Um Gibb em Hogwarts

16 Com Meus Olhos Fechados


Notas iniciais
“With My Eyes Closed” foi escrita pelos irmãos Barry, Robin e Maurice Gibb, os Bee Gees, e lançada no álbum “Still Waters” em 1997

Tio Barry, tia Linda, eu estava com um certo receio de escrever essa parte, porque não sei como vocês vão recebê-la. Mas decidi fazê-lo. Não posso afirmar com certeza se isso realmente aconteceu ou não, mas é como me lembro. De qualquer forma, devo alertá-los de que isso pode ser um pouco chocante pra vocês.

Eu abri os olhos lentamente. Estava no meio de uma floresta. O sol brilhava fracamente e fazia um friozinho agradável. Um pouco mais à frente, cerca de uns cem metros de distância, tinha uma casinha de madeira no meio de uma clareira. Fumaça saía da chaminé. Na frente da casa, um homem estava sentado, passando o dedo na areia. Não pude deixar de pensar que eu tinha sido aparatado da guerra, ou alguma coisa semelhante que me tirou do castelo e me mandou pra aquele lugar desconhecido. Aproximei-me lentamente do homem. Quando já estava relativamente perto, arrisquei chamar sua atenção:

—Com licença, senhor?

No momento em que ele se virou pra mim, tomei um susto. Tio Andy Gibb estava olhando pra mim. Apesar de eu ter apenas oito anos na época em que ele morreu, em 1988, lembrava com precisão do cabelo loiro, dos olhos claros e do rosto jovem. Ele parou o que fazia e se levantou.

—Meu querido sobrinho! É bom revê-lo, Matthew. Eu estava com saudade de falar contigo. Já faz tanto tempo, pena que eu não pude te ver crescer.

—Mas o quê…?

Antes que eu pudesse terminar a pergunta e me refazer do susto, ele abriu a porta e gritou pra dentro:

—Papai, o Matthew chegou!

Quase desmaiei de novo. Vovô Hugh Gibb, que morreu em 1993, saiu da cabana e sorriu, satisfeito. Tinha um pouco mais de cabelo do que eu me lembrava, mas ainda mantinha o mesmo olhar contemplativo e o sorriso satisfeito.

—Meu neto… Estou tão feliz por você estar bem!

—Papai, acho que ele não está entendendo nada – disse tio Andy, apagando com o pé o que tinha escrito ou desenhado no chão.

—Ah, sim, é verdade. Antes de tudo, Matthew, permita-me esclarecer um detalhe: você não está morto.

—Hã… Mas então…?

—Entre, entre. Explicaremos tudo lá dentro.

Fiz como ele disse. A cabana tinha apenas uma pequena cozinha. Tio Andy pegou uma cadeira para si e posicionou-a na mesa que tinha no centro. Vovô Hugh fez o mesmo, e mais uma pra mim. Sentei-me e ele buscou o bule, servindo café pra nós três. Tio Andy começou a falar:

—Estivemos observando vocês durante o ataque a Hogwarts. Obviamente, não podíamos fazer nada, já que o mundo dos mortos não pode interferir de maneira nenhuma no mundo dos vivos. Mas você entrou em uma espécie de coma, então criou-se uma pequena passagem, que é onde estamos agora. Mesmo assim, você não poderia nos ver nem nos ouvir. Sua professora Minerva ajudou um pouco nisso, mesmo que não saiba. Graças a esse artifício, podemos conversar, mas você não pode ir pra lugar nenhum além daqui.

—E nem nós – completou vovô – podemos fornecer qualquer detalhe. O motivo de estarmos aqui é simplesmente para não deixar a sua alma se afastar muito do seu corpo. Isso é essencial pra que você continue vivo.

—Então… Vocês estão me salvando?

—Fazendo o possível. Não sabemos quanto tempo você vai continuar aqui até voltar. O tempo corre em velocidades diferentes aqui e lá fora. Um minuto aqui pode durar uma hora, um ano ou até uma década.

—Mas vocês podem ver o mundo dos vivos? Como está Luna? O que aconteceu depois que eu saí?

—Relaxe, sobrinho – disse tio Andy, enchendo novamente a sua xícara – por mais que queiramos conversar a respeito, não podemos dar essas explicações. Aproveite sua estadia por aqui e torça para voltar vivo.

Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, ouvimos uma voz lá fora:

—Ô de casa! Tô entrando!

