Um Gibb em Hogwarts
12 Dizendo Adeus
Notas iniciais
Durante a manhã, Aberforth parecia mais solícito do que na noite anterior. Já que passei a madrugada acordado, aproveitei pra tentar imaginar uma linha de ação que seguiria a partir daquele dia. Toda manhã, os comerciantes de Hogsmeade recebem um carregamento de suprimentos vindo de Londres, a fim de reabastecer as lojas, lanchonetes e bares. Aberforth me orientou a utilizar uma das carruagens pra chegar até a estação do Expresso Hogwarts, e dali dar um jeito de voltar a Londres. O próprio barman me arranjou comida, com a recomendação expressa de fazer durar. Saí do Cabeça de Javali por uma porta secundária, com um caminho que me levaria bem ao centro do vilarejo. Já havia movimento de lojistas e feirantes que abriam seus negócios, e nenhuma sombra de qualquer Comensal da Morte que fosse. No meio do caminho, dei uma olhada por cima do meu ombro e vi, bem ao longe, algumas das torres altas do castelo. Me enchi de tristeza por pensar que estava abandonando Luna, mas confiava o suficiente em Neville e Gina. De mais a mais, não era uma boa ideia voltar, ainda que eu tivesse ido pra frente do quadro de Ariana várias vezes durante a noite. No fim da rua, algumas carruagens estavam se preparando pra sair, com suas entregas feitas. Tive uma ideia marota nessa hora. Caminhando normalmente, passei por duas carruagens paradas e saí de Hogsmeade, até uma parte em que a estrada era rodeada de muito mato e árvores. Quando considerei que estava longe o suficiente, me escondi no mato e fiquei esperando. Passados vários minutos uma carruagem passou. Usei-a pra calcular o que precisaria ser feito pra poder pular e me agarrar na parte traseira sem cair. Ajeitei a sacola que Aberforth me deu nas costas e me pus de prontidão esperando a carruagem seguinte.
Essa demorou mais do que a primeira, de modo que algumas vezes eu pensei que ela não ia sair ou então que tivesse escolhido outro caminho, mas por fim ela surgiu. O condutor não parecia ter qualquer tipo de preocupação. Ele passou do meu lado, eu dei três saltos largos e pulei na traseira. Tudo milimetricamente encaixado. Agora era só fazer força nas mãos, pois a viagem até Londres seria demorada. Calculei que uns 15 minutos se passaram até meus dedos começarem a reclamar do peso sobre eles, mas não podia fazer nada além de ficar mudando de posição, cuidando pra que o condutor não percebesse que havia algo errado.
Quando vi a estação, me permiti soltar a carruagem e rolar na grama. Foi nesse momento que me dei conta do primeiro problema: como eu faria pra pegar o trem? Eu estava sem dinheiro e não tinha passagem. Decidi chegar mais perto e ver como as coisas se desenrolavam, a fim de que surgisse uma ideia. Com alguns minutos de observação a distância, cheguei em um vagão de carga onde alguns jovens carregavam caixas. Me aproximei por trás e peguei uma das caixas que eu acreditava ser mais leve por ser um pouco menor que as outras (grosso engano), e com ela tapando meu rosto subi no vagão. Lá, soltei a caixa e escapei por uma porta. Mais um pouco e eu estava na parte destinada aos passageiros. Foi o único momento dessa viagem inteira em que eu pude sentar e respirar com calma. Meu plano pra quando chegasse a Londres era ir até o Beco Diagonal, o centro comercial urbano dos bruxos. Apenas duas vezes na minha vida tinha estado lá. O Ministério da Magia, como eu disse em alguma carta anterior, estava tomado pelos Comensais da Morte, então o único lugar onde eu poderia ter alguma noção das ações de Harry Potter era o Beco Diagonal. Eu só precisava chegar até o Caldeirão Furado, um bar bruxo que faz a ligação entre a Londres trouxa e a entrada do beco.
