Um Gibb em Hogwarts

14 O Tempo Está Passando


Notas iniciais
“Time Is Passing By” foi escrita por Barry Gibb, nunca lançada oficialmente

Caros tios, cheguei a um ponto da minha narrativa em que preciso ficar dando pulos no tempo. Não faço isso pra cortar história ou pra poupá-los de detalhes sórdidos, e sim pela própria fidelidade ao que é importante. Minha história, embora fantástica e de certa maneira surreal, não foi moldada de modo a se tornar um épico ou um atrativo. É puramente a vida real, com todos os contratempos que existem. É preciso que compreendam, antes de tudo, que tudo o que falo são coisas que realmente aconteceram comigo, mas que não servem para um romance ou uma peça. Vou continuar me mantendo fiel aos fatos até chegar ao ponto em que a ação volta. Mais uma vez, peço desculpas pelo relato mais seco a partir de agora.

Dias depois que fugi do Beco Diagonal, tive que escolher entre continuar na comunidade bruxa ou passar para a Londres trouxa. Por um lado, eu poderia estar mais perto de onde conseguir informações sobre minha amada Luna, e por outro eu teria mais chances de sobreviver para poder procurá-la. Optei por continuar entre os bruxos. Perambulava pelas proximidades do Ministério da Magia, fingindo trabalhar em alguma coisa que exigia que eu ficasse de guarda constantemente. O bom de ser bruxo é que acontece uma coisa curiosa: por mais que eu ficasse exposto a chuva, poeira e sujeiras da rua, sempre podia passar a impressão de que estava bem asseado, mesmo morando nas ruas com a mesma muda de roupa dia após dia. E viva a magia! Com o tempo fui me dando conta de que alguns funcionários do ministério não só se acostumavam a me ver eternamente por perto, como outros tantos tinham até certo receio de passar por mim. Tive uma ideia audaciosa: por que não aproveitar esse receio pra conseguir um passe pra dentro? Com certeza teria alguma coisa que me ajudasse a descobrir onde Luna estava.

O ruim do plano era que eu não poderia treinar primeiro, pois algum desconfiado poderia alertar alguém mais inteligente lá dentro, e aí o esforço seria em vão. Também não poderia usar o Livro da Alma pra escolher alguém, porque eu precisava saber o nome. Sendo assim, treinei apenas mentalmente o que eu deveria fazer. Um dia, no início da tarde do último dia de abril, quando senti que estava pronto, parei um funcionário perto da porta.

—Com licença, preciso que venha até aqui – disse, afastando o casaco e mostrando a varinha na cintura. O homem que eu parei parecia um sujeito tranquilo, ordeiro, tive até pena de fazer aquilo, mas o escolhi justamente por pensar que seria o que menos me daria problemas.

—Por quê? O que eu fiz? – ele disse, visivelmente assustado, mas sem resistir.

—É apenas uma verificação de rotina. Poderia me dizer seu nome?

—Válter Rokland, senhor.

—Situação sanguínea?

—Puro sangue, senhor. Minha família inteira é de bruxos, não há nenhuma relação de…

—Entendo, entendo. É apenas uma verificação. Há quanto tempo trabalha no Ministério da Magia?

—Estou há cinco anos no Comitê de Registro dos Nascidos Trouxas, antes disso fiquei dois anos no Departamento de Controle e Regulamentação de Criaturas Mágicas.

—Nesses últimos dias, tem visto algo estranho?

—Senhor?

—Sabe a que me refiro – joguei verde, admito, mas colhi maduro.

—Não, senhor, nada fora do comum.

—Não estaria acobertando alguém?

—De forma alguma, senhor! Sou inteiramente fiel ao ministro.

—Muito bem. Então não haverá incômodo nenhum de sua parte se eu escoltá-lo até lá dentro, não é?

O tal Rokland pareceu meio assustado diante dessa proposta. Não podia lhe dar tempo de pensar, então reforcei o “não é?” com uma ameaça menos sutil. Rapidamente ele me permitiu acompanhá-lo. Usamos a entrada de funcionários (a qual não pretendo descrever em nome de algumas normas de boa higiene) e, uma vez dentro, dispensei-o. O Ministério da Magia, se é que posso descrevê-lo como a seguir, é como uma estação rodoviária trouxa, em tons de preto e prata e sem janelas. Não há momento em que não se possa ver grandes grupos de bruxos e bruxas correndo e se acotovelando. Pra mim era excelente, pois a bagunça impediria que a maior parte prestasse atenção em mim. O problema é que eu teria que estar sempre dentro de um grande grupo, ou então ficaria exposto. E eu precisava chegar até o Departamento de Verificação das Leis da Magia, pois era onde eu acreditava poder achar algo que iluminasse o desaparecimento de Luna.

Uma enorme guia perto do átrio principal me deu a localização do departamento, em um dos níveis inferiores. Poucos sabem, mas há escadas no Ministério da Magia. A grande maioria só conhece os sofisticados elevadores que possuem caminhos verticais e horizontais. Isso pra mim era uma vantagem, pois me permitia mais discrição enquanto circulava pelo ministério. Consegui evitar boa parte dos verdadeiros funcionários do prédio subterrâneo. Chegando na porta do departamento, porém, aconteceu o que não podia: fui descoberto.

—Ei, o que está fazendo aqui?

Eu estava no meio de um corredor comprido e estreito, com granito exposto. Só tinha dois caminhos, pra ir e pra voltar. O homem que me viu estava vindo na direção contrária, e já com a mão na varinha. Assim que chegou perto de mim, mostrou metade dela e perguntou de novo:

—Quem é você e o que está fazendo aqui?

