Um Gibb em Hogwarts
15 A Batalha do Azul e do Cinza
Notas iniciais
O aviso de Voldemort podia ser ouvido em toda Hogsmeade, e muito bem na entrada do vilarejo, onde eu estava. Pra minha sorte, todos os Comensais da Morte que estavam ali empunharam as varinhas e saíram em direção ao castelo, então eu pude circular livremente, mesmo que ainda não com tanta calma assim. Então tratei de correr até o bar Cabeça de Javali, rezando pra que a passagem ainda estivesse aberta. Quando entrei lá, Aberforth simplesmente olhou pra mim e gritou:
—Mas o que é isso? Virou Festa da Uva? Quando vai parar de aparecer povo no meu bar?
—Como assim? O que está acontecendo? – perguntei, confuso.
—Começou quando aquele garoto Potter apareceu com seus amigos…
—Potter? Então Harry Potter esteve aqui mesmo?
—Pois não é o que estou dizendo? Veio aqui e enfiou na cabeça que tinha que ir a Hogwarts. Idiota, com todos aqueles comensais atrás dele. Você mesmo acabou de ouvir Voldemort ameaçando todo mundo. Mas eu percebi que se eu não o deixasse ir ele ficaria aqui me enchendo o saco com a tal missão que meu irmão Alvo deixou pra ele. Obcecados, os dois. Então mostrei-lhe a passagem pelo quadro de minha irmã e eles se foram. Ah, se eu imaginasse que o meu bar ia se transformar numa estação de trem com tanta gente aparatando aqui!
—Quantos mais vieram depois?
—Um bando de garotos, mais aqueles dois gêmeos com a irmã cabeça-de-fogo, uma moreninha oriental, uma loirinha avoada que parecia estar indo comer doces…
Opa! Aquela descrição me interessava! Significava que Luna realmente estava em Hogwarts! Mais do que depressa saí correndo para o quadro de Ariana Dumbledore, com Aberforth correndo atrás de mim.
—O que está fazendo, Gibb? Volte aqui! Pelo menos você tem que ter alguma razão na cabeça e ficar!
Cheguei na frente do quadro. Ariana sorriu docemente pra mim. Da primeira vez que a vi, como já tinha dito, achei que ela era um pouco parecida com Luna, e naquele momento as duas pareciam gêmeas. Aberforth me alcançou:
—Pare já, Gibb! Não vou mais mandar ninguém ir morrer naquele castelo!
—Aberforth, por favor! Eu preciso ir! Eu tenho que encontrar Luna! Não posso mais me permitir simplesmente ficar alheio enquanto ela corre o risco de sofrer qualquer coisa. Nós dois sabemos o que é se sentir impotente diante das circunstâncias. Mas você não liga pra isso, não é? Você teria feito qualquer coisa por Ariana, não é? Me deixe fazer por Luna, por favor. Eu a amo. Simplesmente isso, eu a amo.
Não sei se foram minhas palavras ou minha expressão, mas o fato é que o troncudo homem se desfez por completo. Não falou mais nada, apenas me observou com olhar triste. Notei que ele não sabia o que fazer. Então olhou para o quadro da irmã, que continuava sorrindo, agora pra ele, e com mais brilho. Por fim, ele reteve uma lágrima que caía no canto de seu olho, pegou a varinha e disse:
—Eu vou com você. Mas se eu encontrar aquele Potter, ele vai me ouvir.
Entrei na passagem e ajudei-o a subir. Corremos tudo o que o nosso fôlego nos permitia. No caminho, Aberforth me explicou que aquela passagem também tinha sido utilizada pra retirar a maior parte dos alunos de Hogwarts. Mas nenhum dos que tinham entrado saíra, o que só confirmava que Luna ainda estava lá. Eu só tinha usado a passagem uma vez, lembrava que era muito longa, mas a ansiedade por encontrar a minha amada Luna fez com que tudo passasse rápido. Quando chegamos na Sala Precisa, Gina e uma garota com cabelo de cor violeta, que depois eu descobri se chamar Tonks, estavam lá, de guarda.
—Matthew? Matthew, você voltou! – Gina gritou, vindo me abraçar.
—Lógico que eu voltei! Assim que recebi a convocação da Armada de Dumbledore. E falando no sobrenome, olha quem veio comigo!
Ver Aberforth não pareceu animar muito Gina, mas Tonks logo soube aproveitar sua presença ali:
—Excelente. Mais um membro da Ordem da Fênix. Estávamos mesmo precisando de ajuda com as defesas. Venha, precisamos ver os corredores. Gina, eu já volto.
Puxei Gina para um canto, perguntando por Luna. Ela respondeu:
—Primeiro ela levou Harry até o Salão Comunal da Corvinal, depois foi pro Salão Principal junto com os outros alunos. Era pra eu ter ido junto, mas meus pais…
—Eu vou procurá-la – interrompi-a, indo direto para a escada por onde Tonks e Aberforth tinha saído. Gina tentou me falar alguma coisa, mas eu não lhe dei ouvidos.
