Um Gibb em Hogwarts
2 Vento da Mudança
Notas iniciais
Meus primeiros anos em Hogwarts, apesar de muito bons em muitos aspectos, não poderiam ser exatamente motivo de orgulho pra mim. Eu era apenas mais um dos tantos alunos daquela escola, sem nenhum tipo de atrativo físico ou intelectual. Claro que eu era um bom estudante, dominava bem a maioria dos feitiços e preparava bem diversas poções, mas nada muito acima da média. A única coisa de que podia me orgulhar era ter entrado no mesmo ano que o célebre Harry Potter, e ainda ter sido selecionado para a mesma casa que ele. Mas parava por aí. Se em algum raro momento conversávamos, era quase sempre coisas referentes às matérias ou aos jogos de Quadribol, mas nada que me permitisse participar de alguma de suas aventuras. E tudo o que se refere a Potter pode ser dito sobre Ronald Weasley e Hermione Granger, embora eu tivesse comparativamente mais contato com estes. O que me destacava um pouco além dos outros era o fato de ser o primeiro aluno da história de Hogwarts a vir da América Latina. Sinceramente, não é um grande destaque em uma escola tão variada, mas ainda era algo a que eu podia me apegar.
Minha história até esses dias é muito simples, como sabem. Meus pais, Vincent Everly Gibb (claro que tio Barry ainda se lembra do irmão caçula) e Violet Lowerback Gibb, são aurores ingleses que moram em Porto Alegre, no Brasil, onde nasci. Se mudaram pra lá um ano antes da Primeira Guerra Mágica, em 1979, e logo foram chamados para caçar Comensais da Morte (seguidores das artes das trevas) desertores que suspeitavam haver fugido para a América do Sul depois de 1980. Obviamente, meu pai se dedicou mais a isso do que minha mãe, que precisou cuidar de mim. Apesar disso, sempre tivemos uma vida tranquila tanto na cidade trouxa quanto na comunidade bruxa. Quanto a Hogwarts, sendo meu pai um lufa-lufa e minha mãe uma corvinal, era esperado que eu fosse selecionado para uma dessas casas, mas o Chapéu Seletor, quando enfiado na minha cabeça, levou três segundos para gritar “GRIFNÓRIA”. E lá eu estive durante sete anos. É de se perguntar por que eu fui pra Hogwarts, na Inglaterra, e não pra CasteloBruxo, na Amazônia brasileira, principalmente se levarmos em conta que Hogwarts só recebe alunos da Grã-Bretanha e da Irlanda. Provavelmente é porque sou filho de britânicos e meus pais pertenciam a Hogwarts, mas eu nunca soube ao certo.
Apesar de ser bem eloquente com adultos, sempre tive uma timidez aparente ao me relacionar com gente da minha idade, isso fez com que eu quase não conseguisse falar com muitos colegas grifnórios. Em sete anos eu era mais amigo dos professores do que dos alunos. Não vou negar, já houve várias vezes em que eu aproveitava os horários de folga pra ajudar Hagrid, o guarda-caça, nos jardins, o professor Flitwick, que lecionava Feitiços, com os livros da matéria ou a professora Trelawney, de Adivinhação, na Torre de Astronomia. Acompanhava os acontecimentos mais importantes de longe. Por um lado, perdia toda a adrenalina e a tensão pelos quais o sangue adolescente ferve, mas por outro eu tinha mais garantia de voltar inteiro pra casa. Isso tudo contribuiu para que eu me tornasse um aluno invisível, quase um fantasma. Evitara até o baile de inverno do meu quarto ano.
Mas em 1996, depois do triste assassinato do diretor Dumbledore, alguma coisa me dizia que não haveriam mais chances de ficar inerte. O mundo bruxo estava dividido entre pessoas que lutavam contra o grande bruxo das trevas, Lord Voldemort, e seus aliados, que matavam e morriam por ele (mais matavam do que morriam, só pra constar). Meus pais, obviamente, estavam no primeiro grupo, mas depois da morte de Dumbledore, grande amigo deles, começaram a se perguntar se era uma boa ideia deixar eu voltar pra Hogwarts naquele fatídico ano de 1997. Depois decidiram que, já que era meu último ano na escola, deveriam confiar na segurança de lá e me deixar ir. Eu gostava de Hogwarts, mas não havia quase nada que me prendesse lá.
Bom, peço desculpas por estender demais essa introdução, mas, como dito, era necessário para que os acontecimentos não perdessem o seu nexo. Além disso, como eu disse, era preciso que eu desse a minha visão dos fatos, da forma como eu os vi e vivi. Quando voltamos às aulas naquele ano, já se podia perceber o ambiente pesado e sombrio em volta daquele castelo. Ainda dentro do trem, enquanto punha a capa por cima do terno, olhei pela janela uma densa nuvem que encobria as torres mais altas. Senti uma coceirinha na base da nuca, irritante, que eu sempre tinha quando estava muito nervoso. Peguei minha varinha, fiel companheira de tantos anos, e comentei com ela:
—Sinto que vou precisar de ti mais do que nunca, nesses próximos meses.
A ponta dela brilhou por uns segundos. É fascinante a relação de um bruxo com sua varinha. “A varinha escolhe o bruxo”, costumava ouvir. Guardei-a nos bolsos das vestes e me preparei pra deixar a cabine onde estava. Vários grifnórios se espremiam no corredor a fim de descer do trem. Algo, porém, soava diferente. Ouvi diversas vozes de comando misturadas com vozes de protesto e surpresa. Quando finalmente desci, fui empurrado pra frente e quase derrubado. Foi então que vi o que estava acontecendo: diversos bruxos de cara amarrada – que percebi logo serem Comensais da Morte – estavam separando os alunos de acordo com o ano escolar, em formações militares. Havia grupos de 16 e 16, que iam sendo empurrados pelo caminho. Os alunos do primeiro ano iam à frente, em vez de irem de barco pelo lago, como todos os anos. Fiquei alguns minutos olhando, horrorizado, mas sem me mexer.
