Um Gibb em Hogwarts
13 Obrigado pelo Natal
Notas iniciais
Fiquei três meses escondido na loja, até o início de março. O Natal e o ano-novo foram compreensivelmente simples, mas inegavelmente divertidos. Criei uma intimidade com os gêmeos que me deixou suficientemente tranquilo pra contar a eles sobre os acontecimentos no castelo e o complicado início de meu namoro com Luna. Mel acabou sabendo disso também, embora eu sentisse algo diferente com ela desde o que li no Livro da Alma. Depois daquilo, parecia que toda vez que eu a visse algo dentro de mim dissesse pra procurar o que havia de errado. Não sabia explicar, eu só sentia. Nesses meses, apenas seis clientes apareceram. Foi através do último deles que descobri a pior notícia que eu poderia ter recebido. Pra todos os que apareciam eu perguntava se, além do Profeta Diário, não tinham alguma edição do Pasquim, pois era uma maneira de eu me sentir próximo de Luna, de quem já estava desde o primeiro dia morrendo de saudades. Um velho bruxo, dono de pensão que tinha declarado falência (compreensível, já que ninguém mais aparecia por ali), me respondeu:
—Pasquim? Não existe mais. E ninguém em sã consciência poderia pedir isso do velho louco Xenofílio depois de perder a filha.
A frase me deixou momentaneamente gelado. Em menos de dois segundos já tinha pensado em todas as possíveis explicações, todas horríveis.
—Perder… A filha?
—Sim, sequestradores a levaram antes do Natal, e ainda está desaparecida.
Fred e Jorge passavam ali por perto e ouviram essa parte da conversa. Fred concluiu a venda e Jorge me afastou do balcão. Poucos minutos depois Fred voltou.
—Está tudo bem, Gibb?
—Claro que não – eu estava realmente mal, então não conseguia nem olhar pra frente direito – Todo esse tempo que eu estive aqui, entocado, me divertindo enquanto simplesmente esperava as informações caírem no meu colo, Luna está nessa situação! Eu tenho que procurá-la!
—Calma aí, super-herói. Onde exatamente você pensa procurá-la?
—Os sequestradores sempre levam os raptados até os tribunais do Ministério da Magia, então é lá que…
—Não. Apenas vão ao ministério os nascidos-trouxa que precisam ser interrogados pelo Comitê de Registro dos Nascidos-Trouxa. Luna é de linhagem bruxa, como eu e Jorge, com certeza não a levariam até lá.
—Mas então onde?
Nenhum dos gêmeos tentou responder. Mel apareceu dizendo que ia fechar as portas, pois já estava escurecendo. Ao nos ver, ela desfez o sorriso que tinha no rosto e veio em nossa direção.
—Mas o que aconteceu? – perguntou ela – Nunca vi vocês tão desanimados.
—Não é nada, Mel – disse Jorge – Isso passa.
—Vocês se sentem indefesos?
Aquela pergunta foi muito deslocada, mas acabamos respondendo que sim. Mel disse que ia pegar algo quente pra bebermos e saiu. Fred e Jorge ainda tentavam me consolar quando ouvimos a porta da frente abrir e fechar.
—Mel acabou esquecendo de fechar a porta. Vou lá resolver isso – e Fred acabou indo. Pouquíssimos segundos depois ouvimos um grito. Corremos até a porta da frente e vimos Fred ser agarrado pelo pescoço por um tipo mal encarado. Capa preta sobre camisa e calças pretas, não precisávamos de muito pra ver que era um Comensal da Morte. Atrás dele mais dois em posição de ataque.
—É menos esperto do que eu pensava, traidor do sangue – disse ele, olhando Jorge – Solte essa varinha agora mesmo ou eu termino de quebrar o seu clone aqui.
Sem opções, Jorge jogou a varinha no chão. Um dos comensais ajudantes, o mais baixinho, veio e a pegou, deixando-a na mão do seu chefe. Este atirou Fred de cara no chão. Percebi que ele estava também com a varinha de Fred.