Quando cheguei na estação, tive que desembarcar quase tão escondido quanto como embarquei, clandestino. É incrivelmente fácil ser invisível em uma grande metrópole, e pra mim isso era excelente. Talvez fosse paranoia da minha parte pensar que pudesse ter alguém do Ministério me vigiando, mas achei que seria mais seguro pensar nessa direção, e tomei precauções de acordo. Fui a pé até o Caldeirão Furado (também por falta de recursos), passando apenas pela Londres da comunidade trouxa. Meu caminhar também era controlado – não tão devagar a ponto de permitir que algum perseguidor me alcançasse e não tão rápido a ponto de chamar atenção sobre mim. Em pouco mais de uma hora, cheguei na rua em cuja esquina ficava um dos prédios mais antigos da capital inglesa, com uma entrada que apenas os bruxos podiam perceber. Ao abri-la, voltei a sentir o ar pesado e os cheiros clássicos de um bar como o de Aberforth, mas com um toque mais respeitável e menos descuidado. Afinal de contas, era preciso justificar a presença ocasional de nomes importantes do mundo da magia, como algumas vezes o próprio Ministro da Magia. Alguns bruxos estavam espalhados pelas mesas e conversavam em voz controlada enquanto bebiam e comiam. Passei por eles até a saída que dava ao Beco Diagonal. Nisso, tive uma enorme surpresa acompanhada de um enorme susto: uma mão surgiu e segurou meu braço direito, me impedindo de continuar:
—Pra onde pensa que vai, homem? – O sujeito que me agarrou tinha uma estranha combinação de expressões, passando entre o sonolento e o assustado. Não devia ter mais de 40, embora seus cabelos ainda fossem bem escuros, como dava pra ver por baixo do chapéu desleixado. Suas roupas não estavam muito melhores, o que me levou a pensar que ele não devia estar ali há pouco. Sua própria voz estava meio rouca e arrastada.
—Como assim, pra onde vou? Vou ao Beco Diagonal!
—Você é louco? Ninguém em sã consciência vai ao Beco Diagonal depois de tudo o que aconteceu nesses últimos meses.
—E o que aconteceu?
Ele soltou meu braço e ficou me olhando como se eu fosse um gato roxo.
—Em qual buraco esteve morando, homem? – e enão baixou a voz – Eles estiveram aqui há muito tempo, e praticamente dizimaram o lugar. Apenas uma única loja e o Gringotes sobreviveram. Aquilo virou uma cidade fantasma, e ninguém tem motivo nenhum pra voltar.
—Isso não faz sentido, já que tu mesmo disse que tem uma loja e o Gringotes funcionando. Por mais coragem que se tenha, ninguém deixa uma loja aberta se não tem clientes pra atender. E do Gringotes eu nem falo nada, já que é o maior banco do nosso mundo e não há bruxo que não confie a segurança de seu dinheiro aos duendes de lá.
—Errado de novo. Já faz muito tempo que os bruxos não circulam dinheiro em Gringotes. Agora é praticamente um banco exclusivo deles. E serve muito bem aos interesses deles, se é que eu ainda posso comentar isso livremente.
Ninguém prestava atenção em nós, mas eu olhei bem os outros e notei que, pra um bar tão próximo de um lugar acabado como o que ele me descrevia, o Caldeirão Furado estava notavelmente cheio.
—Engraçado – eu disse – Se o Beco Diagonal virou um lugar que serve tão bem a eles, por que o Caldeirão Furado, que é a porta de entrada, seria diferente? Devo supor então que eles são vocês? Sei que é deles gostar de um copinho cheio…
O que eu disse pareceu irritar meu interlocutor, que se levantou de imediato e bateu o dedo no meu peito:
—Ah, então é um espertinho? Pois muito bem. Se quer tanto ir procurar um lugar pra estender seu cadáver, vá em frente. Eu abro a passagem pra você. Mas vai se arrepender por não ter me ouvido e ido embora. Venha.
