Um Homem de Sorte - Hyunbin
2 O Eco do Trovão
As nuvens carregadas e escuras cobriram o céu de Gyeongju logo após o almoço, transformando o dia ensolarado em um crepúsculo cinzento e abafado. Seo Changbin conhecia bem aquele cheiro de chuva iminente; no entanto, em seu corpo, a mudança de pressão na atmosfera trazia um aviso incômodo, como se o perigo estivesse prestes a saltar de uma trincheira.
Changkyun e S/N haviam ido embora mais cedo com o pequeno Jooheon para evitar a estrada de terra na tempestade, deixando o casarão em um silêncio denso. Changbin apressou-se em recolher as ferramentas externas e trancar os cães nas baias cobertas do canil, garantindo que os animais ficassem protegidos.
Quando o primeiro relâmpago cortou o céu, iluminando o interior do celeiro por um milésimo de segundo, o estrondo que veio logo em seguida foi avassalador. O trovão ecoou pelas montanhas como uma violenta explosão de morteiro de 81mm.
O mundo de Changbin desabou instantaneamente.
A realidade ao seu redor desapareceu. Ele não estava mais em Green Valley; estava de volta àquela maldita noite na costa leste. O som da chuva contra o teto de zinco transformou-se no ricochetear de estilhaços e tiros de metralhadora. Suas pernas fraquejaram, e ele se jogou contra a parede de madeira do celeiro, encolhendo-se no chão. Seus olhos arregalaram-se na escuridão, as mãos tremiam de forma descontrolada e o ar simplesmente sumiu de seus pulmões. Ele pressionou os braços contra a cabeça, esperando o impacto de uma nova bomba que, em sua mente, era certa.
- Changbin! — Uma voz distante tentava romper o caos.
Hwang Hyunjin entrou correndo no celeiro, com as roupas molhadas pela chuva que começava a cair torrencialmente. Ele procurava pelo funcionário e, ao encontrá-lo encolhido no canto, trêmulo e pálido, seu coração apertou. Hyunjin não teve medo. Ele se moveu devagar, ajoelhou-se na terra úmida bem em frente a Changbin e estendeu as mãos, sem tocá-lo abruptamente.
- Changbin, olhe para mim. Sou eu, o Hyunjin — chamou com uma doçura firme, mantendo o tom de voz calmo para não assustá-lo.
Ao ouvir o nome, Changbin piscou, a visão turva de suor e pânico focando na silhueta à sua frente. Hyunjin, com extrema delicadeza, aproximou-se e segurou as mãos frias e trêmulas de Changbin, trazendo-as contra o próprio peito, exatamente onde seu coração batia de forma ritmada.
- Sinta meu coração, Changbin. Foca no meu peito subindo e descendo. Respira comigo. Puxa o ar... e solta — instruiu Hyunjin, sem soltar suas mãos por um segundo sequer. — Você está seguro aqui. A guerra acabou. Isso é apenas a chuva de Green Valley. Nada vai te machucar. Eu estou aqui com você.
O calor que emanava do corpo de Hyunjin e o compasso firme de seus batimentos cardíacos começaram a agir como uma âncora na mente do ex-fuzileiro. Lentamente, o cheiro de pólvora imaginário deu lugar ao perfume de baunilha e tinta acrílica que Hyunjin sempre carregava. A respiração de Changbin foi voltando ao normal, embora seu corpo ainda estivesse exausto pelo pico de adrenalina.
- Desculpe... — Changbin sussurrou, a voz terrivelmente rouca, tentando puxar as mãos de volta por pura vergonha. — Eu... eu quebrei. Você não deveria ter que ver isso.
- Ei, não faça isso — pediu Hyunjin, impedindo-o de se afastar. Com cuidado, ele deslizou uma das mãos até o rosto de Changbin, acariciando o maxilar firme com o polegar. — Você não quebrou. Você passou por coisas terríveis e seu corpo lembra disso, mas você está aqui agora. Eu quero estar com você, Changbin. Nas tardes de sol e nas tempestades também. Não tenha vergonha de mim.