Saí da Sala Precisa e pude perceber, pela primeira vez, o horror que aquela guerra estava fazendo. Hogwarts estava sendo atacada de todas as direções. De um lado, metade da parede tinha sido destruída. Alguns alunos estavam duelando com dois Comensais da Morte. Fui ajudá-los e estuporei os dois bandidos. Três dos alunos vieram comigo pelas escadarias. O que mais se ouvia era vidros explodindo e maldições em cima de nós. Isso me permitiu prestar mais atenção em detalhes sem me preocupar muito em morrer. Em determinado momento nos separamos, e eu cheguei sozinho ao Salão Principal. Ouvi um grito que me gelou a alma: Luna estava sob ataque. Entrei num corredor e no fim dele, quase dentro do salão, tinha um Comensal da Morte sem capuz se aproximando com a varinha em riste. Luna estava caída no chão, sem defesas. O Comensal levantou a varinha até acima da cabeça e começou a dizer:
—Avada…
Não tive dúvidas. Pulei no meio do corredor e gritei:
—ESTUPEFAÇA!!!!!
Não sei explicar o motivo, mas o feitiço acabou indo mais forte do que o normal. O homem voou pra trás uns dez metros e caiu desmaiado. Assustada, Luna se virou pra mim. Quando percebeu o que tinha acontecido, ela se levantou e veio correndo me abraçar.
—Eu sabia que você voltaria – ela disse – Eu nunca duvidei de ti. Nunca.
Abracei-a nos ajoelhando no chão e beijei-a. Por alguns segundos podíamos nos dar ao luxo de esquecer que estávamos em uma guerra. Olhei no fundo de seus olhos e, me concentrando pra não chorar, disse:
—Luna, me perdoa… Me perdoa… Eu não quis te abandonar, é sério, eu tentei te procurar…
Ela simplesmente calou minha boca com um delicado selinho. Sorria como poucas vezes eu a vira sorrir. Aquele sorriso que eu tanto amo. Aquela garota que eu tanto amo. Aquele anjo por quem eu daria a vida sem pensar duas vezes.
—Que casal simpático – ouvi uma voz atrás de nós, sarcástica. No meio do salão tinham dois comensais, também sem capuz. O que eu tinha estuporado estava voltando a si. Reconheci-os das fotos que saíram no Profeta Diário uns tempos antes: Rodolfo Lestrange e seu irmão Rabastan. Me separei de Luna e ambos retomamos nossas varinhas.
—Onde está Potter? – eles gritaram – O Lord das Trevas o quer agora!
—E o que faz vocês pensarem que a gente vai simplesmente entregá-lo assim?
—Ninguém faz o Lord das Trevas de idiota. Vocês não podem escondê-lo pra sempre. Entreguem-no agora e o mestre saberá recompensá-los. Nós sabemos que a garota sabe onde ele está. Vimos os dois juntos.
—Não vou entregar Harry! – gritou Luna, do meu lado – E podem me torturar o quanto quiserem que mesmo assim não vou falar!
—Cuidado com o que deseja, bruxinha…
Nesse momento, minha raiva veio ao máximo. Gritei que ninguém encostava um dedo em Luna enquanto eu estivesse vivo e lancei um feitiço nos três, que pegou-os de surpresa. Mas dessa vez, não demorou muito pra que eles se levantassem e viessem atacar de volta. Rodolfo e Rabastan ficaram comigo enquanto Luna voltava a duelar com o primeiro comensal, que era novo pra mim. Durante alguns minutos ficamos naquilo, ataque e defesa, até que Luna eu ficamos sem visão privilegiada um do outro. Comecei a me concentrar mais em manter os irmãos Lestrange afastados de mim. Lançava feitiços de levitação pra jogar pedaços dos destroços neles e me cobria com feitiços de proteção. Vários outros estudantes de Hogwarts apareceram, assim como vários Comensais da Morte e partidários, e um novo núcleo se instaurou ali. Saí correndo pelo meio do salão, peguei Luna pelo pulso e tratei de tirá-la dali.
—O que está fazendo, Matthew?
—Temos que sair daqui! Não podemos nos expôr muito!
Claro que eu pensava naquilo mesmo, mas o que eu não contei era que a minha principal preocupação era tirá-la dali com vida. Por sorte, nenhum Comensal da Morte apareceu pra barrar nosso caminho. Assim que me pareceu seguro, parei e pus minha varinha em alerta. Luna fez o mesmo. Estávamos fora do castelo, não muito à vista, do lado do portão principal.
—Luna, o que Harry queria no Salão Comunal da Corvinal?
—Ele começou a falar sobre algo que ajudaria a derrubar você-sabe-quem, algo que tinha pertencido à fundadora Rowena Ravenclaw quando viva. Sugeri que talvez fosse o Diadema perdido de Corvinal, já que é o objeto de maior interesse de nossa Casa. Meu pai está tentando duplicá-lo, e sei que está ficando maravilhoso.
—Vocês acharam?
