Um Gibb em Hogwarts
4 Força Irresistível
Notas iniciais
Perto da meia-noite, eu saí do Salão Comunal da Grifnória de meias, levando os sapatos na mão. Não podia me dar ao luxo de fazer nenhum ruído, e amaldiçoei a minha asma, que não me permitia respirar em silêncio. Pra minha sorte, o temível zelador Argo Filch estava devidamente distraído, tentando pegar o poltergeist travesso chamado Pirraça em algum outro andar. Provavelmente derrubando armários ou lançando bombas de bosta por aí, o que deixava Filch com um humor terrível. Levei mais tempo do que o previsto para chegar à Sala Precisa. Mas não pude me sentir mal por causa disso, já que Neville estava chegando no mesmo horário que eu.
—Bom te ver aqui, Matthew – disse ele, sussurrando – Fiz um caminho diferente, tive quase certeza de que um dos irmãos Carrow estava no corredor quando saí.
—Eu quase encontrei com o Filch, mas Pirraça me salvou, mesmo sem saber.
—Muito bom. Até que ele faz algo direito de vez em quando. Bom, já sabe como funciona a Sala Precisa, né?
—Sim, ela se abre atendendo aos desejos e necessidades dos alunos que vem pra cá.
—É mais ou menos isso. No nosso caso, é só pensar que deseja estar na sede da Armada, e automaticamente ela se prepara para os nossos treinos e reuniões. Deixe que eu faço isso.
Neville se pôs na frente da parede e fechou os olhos. Depois, caminhou de um lado pro outro passando na frente da parede três vezes. De repente, apareceu uma porta ali, larga o bastante pra nós dois passarmos. Assim que entramos, a primeira coisa que reparei foi a simplicidade do lugar. Era uma sala muito grande, é verdade, mas não havia tanto equipamento quanto eu supunha. Uns bonecos de treino, várias almofadas (Neville me explicou que era para os treinos de combate aéreo, visto que logicamente haveria quem caísse de sua vassoura), alvos pintados, etc. Ao todo, contavam-se cerca de 20 alunos ali, contando grifnórios, corvinos e lufanos. Neville pediu desculpas pelo atraso e me apresentou como novo membro. Quando eu me juntei a eles, percebi que Neville lançava olhares nervosos para a porta. Era fácil ver que faltava alguém ali, e essa falta o perturbava. Ele tirou a varinha e começou a falar:
—Bom, já que estou sozinho, vou começar sozinho. Primeiramente, quero agradecer a todos por terem aceitado retomar as atividades da Armada de Dumbledore em oposição a esse novo desafio que surgiu em nossa escola. Diferente do que passamos anos atrás, quando Harry fundou este grupo, estamos lidando com um perigo mais próximo e mais palpável. Esse perigo, colegas, são os Comensais da Morte aliados de vocês-sabem-quem.
Alguns à minha volta mostraram vários sinais de inquietação, mas se controlaram rapidamente. Voldemort era um nome impronunciável no mundo da magia, devido às atrocidades da primeira guerra, e ainda naquela época era considerado um tabu dizê-lo em voz alta, mesmo que Dumbledore repetisse várias vezes que o medo de um nome só aumenta o medo do dono desse nome. Neville continuou:
—Nossa prioridade aqui são os feitiços de duelo, tendo como foco principal os feitiços de defesa. Vocês já conhecem e já praticaram todos eles entre si, exceto o Matthew, que é o novato – não que fosse necessário Neville revelar essa fraqueza em público, mas na prática ele estava certo. Tivemos aulas de duelo no nosso segundo ano, e foi a primeira e última vez que fiz esta prática até então – Vamos começar devagar com você, Matthew. O restante, eu quero que se dividam em duplas. Dois contra dois. Quero que vocês iniciem com apenas três feitiços: Expelliarmus, Rictusempra e Protego. Quanto menos vocês utilizarem o Rictusempra, melhor. Lembrem-se que isso é um treinamento.
