Um Gibb em Hogwarts
17 Continuando Vivo
Notas iniciais
Eu avisei que minha carta anterior poderia ser chocante. Mas, se tudo aconteceu como eu me lembro, vocês podem ficar tranquilos sabendo que eles parecem se divertir ainda mais dentro daquela cabaninha. Se não aconteceu, bem, não faz nenhum mal acreditar que eles continuam nos vendo e nos cuidando. Eu acredito nisso. Mas não posso deixar minha história incompleta, então peço licença para seguir em frente.
Quando me dei conta, estava acordando. Havia uma luz branca bem em cima de mim, mas não era forte. O teto era quadriculado e havia um cheiro adocicado bem característico. Ouvi vozes conversando, porém não conseguia identificar sobre o que falavam. Mas um detalhe eu percebi: estavam falando português.
— Olhem, ele está se mexendo! – gritou uma mulher. Eu reconheci imediatamente a voz e, fracamente, falei:
— Hã… Mãe? É você?
— Ele me reconheceu! Ele me reconheceu! Isso é um milagre!
Aos poucos, eu fui me dando conta do que estava acontecendo. Estava em um hospital... Em Porto Alegre.
— Mãe, o que aconteceu?
— Calma, meu rapaz – disse um jovem médico, chegando perto de mim e tirando um cabinho do meu nariz, provavelmente que me mantinha respirando. – O senhor se lembra de qual é o seu nome?
— Matthew Gibb.
— Ótimo. Sua memória não foi afetada. Foi um acidente de carro muito sério. Você nos deu um belo susto.
— Acidente de carro?
Antes que eu pudesse contestar alguma coisa, minha mãe se pôs ao meu lado e disse ao médico:
— Doutor, acho que é melhor que o senhor deixe que nós contemos essa história a ele depois. O senhor sabe... Foi um golpe e tanto.
— Perfeitamente. Eu entendo. Vou estar por perto, caso precisem.
Assim que ele saiu, olhei direito para a minha mãe. Estava muito mais envelhecida, mas ainda conservava o mesmo tipo de rosto, ativo e forte. Olhei as minhas mãos: estavam um pouco enrugadas. Tive medo de pensar no que eu poderia ver se pedisse um espelho…
— Quanto tempo…?
— Vinte anos. Estamos em 2018.
Quase caí duro. Vinte anos longe de Hogwarts? O que acontecera depois da invasão a Hogwarts? O que acontecera com o pessoal da Armada de Dumbledore? Como eu fui parar em Porto Alegre? Bombardeei minha mãe de perguntas até que ela pediu que eu me acalmasse.
— Vamos contar tudo o que aconteceu, meu filho. É uma história muito longa.
— Primeiro: por que estou em um hospital trouxa de Porto Alegre?
— O Comensal da Morte que o atacou, Rodolfo Lestrange, possuía um encantamento especial em sua varinha que Minerva descreveu como Maximus Mortem, que impedia que os ferimentos causados por ela fossem curados com magia. Quando você foi atingido em Hogwarts, eu e seu pai tínhamos acabado de chegar ao antigo escritório de Dumbledore, junto com vários outros membros antigos da Ordem da Fênix, e o colocamos numa rede de emergência de Pó de Flu, o que fez com que seu corpo fosse mandado para o Hospital St. Mungus, onde determinaram que você fosse transferido o mais rápido possível para um hospital trouxa. Obviamente, Londres era a opção mais rápida, mas primamos pela discrição e o trouxemos para cá. Usamos várias redes de Pó de Flu até conseguirmos finalmente chegar a Porto Alegre, onde declaramos que você tinha sofrido um acidente de carro no meio da estrada. Tivemos que… Claro que eu e seu pai não nos orgulhamos disso… Tivemos que enfeitiçar alguns trouxas para que servissem de testemunha do acidente. Você está aqui desde então.
— E vocês avisaram alguém que eu estava aqui?
— Não. Minerva achou melhor que viéssemos para cá escondidos para não alarmarmos o resto do pessoal da Ordem ou da Armada de Dumbledore. Hogwarts teve muitas perdas naquela noite. Depois eu e seu pai conversamos e decidimos também ficar em silêncio e nos desligarmos do mundo da magia.
— Por quê?
— Perdoe-nos, filho, mas ficamos com medo. O mundo da magia é muito bom, porém possui muitas surpresas desagradáveis e não queremos que aconteça nada novamente com você. A última notícia que tivemos foi de que Harry Potter mais uma vez sobreviveu e Voldemort foi definitivamente derrotado. Mas ao longo dos anos surgiram alguns bruxos com a intenção de tomar o seu lugar, o que só confirmou nossa decisão de continuar por aqui.