—Infelizmente, ninguém sabe onde está. Perdeu-se há centenas de anos, mesmo antes dela morrer. Levei-o para o nosso Salão Comunal porque lá tem uma estátua da fundadora, com o Diadema na cabeça. Pensei que pudesse servir de guia para encontrar a original, mas acabamos sendo descobertos por Aleto Carrow…
—E o que houve?
—Eu a estuporei, mas infelizmente foi depois de ela ter chamado você-sabe-quem. Se eu tivesse agido antes ela não teria conseguido e talvez nada disso estivesse acontecendo… Se eu não fosse tão avoada teria percebido…
Já sabia aonde aquilo daria. Encostei-a na parede e abracei-a de forma delicada, impedindo-a de continuar falando. Não aguentava de dor ao vê-la se culpar de tudo de ruim que acontecia, logo ela que não tinha uma dose sequer de maldade em seu interior. Fiquei um tempo com ela em silêncio.
—Eu não quero te ver triste, Luna – finalmente eu disse – O único modo de nos mantermos lúcidos aqui é acreditarmos que podemos vencer. Pense em coisas felizes, meu amor. Pense em coisas felizes…
Ela nada respondeu. Mas me olhou com os olhos lacrimejantes. Voltei a beijá-la, mas dessa vez não durou muito. Uma voz perto de nós disse:
—Será que é hora disso?
Ernie e Simas, colegas grifnórios do meu próprio ano, estavam a uns passos da gente, olhando divertidos. Nos recompomos, um tanto envergonhados, e pegamos nossas varinhas de volta, que estavam no chão perto de nós. Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa, porém, Simas disse:
—Harry, Rony e Hermione estão indo em direção a Floresta Proibida. Acho que devíamos ir lá escoltá-los.
Sem mais negociações, fomos. Podíamos ver, a mais ou menos cem metros, os vultos dos três correndo pra dentro da Floresta Negra. No nosso grupo, Simas ia a frente, seguido por Ernie, Luna e eu. De repente, começamos a sentir um frio bem característico.
—Dementadores – disse Ernie, se virando pra nós – E devem ser vários, não muito a frente.
—Cuidado! – gritou Simas, lançando um feitiço em cima da minha cabeça. Antes que eu pudesse reclamar, Luna fez a mesma coisa. Quando me virei, vi que um Comensal da Morte surgira nas nossas costas. Mandei os três correrem na minha frente enquanto eu duelava com ele. Luna hesitou, mas acabou indo. Aquele mascarado, por alguma razão, estava se mostrando mais difícil do que os outros. Até que eu me enchi dele e lancei um Feitiço do Corpo Preso. Deu até pena vê-lo se debatendo, mas mereceu. Corri até ele e peguei sua varinha, atirando-a o mais longe que consegui. Quando eu me preparava pra me juntar aos outros, eles estavam voltando.
—O que aconteceu? – perguntei.
—Salvamos os três com nossos Patronos e eles foram, se ouvi bem, pra Casa dos Gritos. Agora precisamos voltar pra Hogwarts – respondeu Simas.
Voltando pro castelo, pudemos notar o tamanho do estrago: mais paredes estavam destruídas, havia novos focos de incêndio, gritos e mais gritos, maldições e proteções pra tudo que era lado. Hogwarts estava irreconhecível. Simas e Ernie avançaram na direção da cabana de Hagrid, enquanto eu e Luna voltávamos para o portão principal. Pra nosso espanto, a batalha que tinhamos deixado lá ainda não terminara. Os mesmos alunos lutavam com os mesmos Comensais da Morte, e agora a professora McGonagall estava ali no meio, com o seu costumeiro coque já totalmente desfeito. Puxei Luna pra um canto e ativei feitiços de proteção na nossa volta. Porém, não adiantou, porque logo fomos vistos. E justamente por Rodolfo Lestrange.
—Ora, vejam quem voltou pra brincar. Pensei que já tivessem se cansado de mim… Crucio!
Joguei Luna pro lado e me atirei pro lado contrário. O ataque pegou no meio, bem na parede. Tentei estuporá-lo e ele repeliu meu feitiço. Mas serviu pra distraí-lo de Luna, que era o que eu queria. Daí pra frente, começamos uma troca de feitiços de duelo que durou vários segundos. Até que aconteceu o inesperado: Alguém lançou um ataque nas costas de Rodolfo, o que o fez se distrair. Quando eu vi, ele estava indo na direção da garota que tentara atacá-lo, ou seja, Luna. Não sei como consegui velocidade pra isso, mas corri e me pus na frente dos dois assim que a maldição saiu da varinha de Lestrange. Obviamente, fui atingido. Eu lembro de ter sentido como se alguém tivesse dado um soco no meu peito, me jogando de costas na parede. A partir daí, minha visão começou a ficar borrada e minha audição começou a se esvair. Lembro de ter visto o telhado de Hogwarts por algum tempo, ouvi o grito de Luna, e vi a professora McGonagall se debruçando em cima do meu peito, dizendo:
—Bom trabalho, Matthew, mas agora você precisa recuar.
Ela fez um movimento com a varinha e um tipo de véu caiu em cima do meu rosto. Então eu apaguei em definitivo.
Fale com o autor