Um Gibb em Hogwarts
20 Não Chore Só
Notas iniciais
“Don`t Cry Alone” foi escrita por Robin Gibb e lançada no álbum “The Titanic Requiem” em 2012
Quase dei um berro de alegria. Gina estava certa. Não tinha como eu não gostar de uma visita do “Rei da Grifnória”, Ronald Weasley.
— Rony! É você!Ele estava da mesma altura que eu e seu cabelo parecia mais claro. Mas, assim como Gina, ainda tinha os traços fortes dos Weasley. E, por cima do ombro dele, notei outro rosto maroto sorrindo para mim.— Hermione!— Vem cá, seu morto-vivo sortudo!Hermione Granger não mudou praticamente nada do que eu me lembrava dela em Hogwarts. O mesmo rosto jovial e interessado e seus olhos vivos e alertas. Um pouco mais alta, talvez. Mas sempre linda. Não tão linda quanto Luna, mas com certeza Rony deu sorte em sua escolha, assim como Harry com Gina.Permiti-me ficar feliz por alguns instantes. É sempre bom ficar rodeado de amigos, ainda mais eles. Jantamos juntos e conversamos por algumas horas sobre diversos assuntos. Descobri que Rony e Hermione se casaram (mais dois) e os dois filhos deles, Rosa e Hugo, estavam fazendo companhia em Hogwarts aos filhos de Harry e Gina. Desafiei Rony a jogar xadrez de bruxo, uma das coisas que nos unia nos primeiros anos em Hogwarts, o que nos ocupou por mais outro tempo. Mesmo assim, nada poderia tirar Luna e aquela dúvida da minha cabeça. Foi por isso que eu perdi as três partidas que fizemos.— Nossa! – exclamava Rony, sem caber em si. – Eu pensava que estava enferrujado, mas hoje me superei!— Dê um desconto, Ron – socorreu-me Hermione. – Matthew passou por tempos difíceis. Não pode culpá-lo por não conseguir uma concentração maior no jogo.— Eu sei. Desculpe-me por isso, mas até que ele está muito bem. Pensei que ia surtar quando vocês contassem que… Ai! – Rony não percebeu de onde veio o baita tapa que o atingiu na nuca, quase o jogando da cadeira para cima da mesa, quase derrubando o tabuleiro em mim. Todas as pedras que estavam inteiras pegaram os pedaços das outras e saíram correndo. Gina, a autora do tapa, estava pálida atrás do irmão.— Rony, cale a boca!— Por que me bateu?!Hermione não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha. Harry me olhava meio assustado. Rapidamente acordei do sonho branco que estava tendo até ali desde a chegada de Rony e Hermione. Eu sabia muito bem que Gina e Harry estavam me escondendo algo sobre Luna, mas naquele momento percebi que esse segredo poderia ser mais sério do que eu imaginava.— O que vocês estão me escondendo? – perguntei, levantando-me. – É sobre a Luna, não é? Eu sabia. Tem alguma coisa errada!— Matthew, acalme-se – Hermione me fez sentar de volta na cadeira. – Gina, acho que já está na hora. Ele precisa saber…— Hermione, ele não está pronto! Uma notícia dessas não pode ser dada assim do nada!— Quanto tempo mais você ia esperar até que achasse que ele estava pronto?— Eu não sei. Eu… Eu só não quero que ele se machuque…Eu não entendia bem o que poderia ser essa notícia, mas já estava ficando mais irritado do que nervoso, embora me controlasse para não explodir sem motivo. Gina se jogou no sofá com as mãos cobrindo o rosto, enquanto começava a chorar copiosamente. Harry a abraçou e disse algo em seu ouvido. Ela concordou com a cabeça e foi para a cozinha. Harry olhou para Hermione, que pareceu entender, e foi atrás dela. Não sem antes resmungar: “Hunf, homens”, claramente se referindo à boca enorme de Rony Weasley. “Eu pensei que ele já sabia”, ouvi-o sussurrar a ela.— Certo, Matthew – disse Harry, levantando-se. – Peço que se sente em algum lugar confortável, porque o assunto vai derrubar você.Levantei-me da cadeira e fui para a poltrona do outro lado da sala. Harry e Rony se sentaram no sofá à minha direita. Harry continuou:— Primeiro de tudo… Nos dois anos depois do seu desaparecimento em 1998, Luna se tornou uma bruxa excepcional. Sabe-se lá por que motivo, ela enfiou na cabeça que, se ajudasse a derrotar os Comensais da Morte sobreviventes, você voltaria para ela. Ela se empenhou nisso e lutou bravamente. Porém, depois do último Comensal da Morte derrubado, passaram-se mais de dez meses e você não apareceu, o que deixou Luna muito desesperançada. Então ela voltou para casa do pai e se isolou do mundo. Nesse período, ficou profundamente abatida. Não sabíamos direito como estava até que permitiu que eu, Gina, Rony e Hermione fôssemos visitá-la.