Um Gibb em Hogwarts
9 Sol na Minha Manhã
Notas iniciais
Tio Barry, em resposta à pergunta que me fez em sua última carta, Maldições Imperdoáveis são, basicamente, feitiços que atentam diretamente contra a integridade física e moral de um bruxo. São elas Imperius, o feitiço do controle da mente, Crucio, cujos efeitos descrevi na carta anterior e espero nunca mais sentir de novo, e Avada Kedavra, a maldição da morte. Não por coincidência, Harry Potter foi o único bruxo da história a sobreviver a um Avada Kedavra levado em cheio. O uso de qualquer uma delas é estritamente proibido pelo Ministério da Magia, a não ser com autorização expressa em tempos de guerra. Como o Ministério estava tomado por Comensais da Morte em 1997 (Pius Thicknesse foi empossado Ministro da Magia, e era um comensal estrategista), os comensais não pensavam duas vezes antes de fazer uso de qualquer uma delas. Dada essa explicação, devo voltar ao meu relato.
Eu não saberia dizer por quanto tempo dormi, além do suficiente pra saber que não sonhei nada. Logo vi que eu não precisava. Quando acordei, a primeira visão que tive foram os olhos de Luna. Seu lindo rostinho estava ainda mais brilhante, embora sua expressão como um todo mostrasse cansaço. Levei alguns instantes pra perceber que ela era real.
—Luna…? Como…?
Ela aumentou um pouco mais o sorriso e levantou a cabeça o suficiente pra apoiá-la na mão. Docilmente, ela disse:
—Você sabia que, quando dormimos, visitamos portais de universos paralelos? Os sonhos são, na verdade, visões desses universos, com outro tipo de realidade. É por isso que alguns sonhos parecem impossíveis, e outros parecem prelúdios de algo que realmente acontece.
Luna era muito dada a esse tipo de conversa. Pra ela, fazia todo o sentido. Nós, no entanto, precisávamos de mais alguma reflexão até que algo fosse compreensível de alguma forma.
—Eu não sonhei nada – acabei dizendo, embora no fundo eu estivesse com um certo medo de magoá-la, fazendo pensar que eu não me importava com o que ela dizia. Luna respondeu:
—De vez em quando acontece. É porque estamos com a mente muito pesada pra conseguir viajar tranquilamente pelos portais. Não é surpresa, considerando o que aconteceu.
Acho que foi nesse momento que eu acordei de verdade. Sentei onde estava e me senti mais alerta e preocupado. Segurei os ombros de Luna e perguntei o que tinha acontecido.
—Nós estamos bem – ela disse – A professora Minerva interviu por Gina e Neville, e orientou o professor Flitwick na minha defesa, já que ele é o professor responsável da minha Casa. Nossa punição é acompanhar o Hagrid na Floresta Negra, mas é tranquilo porque nós gostamos dele e ele cuida muito de nós. É até divertido.
Abracei-a com um alívio indescritível. Todos estavam fora de perigo, o que era ótimo, mas Luna estava a salvo, o que era excelente.
—Não sabe o quanto eu fico feliz em saber que você está bem, Luna. Não que eu não me preocupe com os outros, mas eu não conseguia parar de pensar em ti.
—Por quê?
Não pude responder de imediato. Me afastei lentamente dela e vi sua expressão curiosa e inocente. Algo no olhar dela me fez querer dizer algo, mas eu não conseguia. Então, em vez de dizer algo, resolvi fazer algo. Usei os dedos da mão esquerda pra aproximar o rosto dela do meu e, assim que percebi que ela me permitia, beijei-a de forma suave nos lábios. Nem vou tentar explicar a intensidade dos sentimentos que tomaram conta de mim naquele instante, mesmo que tenha sido um simples gesto. Quando voltei à consciência, ambos estávamos vermelhos e sorríamos de forma tímida.
—Talvez não seja o melhor momento…
—Não importa – disse ela, me interrompendo.
—Eu sou um fugitivo…
—E eu sou uma resistente. Não estou muito melhor.
—Podemos ser descobertos…
—Não precisamos guardar segredo.
—Podem te usar pra chegar em mim…
—Podem usar qualquer um de nós pra chegar em você.
—Mas você é a mais especial.
Luna não refutou essa frase. Percebi que ela parecia oscilar entre a afeição e a preocupação. Foi a primeira vez em meses que eu a vi tão preocupada.
