Um Doce Sacrifício
6 Carta nº 6 - A última seta aponta para mim
Bom dia Anônimo, tudo bem?
Hoje é dia trinta e um de janeiro, quinta feira, e agora são sete horas da manhã.
Acabei de chegar na escola, a primeira semana de aula vem sendo bem agitada, graças aos céus já está acabando. Estava cantando mentalmente a música All The Right Moves do Onerepublic enquanto descia a portaria, indo em direção aos corredores, até que uma mão encosta em meu ombro e me faz parar. Ao olhar para trás, vejo Mayara sorrindo.
— Bom dia, Agnes. – A voz dela soa como se tivesse tomado um litro de cafeína antes de vir para a aula.
— Bom dia, May. – Respondo sorrindo.
Faz sete anos que eu conheço, e estudo junto com a May. Ela é alta, tem corpo de modelo, pele clara, olhos verdes, cabelos enrolados na altura dos ombros, cor de mel e loiro nas pontas. Ela é uma mistura de hippie e garota praiana, então ver ela sem suas saias cumpridas, vestidos, botinhas, rasteirinhas e acessórios de cabelo chega a ser estranhamente engraçado, pois dentro da escola ela é básica, na maioria das vezes vem de chinelo e anda descalça na sala, não tem medo de sujar os pés ou as mãos, adora mexer na terra e usar pouquíssima (quase nenhuma) maquiagem, mas quando necessário, sabe agir como uma “menina da cidade”.
— Agnes, está tudo bem? – ela me encara – você está distraída demais para o seu gosto.
E é verdade, eu acordei totalmente distraída hoje. Normalmente estou sempre em estado de alerta, esperando coisas inimagináveis acontecerem, tipo um zumbi me atacar, os alienígenas descerem em meio ao pátio, ou simplesmente desviar de uma bolada.
— Ah, May, não é nada demais. Deve ser apenas sono – falei
— Uhm, cuidado, você sabe que pessoas distraídas podem se dar mal. – ela deu uma breve pausa, e começou a rir baixinho – Eu tenho experiência própria nisso.
Então nós começamos a rir juntas. É verdade, May é o desastre em pessoa. Além de ter déficit de atenção, ela não consegue andar meio metro sem tropeçar em alguma coisa, às vezes, tropeça até em seus próprios pés. Uma vez quando tínhamos treze anos, um besouro, que voava em alta velocidade pelos corredores da escola, bateu em minha cara e fez com que eu caísse no chão. Antes de cair, eu apenas encostei minha mão no ombro de May, que se assustou e esbarrou em uma menina do terceiro ano do colegial, e acabou que nós três caímos.
Chegamos na frente da classe no exato momento em que o sinal bateu, e todos invadiram a sala de aula, correndo, desesperados para pegar um bom lugar. Por ter chegado meio que em cima da hora, eu tive que pegar os lugares que estivessem disponíveis, e o ultimo era na primeira carteira da fileira encostada na janela, e atrás de mim, Cooper. Eu fui em direção ao meu lugar provisório, quando me sentei, Cooper riu e disse.
— Vejamos quem está aqui, – ele sorriu – Agnes Lancaster.
— Pensei que ia me chamar de “moça bonita” de novo. – Eu ri.
Cooper sorriu (pela segunda vez em menos de dois minutos) e se virou para trás. É incrivelmente engraçado como ele está quase sempre sorrindo.
Eu fiquei as duas primeiras aulas desenhando na apostila de ciências, tentando prestar atenção na aula, mas com o pessoal de trás rindo e conversando, estava difícil, e de manhã, meu humor é extremamente péssimo. Cooper e o pessoal de trás ficaram conversando as duas aulas inteiras, o que me irrita, pois eu não estava conseguindo me concentrar, e Anônimo, eu pensei que estudar a origem da vida seria mais legal.
— Agnes, – sinto uma caneta cutucar minhas costas – me passa a atividade três?
— Ah, não.
— Por que? – Cooper me cutuca novamente.
— Se você calasse a boca, seria mais fácil me concentrar para fazer a atividade três.
— Ah, Ag! – ele me cutuca pela terceira vez com aquela merda de caneta – Passa só essa para mim.
Eu me viro para trás, e olho para Cooper. Seus olhos verde-musgo estão envoltos de olheiras, provavelmente causadas por sono, seu cabelo preto, aparentemente despenteado, está escondido no capuz do casaco, e a maldita caneta preta está sendo mordida, enquanto ele olha aflito para a apostila.
— Me empresta sua caneta? – eu pergunto, e ele olha para mim sem expressão, enquanto me entrega-a – Foi com essa coisa babada que você me cutucou três vezes?
— Sim...
Eu limpei a caneta no casaco de Cooper, e a arremessei do outro lado da sala.
— Vai lá pegar a sua caneta.