—Essa foi muito fácil. Agora vocês vão conosco tranquilamente enquanto destruímos sua lojinha inútil.
—Não vai acabar com o nosso patrimônio – disse Jorge, ajudando Fred a se levantar.
—Não vejo dificuldade alguma. Talvez fosse até divertido, mas eu duvido.
Depois aconteceu algo totalmente inesperado. Mel apareceu por trás de mim e ergueu a varinha na minha garganta.
—Melhor caminharem agora – disse ela aos gêmeos – ou vão precisar de um novo amiguinho estrangeiro – e ao comensal – Não vamos esquecer, Keller, da minha parte nessa entrega.
—O que combinamos, Donovan. Nada a mais.
Quando vi seu rosto, parecia que eu estava vendo outra pessoa totalmente diferente. Havia ali um misto de violência, ódio e desprezo que eu não teria imaginado nela em nenhum momento. E, ao ver nosso espanto, ela mostrou o braço esquerdo, cuja manga estava levantada, e exibiu orgulhosamente uma Marca-Negra. A inscrição no Livro da Vida agora fazia sentido: Mellanie era uma Comensal da Morte. A primeira Comensal da Morte lufana de que se tinha conhecimento. O outro comensal, o tal de Keller, empurrou os gêmeos pra frente e abriu espaço me esperando. Enquanto isso, pelo que eu podia ouvir, os outros dois já estavam destruindo tudo o que podiam dentro da loja dos Weasley. Rapidamente saíram e agitaram as varinhas pra cima. Uma explosão final e todas as janelas estavam em chamas. Sem mexer os pés, apesar de empurrado, me virei de novo até Mel:
—Por quê?
—O plano era só pegar os traidores do sangue, assim que eu conseguisse deixá-los indefesos. Mas aí eu recebi uma coruja de Severo Snape, há três meses, com a mesma mensagem pra todos os comensais de Hogsmeade e Londres, pra procurar um aluno fugitivo com a sua descrição. Dizia que não era prioridade, mas ainda assim importante. Eu não ia me preocupar com isso, mas já que você mesmo veio parar na minha mão, então melhor pra mim. Só precisei esperar pelo momento certo, em que os três não poderiam me oferecer nenhuma resistência. Agora andem logo, vamos levá-los até Snape – dito isso, agitou a varinha e saíram cordas que prenderam nossos pulsos atrás das costas.
Keller me pegou pelo colarinho e me atirou em cima dos gêmeos, nos forçando a caminhar logo. O estranho cortejo seguia tranquilamente pelo Beco Diagonal, àquela hora da noite, onde as sombras eram suas amigas e nossas testemunhas. À frente, Keller e Mellanie. No meio, eu e os gêmeos. Atrás de nós, os dois comensais cujos nomes eu não ouvira. Com alguns passos dados, me dei conta de um detalhe: nós três estávamos amarrados, mas nenhum deles pegou minha varinha, apenas as de Fred e Jorge. O único problema era que, já que minhas mãos estavam amarradas nas costas, não tinha como eu pegá-la sem ser visto. Comecei a entrar em desespero, pois precisava pensar em alguma coisa e tinha que ser rápido. E aí me veio um estalo. Tinham várias pedrinhas soltas no chão, e em alguns lugares tinham cacos de vidro das janelas. Qualquer um dos dois me serviria, só precisava simular um tropeço. Onde me pareceu mais apropriado, fingi virar o pé e cair de costas no chão. Como eu esperava, fui xingado e levantado, mas sem que ninguém notasse, tinha nas mãos um pedacinho de vidro, que fui usando discretamente pra cortar as cordas. Só precisava fazer isso de um modo que não parecesse óbvio, e a pouca luz acabou me ajudando nisso. Me cortei algumas vezes, mas não demorei muito pra me soltar. Pra que ninguém visse a corda solta cair, me virei de lado e ameacei falar alguma coisa, e o mesmo comensal que me levantou do chão me apontou a varinha. Voltei à minha posição inicial. Agora tinha as mãos livres, ninguém viu o que aconteceu.