—O que disse? – perguntou ela, quase sem voz.
—Luna – respondi, pegando as duas mãos dela –, desde que eu voltei pra Hogwarts e vi o que isso aqui se tornou, duvidei que eu pudesse ter motivos pra tirar a mim mesmo da minha letargia e me obrigar a fazer frente. Tudo mudou quando eu te conheci. Todas as vezes em que agi, foi vendo o seu rosto e ouvindo sua voz. Não me arrependo de nada. Você é a garota que eu quero ter do meu lado.
Timidamente, ela sorriu, e seu rosto ficou um pouco mais corado. Depois, como se do nada a realidade lhe surgisse, se levantou e ficou de costas pra mim.
—Não importa o que diga – disse ela – Hogwarts não é segura.
—E o que quer que eu faça?
—Fuja daqui. Desapareça. Snape está tentando, a todo custo, pintá-lo como um terrorista que deve ser capturado a qualquer preço.
—Não vou te deixar sozinha.
—Você não entende. Snape quer Neville e Gina. Ele sabe que os dois são os cabeças por trás da Armada. Caçando você às claras, ele pode observá-los às escondidas. Não podemos arriscá-los tanto.
Por mais que me doa admitir, não podia negar a lógica daquele raciocínio. Com a minha fuga, piorei ainda mais as coisas em torno dos meus amigos. Não consegui dizer mais nada, até que ouvi Luna se aproximar de mim:
—Me desculpe – ela disse – Não quis te culpar por nada, mas…
—Esqueça – respondi, sem olhá-la – Eu já devia saber que isso acabaria acontecendo. Eu não nasci pra ser protagonista. Tudo o que eu faço resulta nisso. Se eu tivesse ficado quieto como eu sempre fiz, eles não estariam nesse dilema e nem nós estaríamos…
Três segundos depois, eu sentia na minha bochecha a queimação característica de alguém que leva um tapa. A garota mais meiga do mundo deu um tapa na minha cara. Quando eu levantei os olhos, vi pela primeira e última vez na vida uma expressão de raiva naquele rosto.
—Por que me beijou? – disse ela, quase num grito. Não pude deixar de pensar que esse tipo de reação tinha vindo meio tarde – Responda, por que me beijou?
Nessas horas o normal é a gente gaguejar de boca aberta enquanto não consegue juntar duas palavras. Foi exatamente o que eu fiz. Ela própria continuou:
—Nós lidamos com isso há mais tempo do que você pode imaginar. Todos os dias desses últimos anos temos que considerar cada passo que damos, sempre cuidando pra não chegar a um ponto em que precisamos pagar um preço maior do que o que o nosso coração suporta. Todos nós abrimos mão de algo. Acha que Neville e Gina são tão fracos a ponto de não perceberem que, uma vez que Harry não está aqui, eles seriam os primeiros a serem alvejados? Só porque Snape mudou a estratégia não significa que eles corram mais ou menos perigo. O que você disse não é apenas uma ofensa a eles, mas a si próprio, por se considerar menos digno do que os outros, e a mim também, porque insinua que esse beijo não significa nada. “Eu não nasci pra ser protagonista”, que tal deixar que eu decida isso?
—Como assim? Por que você?
Ao me ouvir perguntar isso, Luna chegou perto de mim e me deu um beijo mais intenso do que o que eu tinha dado nela. E então respondeu:
—Porque eu quero que você seja o protagonista da minha vida.
A sensação era de que o mundo tinha parado. Não havia mais guerra lá fora, não havia mais Snape me caçando, não havia mais Voldemort, não havia nem mesmo Neville e Gina, nem nada que existisse naquele instante além de nós dois. Eu transbordava felicidade.
—Luna, você quer…
—Sim, eu quero.
—E o que vamos dizer aos outros?
—A verdade.
—E como eles vão reagir?
—Eu não ligo. Eu estou feliz só em poder dizer que sou sua namorada.
—Você ainda quer que eu fuja de Hogwarts?
Dessa vez ela não respondeu de imediato. Antes disso, me abraçou mais suavemente.
—Não sei o que pensar – disse ela – Quero que você esteja seguro, mas não sei se vou aguentar aqui sozinha.
Incapaz de responder ou mesmo de tentar pensar em algo, optei por continuar mais algum tempo dentro daquele abraço. Eu já desconfiava de que aquela decisão caberia aos nossos comandantes principais. Algumas horas mais tarde, quando Neville e Gina já estavam sabendo dos nossos sentimentos, ficamos mais alguns instantes tentando elaborar um novo plano de ação.