Ele se levanta e vai. Ao voltar, me cutuca de novo e sorri.
— Eu gosto de meninas difíceis.
Aquilo realmente me fez refletir, o que ele quis dizer com “eu gosto de meninas difíceis”? Eu abri em uma folha limpa de meu caderno, e comecei a desenhar setas, indo em diversas direções enquanto pensava. Me lembrei de alguns dias atrás, quando (sem querer) dei-lhe um beijo no canto de sua boca, e depois do modo que ele reagiu e ficou olhando para mim pelo resto do dia. Dos dias atrás, que todo recreio ele vinha conversar comigo, sempre me tratando com todo o amor do mundo. “Então, todo esse tempo, que ele foi legal comigo, todas as conversas, tanto pessoalmente quanto por mensagem... Todos os sorrisos...” Ao concluir meus pensamentos, sem perceber, a última seta que eu havia desenhado apontava para mim. Ainda concentrada em minhas “descobertas” me assusto ao sentir Cooper me cutucando com sua caneta e dizendo.
— É, você acertou.
— Espera... o que?
— A questão três, boba. – Ele ri – Eu olhei na sua apostila, você assinalou a “b”, certo?
— Ah, sim,– pisco, e continuo a conversa, com meu doce jeito de ser – se você me cutucar de novo com essa caneta, eu vou enfiar ela na sua boca.
Ele sorri enquanto eu me viro para frente, e sem perceber que eu ouvi, sussurra.
— Você poderia enfiar outra coisa na minha boca...
E ao ouvir aquilo, bato com a cabeça na carteira, ao mesmo tempo em que o sinal do recreio toca.
— Agnes? – Loup bagunça meu cabelo – Vamos, é recreio.
— Ok. – Me levantei, e sai da sala.
Eu fiquei o primeiro recreio inteiro conversando com Loup no quiosque, e quando faltavam uns oito minutos para o recreio acabar, decidi contar à ele sobre as duas aulas de ciências e minhas conclusões.
— Espera, então você acha que o Cooper está afim de você? – Loup morde metade da bolacha
— Bom, eu tenho quase certeza.
— Ah, Agnes... – ele ri – Cooper é galanteador com todas as meninas. Mas, talvez você esteja certa, vamos esperar para ver. – Loup chacoalha o pacote em busca de mais bolachas – Hm... compra outro desse para mim? Eu te pago amanhã.
— Ok, – levanto sorrindo, enquanto pego o pacote – você vem junto?
— Não, – Loup ri e se levanta – vou ver se alguém sabe porque o Matteo faltou, ele sempre manda mensagem quando não vai vir, e até agora eu não recebi nenhuma.
Eu me virei e sai do quiosque, indo em direção à cantina, cheguei e comprei a bolacha.
Quando estava chegando perto do pátio do meio, o sinal tocou, e eu apressei meu passo. “Bom, o Loup come a bolacha no segundo recreio então” pensei enquanto olhava para o pacote em minhas mãos. Ao pisar no pátio, ouvi passos, como se pelo menos um grupo de cinco pessoas estivessem correndo, então, alguém esbarrou em mim, e me molhou com algo que parecia ser suco de uva.
— Meu deus, – resmunguei olhando para minha blusa, completamente manchada – mas que porra é essa?
— Ah... desculpa, Agnes, – ao olhar para frente, vi Cooper, com a blusa também manchada, e com um copo de suco amassado e vazio na mão – eu não te vi.
Eu suspirei, peguei o pacote de bolacha que havia derrubado no chão, e falei.
— Merda, vamos tirar essa blusa antes que fique pior. – Peguei a mão de Cooper e o levei até a biblioteca.
Todos já estavam em suas respectivas salas, menos nós. Ao entrarmos na biblioteca, tranquei a porta e sussurrei.
— Fala baixo ok? Se não pode dar merda.
— Ok. – ele sussurrou de volta – E agora, o que a gente faz?
— Bom, se o pessoal da coordenação não tiver mudado, tem uma caixa em algum dos armários aqui, que tem camisetas velhas, a gente pode pegar duas iguais e fingir que nada aconteceu, já que ninguém viu nossas blusas com suco. – falei, abrindo o primeiro armário.
Nós começamos a procurar, a biblioteca é pequena, mas tem três grandes armários. Depois de dois ou três minutos, Cooper achou a caixa.
— Agnes, aqui! – ele colocou na mesa uma caixa média de papelão – pega uma igual a que você estava antes, assim ninguém percebe a mudança.
Nós pegamos as blusas, e ficamos de costas um para o outro. Eu tirei minha blusa suja, mas quando ia colocar a limpa, o encaixe do sutiã soltou. Lógico, eu tentei recoloca-lo, mas eu não sou o tipo de garota que consegue fazer isso, então, eu tive que pedir ajuda.
