Um Gibb em Hogwarts

5 A Promesa que Você Fez


Notas iniciais
“The Promise You Made” foi escrita pelos irmãos Barry, Robin e Maurice Gibb, os Bee Gees, nunca lançada oficialmente

Uma semana depois, eu continuava radiante e distraído. Comecei a me encontrar com Luna mais seguidamente. O incidente com os irmãos Carrow parecia totalmente esquecido. Acabei conhecendo a melhor amiga de Luna, Gina Weasley. Demorei um pouco pra ligar o nome à pessoa: Gina era a irmã mais nova de Rony Weasley. Tinha os cabelos cor de fogo característicos da família Weasley. E uma doçura particular, que só perdia para a própria Luna. Eu percebi que ela parecia um tanto entristecida. Claro que eu não tinha parâmetro, já que eu não conversava com Gina antes, mas mesmo assim se podia ver que ela não estava plenamente bem. Pensei em perguntar o que estava acontecendo, mas Luna pareceu antever o que eu pensava, pois fez um discreto sinal pra eu ficar quieto. Decidi não pensar nisso por enquanto.

Uma vez estávamos na biblioteca. Elas, fazendo trabalho para o sexto ano. Eu, arrumando uma desculpa pra ficar perto de Luna. Decidi tentar ajudá-las, já que tudo o que estava ali era matéria que eu já tinha visto. A desvantagem é que nós não poderíamos testar feitiços, já que Snape tinha proibido qualquer prática sem supervisão, mesmo que pra estudo. Mas nós não ligávamos. Aliás, eu não ligava. Poder estar ali, perto de Luna, ouvindo sua voz e vendo seu sorriso, fazia qualquer limitação valer a pena. Dado momento, me dei conta de que eu precisava ir embora, pois teria aula de Adivinhação em poucos minutos. Me despedi das meninas com um beijo em cada uma, mas me demorando um pouco mais no rosto de Luna – não tanto a ponto de dar bandeira, mas o suficiente pra que eu pudesse sentir com relativa tranquilidade a maciez de sua pele e seu perfume suave. Quase podia flutuar quando saí. Durante a aula, minha atenção estava toda nessas lembranças, e logo eu percebi que isso podia acabar me afetando em outros setores. A professora Trelawney era uma excelente pessoa, mas não muito boa vidente. Pouco depois eu vim a saber que, durante todo o tempo em que ela esteve em Hogwarts, só acertara duas profecias. Mas, para meu azar, naquela tarde parecia disposta a acertar a terceira. No sétimo ano, estudávamos bem no início do semestre a previsão do futuro na borra de café. Parecia igual ao que tínhamos feito no terceiro ano com chá, mas logo percebemos ser muito mais difícil. Claro que eu, no início, não reclamei em nada, porque um dos meus vícios não escondidos é justamente a cafeína. Lembro perfeitamente de quando a professora pediu a minha xícara. A sala toda já tinha saído e eu já estava quase enchendo-a pela segunda vez.

—Deixe-me ver o que temos aqui, meu querido… — disse ela, posicionando aqueles óculos fundo-de-garrafa para diretamente ao fundo da xícara de porcelana – Sim, sim… Isso é… Será? Muito estranho. De fato, muito estranho.

Ela tirou os olhos da borra e me olhou, um tanto emocionada, largando a xícara na mesa. Tinha um ar de quem já entendera o que estava acontecendo. Porém, de repente, entrou em um tipo de transe e aprofundou mais ainda o olhar. Agarrou os meus ombros e falou diretamente pra mim:

—A felicidade mais pura virá do sentimento que nunca se extingue. O sacrifício mais doloroso será feito. Os jovens viverão uma escolha que nunca foi feita graças a uma chance que nunca foi dada. Um grande abismo separará dois corpos e uma grande travessia unirá dois corações. A morte e a loucura terão uma vitória temporária, mas a vitória da vida será insuficiente para restaurar os danos. Aqueles cujo destino foi traçado pelo amor serão testados pela última vez.

Feito isso me abraçou, sem qualquer tipo de explicação ou comentário. Depois me soltou e olhou de um lado a outro, confusa como se não lembrasse de nada. Dei uma desculpa e fugi. O que diabos aquilo significaria? Pensei em ir até os jardins, mas desisti. Não voltaria mais a pensar no assunto.

Com Snape na diretoria e com os irmãos Carrow patrulhando os corredores, os alunos obedeciam a uma norma ainda não verbalizada: se não estivesse nas aulas, só poderiam estar na biblioteca ou em seus Salões Comunais. Ainda assim, pensei em me fazer de idiota e ir pros lados do Salão Comunal da Corvinal procurar por Luna. Quando cheguei lá, não tinha ninguém. Mesmo que fosse normal haver certos tipos de fantasmas, nem isso aparecia. Perdi algum tempo me perguntando o que tinha acontecido, até que senti uma varinha tocando a minha nuca.

—Perdeu alguma coisa, grifnório?

O tom gélido e intimidador me fez perceber rapidamente quem era. Aleto Carrow. É claro que me assustei a princípio, mas se tem alguma coisa de que me orgulho e sempre me orgulhei é a minha habilidade de improvisar bem quando necessário. Digo como se fosse algo meu, mas a maior parte do povo brasileiro nasce com isso. Virei-me devagar e procurei não olhar diretamente para os olhos da mulher. Respondi:

—Eu estava procurando Helena Delli, da Corvinal – torci rapidamente pra que ela não percebesse que Helena Delli não existia – Preciso de pergaminhos que emprestei a ela.