Porta dos fundos do bar, dois passos pra frente e damos de cara com um muro de pedra. Meu irritado acompanhante tirou a varinha do bolso e bateu com a ponta dela em cinco pedras sequenciais. De repente, o muro começou a se abrir e um corredor a céu aberto apareceu, já na entrada do Beco Diagonal. Antes mesmo de entrar eu tive que lhe dar razão pelo aviso: antes, era um lugar cheio de gente, carregando toda a sorte de objetos, rindo, conversando, correndo de um lado a outro, sempre com o sol brilhando fortemente. Agora eram ruas totalmente vazias, com um tipo de névoa estranha, coisas quebradas no chão junto com os vidros das vitrines. O homem que me acompanhava me empurrou pra dentro da passagem e disse:
—Aí está. Aproveite o resto de seus minutos – E logo o muro se fechou de volta ao normal.
Fiquei alguns segundos atônito, caminhando lentamente enquanto tentava reconhecer algum lugar. Comecei a me perguntar se realmente não teria sido uma ideia melhor aceitar o conselho que recebera e ir embora dali. Quanto mais eu avançava, maiores eram os pensamentos de que eu podia ser atacado a qualquer momento, pois logo percebi que o lugar não estava tão deserto quanto eu supunha. Homens e mulheres, ao longe, caminhavam meio encurvados, com uma pesada capa preta no corpo e capuz sobre as cabeças. Nunca acompanhados. Fiquei com a mão pronta pra pegar a varinha na primeira oportunidade que a exigisse. Com mais alguns passos, já atravessando a névoa, encontrei o primeiro lugar que minhas memórias reconheceram: a livraria Floreios e Borrões. O vidro da vitrine estava em pedaços no chão, curiosamente não pra dentro e sim pra fora, a porta fora derrubada e todas as estantes estavam reviradas. Entrei e notei que várias páginas soltas estavam atiradas. Não encontrei nenhum livro inteiro. Havia vários lugares com marcas de queimadura, mas não estavam aleatórios. Pude juntar esses detalhes e deduzir o que aconteceu: os Comensais da Morte explodiram a livraria. Saindo de lá, prestei atenção nos mesmos padrões em praticamente todas as lojas daquela rua. Realmente, o estrago não fora pouca coisa.
O que me assustou de vez foi encontrar a loja de varinhas do Sr. Olivaras. Com certeza era a mais detonada. Lembrava direitinho daquele lugar, pois foi onde comprei a varinha que me acompanha até hoje. Pau-Brasil, 32,5cm, inflexível e núcleo de pelo de unicórnio. Uma olhada superficial foi o suficiente pra eu perceber que era inútil procurar o velho fabricante de varinhas ali. Foi quando eu comecei a me perguntar o que teria acontecido com todos os lojistas e vendedores dali, se fugiram, se foram presos pelo Ministério ou se estavam mortos. Resolvi procurar a única loja que ainda estava ativa, torcendo pra que fosse um resistente e não um simpatizante das trevas. Dei algumas voltas à toa, com detalhes que são desnecessários nessa carta, até que o verde pálido do ambiente foi cortado por um suave laranja que vinha de algum lugar virando a esquina. Quando eu cheguei, tive a impressão de ter cruzado um portal ou algo do tipo, porque vi algo que não combinava em nada com o Beco Diagonal do jeito que estava.