Aliviei-me um pouco mais. Pelo menos tudo acabara bem para o mundo da magia. Sem a minha ajuda… Confesso que me doeu um pouco pensar isso, mas não podia ser tão egoísta assim. Logo depois meu pai chegou e me abraçou com uma alegria indescritível. Ele confirmou a história de minha mãe e contou que eles deixaram seus cargos de aurores e se fixaram de vez na comunidade trouxa de Porto Alegre até que eu acordasse. Aí vieram as histórias da família, onde mencionaram a morte repentina do tio Maurice em 2003 (entendi ali o motivo de ele e do tio Robin terem aparecido de repente na cabana), o término da banda de vocês no mesmo ano, o hiato enquanto tio Robin fazia shows sozinho até 2012, quando morreu de câncer, e da sua decisão, tio Barry, de voltar em definitivo ao mundo da música. Mas ninguém havia falado sobre Luna Lovegood.
— Há algo que vocês não me contaram: souberam notícias da Luna?
Lembro até agora: a resposta da minha mãe me gelou a alma.
— Luna? Quem é Luna?
— Como quem é? Ela era minha namorada quando tudo aconteceu!
— Namorada? Minerva não mencionou isso. Quer dizer que eu tinha uma nora e nem sabia?
Paralisei, sem saber o que fazer. Isso queria dizer que Luna ficou vinte anos sem ter notícias minhas. E agora eu não tinha a menor ideia do que ela poderia estar passando ou pensando de mim.
— Luna…
— Acalme-se, meu filho – disse meu pai, batendo no meu ombro. – Agora você está aqui, pronto para começar uma vida nova. Não mudou muita coisa desde que você passou por aquilo. A moeda corrente no Brasil ainda é a mesma, a nossa casa ainda é a mesma, o seu quarto está completamente intacto, a sua varinha está muito bem protegida…
— Minha varinha! Onde ela está?
— Bem aqui – disse ele, depois de se certificar de que o médico não estava perto do quarto. – Aguardando fielmente voltar às mãos do dono.
Depois de vinte anos em coma, é estranho segurar a varinha pela primeira vez. Senti uma energia saindo dela e entrando pelas minhas mãos. Acho que isso queria dizer que ela também estava feliz em me rever. Aí me lembrei de artefatos mágicos, o que me fez perguntar se eles ainda mantinham as roupas que eu usava no dia em que defendemos Hogwarts.
— Suas roupas? Sim, estão aqui embaixo.
Meu pai tirou de baixo da minha cama uma caixa com minhas roupas. Nesse momento, o médico o chamou para fora do quarto. Minha mãe foi junto. Então aproveitei para vasculhar os meus bolsos e achei o que procurava: o Livro da Alma. Quis ver se ainda funcionava, então peguei uma caneta que estava no criado-mudo ao lado da cama. Escrevi o nome completo do meu pai. Ainda funcionava. Ainda bem, porque talvez pudesse precisar dele para sair de lá e procurar por Luna.
Nesse momento, dei-me conta de tudo que meu pai dissera anteriormente. Parecia que ele estava me indicando como prosseguir, mas preferi pensar que foi só coincidência, porque com certeza ele não me encorajaria a fazer algo tão insensato. Mesmo assim, guardei o livro de volta ao bolso do meu casaco e continuei lá, normalmente, esperando o momento certo. Naquela noite, enquanto estava sozinho, fui até a janela, peguei a varinha e, apontando para fora, me concentrei em tudo o que estava no armário do meu quarto da última vez que o vira e usei um feitiço de convocação:
— Accio terno!
Depois disso, abri a porta e disse ao médico que pretendia dormir, então ele não precisava mais ficar ali. Como imaginava, ele disse que então ia deixar uma enfermeira cuidando da porta para que ninguém entrasse. Aceitei e fechei a porta. Fiquei lá ouvindo até que, cerca de um minuto depois, ele chamou uma mulher que passava:
— Enfermeira, o paciente desse quarto está dormindo. Poderia fazer a gentileza de vigiar para que ninguém entre?
— Claro, doutor. É aquele do coma? Quando ele acordou?
— Hoje de manhã. A senhorita já chegou a vê-lo?
— Não, doutor. Comecei a trabalhar aqui há duas semanas, atendendo em outras áreas.
— Muito bem. Então eu o deixo aos seus cuidados. Fique atenta a tudo. Boa noite.
— Boa noite.