Agora o problema mais sério: como pegar a minha varinha? Me ocorreu por um instante que o único modo seguro de fazê-lo seria distrair meus sequestradores. Como eu o faria? Por incrível que pareça, essa foi a pergunta mais fácil de responder. Conforme caminhávamos, passávamos por algumas entradas de becos, que eu sabia serem interligados em alguns lugares. Como eu já estava livre, era só correr beco adentro e, se fosse sem saída, voltar soltando feitiços. Saí em disparada na primeira oportunidade que tive assim que terminei meu raciocínio. Tanto os comensais quanto Fred e Jorge pararam, desconcertados, enquanto eu fugia. Levou alguns segundos até que a própria Mel desse o comando pra que seus estúpidos colegas agissem. O beco que eu entrei bifurcava, então foi só seguir e esperar.
—Petrificus Totallus! – gritei, assim que apareceram. Os corpos deles enrijeceram e caíram no chão.
—Ouvi alguma coisa! Aqueles imbecis deixaram ele fugir! – Mel estava vindo pessoalmente. Eu tinha que correr, mas não podia abandonar os gêmeos, então me obriguei a ficar. Quando a garota apareceu, sua expressão me dizia que estava disposta a qualquer coisa.
—Acha que é esperto? – disse ela – Devo te lembrar que Snape te quer de volta, mas acho que não faz questão de que seja vivo.
—Se me matar vai ser pior pra ti. Tu não sabe o que Snape quer comigo.
—Não me importa. Ninguém me desafia e sai impune. Levante a varinha e vamos lutar!
Não me importo em admitir, tive muito medo nessa hora. Mas como se a situação já não fosse suficientemente bizarra até aquele ponto, o que aconteceu depois superou tudo: ouvi de algum lugar um “Avada Kedavra” e vi uma luz verde bem famosa sair da escuridão e acertar em cheio as costas da comensal, que caiu sem qualquer tipo de reação. A traidora estava morta. Da mesma escuridão surgiu uma varinha, a mão que a empunhava e seu dono, o comensal Morwood, bem mais sóbrio do que quando eu o vira no bar de Aberforth.
—Criança idiota – disse ele, mexendo o cadáver com a ponta do pé – Nunca aprovei esse método, fala muito e faz pouco. Um verdadeiro seguidor do Lord das Trevas não dá aberturas. Quer dizer então que você é o famoso aluno fugitivo? – nem terminou de falar e agitou a varinha pro meu lado, me dando de novo aquela incômoda sensação de cordas, só que dessa vez prendendo todo o meu corpo – Seja quem for, deve ser importante, então você vai me ajudar a voltar com honras pro meu posto em Hogsmeade. Vamos de uma…
Uma nova luz, dessa vez vermelha, surgiu e pegou meu atacante, que voou alguns metros pro lado e caiu com tudo no chão. Já estava começando a me preocupar com o tanto de comensais que poderiam estar dipsutando a minha captura, quando, pra meu alívio, Fred e Jorge apareceram.
—Conseguimos derrubar Keller e recuperar nossas varinhas. Quem era o seu amigo?
—Só mais um dos comensais que estão me procurando a mando do Snape. Ele matou a Mel.
—Sério? Bom, não dá pra dizer que sentimos pena. Traidora desgraçada.
—Mas fazia uma bela faxina.
—E cozinhava bem.
—E arquivava bem.
—E era bem organizada.
—Esperem – disse eu, interrompendo os dois – A loja foi destruída, o que vocês vão fazer?
—Nós vamos pra casa do nosso irmão Gui.
—Vem com a gente, Gibb?
—Não dá, preciso dar um jeito de ir ao ministério.
—Te acompanhamos até fora do Beco Diagonal. Agora somos todos mochileiros.
E assim deixamos aquele lugar em ruínas. Nossa cota de aventuras no Beco Diagonal estava definitivamente encerrada.
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