— Foi assustador – disse Rony, tomando a palavra. – Ela parecia um morto-vivo, com o cabelo mais destratado do que antes, olheiras e afins. Não saiu do quarto dela e lá dentro ficava sentada em cima da cama, abraçada ao travesseiro. Falava pouco ou nada. Parecia não se importar se estávamos ou não ali. Evitamos falar de você por um tempo, mas, quando ela ouviu o seu nome, começou a chorar desesperada. Já tinha perdido a noção de quase tudo, não sabia nem em que ano estávamos. Estava completamente mudada.Nesse momento, os dois pararam de falar. Devo ter deixado muito evidente a dor que eu sentia dentro do meu peito. Harry pegou a varinha e conjurou um copo com água em cima da mesa de centro, que eu bebi com sofreguidão. Ele próprio continuou:
— Na virada do milênio, parecia que Luna estava começando a melhorar. Voltou a ajudar o pai com a revista e a retomar uma parte da vida que tinha antes. Começamos a fazer visitas mais frequentes para encorajá-la e tudo parecia estar correndo bem. Mas aí veio um golpe para o qual nós não estávamos preparados. Aliás, por falar nisso, eu vi em alguns jornais e noticiários trouxas que seu tio Maurice Gibb morreu dia 12 de janeiro de 2003, não é?— Sim, o ano está certo. Eu não tinha certeza da data, mas o que isso tem a ver?— O pai de Luna, Xenofílio Lovegood, morreu nesse mesmo dia.Voltei a lembrar do túmulo que eu vira na torre dos Lovegoods. Não tinha prestado atenção na data, mas agora parecia que eu a estava vendo nítida. Já não conseguia mais respirar normalmente. Tirei os óculos e apoiei o rosto nas mãos.— Como foi? – perguntei, sem olhá-los.— Ele caiu do telhado enquanto tentava capturar um diabrete da cornualha. Luna estava na janela do quarto e viu a queda.Imaginei a cena. Luna já tinha visto a mãe morrer quando era pequena e, agora, o pai. Realmente, foram anos muito difíceis na vida dela. Anos em que eu não pude estar junto para acalentá-la.— E o que aconteceu depois?— Bom… – disse Rony. – Minha mãe achou melhor que ela fosse morar lá em casa depois que… Aconteceu isso. Ao mesmo tempo, “O Pasquim” saiu de circulação. Ninguém mais tinha motivos para tocar a revista e Luna voltou à depressão de antes. Duas vezes tentou se matar e, nas duas, minha mãe a salvou. Em 2013, mais ou menos, ela já se sentia bem o bastante para começar a fazer certas coisas de que gostava, como fuçar nos jardins da Toca atrás de criaturas estranhas. Foi quando decidiu se tornar naturalista. Obteve autorização do ministério para se registrar como animaga na mesma época. Em 2014, começou a viajar pelo país fazendo pesquisas e, quando voltou pra casa, decidiu reativar a revista do pai, mantendo o mesmo nome. As primeiras edições saíram com as viagens dela e até que conseguiu algum reconhecimento.— Espere. Acho que entendi um detalhe… Ela mudou a redação da revista da casa dela para a casa da família Weasley, a Toca? É onde ela mora hoje?— Sim e não. Ela mudou a redação da revista para a Toca e está lá até hoje, mas não é onde mora. Há coisa de um ano e meio, ela recomeçou a viajar, dessa vez pelo continente, para procurar pistas que comprovassem que as matérias do pai dela eram verdadeiras. Ela manda as matérias dela por corujas de imprensa, que são maiores e mais fortes que as corujas comuns, até a Toca. Mas nunca deixa claro qual é o próximo lugar que vai visitar.— Então, ela está viajando agora. Não está na Inglaterra e não há indicações possíveis de onde possa estar. Eu a perdi de vez. Era isso o que vocês queriam me contar? Se for, vou ter que dizer que Draco e Neville já tinham me adiantado isso no Caldeirão Furado, embora tivessem dito que havia mais coisas.— Bom… Na verdade, há mais uma coisa – disse Harry, mordendo o lábio. Parecia mais preocupado do que antes. Mas não foi ele nem Rony quem falou depois. Foi Hermione, que vinha da cozinha e me estendia uma edição velha do Pasquim.