Um Gibb em Hogwarts

3 O Dia em Que Seus Olhos Encontraram os Meus


Notas iniciais
“The Day Your Eyes Meet Mine” foi escrita pelos irmãos Barry e Maurice Gibb, dos Bee Gees, nunca lançada oficialmente

Os dias que se seguiram não mostravam nenhum tipo de esperança. Pra piorar, eu não vira Harry Potter em nenhum momento. Depois descobri que ele estava com Rony e Hermione, lutando por conta própria para achar um jeito de derrotar Voldemort. Claro que houve quem dissesse que eles estavam simplesmente se escondendo com o rabo entre as pernas. Os irmãos Carrow incitavam os alunos da Sonserina a fazer essa campanha negativa entre os demais alunos de Hogwarts, por dois motivos: ou eles conseguiam convencer alguns que Potter os abandonara ou conseguiam que algum devotado se pusesse a defendê-lo, o que já era motivo suficiente para levá-lo a detenção. No finzinho da manhã de uma sexta-feira, eu ouvi falar que uma aluna da Corvinal tinha sido tirada do meio da aula de Poções precisamente por ter defendido Harry Potter. Mas havia algo estranho: dessa vez o pessoal falava da garota com um descaso que me chamou a atenção. Observei duas alunas da Lufa-Lufa conversando perto de mm:

—Vamos ver se com isso a lunática ganha juízo.

—Duvido muito. Aquela garota não tem mais salvação.

—Como ela acabou na Corvinal? Pensei que apenas alunos inteligentes pudessem ir pra lá.

—Hogwarts é estranha por si só. Se fosse necessário algum tipo de prova, garanto que ela não estaria lá.

—Então pra onde ela iria?

—Pra qualquer lugar, desde que não na Lufa-Lufa, com a gente.

—É verdade.

—Se um dia nós viéssemos… — e foram se afastando. Não que eu conhecesse muita gente em Hogwarts, eu já disse que era quase ninguém com quem eu realmente conversava, mas fiquei curioso e horrorizado com tudo aquilo. Curioso pra saber quem era a tal garota, e horrorizado pelo tamanho menosprezo com que a tratavam, sendo que ela poderia estar passando por qualquer coisa. Então tive uma ideia. Sabia que os alunos penalizados eram levados para as masmorras, onde também ficava o Salão Comunal da Sonserina e a sala de Poções. Decidi que ia passar lá por perto. Se eu fosse pego, tudo o que precisava era dizer que tinha ido falar com o professor Horácio Slughorn, de Poções. Ele sempre foi muito solícito e apreciava muito o meu interesse sincero pela matéria dele, embora eu soubesse que no fundo não me considerava tão brilhante assim. E de qualquer jeito eu ia acabar falando com ele, ao menos pra saber que aluna era.

Cheguei nas masmorras e foi justamente o professor o primeiro que vi, abrindo a porta da sala. Cumprimentei-o, e ele tomou um susto devido à surpresa.

—Ah, ah… Sr. Gibb, eu não tinha visto você chegar – me senti um pouco mal pelo susto desnecessário, que o fez empalidecer e endurecer o corpo, o que já não é fácil com sua indiscreta barriga.

—Desculpe pelo espanto, professor.

—Tudo bem, tudo bem. Todos estamos um tanto alertas com tudo o que vem acontecendo. Não se preocupe comigo. Em que posso ajudá-lo?

—Preciso conversar com o senhor. Pode ser dentro de sua sala?

Ele pareceu um tanto receoso de me deixar entrar. O professor Slughorn sempre foi um tanto apreensivo em relação a tudo, e a situação daqueles dias só piorava o seu nervosismo. Mas ao mesmo tempo não conseguia negar nada a um aluno interessado, e calculo que tenha sido esse o motivo de ele ter consentido. A sala de Poções era mais fria e sombria nos tempos em que Snape era professor dessa matéria, mas com Horácio aquele ambiente até conseguia ser acolhedor. Ele estava segurando uma pasta, que largou desajeitadamente em cima de sua mesa.

—Do que precisa, meu jovem?