Todos começaram a se dividir, e logo fachos de luzes verde e vermelha cruzavam o ar como um arco-íris desencontrado. Neville me chamou pra perto dele.
—Não vou te pôr em duplas por enquanto, Matthew. Em vez disso, vai duelar contra mim.
—Os mesmos feitiços?
—Sim. Seria preferível que eu observasse de fora, mas não sobrou mais ninguém pra duelar contigo. Se pelo menos ela tivesse aparecido…
—Ela quem?
—Luna Lovegood.
O som ambiente desapareceu por completo ao ouvir aquele nome. Então Luna era integrante da Armada? Por que, então, não tinha aparecido? Comecei a suar frio, e Neville viu que algo estava errado.
—Matthew? Você está bem?
—Estou, eu acho – quis disfarçar meu nervosismo, mas duvido que tenha tido sucesso. Minha mão tremia segurando a varinha.
—Tudo bem… Podemos começar? Eu espero, se você precisar de um tempo…
—Dois minutos – falei, interrompendo-o – Desculpe, dois minutos, eu ainda preciso me ajeitar, faz tempo que eu não duelo…
—Entendo. Disponha do tempo que precisar. Vou ver como estão os outros.
Me afastei até a parede e pensei que precisava lavar o rosto. Imediatamente uma pia surgiu do meu lado. Tirei os óculos e joguei uma mão ou duas de água. Enquanto deixava tudo escorrer pelo meu rosto, de olhos fechados, ouvi uma voz, tão doce que parecia cantada:
—Foi mais cedo do que eu imaginei.
Abri os olhos e olhei pra minha direita. Luna estava parada do meu lado, com as mãos entrelaçadas segurando a varinha na frente da cintura. Sorria. Caramba, eu nunca enjoaria daquele sorriso. Ignorando a minha consternação, ela continuou:
—Fico muito feliz de ver que todos estão empenhados. Apesar do que dizem lá fora, ainda estamos fortes. Tenho certeza de que tudo correrá bem.
Antes dela começar a falar, eu tinha posto meus óculos de volta. Os olhos dela percorreram algum lugar que não consegui compreender. Por um instante ela me olhou, mas parecia estar sonhando. "Lunática", lembrei-me dos comentários, mas aqueles olhos pareciam ter viajado até algum lugar real. Era como se ninguém conseguisse entrar no mundo dela e compreender os lugares que ela "visitava". Quando Luna falou da certeza que tinha, notei os lábios dela se contraírem, rapidamente. Na hora eu entendi o que era, mas fingi que não tinha visto:
—Tudo bem contigo? Sinto que você ainda não está muito bem.
Ela amenizou o sorriso e olhou pra baixo. Tristeza leve.
—Ainda estou preocupada com o meu pai – disse ela – Pensei em lhe mandar uma coruja, mas agora só pode acessar o Corujal quem tiver uma autorização assinada pelo diretor Snape.
Após dois segundos de hesitação, pus a mão em seu ombro. Ela se virou e olhou pra mim, um tanto suplicante. Eu tinha como opções abraçá-la ou beijar seu rosto. Não pude fazer nem um nem outro.
—Luna! Você veio! – Neville chegava com uma pressa que eu não entendi.
—Olá, Neville.
—Já conhecia o Matthew?
—Sim, eu o conheci hoje à tarde.
—Ótimo, ótimo… Estamos treinando duelos simples. Pode duelar com ele enquanto eu avalio?
Por alguma razão, eu já imaginava que ele fosse pedir algo assim, mas não pude deixar de me espantar com o que ele dizia. Luna também pareceu um tanto desconcertada. Neville não nos deixou responder:
—Os três feitiços de base, Luna. Podem ir pra aquele lado ali, eu vou estar de olho.
