Um Gibb em Hogwarts
10 Perigo
Notas iniciais
Neville e Gina voltaram com uma camisa branca, calças e meu casaco preto. Arrumei um canto sozinho pra me trocar e logo estava pronto. Neville me chamou pra perto dele e me entregou uma moeda que parecia um galeão de ouro.
—Pra que isso?
—É o nosso comunicador – ele respondeu – Criado na época da Armada original. Parece uma moeda comum, mas possui números que mudam no caso de uma convocação. Servirá pra mantê-lo informado caso haja alguma urgência no castelo. Membros da Armada fora de Hogwarts tem a vantagem de poder trazer reforços.
—Pra isso eu tenho que encontrar os reforços primeiro, né?
—Confiamos em ti. Se realmente formos liberados para as férias (é preciso que se diga que minha saída se deu na primeira semana de dezembro), o que só saberemos em algumas semanas, vamos dar um jeito de nos preparamos pro teu retorno com Harry. Não esqueça, Hogwarts precisa de Harry Potter.
A despedida foi rápida e objetiva. Não podia arriscar mais do que o necessário dos meus amigos da Armada. Quando a estranha porta se fechou atrás de mim, o corredor que aparentava ser cavado na terra pareceu ainda mais escuro. A varinha resolveu uma parte, mas eu ainda sentia um pouco de medo. Nunca soube ao certo o quanto caminhei, mas era uma passada longa e demorada até ver o que parecia o fim do túnel. Parei por um instante e fiquei observando. Não parecia estar certo. Eu estava vendo uma menina de costas, e o que lembrava a moldura de um quadro à sua frente. A garota fazia um movimento estranho com o corpo, como se dançasse sem sair do lugar. Quando me aproximei o suficiente pra chamar a atenção, ela se virou. Era uma menina de aspecto dócil, de rosto leve e agradável. Me lembrava alguém conhecido, mas não sabia dizer quem.
—Hã… Olá – disse eu, sem jeito – Sabe dizer onde eu estou?
Ela nada respondeu, mas deu a impressão de que me chamava pra perto dela. Eu não entendia direito o que era, mas algo me dava calma o suficiente pra seguir. Quando cheguei a meio metro de distância, vi que aquela garota era um pouco parecida com Luna, exceto pela expressão do rosto, que parecia um pouco menos tranquila e mais séria. Mas ainda assim, não era aquele conhecido de quem eu tentava me lembrar anteriormente. Perguntei o nome dela, mas não tive resposta. Tudo o que a garota fez foi sorrir e abaixar a cabeça, fechando os olhos. Ato contínuo, ela esticou a mão até a moldura atrás dela e a puxou pra frente. Como uma porta, uma passagem se abriu, para dentro de uma sala rústica e mal cuidada. Sem perguntar, caminhei até ali e atravessei a passagem.
Com um pulo cheguei ao chão, e vi pela primeira vez que eu estive dentro de um quadro pendurado sobre uma lareira simples. A garota do quadro sorria pra mim e acenava. Perdi algum tempo me perguntando que relação ela teria com o castelo, até reunir coragem pra explorar o lugar onde eu estava. Ouvia vozes vindo do andar de baixo, o que me tranquilizava quanto ao fato de não estar em um lugar isolado. Ouvi também canecas batendo e outras sendo enchidas com líquidos. Saí da sala onde eu estava e, no corredor, pude ouvir mais distintamente pedidos sendo feitos. Estava em algum tipo de bar ou taverna. Até que senti um cheiro característico e reconheci o ambiente como sendo o mal afamado bar Cabeça de Javali, do igualmente mal afamado Aberforth. Poucos alunos se aventuravam a ir até ali, embora a cerveja amanteigada fosse a mais famosa e apreciada de Hogsmeade. Eu mesmo nunca tinha pisado lá dentro, embora certos lugares do vilarejo nos forçavam a passar na frente. Se não fosse o público mal selecionado, o Cabeça de Javali representaria uma forte ameaça aos negócios de Madame Rosmerta, dona do ponto de encontro tradicional de Hogwarts.
No momento, o que me interessava era saber como sair dali sem ser visto. Sorrateiramente, passei pelo corredor até chegar no topo da escada. Cada passo que eu dava tinha que ser calculado duas vezes. Não podia me dar ao luxo de ser visto. Com as costas na parede e com a varinha a postos, descia um degrau a cada dois segundos. No pé da escada tinha uma porta aberta, por onde eu conseguia ver um pedaço de balcão, algumas mesas vazias e uma janela, cuja luz indicava que a tarde já estava acabando. Do lado da escada tinha um início de corredor, mas olhando de cima pra baixo vi que não tinha saída. O único meio de escapar era por aquela porta. Obviamente deveria ter alguém no balcão pra servir os fregueses do bar, e obviamente ele me veria tentando sair. Cheguei no pé da escada e tentei prestar atenção aos sons que vinham de lá, tentando imaginar um plano. Ouvi uma conversa curiosa. Começou com uma voz masculina, grave, arrogante, seca e autoritária:
—Como se atreve a cobrar de mim? Você ficou louco? O que acha que isso aqui significa? – agora que lembro, ele já estava bem bêbado.
A voz que o interrompeu era igualmente autoritária e grave, mas comparadamente mais polida e velha, de um homem que parecia cansado de tudo:
—Pelas barbas de Merlin! Se realmente acha que ficar agitando esse braço vai me fazer mudar de ideia, use-o pra passar uma vassoura nesse lugar! Posso lhes servir bebidas, mas não sou obrigado a aguentar suas arrogâncias!