Marchamos como um pelotão. Meus ombros pareciam pesar tanto quanto a cabeça. Em uma hora, estávamos dentro do castelo. Ninguém se atrevia a dizer uma palavra sequer. Todos estavam com medo do que poderia acontecer. Quando chegamos ao Salão Principal, a primeira pessoa que eu observei foi a professora Minerva McGonagall, vice-diretora de Hogwarts. Nunca a tinha visto tão tensa como naquela hora. Estava com uma aparência abatida e visivelmente tão assustada quanto os alunos. Ao lado dela, o Chapéu Seletor em cima do banquinho, como sempre acontecia nas cerimônias de abertura do ano letivo. Mas eu sabia que aquilo estava diferente. Atrás deles, com um ar arrogante que chegou a me dar mais nojo ainda somado ao que eu já sentia por ele, o antigo professor de poções Severo Snape aguardava atrás do antigo púlpito de Dumbledore até que todos estivessem sentados e os primeiro-anistas no meio do corredor, entre as mesas da Corvinal e da Lufa-Lufa. Os que estavam em Hogwarts no ano anterior sabiam que Snape era o assassino de Dumbledore, lançando o feitiço da morte nele no alto da Torre de Astronomia. O homem que traiu a confiança de um dos maiores mestres que aquele lugar já conhecera. E também um Comensal da Morte, como logo descobrimos. Desde que ficou claro o retorno de Voldemort e o golpe ao Ministério da Magia, já imaginávamos que os bruxos das trevas tentariam tomar o controle da escola. Sentei com os outros grifnórios sem disfarçar o receio misturado ao repúdio. Um homem como Snape não poderia virar diretor, não depois de tudo o que aconteceu. Mas, percebi logo, não poderia dizer aquilo em voz alta. Quem falou foi o próprio Snape, com a mesma voz pesada e monótona de quem não sabe disfarçar sua arrogância em cima dos outros.
—Alunos de Hogwarts. Eu, professor Severo Snape, sou o novo diretor desta escola. A partir de hoje, vocês verão que as coisas serão melhoradas tanto em relação a educação de vocês quanto em relação ao seu treinamento prático. A Taça das Casas continuará como sempre foi. As pontuações e retiradas de pontos seguirão inalterados. O campeonato de Quadribol entre casas está suspenso.
Aqui se deu uma tentativa de iniciar um protesto, mas Snape usou a varinha para aumentar a voz antes de gritar:
—SILÊNCIO!!!!!!!!! – houve quem tivesse momentaneamente parado de respirar devido ao susto – Quanto menos distrações desnecessárias vocês tiverem ao longo do ano, tanto melhor pra vocês. O Ministério da Magia solicitou que dois de seus funcionários trabalhassem aqui como mantenedores da ordem. Como tal, Amico Carrow será o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas e se encarregará de vigiá-los com toda a autoridade para puni-los conforme julgar necessário. De igual autoridade disporá sua irmã, Aleto Carrow, que será a nova professora de Estudo dos Trouxas.
Os Carrow, tanto a irmã quanto o irmão, pareciam se deleitar previamente com as punições que aplicariam em nós. Lembrei de Dolores Umbridge na época dela como diretora a mando do ministério, dois anos antes, imaginando quão pior seriam esses dois, já que agora podiam fazer as coisas mais abertamente. Eles se posicionaram cada um de um lado da professora McGonagall e empunharam suas varinhas, numa ridícula e pretensiosa demonstração de superioridade. Pareciam dispostos a qualquer coisa. Snape continuou falando:
—Vocês, alunos novos, serão chamados pela professora McGonagall para serem selecionados às suas casas. De hoje até o fim de seus estudos, os membros dessas casas serão como uma extensão de vocês mesmos dentro deste castelo. São elas Sonserina, Lufa-Lufa, Corvinal e… Grifnória – ele nem tentou disfarçar o desprezo ao dizer o nome da nossa Casa – A partir de então vocês serão avaliados em nome dessa Casa. Se agirem direito, todos serão recompensados. Se quebrarem alguma regra, todos pagarão por seu erro. Regras adicionais serão dadas posteriormente, por seus professores e monitores. Comece, Minerva.
O tradicional discurso de abertura do Chapéu Seletor não foi feito. Nenhuma festa foi feita por cada aluno selecionado, exceto Sonserina. Eu não podia acreditar no que via diante de mim. Eu estava certo, Hogwarts estava mudada. O banquete realizado depois da cerimônia de abertura estava intragável. Quer dizer, a comida era a mesma, a qualidade era a mesma, mas a situação em torno de nós fazia com que nossas gargantas fechassem. Os únicos que mostravam algum tipo de contentamento eram os alunos da Sonserina. Durante muito tempo Snape foi professor responsável da Casa, então era natural que vissem tudo aquilo como um tipo de triunfo considerável. Além disso, era a primeira vez que Hogwarts tinha um sonserino como diretor depois do professor Fineus Nigellus, há vários anos. Mas mesmo eles se continham em seu prazer de nos ver acuados. Naquela noite, antes de dormir, pensei em escrever a meus pais contando o que estava acontecendo, mas depois raciocinei que o mais provável era que nossas corujas estivessem sendo monitoradas. Desisti. Nós estávamos praticamente ilhados, e não havia com quem pudéssemos nos apegar lá fora.
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