Eu dera muita sorte. Aquela enfermeira nunca tinha visto meu rosto, o que tirava a necessidade de um disfarce muito pesado. Só precisava me preocupar em encontrar algum veterano lá fora. Nisso, meu terno entrou pela janela. Era tudo o que eu precisava, pois, além do conforto e do costume, consegue passar quase que despercebido. Peguei um papelzinho em branco em um bloco de notas na gaveta do criado-mudo e escrevi:
“Pai e mãe
Perdoem-me por dar mais este susto em vocês, mas preciso encontrar Luna. Vocês logo vão perceber o quanto essa menina é importante pra mim. Por favor, entendam: nada no mundo, nem mesmo minha própria saúde, é mais valioso do que o amor que sinto por ela. Mais uma vez, perdoem-me, mas vocês não podem culpar um coração que ama por simplesmente querer amar.
M. Gibb”
Deixei o papelzinho em cima do criado-mudo e peguei duas almofadas da poltrona para colocar embaixo dos lençóis. Enfeiticei-os para que parecessem estar respirando e vesti o terno. Coloquei o livro de Luna no bolso e a minha varinha na cintura. Ajeitei a gravata e, silenciosamente, abri a porta. Fechei-a antes que a enfermeira pudesse olhar lá dentro.
— Boa noite – disse-lhe, sorrindo.
— Oh, boa noite – ela devolveu, um tanto surpresa. – Eu não sabia que o senhor estava aí dentro.
— É meu sobrinho e eu quis ficar cuidando dele hoje. Só vou tomar um café e já volto. Ele está dormindo, mas acho que dessa vez não vai demorar tanto para acordar.
Ela deu uma risadinha tímida e voltou a se posicionar-. Bem simpática, ela. Fiquei com pena de enganá-la daquele jeito, mas era necessário. Rápida e cuidadosamente, saí do hospital. Depois fui ver o nome da rua e logo reconheci em que parte da cidade eu estava. A casa dos meus pais não era muito longe, mas a pé levaria cerca de meia hora. Não tinha ainda dinheiro para pagar um táxi, então fui a pé mesmo.
Meu pai tinha razão. Nada lá parecia diferente. Era um condomínio fechado e a entrada era vigiada por um guardinha em sua guarita. Percebi que ele estava de crachá, mas eu estava muito longe para ler e, se chegasse mais perto, ele iria suspeitar. Então me escondi em uma moita do jardim que havia do outro lado da rua, ergui minha varinha na direção da quarta casa do lado de dentro do muro e disse:
— Accio binóculos!
Meio minuto depois, os meus binóculos voaram nas minhas mãos. Por eles, pude ler o nome Alberto Torres Juarez no crachá do vigia. Abri o livro e escrevi o nome. No ponto fraco dele, dizia: “medo de fantasmas”.
— Interessante… Como uma pessoa que tem medo de fantasmas vira vigia noturno?
Sem tempo para tentar encontrar alguma lógica, logo me lembrei das lições de Neville na Armada de Dumbledore. Um dos feitiços que eu peguei mais rápido foi o Expecto Patronum. Trata-se da conjuração de um protetor contra as investidas dos dementadores. E, quanto às lembranças felizes que eu precisava para poder conjurá-lo completamente, era muito fácil. Era só me lembrar de todos os momentos que eu e Luna passamos juntos… E logo o velho Alberto saía correndo de um gato prateado que caminhava em sua direção.
Pulei a cancela do condomínio e corri para a casa. Lancei um Alohomora na porta trancada e entrei. Ninguém estava em casa. Tirei os sapatos e subi as escadas até o meu quarto. Embora quisesse muito parar e apreciar vinte anos de memórias que aquele lugar acumulara, não tinha muito tempo. Abri uma mala, peguei mudas de roupas à sorte do momento e atirei tudo lá dentro, além da óbvia roupa de baixo e de um dinheiro extra que eu guardava em um buraco que tinha feito no chão. De primeira, eu não percebi, mas parecia que tinha mais dinheiro lá do que eu me lembrava. Não vou dizer quanto para não passar por mentiroso, mas realmente devia ter mais. Feito isso, desci até a sala e fui até a lareira. Peguei um monte de Pó de Flu e guardei num espaço já preparado para isso num dos bolsos internos do paletó que eu usava. Sabia que havia uma lareira ligada à rede em uma casa perto do Aeroporto Internacional Salgado Filho. Esperava que a casa ainda existisse.
Existia. Saí de lá todo cheio de fuligem, mas estava perto. Não vou poluir ainda mais o meu relato com detalhes, mas acabei embarcando clandestinamente em um avião de carga que ia para São Paulo. Chegando lá, acabei tendo que pagar a passagem para Londres. A partir dali, não me importava mais em ser rastreado ou que descobrissem que eu ia voltar para a Inglaterra. Só o que me importava era encontrar Luna.
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