Era um prédio de esquina, largo, e em cima da porta tinha uma cabeça gigante e animada, cuja mão esquerda tirava e colocava uma cartola, num eterno cumprimento aos clientes que chegavam. Era a única coisa com vida e alegria, de modo que me aproximei de forma automática. Mais próximo, pude ver o nome, e comecei a rir sozinho quando li “Gemialidades Weasley”. Já tinha ouvido falar daquele lugar, e não poderia pertencer a mais ninguém a não ser os já citados gêmeos Fred e Jorge Weasley. Só pra vocês terem uma ideia do que era lidar com a inteligência e com a irreverência dos dois, havia um cartaz roxo com letras amarelas que dizia:
Por que se preocupar com Você-Sabe-Quem? Devia se preocupar mais com o Aperto-Você-Sabe-Onde, a prisão de ventre que acometeu a nação
Testei se a porta estava aberta, e não encontrando resistência entrei. O lugar estava, obviamente, vazio, mas tão ajeitado e limpo que parecia não se influenciar pelo medo que havia lá fora. As criações clássicas dos Weasley estavam lá – dentre elas a mais famosa, o Kit Mata Aula, que foi uma das maiores dores de cabeça que os professores de Hogwarts já tiveram –, além de algumas que até então eu não conhecia. Antes que eu tivesse a chance de ver mais alguma coisa, os próprios gêmeos apareceram perto de mim. Não lembrava que fossem tão altos, quase uma cabeça acima da minha, e os ternos laranjas de tecido chamativo os deixava mais formais do que o que eu me lembrava deles. Mas não foi preciso muito pra eu saber que eram os mesmos Weasley que abandonaram Hogwarts durante o regime de Dolores Umbridge.
—Se lembra deste rapaz, Jorge? – disse um deles, pondo a mão no meu ombro.
—Claro que lembro, Fred – disse o outro, se aproximando – Sabia, Gibb, que muitas das coisas que temos aqui hoje só foram criadas porque você ajudou?
Aquilo me surpreendeu muito, porque raras vezes conversei com os gêmeos, e sempre sobre Quadribol.
—Eu? Mas o que foi que eu fiz?
—Lembra que houve uma lamentável época em nossa escola em que fomos proibidos de desenvolver nossos inocentes projetos?
Os “inocentes” projetos quase sempre levavam alguém pra enfermaria, mas preferi não lembrá-los disso. Enquanto isso começaram aquele diálogo típico de gêmeos, com um complementando o outro:
—Tivemos que fazer e testar nossas criações escondidos, como dois criminosos.
—Isso era um insulto.
—Mas precisava ser feito.
—Pelo bem dos alunos.
—E do nosso bolso.
—Mas como fazer isso sem chamar atenção?
—Então te vimos no Salão Comunal.
—Matthew Gibb, o aluno invisível.
—Percebemos que se estivéssemos na sua volta, nos tornaríamos invisíveis também.
—E deu certo.
—Criamos isso aqui inspirados em você – Fred deu uma volta perto da prateleira onde estávamos e voltou com uma caixa comprida. Quando a abriu, mostrou uma série de pequenos frascos de vidro. Embaixo da tampa da caixa tinha uma placa com o nome da invenção: “Poções Patenteadas Para Devanear”.
—Algumas gotas no suco de abóbora de alguém e sua vítima entrará num devaneio por cerca de 30 minutos.
Não precisei perguntar o motivo da inspiração. Até o ano anterior, um dos meus hobbies era caminhar à toa pelo castelo, por uma ou duas horas. Calculei que aquilo não devia vender muito, já que apenas aqueles que praticam aquilo sabem o significado e os resultados. Aquela, no entanto, era uma das duas caixas que tinham sobrado.
—Serve principalmente – continuou Fred – pra passar por vigias ou fugir de algum sequestrador. Muitos deles tem caçado bruxos procurados pelo ministério em troca de recompensas.
—Nos tempos em que o Ministério da Magia ainda era digno de respeito, alguns representantes nos encomendaram produtos de defesa.
—Algo que possibilitasse aos bruxos menos treinados alguma chance de sobreviver.
—Alguns estão por ali. Chapéus-escudo, capas-escudo, pó escurecedor instantâneo que importamos do Peru e detonadores-chamariz.
—As poções para devanear foram o último projeto que realizamos, mas não pudemos apresentá-las a tempo.