Olhamos juntos para a porta: Tio Maurice, com seu costumeiro chapéu de feltro e sua barba curta emoldurando o sorriso travesso, entrou. Tio Andy e vovô Hugh pareciam tão surpresos quanto eu, mas felizes.

—Andy! Papai! Matthew! Que bom ver vocês! – disse ele.

Nós três o abraçamos, nos sentindo mais animados. Tio Andy começou a encher tio Maurice de perguntas sobre como ele havia parado ali.

—Não sei bem – respondeu ele – Eu ainda não sei se entrei em coma ou se morri. Eu comecei a sentir umas dores e fui internado num hospital em Miami. Depois eu fui fazer uma cirurgia, de repente estou aqui. E você, Matthew? Deu um susto na gente.

—Como estão meus pais?

—Estão mais acostumados, mas só isso. Esperançosos de que um dia você acorde.

—E Hogwarts? Soube alguma coisa?

—Não sei da comunidade bruxa desde que te trouxeram daquela guerra. E já faz tempo. Foi uma época estranha pra nós, eu, Robin e Barry, que seguimos nos apresentando e criando músicas como Bee Gees. Foi bem no início da turnê que chamamos de One Night Only. Fizemos nossos shows durante dois anos mais preocupados contigo do que com as apresentações em si.

—Sinto muito…

—Não precisa, Matthew. Família vem em primeiro lugar. Não é verdade, papai?

—Exato, meu filho.

—Por ora, aproveitemos que estamos novamente juntos. Andy, que tal um dueto?

Dispomos de vários minutos ouvindo tio Maurice e tio Andy cantarem algumas de suas músicas à capella. Comecei a me sentir estranhamente leve. Havia uma paz indescritível naquele lugar. Não paramos de sorrir em nenhum momento. Nenhum pensamento ruim nos ocorria. Mesmo pensar em Luna, sem saber o que poderia ter acontecido, não me entristeceu. Ao contrário, lembrar dela me fez levantar e ir cantar com eles, aquelas poucas que eu lembrava. Vovô pegou duas colheres e pôs-se a batucar, lembrando dos seus tempos de baterista quando mais jovem. De repente, vi na janela da casa o rosto de alguém que lembrava muito o tio Robin, mas com bem menos cabelo, e um rosto mais “chupado”. Quando ele percebeu que eu o tinha visto, sorriu e bateu com o dedo duas vezes na janela, antes de desaparecer. Tio Maurice e tio Andy rapidamente correram pra porta e a abriram. Quando o homem entrou, percebi que era realmente o tio Robin. Ainda assim, não entendia muito bem o que estava acontecendo.

—Como veio parar aqui? – perguntou Maurice.

—Estive meio doente já faz algum tempo. Não sei direito o que houve depois. Sei que eu entrei em coma e acordei, mas agora não tenho certeza.

—Até que enfim me aparece com um cabelo decente – disse o vovô, com um sorriso não disfarçado – Era uma briga cuidar de sua aparência quando você era criança.

—Papai! Até aqui me lembra disso? – retrucou Robin, rindo, enquanto tio Maurice fazia uma festinha em sua cabeça – Não somos mais crianças. E você, Andy? Ouvi vocês cantando enquanto vinha pra cá. Sua voz continua a mesma de antes.

—Obrigado, Robin. Agora eu tenho muito tempo pra praticar. Pelo que vejo, vocês também.

—E quanto ao Matthew? – Perguntou tio Robin.

—Acalme-se, filho – respondeu vovô – Anda não sabemos o que deve acontecer. Agora que Robin está aqui, que tal continuarmos a cantar?

Infelizmente, só tivemos tempo pra quatro músicas. Rapidamente, ouvimos um vento um pouco mais forte e a porta começou a abrir e fechar sozinha. Vovô largou as colheres e se levantou, sem desfazer o sorriso:

—Ah, já está na hora, Matthew. Você precisa voltar.

—Voltar? Mas…

—Anda logo, menino! Seus pais estão te esperando!

Entendi o que ele quis dizer. Precisava mesmo voltar. Abracei-o e agradeci por ter cuidado de mim. Me despedi dos meus tios e fui na direção da porta. Dando uma última olhada pra trás, vi o vovô sentado na mesa com tio Robin do lado direito, enquanto tio Andy e tio Maurice ficavam em pé entre eles cantando alguma coisa que, parando pra pensar, parecia “Happy Birthday, Sweet Sixteen”, que não era de nenhum deles. Quando eu saí, minha visão ficou totalmente branca, e eu senti como se caísse pra trás.