que Carmela pediu e voltou para se despedir de Ian e Cony. Derek já havia entregado as chaves e quando os dois entraram na residência e fecharam a porta, Stiles soltou um suspiro.
– Vida nova, não é? – ele perguntou para Derek – Para eles e para nós dois.
– Sim, para ele e para nós sete, você quer dizer, não é? Porque se Arya, Luke, Sam, Dean e Castiel souberem que você não os incluiu nessa nova vida, tenho minhas suspeitas de que eles serão capaz de comer toda a sua coleção de HQ.
O mais novo riu, pensando em sua grande família que os esperava na Califórnia. Entrou no carro, deu um último olhar para a casa que fez tudo isso ser possível e sorriu, já saudoso de tudo que viveu ali e ansioso por tudo o que viveria dali em diante.
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