—Soube que uma aluna da Corvinal foi retirada de sua aula, hoje.

Percebi uma profunda tristeza chegar ao rosto dele. Estava obviamente aturdido com o que acontecera.

—Ah, sim, sim… Um fato lamentável, realmente… Ela não fez nada condenável, sabe? Foi uma grande infelicidade. Em parte foi culpa minha. Eu estava comentando sobre uma das minhas aulas anteriores, quando o Sr. Potter preparou uma poção do Morto-Vivo com extraordinária perfeição. Aconteceu de um dos irmãos Carrow estar passando por perto e ouvir as minhas palavras. Ele entrou e começou a perguntar sobre o que eu estava falando. Logicamente, não me deixou falar muito, e começou a provocar os alunos dizendo… Bom, dizendo coisas impensáveis sobre o Sr. Potter. A Srta. Lovegood se levantou e começou a defendê-lo, o que foi o bastante para que ela fosse levada daqui. Pobre menina, pobre menina…

O sobrenome não me era de todo desconhecido. Eu sabia que Lovegood era o editor de “O Pasquim”, um dos mais desacreditados sensacionalistas do mundo bruxo. Acontecia de eu encontrar uma edição ou outra jogada no lixo do Salão Comunal da Grifnória, e eu aproveitava pra pegar e ler. Tinham matérias interessantes, mas por demais fantásticas e, até onde minha cultura chegava, fantasiosas. Mas visivelmente pró-Harry Potter, o que devia incomodar bastante o Ministério da Magia. Mas aquela aluna… Não disse nada, esperando que o professor continuasse falando. Só que ele começou a mexer em um caldeirão ao lado de sua mesa, ainda com aquela expressão tristonha. Me aproximei pra perguntar mais, mas aí ele olhou pra mim, com um sorriso triste, e disse:

—Vamos apenas torcer pra que ela esteja bem. Não melhora em nada ficarmos revivendo as coisas tristes da vida. Talvez seja melhor você ir. Sei que não tem nenhuma aula agora, e não é bom te verem aqui sem motivo. Não quero que aconteça mais nada, entende?

—Perfeitamente, professor. Só tenho mais uma pergunta.

—O que seria?

—Pra onde levaram a Srta. Lovegood?

—Para uma sala que tem do lado de onde o zelador Filch tem seu quarto. Não sei muito sobre ela, apenas que foi desativada quando Dumbledore assumiu a direção de Hogwarts.

Agradeci e saí da sala. Olhei pro fim do corredor, até onde as masmorras se estendiam até cair em profundo breu. Era mais do que óbvio que eu não deveria ir até lá. Sensato, mas mesmo assim não pude deixar de me sentir um tanto culpado pelo meu medo. Resolvi voltar para o saguão, e lá aconteceu o fato que mudou a minha vida de forma totalmente irreversível. Subi as escadas e, chegando no topo, vi uma menina ajoelhada no chão, de costas pra mim. Tinha um cabelo comprido, de um loiro tão claro que beirava o branco, muito lindo, embora estivesse um tanto destratado. Os detalhes em sua roupa (motivos azuis se destacando ao longo da capa e saia pretas) me diziam que era uma corvinal. A varinha estava caída do seu lado, e ela parecia estar abraçando algo de encontro ao peito. Chorava baixinho, como se temesse ser vista.

—Com licença… — eu disse, de forma cuidadosa. Ela se virou pra mim, soltando o que abraçava. Era uma edição do Pasquim, rasgada em vários pedaços. Seus olhos brilhavam, não pela sua cor extremamente pacificadora, mas sim pelas lágrimas pesadas demais para um rosto tão suave. Me ajoelhei relativamente perto dela (nem tão longe que não pudesse oferecer o ombro nem tão perto que ela pudesse desconfiar de mim) e continuei – Você está bem?

Ela começou a recolher os pedaços da revista, enquanto limpava o rosto.

—Vou estar melhor – disse ela – quando tiver certeza de que meu pai está bem. Nos ameaçaram caso eu continuasse a defender Harry.