—Você não pode voltar ao Salão Comunal – disse Neville – Os irmãos Carrow vigiam praticamente todos os cantos do castelo esperando te encontrar. Desconfio inclusive que teremos que suspender encontros da Armada até conseguirmos tirá-los dos nossos ombros.
—Isso é o que mais me irrita – resmungou Gina, sentada na cama perto de mim – Agora que eu consegui ânimo pra voltar e fazer algo de útil, estamos impedidos. O que vamos fazer agora?
Quase abri a boca pra pedir desculpas por tudo aquilo, mas não quis arriscar levar outro tapa de Luna, que naquele momento descansava a cabeça no meu ombro.
—Eu vou ter que continuar aqui? – perguntei – Verdade que não quero comprometer a equipe, mas também quero continuar sendo útil. Sem contar que pode ser ainda pior pra Armada se eu tiver que ficar morando aqui.
—Por um lado sim, mas a sala dá tudo, né? Ela tem alguma restrição? – perguntou Gina. Quem respondeu foi Neville:
—Espero que não, porque já estou começando a ficar com fome. Vou me concentrar e ver o que acontece.
Pelo esforço que Neville fez pra se concentrar, qualquer um diria que ele estava pedindo todo o estoque do jantar, mas o que a sala fez foi o que mais nos surpreendeu. Acabamos descobrindo que, apesar de tudo, a Sala Precisa não pode fazer comida, e em vez disso fez surgir uma porta na parede mais afastada de nós.
—Mas o que é isso? – nos perguntamos todos. Gina foi a primeira a ir até lá, seguida de perto por mim, Luna e Neville. Porém, apesar de ter sido a primeira a chegar, não foi a primeira a tocá-la. Eu passei na frente dela e prestei alguma atenção nos detalhes. Era uma porta de madeira comum, com um trinco simples, mas o ombral e as laterais lembravam muito a moldura de um quadro. Com cuidado, testei a maçaneta e abri. Sem muito ruído, a porta revelou uma passagem comprida e estreita, sem nenhum tipo de luz, cujo horizonte não era visível.
—Gina – ouvi Neville dizer nas minhas costas – Está pensando o mesmo que eu?
—Talvez – respondeu ela – É inacreditável como o próprio castelo parece estar nos ajudando.
—Do que estão falando? – perguntei.
—Lembra que você disse que queria continuar sendo útil, Matthew?
—Lembro.
—E lembra também do que eu tinha dito sobre tirar alguém do castelo e conseguir ajuda lá fora?
—Lembro.
—Exatamente. A hora chegou.
—Eu, sair do castelo? Mas nós nem sabemos se…
—Sim, precisamos conferir se esse túnel sai da propriedade. Mas pense pela lógica: eu pedi comida e apareceu isso aí. Das duas uma: ou leva pra cozinha de Hogwarts embaixo do Salão Principal ou pra algum lugar que tenha comida em Hogsmeade. Eu acho essa segunda hipótese mais provável, porque o túnel segue reto em vez de descer.
—Mas mesmo que eu saia em Hogsmeade, como vou passar discreto estando em uniforme escolar?
—Eu vou voltar aos dormitórios e tentar pegar alguma roupa na sua mala. A Gina pode me escoltar. Não vamos demorar muito, é a melhor chance que temos.
Sem me esperar responder, os dois saíram correndo da sala. Voltei a olhar Luna, como que perguntando o que eu deveria fazer. Ela simplesmente me abraçou e disse, ternamente:
—Vou te esperar, e enquanto isso nos veremos pelos portais dos sonhos. Há algo que quero lhe dar – disse ela, tirando algo do bolso interno do sobretudo. Era um caderninho parecido com uma agenda comum, de couro preto – Esse é o Livro da Alma. Ganhei de um gentil mercador que encontrei durante as férias.
Abri o caderninho, e não tinha nada lá além de folhas vazias e linhas. Antes que eu perguntasse, Luna disse:
—É uma chave que permite ter uma visão superficial da alma de uma pessoa, assim que você escreve o nome dela em qualquer uma das páginas. Serve pra saber quem são seus amigos e quem não merece confiança.
—Tu usou isso em mim?
A resposta dela foi um novo beijo, seguido de um “não precisei”, dito à meia-voz.
Não pude dizer nada.
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