Meio empurrados, acabamos indo. Na hora de fazermos a apresentação das varinhas e a reverência prévia, falei:
—Me desculpe por isso, não sabia que ele…
—Está tudo bem – ela interrompeu – Isso é só um treino, não precisa se preocupar com nada.
Nos afastamos alguns passos pra trás e ela levantou a varinha apontando-a pra mim. Fiz o mesmo. Não poderia, de nenhuma maneira, pensar em atacá-la. Sabia que precisava, pois, como ela mesma havia dito, aquilo era um treino. Percebi, não sei como, que todos os outros pararam de duelar pra nos ver, se posicionando à nossa volta. O que já era penoso estava piorando. Neville deu sinal verde, mas eu não conseguia tomar uma atitude. Logo me dei conta de que ficar parado tinha sido um erro.
—Rictusempra!
Fui lançado pra trás e senti minha varinha voar da minha mão. Alguns perto de onde eu tinha caído me ajudaram a levantar, se segurando pra não rir. Neville, que estava um pouco mais afastado, falou para todos:
—Observem um dos erros mais comuns no momento da batalha. Por vezes, vocês se verão obrigados a lutar contra alguém que vocês conhecem, e algumas vezes até apreciam. Pode ser que estejam sendo controlados com o feitiço Imperius, ou então que tenham espontaneamente se juntado ao lado contrário. Em qualquer um dos casos, seu adversário não vai ter pena de vocês, então não tenham receio de contra-atacar.
Peguei minha varinha de volta e me posicionei de novo. Luna voltou a atacar, mas dessa vez eu fui mais rápido na minha defesa. Ela pareceu satisfeita por eu ter conseguido revidar. Pois bem, se ela queria uma luta parelha, trataria de impressioná-la com uma luta parelha. Luna estava na minha frente, a cerca de dez metros de mim. Lancei a ela um sorriso malandro. Não sei até hoje o que ela pensou desse sorriso, mas vi que isso a deixou alerta, pois logo desfez o próprio sorriso e se preparou pra uma defesa rápida. Levei alguns segundos pra avaliar as opções e decidir o que faria a seguir. Saí correndo em sua direção, visando o lado esquerdo. Vale destacar aqui que ela estava com a varinha na mão direita. Ela não podia usar nenhum feitiço defensivo, porque eu não havia usado nenhum feitiço de ataque. Não sobrou nada pra ela a não ser esperar pra ver o que eu faria. Quando eu cheguei a meio metro do lado esquerdo, pouco à frente dela, levantei a varinha com a mão direita por cima da cabeça. Logicamente, Luna se posicionou pra se proteger a partir do lado esquerdo. Só que eu não abaixei a mão quando lancei meu feitiço, por trás da minha própria cabeça, mirando seu lado direito. Acertei-a em cima do ombro, jogando-a pra baixo. Saltei um passo pra trás e desarmei-a. No chão, sem varinha, Luna ainda tentou se levantar, mas eu me pus na sua frente apontando a varinha para o seu queixo.
—Chega, Matthew! – gritou Neville, visivelmente satisfeito com o que via – Ótimo contra-ataque, mas não precisa se empolgar tanto. Como viram, muitas vezes vocês não poderão utilizar a força, então deverão ter sempre uma boa estratégia. A regra, portanto, é a seguinte: sejam criativos e, acima de tudo, não sejam óbvios.
Neville fez sinal para que todos fossem pra frente da lareira. Ajudei Luna a se levantar, puxando-a pela mão e amparando-a pela cintura. Ao se levantar de todo, nossos rostos ficaram um na frente do outro. Levei alguns segundos pra conseguir falar alguma coisa:
—Me… Hã… Me desculpe pelo golpe. Espero que não tenha…
—Eu estou bem – ela disse – Obrigada por se preocupar. Acho que de um jeito ou de outro você sempre acaba se preocupando comigo, né?
Não consegui responder nada. Não precisava. Eu via que ela estava feliz, e não estou inflando meu ego.
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