—Eu sou Victor Sherlen, sou novo aqui – dois segundos depois percebi que tinha dito uma das maiores besteiras da minha vida. Era óbvio que ninguém recrutava funcionários naquela época. Pra resumo de conversa, ele agarrou meus braços e me levou pra uma porta no fim do corredor, com uma escada direto pra baixo. Dizia que eu cheirava a sangue ruim – que, caso nunca tenham ouvido o termo, é um nome pejorativo pelo qual são chamados bruxos de família não-mágica – e que deveria me entregar direto aos dementadores.

—Me solta! Eu não fiz nada!

—Se esgueirando como um espião e mentindo sobre os motivos de estar aqui! Eu já tenho o suficiente pra te deixar aqui por um bom tempo.

—Isso é ridículo!

—De onde você é?

—O que te interessa? Já concluiu o que queria sobre mim, de que adianta…

—Você parece um pirralho. Por acaso fugiu de Hogwarts? Será que você é o fujão que o duas-caras do Snape não conseguiu segurar no castelo?

—E se eu for?

—Daí que eu tenho mais um motivo pra te deixar quietinho aqui, grifnório. Se Snape não sabe honrar o trabalho de um sonserino, eu mesmo trato disso. Não vou te devolver pra Hogwarts, seu destino será bem pior.

Ele tirou minha varinha e me jogou dentro de uma espécie de cela, fechando a grade. Vi perto de mim outros bruxos e bruxas em situação semelhante. Assim que o homem saiu, perguntei a um senhor na cela do lado:

—O que está acontecendo?

—Controle interno – ele respondeu – Alguns funcionários são parados aleatoriamente e trazidos aqui pra esperar algum interrogatório específico. Desde que Harry Potter invadiu o ministério meses atrás, o ministro anda paranoico com todo mundo que circula livremente por aqui.

—Harry Potter esteve aqui? Como ele conseguiu entrar? O que ele queria?

—Ele entrou com os amigos dele usando Poção Polissuco, pra se fazer passar por funcionários do ministério. Não ficou bem claro o que queriam, embora tenham atacado a Dolores Umbridge. A maioria diz que eles vieram matá-la, eu particularmente duvido.

Eu comentei algumas vezes sobre a época em que Dolores Umbridge foi professora e depois diretora de Hogwarts. Ninguém na escola tinha boas lembranças dela, mas duvidava que Harry, Rony e Hermione fossem arriscar um plano tão elaborado simplesmente pra caçar nossa ex-mentora. A verdade é que eu nunca soube o que realmente aconteceu. Fiquei algumas horas trancado ali e vi bruxos e bruxas serem praticamente arrastados de um lado pro outro. Era realmente desumano. Por ser subsolo, não tinha muita noção de tempo, mas agora sei que já era noite fechada quando a última grande reviravolta aconteceu. Como eu disse no início desta carta em particular, as coisas aconteciam sem que eu tivesse controle sobre elas, então no fim das contas eu acabava simplesmente indo pra onde a maré me levava. O que aconteceu depois, no entanto, foi determinante.

Ouvi gritos vindos dos andares de cima, até que um monte de guardas desceu ao mesmo tempo tentando manter alguma ordem. Alguns deles diziam entre si “O Lord das Trevas está indo pra Hogwarts”. Senti medo como nunca antes na vida, pois isso significava o pior cenário possível na nossa batalha. No meio da confusão causada pelos guardas, pude alcançar a varinha de um deles discretamente e usá-la pra convocar a minha própria. Então aconteceu: minha moeda da Armada começou a se manifestar, o que dizia que Neville estava me chamando em Hogwarts. Agora que estou apenas relembrando de tudo, eu não sei dizer por que eu pensei isso, mas tinha a convicção de que aquilo significava que Luna estava a salvo e me esperando. Talvez fosse apenas esperança. Abri a porta e libertei meus colegas de cela. Então simplesmente saí tocando feitiço em todo mundo até chegar no átrio. As lareiras de saída estavam se entupindo rapidamente, então precisei correr até as que estavam no fim do enorme corredor. Nisso, o comensal que me prendeu começou a correr atrás de mim.

—Peguem-no, imbecis! Ele está indo pra Hogwarts!

Realmente, foi uma atitude muito imbecil deixá-lo deduzir que eu era o grifnório foragido. Felizmente pra mim, ninguém foi rápido o bastante pra me alcançar, e eu consegui chegar em uma lareira pra fugir sozinho. Como não tive tempo algum pra raciocinar, acabei indo parar na Estação King`s Cross, sem sair de Londres. Peguei uma vassoura que estava por ali, perdi mais tempo do que eu queria enfeitiçando-a pra voar e fui direto pra Hogsmeade. Logo me deparei com um novo problema: vários Comensais da Morte correndo feito baratas tontas de um lado pro outro. Parecia que eles estavam tentando se agrupar pra chegar em algum lugar, ou pra esperar algum comando. Comando que não demorou muito pra vir. Como se viesse dos céus, uma voz gélida e ameaçadora disse: “Entreguem-me Harry Potter, e ninguém sairá ferido. Entreguem-me Harry Potter, e não tocarei na escola. Entreguem-me Harry Potter e serão recompensados. Terão até meia-noite”.

Aquilo me bastava pra entender o que estava acontecendo: Voldemort se preparava pra atacar Hogwarts.