Nesse ponto da cabeça, arrisquei olhar pra dentro do salão e descobrir o que estava havendo. A cena me assustou: um velho de barba comprida e cabelos grisalhos estava perto de uma mesa, da qual se levantava um homem de vestes negras e mostrava a parte de dentro do antebraço esquerdo. Lá, indiscutivelmente, havia uma Marca Negra. Acredito que vocês saibam por informação de meus pais, mas caso não saibam, a Marca Negra era o sinal dos Comensais da Morte. Todo comensal tinha uma marca no braço, a qual servia tanto pra se reconhecerem entre si quanto pra se comunicarem com o próprio Lord Voldemort. Durante a Primeira Guerra Mágica, assassinatos de nomes importantes eram pontuados conjurando a Marca Negra no céu. A primeira vez que a vi sem ser em desenhos e ilustrações de época tinha sido no ano anterior, em cima da Torre de Astronomia da qual Dumbledore caiu morto. O velho Aberforth estava peitando um Comensal da Morte como se fosse mais um bebum qualquer, o que era impressionante. Me escondi atrás do balcão e continuei observando:
—Velho senil! O que acha que vai acontecer com essa espelunca quando eu contar ao Lord das Trevas sobre tua petulância?
—Não é culpa minha se você não é homem suficiente pra resolver teus assuntos sem se agarrar no Lord das Trevas, Morwood! Se quer chamá-lo, vá em frente! Quero ver a cara dele quando descobrir o motivo!
O tal Morwood pareceu confuso quanto ao que ouviu. Vendo que não ia receber resposta, Aberforth simplesmente rosnou e caminhou em direção à porta. Nisso aconteceu algo que me obrigou a revelar minha posição: o comensal pegou sua varinha e se preparava pra lançar um feitiço nas costas do barman. Eu já estava com a minha preparada, então tudo o que eu precisei fazer foi me levantar e estuporá-lo com um Rictusempra, que o atirou pra parede mais distante. Aberforth se virou rapidamente e, ao me ver, apontou a varinha em minha direção. Soltei a minha e levantei os braços.
—Quem é você? – perguntou ele, ríspido. Tive tempo suficiente pra me dar conta de que ele realmente ia lançar um feitiço em mim, se eu desse chance. Vou escrever minhas respostas cortando as leves gagueiras e repetições.
—Meu nome é Matthew Gibb, sou aluno de Hogwarts.
—Como chegou até aqui?
—Vim por uma passagem que encontrei no castelo, ela termina no quadro sobre a lareira no andar de cima.
A expressão de Aberforth nessa hora se transfigurou por completo, de desconfiança pra medo, e na mesma velocidade pra uma impensável raiva:
—O que você fez com o quadro da minha irmã?
—Nada, eu só…
—O que você fez com o quadro de Ariana??? – por cima do balcão ele pegou minha gola e me puxou pra perto da carranca dele – Vai preferir não ter nascido se eu descobrir que fez qualquer coisa pra desonrar aquele quadro!
—Eu estou dizendo a verdade, por favor!
Ele pareceu querer parar pra pensar, ou então sentia dores enquanto pensava, mas logo amenizou as feições e olhou pro comensal que ainda estava desmaiado no chão. Com mais cuidado do que eu poderia supor, ele me soltou.
—Desculpe – disse ele – É claro que se fosse um inimigo não teria salvo minha vida. O quadro de minha irmã é a coisa mais importante que eu tenho, e não admito sequer a possibilidade de que algo ruim lhe aconteça.
—Eu entendo. Mas o que vamos fazer com o comensal?
—É só jogá-lo lá fora. Os outros abutres virão recolhê-lo.
—Mas isso não vai afastar os clientes?
—Não tenho clientes de noite desde que instauraram o alarme noturno.
—Que alarme?
—Como, que alarme? Já faz meses que ninguém em Hogsmeade pode pôr o pé pra fora de casa durante a noite sem que um bando desses nojentos apareça! Nenhuma notícia chega em Hogwarts?
—Estamos ilhados.
—Eu já desconfiava, mas não imaginei que fosse tão sério. Me ajude com esse inútil.
Pegamos o corpo mole do comensal, ainda desmaiado, e o levamos até a saída do bar. Aberforth fez um sinal pra que eu não ficasse perto da porta e, sozinho, pegou o homem e o atirou na escuridão. Em poucos segundos um barulho muito alto chegou aos meus ouvidos, enquanto meu colega me fazia sinal pra ir me esconder. Fui pra trás do balcão, aproveitando pra pegar minha varinha de volta, e de lá fiquei ouvindo:
—O que está acontecendo aqui? Onde está Harry Potter? – perguntou alguém lá fora.
—Aqui não tem Potter nenhum, imbecil! É só esse pau d`água aí que não sabe a hora de parar!
—Sua insubordinação está começando a passar dos limites, Aberforth.
—Que seja. Só sei que esse aí não é mais problema meu. Má noite pra vocês.
E, dito isso, bateu a porta. Quando ameacei sair de meu esconderijo, Aberforth me viu e me fez sinal pra voltar. Fiquei ali sem fazer barulho, enquanto o barman começava a apagar as luzes. Logo ele apareceu perto de onde eu estava e disse que eu já podia sair. Sorria, divertido, segurando um saquinho de moedas. Provavelmente estava com Morwood e caiu quando eu o ataquei.
—Isso servirá por todo o prejuízo que tive. Eles já se foram, Gibb. Você, no entanto, não vai poder sair até de manhã. E já imagino que não vá voltar pra Hogwarts. Isso significa que terei que hospedá-lo aqui esta noite. Venha, precisamos conversar.
E, com ele me guiando, voltei para a sala de onde tinha saído.
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