Um Gibb em Hogwarts
21 Meu Eterno Amor
Notas iniciais
Algumas horas depois, com outro copo de chocolate, lá estava eu na frente da torre. Continuava o mesmo ponto de ruínas que estava da última vez que eu estivera lá, na semana anterior. Sem saber direito para onde estava indo e o que eu deveria procurar, entrei na torre e subi as escadas em caracol que ficavam bem no meio da sala. Subi até a cozinha e lembrei que, da última vez que estivera lá, não tinha subido até o cômodo superior, que agora eu sabia ser o quarto de Luna. Quando estava no meio da escada, comecei a ouvir um cantarolar suave que vinha lá de cima. Por uns instantes, pensei que estivesse louco, mas logo reconheci a voz daquele cantarolar. Subi as escadas e, chegando ao topo, vi uma mulher ajoelhada no chão de costas para mim. Tinha um cabelo comprido, de um loiro tão claro que beirava o branco, muito lindo, embora estivesse um tanto destratado. Os detalhes em sua roupa (um terninho feminino bege com uma saia de barra longa) me diziam que era uma naturalista. A varinha estava caída do seu lado. Ela parecia estar abraçando algo de encontro ao peito. Só que, dessa vez, não chorava.— Luna?Ela se voltou, deixando cair o travesseiro em que estava abraçada, e me olhou com aqueles lindíssimos olhos azuis acinzentados. Parecia um tanto assustada, mas depois vi uma certa alegria em seu olhar. Fui até ela e toquei seu rosto. Seus lábios tremeram de leve.— Mat… Matthew? Você está vivo?Abracei-a e me permiti ser abraçado.— E-eu… Estou sonhando? – ela perguntou.— Não. Isso é bem real. Eu voltei, Luna. Mas, pelo que soube, tarde demais.— Onde você esteve?— No Brasil, em coma. Acordei há pouco mais de uma semana. Foi por isso que você não teve notícias minhas por tanto tempo.— Céus, eu não sabia!— O que você está fazendo aqui? Pensei que estivesse viajando com o seu… Bom… Com o Scamander.— Eu estava, mas voltamos hoje. Eu venho para cá sempre que volto de viagem para me lembrar de como foi o meu início. E da… Minha infância…Ela se soltou de mim e se sentou na cama. Sentei-me ao seu lado.— Sente muita falta do seu pai, não é?— Sinto. Ele foi o melhor bruxo que eu já conheci, o meu melhor amigo. Ele era o único que eu sabia que sempre estaria comigo, mesmo depois que você desapareceu. Céus, se eu soubesse o que tinha acontecido…— Não se culpe, Luna. Você seguiu com sua vida. Isso é o que importa. E você é mãe agora. Não fica feliz com isso?— Ficaria mais feliz se eu tivesse tido mais uma chance de ter você na minha vida.— Luna, eu amo você. Nunca duvide disso. E, justamente por amá-la, eu vou deixá-la viver a sua vida. Eu sou uma lembrança de um tempo em que nós dois éramos felizes juntos. Agora isso não é mais possível.Ela começou a chorar. Enxuguei suas lágrimas e, controlando meu desejo de lhe beijar os lábios, beijei-lhe a bochecha, logo abaixo do olho direito. Levantei-me e a puxei levemente para junto de mim, abraçando-a mais suavemente.— Seja feliz, Luna. Esse é o último favor que posso lhe pedir. Seja feliz.Soltei-a e desci as escadas, olhando uma única vez para trás. Ela olhava para mim abraçada ao próprio corpo. Sorri e ela devolveu timidamente. Saí da torre e daí segui meu caminho de volta para Londres. No meio do caminho, lembrei que não tinha precisado usar o Livro da Alma para achá-la, mas resolvi fazer um teste final. Escrevi o nome dela. Qual não foi minha surpresa quando, no espaço de ponto fraco, apareceu meu nome completo. No espaço de ponto forte, porém, apareceu: “Fé inabalável e dedicação primorosa”. Esta era Luna Lovegood e tudo estava bem.Ganhei a passagem aérea de graça participando de um sorteio de comemoração do aniversário do aeroporto, o que dizia que a poção ainda fazia efeito. No dia seguinte, cheguei ao Brasil, São Paulo, e depois finalmente desembarcava em Porto Alegre. Recebi a bronca devida dos meus pais por fugir do hospital deixando apenas uma nota (tiveram que alertar o Ministério da Magia do Brasil, que cuidou para que os funcionários do hospital não percebessem a minha fuga fazendo com que um dublê entupido de Poção Polissuco ficasse no meu lugar), mas pelo menos consegui permissão para escrever a vocês.Ainda penso em Luna, mas agora estou mais tranquilo em relação a ela. Meu pai sugeriu que nós assinássemos “O Pasquim”, mas eu recusei. Talvez eu venha a me apaixonar de novo, talvez eu volte a amar alguém, porém no fundo eu tenho certeza de que não será com a mesma intensidade de antes. Não haverá ninguém que eu possa amar tanto quanto eu amo Luna Lovegood. Tio Barry, tia Linda, aguardo sua resposta e espero não ter cansado sua velhice com as minhas peripécias adolescentes... Agora não tão adolescentes assim. Obrigado por ensinar muito do que eu sei sobre amor através de suas músicas e suas palavras. Sempre que quiserem aparecer, tenham a certeza de que vão ser recebidos por um fã incurável.
Do seu estimado sobrinho,
Matthew E. Gibb
POST SCRIPTUM: Eu já estava amarrando esta mensagem na pata da Cordelia quando acordei para uma coisa: A felicidade mais pura virá do sentimento que nunca se extingue. Amor, obviamente. Essa nem precisava de muito esforço. O sacrifício mais doloroso será feito. Esse foi o de agora, quando abri mão da Luna em definitivo. Os jovens viverão uma escolha que nunca foi feita graças a uma chance que nunca foi dada. Vivemos nossas vidas separadamente, mas não porque quisemos isso e, sim, porque não teve jeito de ser diferente. Um grande abismo separará dois corpos e uma grande travessia unirá dois corações. Isso pode ser tanto o Atlântico separando o Brasil da Inglaterra quanto o simples fato de ela estar acordada e eu, em coma. A morte e a loucura terão uma vitória temporária, mas a vitória da vida será insuficiente para restaurar os danos. A tal “vitória temporária” durou vinte anos e eu ter acordado do coma não foi o suficiente para recuperar o que perdemos ali. Aqueles cujo destino foi traçado pelo amor serão testados pela última vez. E assim se cumpre a terceira profecia verdadeira feita pela professora Sibila Trelawney.
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