Notas iniciais
“In Search of Love” foi escrita por Barry Gibb e Richard Powers, nunca lançada oficialmente
Horas depois, desembarquei em Londres. Ao contrário de Porto Alegre, as mudanças ali eram muito visíveis. Não sabia mais como me guiar e não tinha ninguém a quem recorrer. Claro, raciocinei que tia Dwina ainda morava lá com meu primo RJ, mas não quis arriscar ir encontrá-los. Perambulei um pouco pelo aeroporto, prestando atenção nas pessoas que passavam por mim, procurando por outros bruxos. Sem falar nada, não estava tendo nenhum sucesso, então resolvi sair do aeroporto e fazer turismo na cidade. Seria basicamente a mesma coisa que fiz depois que escapei dos sequestradores no Beco Diagonal, com a diferença de que agora ninguém estava me caçando e eu poderia pagar por algum lugar. Troquei meu dinheiro por dinheiro inglês e fui. Com sorte, poderia me guiar o suficiente para achar o Caldeirão Furado ou o Ministério da Magia. Porém, não foi o que aconteceu. Claro, já imaginava que teria problemas e que teria que me virar sozinho.
Carreguei minha mala por várias horas até encontrar um hotelzinho no meio da Baker Street. Fosse trouxa ou bruxo, me registraria lá mesmo. Ajeitei-me no quarto e comecei a pensar no que faria a seguir. Por obviedade, sabia muito bem qual seria o primeiro lugar que olharia, mas não tinha a menor ideia de como chegar lá. Nunca tinha tido a oportunidade de ir até a Torre dos Lovegood, onde Luna morava com seu pai. Saí do quarto e fui ao saguão do hotel observar os outros hóspedes. Comecei a prestar atenção às conversas ao meu entorno:
— ...Como se o meu emprego dependesse disso...
— ...Soube quem vem ao Manchester? Dizem que é um dos melhores volantes...
— ...Esta cidade está fria demais...
— ...Um quadro magnífico. Eu sempre soube...
— ...O mais interessante grupo de trouxas que eu já vi...
Quando eu ouvi essa frase, de imediato procurei saber de onde vinha. Dois senhores de terno marrom-escuro conversando animadamente na porta do hotel. Um era moreno e calvo, aparentando uns quarenta anos. O outro tinha os cabelos mais brancos, indicando ser mais velho. Ninguém poderia dizer que eram bruxos. Com cuidado, aproximei-me deles.
— Ah... Com licença.
— Sim, meu jovem? – disse o mais velho simpaticamente.
— Preciso sair de Londres e ir a um lugar específico, mas não sei se lá tem alguma lareira ligada à rede de Pó de Flu. Como eu posso chegar lá?
Os dois me olharam de forma tão curiosa que eu comecei a ficar com medo de que tivesse cometido um erro e estivesse falando com dois trouxas, mas eles disseram:
— Não sabíamos que outros bruxos se hospedavam aqui. Desculpe perguntar, mas... De onde você é?
— Porto Alegre, Brasil.
— Ah, o Brasil... Já fui muitas vezes lá acompanhar o Carnaval trouxa na cidade de Salvador. Estava justamente falando de minha última viagem para lá. Trouxas encantadores, os brasileiros. Eu sou Steven Horris e este é o meu colega, Benjamin West.
— Prazer. Meu nome é Matthew Gibb.
— Encantado, realmente. E respondendo à sua pergunta: você pode ir a qualquer lugar em cima da terra no Nôitibus Andante. O velho Ernesto dirige aquela coisa há mais tempo do que ele próprio pode lembrar. Conhece toda Londres e arredores como a própria varinha. É só dizer o lugar e você logo estará lá.
— Maravilha. E como eu o encontro?
— Vá para um lugar onde não circule muita gente, principalmente os trouxas. Estenda a varinha e espere alguns segundos. Ele virá.
— Muito obrigado. Em que quarto vocês estão?
— Na verdade, estamos saindo. Tenho que ir a uma reunião importante no Ministério e Benjamin veio me buscar. Como deve ter notado, este hotel não é da nossa comunidade bruxa, mas me hospedo aqui sempre que posso para observar a rotina dos trouxas.
— Entendo. Mais uma vez, obrigado.
— É um prazer ajudar os amigos.
Saí do hotel e caminhei pela Baker Street, buscando um lugar como o que o senhor Harris descrevera. Não foi muito difícil encontrar. Optei por um beco de duas saídas bem deserto. Certifiquei-me de que ninguém estava por perto e ergui minha varinha. Não levou dois segundos e um grande ônibus roxo invadiu o beco e quase me atropelou. Quando parou por completo, um rapaz ruivinho saltou de lá e disse:
— Bem-vindo ao Nôitibus Andante. O transporte de emergência para bruxos e bruxas perdidos. Basta esticar a mão da varinha, subir a bordo e poderemos levá-lo aonde quiser. Meu nome é Alex Serfter e serei seu condutor esta tarde.