— Matthew, essa edição é de um ano atrás. Veja a matéria da capa.Peguei a revista. A primeira coisa que vi foi o sorriso de Luna. Aquele sorriso que eu almejava ver desde o momento que eu despertara do coma. O rosto dela continuava maravilhoso, o cabelo continuava lindo, os olhos ainda tinham aquele brilho, tudo nela era encantador. Ela estava simplesmente deslumbrante naquele vestido de… Noiva.— ELA SE CASOU?! A LUNA SE CASOU?!A chamada da matéria: “Editora-presidente Luna Lovegood desposa Rolf Scamander”. Não pude acreditar no que meus olhos viam. Meu futuro desabou. De repente, tudo à minha volta ficou escuro: eu desmaiei. Quando acordei, Gina estava pondo um pano molhado na minha testa. Minha visão estava borrada porque alguém tinha tirado meus óculos.— Ele está acordando! – disse Gina, chamando a atenção de todos que logo me rodearam.— Você está bem, Matthew?— Não – respondi, pegando meus óculos de volta e morrendo de dor de cabeça. – Por favor, digam-me que isso não aconteceu, digam que não é verdade!— Lamentamos, Matthew, mas é verdade. Luna está casada. E tem mais: ela e Rolf tiveram dois gêmeos.— Céus, não aguento ouvir mais. Perdoem-me, mas eu vou para o quarto. Mione, Rony, foi realmente uma grande alegria poder revê-los. Espero que vocês possam ter uma noite melhor que a minha. Harry, Gina, obrigado por ficarem comigo depois de tanto tempo e me permitirem ficar aqui, mas amanhã eu volto para o Brasil. Não há mais nada que eu deva fazer na Inglaterra. Por favor, desculpem-me.Enganam-se se pensam que eu consegui dormir a noite inteira. Acordei diversas vezes chorando sozinho. Na manhã seguinte, minha garganta doía muito devido ao choro intenso. Ainda assim, procurei me arrumar com algum aprumo, porque o mundo lá fora não precisava saber como eu me sentia. Harry se ofereceu para me levar à estação de trem que me levaria de volta para Londres. Despedir-me de Gina foi uma das coisas mais difíceis que tive que fazer. Ficamos cerca de um minuto abraçados, sem dizer nada. Difícil dizer quem estava mais triste naquela hora. Quando nos separamos, ela simplesmente disse:— Desculpe-me, Matthew. Não queria que essa notícia lhe causasse tanta dor.— Gina, você não tem culpa de nada. E eu não posso querer que isso não tivesse acontecido. Luna tinha todo o direito de buscar a própria felicidade e me alegro que tenha encontrado. Só o que eu quero na vida é que ela seja feliz e tenha uma vida maravilhosa. Quanto ao Scamander, só o que eu posso dizer é que ele teve muita sorte. Espero que realmente a mereça.Entrei no carro e Harry partiu. Passamos a viagem toda quietos, ele atento à estrada e eu atento ao nada. Quando chegamos à estação de trem, despedimo-nos direito e Harry me fez prometer que tentaria voltar para visitá-los. Aceitei com um sorriso. No fundo, eu queria mesmo voltar, mas duvidava se um dia eu o faria.— Ah, e outra coisa – disse ele, tirando um frasquinho de vidro, mais ou menos 10 cm, do bolso com um líquido dourado. – Um presentinho para você.— O que é isso?— Um vidro de Felix Felicis. Já ouviu falar?— Acho que sim… Pelo menos o nome é familiar. O Slughorn falava alguma coisa a respeito, né?— Exatamente. Sorte líquida, meu amigo. Um vidro desses fará você ter sorte o dia inteiro.— Isso é sério, Harry?— Claro que sim! É muito complicado de fazer e, se você tomar em excesso, corre risco de vida. Mas uma vez ou outra… E os resultados são muito satisfatórios. Vá por mim. Experiência própria.Aceitei o vidrinho no momento que o trem apitava para o embarque. Apertei a mão de Harry, peguei minha mala e corri para dentro. Pela janela, acenei pela última vez para ele, que logo começou a sumir no horizonte. Sozinho no vagão, comecei a examinar melhor o presente.— Sorte líquida, é? Como será que funciona para aqueles que tiveram os seus sonhos destruídos?Curioso, tomei o vidro inteiro de um gole só. No segundo seguinte, comecei a me sentir estranho. E tomei uma decisão que, posteriormente, provou-se ter sido o primeiro sinal de que a poção funcionava:— Vou para a Torre dos Lovegood!
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