Changbin olhou nos olhos castanhos de Hyunjin e encontrou uma imensidão de afeto e compreensão, sem qualquer rastro de julgamento ou pena. O interesse e a admiração que ele vinha cultivando em segredo pelo artista transformaram-se, naquele exato momento, em algo definitivo. Ele não queria apenas o amuleto; ele queria o homem por trás dele.
Cedendo ao calor do momento e à necessidade mútua de proximidade, Changbin inclinou-se para frente. O espaço entre eles sumiu. Suas bocas se encontraram em um beijo calmo, profundo e repleto de entrega. Não havia pressa. As mãos de Changbin, agora firmes, subiram para a cintura de Hyunjin, puxando-o para mais perto, enquanto Hyunjin enlaçava o pescoço do mais velho, transmitindo-lhe toda a segurança que o mundo civilizado havia lhe roubado.
Quando o beijo terminou, eles permaneceram com as testas coladas, ouvindo o barulho da chuva que agora parecia apenas música de fundo.
- Obrigado por me trazer de volta — Changbin sussurrou, com um meio sorriso genuíno surgindo em seus lábios pela primeira vez em muito tempo.
- Sempre que você precisar, eu vou estar aqui para te buscar — Hyunjin respondeu, sorrindo de volta e selando seus lábios mais uma vez em um selinho demorado.
A tempestade continuava do lado fora, mas ali dentro, a cura de Seo Changbin havia finalmente começado.
\\**//
O sol da manhã seguinte entrou pelas grandes janelas de vidro do ateliê, cortando o ambiente com feixes de luz dourada cheios de poeira dançante. Havia uma atmosfera completamente nova pairando entre os dois após o beijo no celeiro. A barreira que separava o isolamento de Changbin do mundo de Hyunjin havia começado a cair, mas ambos se moviam com passos calmos, saboreando a nova dinâmica de forma lenta e gradual.
Changbin entrou no cômodo carregando duas canecas de café fresco. Ele já não usava a jaqueta militar pesada; vestia apenas uma camiseta de algodão escura que deixava seus braços fortes à mostra. Ele caminhou até Hyunjin, que estava de pé diante de uma tela em branco, segurando uma paleta de cores.
- Seu café — Changbin disse suavemente, estendendo a caneca.
- Obrigado, meu protetor — Hyunjin respondeu com um sorriso radiante.
Em vez de pegar a caneca imediatamente, Hyunjin deu um passo para o lado e tocou de leve os dedos sujos de tinta na ponta do nariz de Changbin, deixando uma pequena marca azul. Changbin soltou uma risada baixa, uma risada que ele raramente dava antes, mas que agora surgia com facilidade.
- Você está me usando como tela? — Changbin brincou.
- Estou apenas marcando o que é meu — Hyunjin rebateu com um olhar terno, pegando a caneca. Ele indicou a cadeira no centro do ateliê. — Sente-se ali. Quero testar a iluminação da manhã em você.
Changbin obedeceu. Hyunjin posicionou-se atrás do cavalete. Seus olhos focavam nos detalhes de Changbin com uma intensidade artística e romântica: a linha forte do maxilar, os ombros largos que agora pareciam carregar paz, e não tensão.
- Você se mexe muito pouco. É um ótimo modelo — elogiou Hyunjin, fazendo os primeiros traços.
- Olhar para você trabalhando torna o trabalho de ficar parado muito mais fácil — Changbin comentou, mantendo o olhar fixo em Hyunjin.
Hyunjin sorriu, caminhou até Changbin de forma mansa e parou bem na frente dele. Com a mão limpa, segurou o rosto de Changbin, inclinando-se para dar um selinho demorado, calmo e carregado de carinho. Eles sabiam que os traumas não sumiriam da noite para o dia, mas ali, naquele silêncio, decidiram dar um passo de cada vez.
Fale com o autor