— Ok... Meu nome é Matthew Gibb. Vocês aceitam dinheiro trouxa?
O jovem de uniforme também roxo se virou para dentro e gritou:
— Ernesto, nós aceitamos dinheiro trouxa?
— Só se for em libras! – gritou o motorista de volta.
— Obrigado. Então imagino que o senhor Gibb possua libras...
Mostrei algumas notas e Alex autorizou meu embarque, recebendo uma folha do motorista Ernesto enquanto subíamos. Olhando de relance, percebi que era uma tabela de cobrança, provavelmente para converter o meu dinheiro e saber quanto eu paguei. O ônibus de três andares tinha algo que eu nunca tinha visto antes: camas em lugar de assentos. Alex me indicou uma cama no meio do andar em que estávamos e me deu um recibo de quanto eu tinha pago, enquanto falava:
— Senhor Gibb, pode ficar com essa cama aqui ao lado. O senhor pagou pela passagem e por chocolate quente. Pode pedir quando quiser. Aonde quer que nós o levemos?
Eu não sabia o endereço, mas confiei no que me disseram sobre Ernesto e falei:
— Até a Torre dos Lovegood.
Lá na frente, Ernesto virou a cara na minha direção e comentou:
— Lá na velha redação do Pasquim? Já faz um bom tempo que ninguém me pede para ir até lá. Mais um pouco e eu esqueço o caminho. Segure-se firme. A viagem vai ser boa.
Infelizmente, eu ignorei o seu aviso para me segurar. O velho deu uma arrancada que me jogou para trás. Alex sorria divertido por cima do jornal que segurava. Provavelmente já tinha visto muitos novatos na mesma situação que eu. Ajeitei-me de volta na cama e vi pela janela a cidade virar um borrão à medida que o ônibus ganhava velocidade. Prevendo que ia ser rápido, pedi o chocolate a que tinha direito. Não estava muito quente, mas bem agradável. Meu copo estava na metade quando Alex anunciou que já estávamos chegando. Primeira coisa que pensei: se o motorista não se importa em dar uma arrancada na hora da partida, significa que não vai nem ligar de dar uma freada brusca na hora de...
— Chegamos!
Não deu nem para completar o pensamento. Tanto eu quanto o copo e o resto do chocolate já estávamos no chão quando foi anunciado que já tinhamos chegado. Não sei se Alex viu minha cara de bezerro desmamado por causa do chocolate que eu não conseguira terminar, mas de qualquer forma ele me deu outro copo depois que eu desci.
— Ah, obrigado, Alex.
— Aqui para isso. Se me permite ser xereta... Como vai voltar para Londres?
Quem respondeu foi o gritante Ernesto, lá dentro:
— Nós vamos estar por perto! É só esticar a varinha! É bom ter mais libras, pois cobraremos outra passagem!
Agradeci com uma gorjetinha para os dois e acenei, vendo o Nôitibus Andante ir embora. Então me virei para ver a torre e o que vi me assustou.
O lugar estava completamente em ruínas. Não chegava a estar caído ou ameaçando cair, mas estava totalmente abandonado. O musgo tomava conta das paredes, havia buracos no telhado... Aproximei-me da porta. Lá só havia um trinco simples. Curiosamente, o trinco parecia mais novo que o resto. Lancei um Alohomora e abri a porta. A salinha do primeiro andar estava muito empoeirada. Teias de aranha do teto ao chão. Aquele lugar não tinha mais vida. Subi a escada em caracol no meio do ambiente até a cozinha. Estava em condições parecidas. Tudo o que eu descobrira indo até ali: os Lovegoods não moravam mais naquela torre. Não subi para o último andar. Em vez disso, saí da torre e caminhei até os fundos. Lá encontrei um novo susto:
— Mas o que é isso?
Um pouco longe, havia duas lápides. Numa delas, foi a primeira que eu notei, um nome que me fez gelar a alma: Xenofílio Lovegood, o pai de Luna, estava morto. A lápide ao lado, obviamente, devia ser da mãe de Luna. Eu sabia de ouvir falar que Luna vira a mãe morrer aos quatro anos por um acidente com um feitiço feito dentro de casa. Agora ela estava completamente órfã.
— Céus... Não me admira que o lugar esteja assim. Luna não ficaria aqui depois de perder o pai. Como será que aconteceu? E agora, como saber para onde ela foi?
Voltei para a sala e comecei a fuçar em alguns lugares, procurando pistas. Minha busca foi inútil. Comecei a me desesperar. Nenhuma luz me vinha. Luna estava completamente desaparecida. Por fim, desisti da torre e resolvi ir embora dali. Fui até a frente da propriedade e, lacrimejante, estiquei a varinha. Mais uma vez, o grandalhão roxo quase me pôs debaixo dele. Quando Alex saltou de lá, simplesmente pus o dinheiro em sua mão e falei “Caldeirão Furado” com uma voz arrastada. Sem perguntar nada, mas visivelmente preocupado, ele mandou Ernesto ir até o bar. Dessa vez, recusei o chocolate.
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