Um Gibb em Hogwarts
6 Ela é Aquela que Você Ama
Notas iniciais
Sinto que estarei sendo justo com vocês, caros tios, eliminando o que aconteceu na semana seguinte. Não se preocupem, não houve nada que alterasse seriamente os acontecimentos posteriores. Minha proximidade com Neville, Gina e Luna deu origem a um novo quarteto em Hogwarts. Realmente, estar inserido em um tipo de equipe dá uma visão completamente diferente às coisas. Por muito tempo eu achava que o melhor era produzir visando o bem da Casa unicamente, mas quão prazeroso é fazer algo por quem se tem afinidade! Quanto ao ataque de nervos sofrido por Gina, o passar dos dias não parecia fazer muita coisa por ela. Neville e eu começamos a ficar com muito medo de que a caçula dos Weasley estivesse sendo a primeira a entrar no jogo que Snape e os Carrow estavam fazendo com todos os alunos de Hogwarts. O único lugar onde podíamos conversar com alguma calma sem ser na Sala Precisa era a biblioteca. E era lá onde eu estava, com dois livros na frente, quando senti o perfume mais doce do mundo no ar. Logo a moça que o exalava estava sentando no lugar do outro lado da mesa à minha frente.
—Oi, Matthew – disse ela – Posso falar com você um instante?
—Sempre que quiser, Luna. Não tenho impedimentos pra ti – eu mesmo não sei explicar como eu consegui dizer isso. Nesse início de convivência, eu ainda me sentia muito tímido perto de Luna, mas tinha esses lampejos nos quais dizia algo desse tipo. Consegui notar que ela ficou um pouco corada com minha frase, mas o assunto que a trouxe ali era mais sério:
—Estou preocupada com Gina. A cada dia que passa ela parece piorar. Não sei mais o que fazer.
—Neville te contou sobre o que aconteceu há algumas noites?
—Sim.
Ela começou a olhar pela janela, com aquela expressão distante que eu aprendera a ver em seu rosto na maior parte do tempo. Qualquer um que a visse ali diria simplesmente que ela estava sonhando acordada, mas de algum modo eu conseguia perceber que a corvinal estava com mil coisas trabalhando ao mesmo tempo debaixo daqueles cabelos loiros e atrás daqueles olhos de safira. Céus, ela era tão linda… Sem fazer barulho, fechei os dois livros que estavam comigo e perguntei se havia algo que eu pudesse fazer. Pra minha surpresa, Luna olhou em meus olhos e disse:
—Posso encostar minha testa na sua?
Senti o encosto da cadeira fugir das minhas costas. Não sei por quanto tempo fiquei lá, parado, de boca aberta, sem conseguir formar meia palavra. Ela simplesmente me olhava, esperando por uma resposta. Balbuciei:
—Pra… Pra quê?
—Meu pai sempre diz que às vezes é preciso duas mentes pra se ter uma ideia. Quando ele não consegue pensar em algo, ou quando tem muita dificuldade pra se encontrar, ele encosta a testa dele na minha e deixa que nós dois trabalhemos nisso juntos. Nunca precisei desse recurso em Hogwarts, mas não sei o que fazer por Gina. E eu sinto que posso confiar totalmente em você. Então, eu posso?
Fechei a boca e sorri, indicando com a cabeça que sim. O mais discretamente que pude, olhei em volta pra saber se estávamos realmente sozinhos. Aparentemente sim, então não seríamos interrompidos. Luna se inclinou em cima da mesa e, quase sem nenhuma força, me puxou pelos ombros pra perto dela. Então fechou os olhos e ajeitou nossas testas, uma contra a outra. Do jeito que nós estávamos, nossos narizes estavam quase encostados também. Luna me segurava junto dela com as duas mãos embaixo das minhas bochechas, quase no meu pescoço. Fiquei um tanto receoso, pois minha respiração estava muito acelerada em comparação à da garota. Milhões de coisas explodiram ao mesmo tempo dentro da minha cabeça – eu quase tive medo de que parte daqueles pensamentos passassem pra dentro da mente dela, pois eu já não tinha mais controle nenhum ali. Me sentia, acima de tudo, feliz. Se antes eu ainda estava começando a ter sentimentos por Luna Lovegood, naquele instante eu poderia dizer com toda a calma que ela era o meu principal objetivo em vida. Falando a verdade, aquele toque, gentil e cândido, deve ter durado cerca de um minuto, mas ao mesmo tempo parecia muito mais e muito menos. Dado momento, sem nos separar e sem abrir os olhos, ela disse:
—Seu coração está acelerado.