—Pouco antes de ficarem prontas, o ministro Scrimgeour foi assassinado e aconteceu o golpe ao Ministério da Magia que colocou os Comensais da Morte no controle.
O assunto me interessava, mas eu não podia me desviar do meu foco. Sem permitir que os gêmeos fossem muito longe com as lembranças dos acontecimentos fora do castelo desde antes do início do ano letivo em Hogwarts, eu disse de uma vez que precisava de informações sobre Harry.
—Bom – disse Fred –, a verdade é que também não sabemos de muita coisa concreta.
—Se preferir – completou Jorge – há rumor a dar com pau. Mas se quiser saber outras coisas que o Ministério anda fazendo, vai lá em cima e pede pra Mellanie te mostrar nosso arquivo de jornais.
—Mellanie? Quem é Mellanie?
—Ela era balconista da Floreios e Borrões. No dia em que os comensais apareceram ela fugiu e veio parar aqui, e ficou desde então.
Resolvi seguir a dica. Mesmo que não tivesse notícias do paradeiro de Harry, Rony e Hermione, pelo menos já teria uma noção melhor do que esperar do Ministro da Magia. Segui os dois escada acima até uma espécie de depósito grande, com a madeira exposta em todas as paredes, teto e chão, este cheio de caixas e pilhas de papeis e alguns projetos não terminados.
A menina que me foi apresentada como Mellanie Donovan era de um tipo oriental. Tinhamos exemplos diversos em Hogwarts, mas o dela era bem mais discreto. A junção dos cabelos levemente ondulados com os olhos cor de mel e a expressão reservada e tímida lhe davam uma beleza bem específica. Aqueles que tinham facilidade em se apaixonar pelo mistério teriam um deleite justificado ao conhecê-la. Quando a vi pela primeira vez, a garota estava levando pequenas caixas de um lado a outro. Vestia um uniforme cinza escuro composto de calças sociais e blazer sobre camisa branca de punho abotoado.
—Mel – disse Jorge – Vem conhecer nosso amigo brasileiro.
Ela parou e soltou as caixas em cima de uma mesa, vindo logo me cumprimentar. Percebi em seus olhos uma estranha surpresa, mas não dei atenção no momento.
—Ah, então esse é o inspirador das Poções Patenteadas Para Devanear?
Me senti ficar vermelho diante da referência. Por um lado fiquei até feliz por os gêmeos não terem tido tempo de apresentar esse produto ao Ministério da Magia, imaginem como eu ficaria depois tentando explicar a minha relação com aquilo. Os Weasley rapidamente explicaram que eu precisava ver as edições do Profeta Diário que estavam ali. Mel me levou por um labirinto de caixas até uma pequena pilha, onde deveriam ter não mais que dez exemplares.
—São poucos – comentei em voz alta.
—São os que pudemos coletar. Antes da invasão, há três semanas, os jornais eram vendidos lá na Floreios, depois disso é raro aparecer alguém aqui, ainda mais trazendo um desse.
—E por que vocês continuam aqui?
—Pra onde iríamos? Meus pais estão fora do país e não podem voltar, e é ainda mais complicado eu sair. Depois que me formei em Hogwarts, passei a morar no andar de cima da livraria, de favor, enquanto trabalhava o dia inteiro. Não tenho quaisquer parentes na Grã-Bretanha. Fred e Jorge foram os únicos que me deram a mão, me deixando morar e trabalhar aqui.
—Essa parte deve ser fácil, já que não tem mais clientes.
—Isso é o que você pensa. Embora não haja mais frequência igual antes, ainda temos clientes. Só que, obviamente, eles não podem simplesmente chegar e vir aqui, então demora alguns dias pra aparecer alguém. Fica à vontade, vou voltar lá pra baixo.
