Notas iniciais
“Remembering” foi escrita pelos irmãos Barry e Robin Gibb, dos Bee Gees, e lançada no álbum “Trafalgar” em 1971

Aberforth me deixou sentado numa poltrona na frente da lareira. Acendeu o fogo e ficou atiçando-o. No meio dessas ações dava rápidas olhadas pro quadro da irmã, como se quisesse ter certeza de que ainda estava ali. Em dado momento disse “já volto” sem olhar pra mim e saiu da sala. A menina do quadro, que agora eu já sabia se chamar Ariana, olhava divertida pra mim e complacente pro irmão. Nunca soube a idade dela, mas eu não dava mais de 19 ou menos de 14. Não conseguia imaginar nenhum contexto familiar possível ali. Rapidamente meu anfitrião voltou, trazendo comida. Pão, queijo e frios de qualidade melhor do que a que se imagina em um bar como o dele. Comi com fome, enquanto ele tomava chá e beliscava alguns pedaços de bolo. Quando viu que eu estava prestes a terminar, ele resolveu começar a conversa a que tinha se referido.

—Bom, Gibb, acho que já está na hora de você me contar direito como veio parar aqui e o que pretende fazer.

Contei tudo o que tinha acontecido desde que entramos no ano letivo, sendo o mais completo possível. Falei também sobre minha relação com Luna, sobre a qual ele não parecia muito interessado. Mas prestou muita atenção quando eu falei da tentativa mal sucedida de roubar a espada de Gryffindor, e da minha posterior fuga. Riu bastante quando eu falei da perseguição que Snape me fez.

—Ah, jovens – disse ele, enquanto nos servia mais chá – É incrível o quanto a gente demora pra aprender certas coisas. E, obviamente, é incrível o quanto a maioria de nós não aprende nunca. Meu irmão, por exemplo, foi um gênio a vida inteira, e muitos o consideravam um prodígio, enquanto eu, a vergonha da família, vivi praticamente anônimo. E olhe o resultado: eu estou vivo e ele está morto. De que valeu sua tão estimada habilidade, se no fim isso não pôde salvá-lo? De que adiantou enfrentar as forças do mal de peito aberto, se no fim elas acabaram por derrotá-lo?

Temi começar uma discussão que certamente perderia, mas fiquei surpreso por ouvir uma crítica tão ferrenha ao próprio irmão, que até ali eu não sabia quem era, mas deduzia ter sido um dos que ajudaram Dumbledore na Primeira Guerra Mágica. Então eu disse:

—Mas com certeza ele deve ter pensado simplesmente em fazer o melhor que podia pelo bem dos bruxos, não é?

—É claro que sim. Mas ele sempre teve mais em mente. Meu irmão era um egocêntrico, isso sim. Eu o conhecia. Por culpa dele minha irmã está morta – e apontou o quadro de Ariana, que o olhou de volta com tristeza – Mesmo que eu descubra que não foi a varinha dele que a matou, é tudo culpa dele. A propósito, uma boa prova de tudo o que eu estou dizendo é que provavelmente você nem desconfie de quem estou falando, não é?

Admiti que não, embora algo nele fosse familiar.

—Familiar, sei – ele respondeu, com escárnio – Talvez lhe ajude saber que meu nome completo é Aberforth Dumbledore.

O espanto foi inevitável. Eu realmente nunca tinha ouvido falar de que Dumbledore tivesse um irmão, menos ainda um que vivesse tão próximo de nós. Foi quando meu cérebro estalou e eu vi Ariana, que agora mais do que nunca me lembrava o rosto do ex-diretor de Hogwarts. Como eu tinha sido cego!

—Bom, ambos estão mortos. Eu não lamento por Alvo. Ele procurou tudo o que aconteceu com ele. Ariana não. Morreu inocente, sem que eu pudesse ter feito algo por ela. Vejo testrálios por causa dela, já que morreu bem na minha frente. Mas sabe o que me dói de verdade? Nunca ter dito o quanto eu a amava. Eu acreditei que podia consertar isso batalhando pra que nenhum outro inocente precisasse morrer por culpa de um egoísmo estúpido, e esse foi o único motivo pra eu ter aceitado integrar a Ordem da Fênix. Depois percebi o quanto isso era ridículo. A única pessoa por quem valia a pena dar a vida já não está mais ao meu alcance. Essa tal Luna que você mencionou, eu digo que teria sido melhor tirá-la do castelo com você. Os dois poderiam ir embora, sair do país, e dane-se o resto.

—Como, “dane-se o resto”? E Neville? E os outros membros da Armada? E todos os…

—Tolice! – gritou ele, batendo no espaldar da poltrona – Isso é uma questão de sobrevivência, Gibb! Quem quer tudo não leva nada! A morte do meu irmão não ensinou nada a vocês? O Lord das Trevas venceu! O que importa agora é sair com vida!

Não pude responder de imediato. Eu tinha à minha frente um homem que desistiu. Mas eu ainda estava na briga. Claro que eu daria qualquer coisa pra voltar ao castelo e fugir com Luna, mas Neville confiou uma tarefa e eu tinha que cumpri-la. Precisava achar Harry Potter.

—Bom – disse eu – tem uma passagem que sai do seu bar e vai até o castelo. Se a parte da sobrevivência importa tanto assim, basta fechá-la e o senhor não terá mais nenhum contato com os alunos da Armada. Eu, pela manhã, sairei de sua vida e vou cumprir o que me foi confiado. Você diz que o Lord das Trevas venceu, eu digo que ainda podemos derrotá-lo. Você diz que os outros não importam, eu digo que não seria nada sem eles. Se não vai me ajudar em mais nada, agradeço o que já fez até aqui. Mas peço que não me impeça de fazer o que é necessário.

Aberforth não disse nada, mas ficou me olhando como quem olha um prisioneiro indo até a forca. Finalmente se levantou, juntou os restos de nosso lanche e foi embora. Em poucos minutos voltou e, olhando apenas para o quadro de Ariana Dumbledore, disse:

—Só mais uma coisa, Gibb. Você vai continuar com esse fogo no coração se conseguir voltar pra cá e descobrir que sua garota está morta?

É desnecessário dizer que não dormi naquela noite.