Um Homem de Sorte - Hyunbin
3 O Amuleto Destrancado
Seis meses se passaram
O outono havia chegado a Gyeongju, pintando as folhas das árvores de tons avermelhados e dourados. Ao longo daqueles meses, o amor entre Changbin e Hyunjin floresceu de maneira sólida e profunda. Os pesadelos de Changbin haviam se tornado raros, e ele já se sentia completamente parte daquela pequena comunidade, sendo frequentemente visitado por Changkyun, S/N e o pequeno Jooheon, que adorava brincar com o ex-militar no jardim.
Changbin e Hyunjin agora dividiam a vida e a rotina do casarão como um casal estabelecido, mas havia um último segredo que Changbin ainda guardava por timidez e receio: a verdadeira razão de ter ido parar em Green Valley.
Em uma tarde fria, os dois decidiram fazer uma limpeza profunda no estoque do ateliê. Eles carregavam algumas telas antigas e caixas de madeira pesadas para liberar espaço para as novas produções de Hyunjin.
- Essa caixa vai na prateleira de cima, Changbin? — Hyunjin perguntou, equilibrando alguns estojos de pincéis antigos.
- Deixe que eu levo, é muito pesada — Changbin respondeu, aproximando-se com cuidado para pegar a caixa.
Ao esticar o braço para alcançar a prateleira mais alta, a jaqueta militar gasta de Changbin — que ele ainda usava para os trabalhos mais pesados — inclinou-se. O movimento brusco fez com que o pequeno pedaço de papel fotográfico guardado em seu bolso interno deslizasse, flutuando levemente pelo ar até cair no chão, virado para cima, exatamente entre os pés de Hyunjin.
O Hwang olhou para baixo, curioso. Ele se abaixou e pegou o papel fotográfico antigo, um pouco amassado e gasto nas bordas. Quando virou a imagem para si, seus olhos se arregalaram. Sua respiração falhou por um segundo inteiro.
Era ele mesmo na foto. Ele, anos atrás, de cabelos longos, sorrindo espontaneamente enquanto pintava uma tela no jardim.
- Onde você... onde você conseguiu isso, Changbin? — Hyunjin perguntou, a voz subitamente baixa e trêmula. Ele virou o verso da foto e viu sua própria letra antiga escrita a lápis: "Ateliê Hwang — Gyeongju". — Essa foto... era do meu irmão mais velho. Ele a levou quando se alistou no exército... e ele faleceu em combate na costa leste há três anos. Eu achei que essa imagem tinha se perdido nos pertences dele para sempre.
Changbin sentiu o sangue congelar nas veias. O peito apertou com o medo súbito da reação de Hyunjin. Ele engoliu em seco, olhando para os olhos marejados do namorado.
- Eu a encontrei no chão de um abrigo destruído, Hyunjin. No meio do caos e dos destroços, logo após um bombardeio terrível onde perdi quase toda a minha unidade — confessou Changbin, a voz embargada pela honestidade pura. — Eu não conheci seu irmão, a foto já estava abandonada na lama.
Mas as coisas eram tão horríveis lá... a morte estava por toda parte. Sempre que o desespero batia e eu pensava em desistir, eu olhava para o seu sorriso nessa foto. Sentia que precisava sobreviver para voltar a um mundo onde existisse alguém assim. Você foi o meu amuleto da sorte durante toda a guerra.
Hyunjin ouvia cada palavra, estático, as lágrimas finalmente transbordando e correndo por suas bochechas.
- Eu vim até Green Valley seis meses atrás apenas para tentar encontrar o dono do ateliê e agradecer por ter me mantido vivo sem saber — continuou Changbin, dando um passo lento em direção a ele, com as mãos abertas. — Mas quando eu te conheci... eu acabei me apaixonando perdidamente por quem você é de verdade, não apenas pela imagem de papel. Eu tive medo de te contar antes e você achar que eu era um louco.
Hyunjin olhou da foto para o homem à sua frente. O destino havia transformado uma lembrança de luto e dor em uma rota invisível de salvação, guiando Changbin diretamente para os seus braços. Dando um passo à frente, Hyunjin segurou as mãos calejadas de Changbin e sorriu em meio às lágrimas.
- Eu passei anos chorando a perda do meu irmão e achando que a guerra só trazia destruição e vazio — disse Hyunjin, com a voz trêmula de emoção. — Mas ela trouxe você para mim. Meu irmão protegeu essa foto para que ela salvasse a sua vida na guerra, e para que você pudesse salvar a minha da solidão aqui em Gyeongju. Você não precisa mais de um amuleto de papel para te proteger do passado, Changbin. Agora você tem a mim. Para sempre.
Changbin sentiu o maior peso de sua vida sair de seus ombros. Ele aproximou-se lentamente e envolveu Hyunjin em um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço do pintor. Ele finalmente estava em casa, sabendo que sua maior sorte não fora encontrar uma foto na guerra, mas sim o amor real e eterno que o esperava no final dela.
Quebra tempo
A luz do fim de tarde invadia o ateliê, pintando as paredes de um tom dourado e acolhedor. Sobre a mesa de madeira central, uma pequena moldura de madeira escura com detalhes em prata envelhecida esperava para ser selada. Dentro dela, limpa e cuidadosamente esticada, estava a fotografia analógica que cruzara um oceano e sobrevivera a uma guerra.
Changbin segurava o vidro com cuidado, os dedos firmes agora movendo-se sem qualquer pressa. Ele olhou para Hyunjin, que trazia um pequeno martelo de tapeceiro e dois pregos no bolso do avental.
- Tem certeza de que quer deixar a foto aqui, à vista de todos? — Changbin perguntou, a voz mansa, buscando os olhos do namorado. — Ela passou anos escondida no meu bolso. Parece estranho vê-la exposta assim.
Hyunjin sorriu, aproximando-se e colocando uma das mãos sobre o ombro de Changbin. O toque era quente, familiar e seguro.
- Ela não precisa mais ficar escondida, Changbin. Ela cumpriu o papel de te proteger no escuro
- Hyunjin explicou, pegando a moldura pronta e avaliando o resultado. — Agora, ela merece ficar na luz. É o nosso lembrete diário de que, mesmo no meio do pior cenário, o destino dá um jeito de guiar a gente para o lugar certo.
Changbin assentiu, sentindo o peito leve. Ele pegou o martelo da mão de Hyunjin e, com dois golpes precisos, fixou o prego na parede principal do ateliê, bem ao lado da grande janela por onde viam o canil e os campos de Green Valley. Hyunjin encaixou o quadro no lugar e deu um passo para trás, entrelaçando seus dedos aos de Changbin.
Ali estava: o sorriso jovem de Hyunjin capturado no papel, agora dividindo espaço com as novas telas repletas de cores vivas e traços que representavam a nova vida deles.
Changbin puxou Hyunjin para perto, colando seus ombros. Ele olhou de relance para a cicatriz em sua própria mão e depois para o rosto sereno do homem ao seu lado. A guerra havia ficado para trás, os fantasmas finalmente haviam silenciado e o amuleto de papel agora cedia espaço para o amor real, fincado na parede da casa que construíram juntos.
FIM!
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