Vi algumas edições da parte de cima da pilha e percebi que estavam fora de ordem. Perdi alguns minutos organizando os jornais em ordem cronológica, pra facilitar a compreensão da cadeia de eventos. Isso não foi demorado, mas um pouco chato. Voltei ao andar de baixo e vi os três brincando com o que parecia ser uma fada perseguindo os cabelos de Mel, a qual ria deliciada enquanto seus colegas gritavam comandos de onde a estranha pena – sim, não demorei muito pra ver que era uma pena – deveria passar. Obviamente achei graça da cena, mas logo imaginei Neville, Gina e a minha doce Luna, presos em Hogwarts, sem saber direito como estavam ou pelo que passavam. Sentia saudades de Luna, obviamente, mas sempre tinha alguma coisa a mais pra me preocupar em relação à minha própria fuga. Agora, porém, eu pensava nela com mais clareza, e todos os detalhes vieram ao mesmo tempo. O som de sua voz, o toque suave de sua pele, o gosto doce de seu beijo…
—Gibb, achou o que precisava? – perguntou um dos gêmeos.
—Nada – respondi, confuso pela súbita interrupção – Estou realmente perdido.
—E pra onde você vai agora?
Foi quando eu me dei conta de que eu não tinha pensado nessa parte do plano. Eu não tinha lugar nenhum pra ir depois do Beco Diagonal. E a minha demora na resposta acabou sendo uma resposta em si mesma. Foi Mel quem falou:
—E se ele ficasse aqui?
De uma forma quase espelhada, típica de gêmeos, os irmãos Weasley me apontaram um criado-mudo atrás de mim e disseram:
—Escolha uma gaveta e tenha uma boa noite.
—Tem tão pouco lugar assim? – respondi, mas no fundo já sabia que era brincadeira.
—Pode ficar com um canto qualquer do sótão. Quando decidir o que fazer, te daremos todo o apoio.
—Mas só apoio, ainda precisamos manter o dinheiro.
Agradeci aos dois e eles saíram em direção aos fundos. Mellanie ficou um pouco comigo e também saiu, dizendo que precisava se ajeitar pros trabalhos da tarde. Depois eu me lembraria com total certeza, mas na hora achei estranho o olhar de deleite que ela parecia lançar em mim, como se esperasse alguma coisa.
Até a noite, me prestei a ler todos os jornais pelos quais só tinha dado uma vista prévia. Não tive contato de meus anfitriões nesse tempo, mas Mel vinha de vez em quando pegar ou deixar algum material. Começamos a conversar amenidades nesse meio-tempo. Descobri que ela nasceu na Inglaterra, mas sua ascendência era japonesa – sua geração era a quarta na Grã-Bretanha – e completou seus estudos em Hogwarts dois anos antes daqueles dias, ou seja, em 1995. Sua casa era a Lufa-Lufa, o que talvez explicasse o fato de eu não lembrar de já tê-la visto. Minhas pesquisas não se mostraram muito promissoras. O Profeta Diário tinha se tornado um visível puxa-saco do ministério e qualquer menção a Harry era simplesmente uma reiteração de que ele era um bruxo perigoso que deveria ser capturado. Estávamos certos ao pensar que o ministro estava buscando a cabeça de Potter.
Mas nem sinal do próprio Harry.
Uma coisa precisa ser dita sobre Mellanie: algo nela me deixava inquieto. Volta e meia me buscava com os olhos, ou vinha puxar assunto comigo. Me dava a sensação de que ela não estava interessada em mim, mas em algo que eu tinha. Até que, em um momento em que pude ficar sozinho, decidi estrear com ela o Livro da Alma. Confesso que eu estava bem curioso pra ver como funcionava. Escrevi “Mellanie Donovan” e, depois de alguns segundos, apareceu uma foto tipo 3X4 da garota de frente, junto com dois tópicos. Num dizia “Maior ponto forte: Paciência e lealdade acima da média”. O outro dizia “Pior ponto fraco: Coisas relacionadas à luz”. Não entendi de cara o que aquilo queria dizer, mas não demorou muito até tudo ficar claro.
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