—Desculpa…
—Está tudo bem. Parte do processo implica em entender como o outro pensa. E não é muito difícil entender como você pensa – nesse momento, ela tirou a mão esquerda do meu rosto e pôs no meu peito – Quando seu coração começou a acelerar, você estava pensando em algo que ama, não é?
De fato. Eu estava pensando e vendo algo que amava. Mas como não sabia se já podia dizê-lo, simplesmente concordei.
—Entendo – ela disse, já se separando de mim – Acho que já tenho o que preciso. Muito obrigada, Matthew.
Antes que eu pudesse voltar do sonho à realidade, Luna já estava longe. Fiquei um tempo ali parado, tentando trazer de volta todas aquelas lembranças e sensações. Percebi que não teria condições de tentar continuar estudando, então fui até a bibliotecária retirar os livros que estavam comigo e saí da biblioteca.
Tivemos apenas mais um único encontro da Armada naqueles dias, justamente na noite seguinte a essa maravilhosa experiência, e dessa vez eu tive que duelar com Willian. Meu primeiro duelo com Luna serviu pra me deixar alerta com determinadas situações, e eu não tive muitos problemas pra repelir a maior parte dos feitiços ofensivos dele. Mesmo assim, fui derrotado. Neville elogiou muito a minha performance, mas não deixou de ser direto e objetivo quanto aos meus erros. Parecia mesmo um professor. E um dos mais dedicados.
—Matthew, tem mais uma coisa que eu preciso falar com você – disse ele, de canto, quando já tinha dispensado todos os outros. Olhei de solsaio para onde Luna estava. Gina e ela estavam conversando mais afastadamente. Não sabia se Luna já tinha usado ou se ia usar o misterioso plano que desenvolveu na minha frente. Respondi a Neville:
—Sim, pode falar.
—Lembra da conversa que tivemos há algum tempo sobre Snape estar tentando impedir que Harry tenha auxílio dentro do castelo caso tente voltar?
—Sim.
—Eu ainda não consegui imaginar uma maneira de quebrar esse impedimento. Por isso eu quero a sua opinião. O que parece ser mais fácil, trazer Harry pra dentro ou levar alguém daqui pra fora?
Levei alguns segundos pra pensar em uma resposta. Considerando tudo o que estava ao nosso redor, me parecia comparativamente mais fácil levar alguém pra fora, mesmo contando que todas as saídas do castelo estivessem sob forte e constante vigilância. Passei esse pensamento pra Neville, que concordou comigo.
—Bem o que eu penso – disse ele – Mas mesmo assim ainda é uma tarefa arriscada.
—E por que quer levar alguém pra fora do castelo? Sabe onde encontrar Harry e os outros?
—Não, mas penso que um de nós poderia sair e fazer algum sinal pra que ele soubesse que, apesar de estarmos ilhados, ainda continuamos vigilantes. Ou mesmo pra buscar alguma ajuda junto a Ordem da Fênix, que eu já descrevi pra você. Mas não vejo como.
A Ordem da Fênix era o grupo criado por Dumbledore durante a Primeira Guerra Mágica pra lutar contra Voldemort. A Armada era praticamente uma versão mais jovem dela. Meus pais não chegaram a ser membros oficiais, mas foram considerados assim pelo restante do grupo pelos trabalhos feitos na América do Sul, que eu falei na minha primeira carta.
Quando voltei a olhar Luna e Gina, vi que elas ainda conversavam. Quer dizer, Luna falava e Gina escutava, de cabeça baixa. Ambas estavam sentadas no chão. Do meu lado, Neville deu um pulo junto com uma exclamação de surpresa que me assustou.
—Céus, Neville! – gritei, ainda me refazendo do susto – Vai chegar o dia em que tu vai me dar um problema cardíaco!
—Desculpe, Matthew, mas é que eu demorei muito pra ver uma coisa muito óbvia. Qual é o único momento em que é permitido a nós sair sem sermos vigiados e ficar lá fora sem que ninguém do castelo nos impeça de fazer nada?
—Sim, qual?
—As férias de inverno!
Olhei Neville com certa surpresa. Ele estava certo, era mesmo muito óbvio, mas ninguém se deu conta. Com as férias de inverno, poderíamos voltar pra casa e meter a boca no mundo sobre o que estava acontecendo em Hogwarts. Aí me veio uma dúvida…
—Sim, vamos poder sair daqui. Será que Snape considerou isso? Uma vez que falarmos qualquer coisa que seja ele corre sérios riscos.
Neville pôs a mão no queixo e olhou pra outro lado, com a testa franzida. Eu o tinha feito pensar. Era tudo o que podíamos fazer até ali. Pensar. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele disse:
—O problema é sério, Matthew… E talvez mais crítico do que parece…
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