Estendi a ela um pedaço rasgado de página que estava perto de mim. Ela sorriu docemente antes de pegá-lo. Nunca tinha visto sorriso tão lindo na minha vida antes. Sorri de volta, ajudando-a a se levantar.

—Meu nome é Matthew, sou da Grifnória.

—Sou Luna, da Corvinal. Muito obrigada. Espero que nos vejamos de novo.

—Eu amaria… — respondi, sem pensar. Com uma ligeira surpresa ela ficou me olhando, mas depois simplesmente sorriu de novo e foi embora, saltitando. Depois de um tempo, soube que Luna quase sempre preferia saltitar do que andar. A doçura de uma fada mesclado à determinação de uma bruxa e à beleza de uma veela. Alguns mistérios sobre a magia que jamais pude entender.

Voltei para o Salão Comunal da Grifnória de forma totalmente automática, pois já não tinha controle nenhum de mim. Estava simplesmente anestesiado devido ao meu rápido encontro com Luna. Estava morrendo de vontade de revê-la. Estava, pela primeira vez, feliz de estar em Hogwarts naquele ano. Acordei de meu devaneio bruscamente, com um empurrão que quase me derrubou do sofá onde – não faço ideia de como – eu tinha me sentado.

—Acorda, Matthew!

—Hã? O quê? O que tá…

—Calma, calma! Sou eu, Neville Longbottom!

Conhecia Neville, como à maioria dos alunos da Grifnória, apenas de vista e de papos menores. Sabia de alguma coisa sobre ele. Como, por exemplo, que ele era muito chacoteado nos primeiros anos, por ser um tanto estabanado. Mas ao longo dos anos percebia-se nele um amadurecimento considerável. Sabia também que ele morava com a avó, e que seus pais tinham sido torturados até a loucura durante a primeira guerra que houve entre Voldemort e os bruxos benignos. Neville ficou tão marcado por esse fato que fazia tudo o que estava ao seu alcance pra se tornar um bruxo mais forte.

—Credo, Neville! Precisava me assustar?

—Desculpe, mas é urgente. Eu estou reunindo alguns alunos da Grifnória que não estão satisfeitos com o que está acontecendo em Hogwarts. Vamos reativar a Armada de Dumbledore e recrutar novos membros.

—Ah, então são vocês que andam escrevendo aquelas chamadas nas paredes dos corredores?

—Pois é. Abordagem direta costuma ser bom, mas não é sempre que temos essa liberdade de chegar e falar, então temos que lançar mão desses recursos pra chamar atenção de potenciais membros.

—E de potenciais detenções.

—Vale o risco. Já tivemos entradas e retornos desde que eu comecei. Mas essa versão da Armada vai se mostrar mais forte e eficiente do que a original. Tá dentro?

Eu já tinha sido chamado pra integrar a Armada de Dumbledore em sua formação original, dois anos antes, contra a ditadura de Dolores Umbridge, que já citei antes. Recusei naquela época. Não por desafeto ao grupo ou por gostar do regime que havia se instaurado em Hogwarts, mas pelo receio que eu sempre tive em situações assim. Cada dia na escola é uma batalha, mas eu não me sentia seguro pra enfrentar algo de tão grande porte. Ali, contudo, eu me sentia diferente. Sentia revolta, vontade de contra-atacar, agir. E eu sentia tudo isso desde que eu vira Luna pela primeira vez. Eu sabia que vários outros alunos passaram e iam passar por situação semelhante ou até pior. Mas, principalmente, Luna Lovegood poderia passar por aquilo de novo. Estendi a mão para Neville e disse:

—Pode contar comigo.

—Excelente, excelente – respondeu ele, muito animado, apertando a minha mão – Nós vamos mostrar que Hogwarts ainda é fiel a Dumbledore e a Harry Potter. Aparece hoje na Sala Precisa, no início da madrugada.

Assenti e levantei. Fui até o dormitório trocar de gravata e desci. Ainda havia uma tarde muito longa na minha frente antes que eu pudesse ver, pela primeira vez internamente, as ações da Armada de Dumbledore.