—Você pode procurá-la durante o jantar. Os alunos não podem ficar vagabundeando pelos corredores de Hogwarts. Vou tirar dez pontos da Grifnória. Agora vá embora e arrume o que fazer.

Saí de lá rapidamente e fui ao Salão Comunal da Grifnória. Neville estava lá com mais quatro alunos do sexto ano. Eram eles: David Feathernet, Charlie Lawrence, William Hertz e Ed Durwitz. Todos pertencentes à Armada de Dumbledore. Dos quatro, quem eu conhecia melhor era William, que dormia na cama ao lado da minha. Neville me viu e fez sinal pra que eu me aproximasse, indicando a poltrona vazia à sua direita. Assim que eu sentei, ele retomou de onde tinha parado:

—Como dizia, todas as saídas regulares de Hogwarts estão fechadas e vigiadas. É de interesse do Ministério da Magia que estejamos ilhados. Todas as nossas comunicações com o mundo estão monitoradas. Agora eu pergunto… Por que vocês acham que eu estou enfatizando algo tão óbvio?

Nós cinco nos olhamos. Um parecia esperar que o outro falasse. Não, ninguém sabia. Depois de esperar alguns segundos por uma resposta, Neville se aproximou e disse em voz baixa:

—Há três respostas pra isso. A resposta oficial, a resposta presumida e a resposta verdadeira. A resposta oficial é aquela que Snape fica apregoando por aí sempre que tem chance. Ou seja, prevenir que os alunos rebeldes armem uma revolução que acabe pondo Hogwarts em conflito interno, o que prejudicaria os demais alunos. A resposa presumida aceita parte dessa versão, mas questiona o restante. Ela diz que realmente Snape quer evitar a manifestação dos rebeldes – no caso, a Armada – e um conflito interno, mas também teme sofrer um golpe que o derrube da diretoria. Isso é algo que nós até poderíamos fazer, mas seria muito prejudicial pra nós, porque chamaria a atenção do ministério e ainda não podemos com todos eles. Sobra então a resposta verdadeira. Alguém arrisca o que pode ser?

Mais uma vez, ninguém falou nada. A resposta veio de um lugar inesperado: o espaço da escada que leva aos dormitórios femininos. Reconheci a voz como sendo de Gina, que disse:

—Impedir que Harry Potter tenha auxílio dentro do castelo caso resolva voltar pra cá.

Olhamos pra ela. Parecia um rascunho daquilo que um dia já fora. Cabelos desalinhados, rosto pesado e sem expressão vivaz, olhos vermelhos de quem passara horas e horas chorando. As roupas pareciam amassadas e um suspiro ao final da frase nos fez compreender que aquele assunto a machucava, de alguma forma. Todo mundo na Grifnória sabia que Gina e Harry tinham, no mínimo, um romance não assumido. Agora eu entendia por que ela estava daquele jeito, não só naquela tarde, mas desde que o ano letivo começou. Um tanto sem jeito, Neville continuou.

—Hã… Sim, isso mesmo. Snape e os Carrow tem medo do que pode acontecer quando Harry voltar.

—E como sabemos que Harry vai voltar? – perguntou Lawrence – Quer dizer, eu quero que ele volte, e até espero por isso. Mas qual a garantia que temos? Nem sabemos direito onde ele está ou o que está fazendo…

—Entendo o que quer dizer – disse Neville – Mas acredite que ele vai voltar. Tem razão, não sabemos onde está ou o que está fazendo, mas sabemos que ele é fiel a Hogwarts e não vai nos deixar na mão enquanto precisarmos dele.

—Então quando ele volta?

—Não sei.

Ficamos mais algum tempo em silêncio. Enquanto isso, Gina passou por nós e parou do lado de Neville, de frente pra lareira. Estava tão próxima que sua roupa poderia até se incendiar. Depois foi pra janela. Já tinha anoitecido, e umas poucas nuvens impediam a lua de aparecer por completo. Gina pôs a mão no vidro e disse, mais pra si mesma do que pra nós:

—Voltar… Voltar pra nos tirar dessa bagunça. Não. Eu aguento esperar. Ele prometeu que estaria aqui quando eu precisasse dele. Mas eu preciso dele agora e estou sozinha. Então onde você está? ONDE VOCÊ ESTÁ, SEU IMBECIL????

Enquanto dava esse repentino grito, Gina fechou a mão e socou a parte envidraçada da janela. Não chegou a trincar, o que foi a nossa sorte. Neville rapidamente segurou seus punhos, temendo um novo ataque de fúria, e a afastou dali. Ninguém podia saber o que tinha acontecido ali. Gina respondeu ao comando de Neville de uma forma surpreendentemente calma, levando em conta o que acabara de acontecer. Claro, sua raiva foi manifestada na forma de um choro compulsivo e não muito silencioso. Eu olhei pros rapazes e fiz sinal pra que subíssemos aos dormitórios, deixando que Neville cuidasse direito dela. Dispensei meus colegas e fui pra cama. Ainda não sabia direito o que pensar, mas já estava começando a aceitar que o momento de calma tinha, definitivamente, acabado.