— Ah, Cooper? – Perguntei, segurando o bojo do sutiã enquanto me virava para olha-lo – Você pode me ajudar por favor?
— Sim, – ele se virou, e arregalou os olhos – ai meu deus, você está sem blusa.
— E dai? Você está também. – E devo admitir Anônimo, a vista não era nem um pouco ruim.
— Eu não estou reclamando. – Ele sorriu, enquanto eu revirava meus olhos
— Ok, tarado. Prende o sutiã para mim, por favor?
Me virei, e senti as mãos de Cooper em minhas costas, prendendo o sutiã.
— Pronto.
— Obrigada. – me virei para ele enquanto colocava a blusa e o abracei.
– De nada. – ele sorriu, e suas bochechas ficaram vermelhas, pela primeira vez, não enxerguei malicia em seu sorriso – Como a gente irá fazer para sair daqui e voltar normalmente para a classe?
— Que horas são? – perguntei enquanto tentava elaborar um plano
— Nove e quinze.– Cooper disse, enquanto olhava para a tela de seu celular
— Vamos esperar a aula trocar, a terceira aula termina as nove e quarenta e cinco, daqui a pouco a gente sai, e volta para a classe.
— Ok.
Faltavam trinta e um minutos para trocar de aula, nós íamos ficar um bom tempo presos, sem fazer nada. Por sorte (ou coincidência, não sei) a bibliotecária havia faltado, sem motivo aparente. Eu fui até uma estante de livros e me sentei apoiando as costas nela, ao me ver sentada, Cooper se aproximou.
— Ei, – ele se sentou ao meu lado – me desculpe se alguma vez eu fui muito invasivo, ou tarado demais. – ele sorriu, olhando para o teto – Os garotos costumam ficar bobos perto de você, não sei se você já notou.
— Você não precisa pedir desculpas por ser você mesmo, – sorri – e não, eu nunca percebi, eu vivo rodeada de pessoas extremamente retardadas, é difícil perceber quando alguém esta... – eu não completei a frase, não foi preciso, ele já entendeu – olha, se eu fosse você, não faria isso, eu costumo quebrar o coração das pessoas.
— Você me avisou tarde demais. – Cooper olhou para mim sorrindo, com melancolia.
Eu olhei nos olhos dele, os olhos verde-musgo que sempre costumam ser agitados e brilhantes, pareciam ter ficado um pouco mais escuros, frios, até mesmo tristes. Sabe, Anônimo, até a pessoa mais feliz tem seu lado triste, por mais que o esconda, sempre tem. E era isso que Cooper estava transmitindo para mim agora, um olhar em forma de mensagem, “eu tenho meus momentos de tristeza também”, era isso que ele parecia dizer.
— Mas, – ele disse – como eu já te falei, eu gosto de garotas difíceis.
Eu sorri, e dei-lhe um beijo em sua bochecha, e vi os olhos dele ficarem brilhantes novamente. Estava tudo bem, até que alguém abriu a porta da biblioteca. Cooper e eu nos agachamos atrás da estante de livros em que estávamos.
— E agora? – ele sussurra
— Vamos esperar a pessoa se virar para alguma parede ou estante e sair correndo.
Ele acenou a cabeça, e nós esperamos. Quem estava conosco na biblioteca era a coordenadora da escola, ela estava procurando livros na prateleira no fundo da biblioteca, ao lado da estante que estávamos escondidos, era exatamente o momento que precisávamos. Eu puxei Cooper e nós saímos correndo da biblioteca, passamos pelo pátio e paramos atrás do banheiro masculino.
— Ai meu deus, não acredito que nós escapamos! – Cooper sorri – Meu deus, que aventura.
— Sim, – eu rio – mas temos um problema.
— Qual?
— As aulas vão trocar daqui cinco minutos, mas alguém pode dedurar a gente, porque você sabe... praticamente só tem gente filha da puta na nossa classe.
— Verdade... – ele suspira e senta no chão – e agora?
— Eu tive uma ideia, mas... – dei uma breve pausa olhando para a grama – bom, espero que você não perca seu encanto por mim. – sorri
Eu relutei, mas coloquei meu dedo indicador e médio em minha boca e induzi um vômito. Eu não havia comido muito no recreio, mas meu café da manhã foi bem... pesado; um omelete com tomates e suco de maçã, e em questão de segundos, toda aquela bela e nutritiva refeição estava sendo jorrada para fora de meu estômago, indo em direção à grama.
— Agnes! – Cooper segurou meus ombros – Mas que porra você está fazendo?
— Salvando a gente de uma detenção, – induzi novamente um vômito – por favor, você sabe o que tem que fazer.
— Merda. – Ele se levantou, e saiu correndo.
Eu vi em algum site na internet, que se você induzir o vômito pelo menos três ou quatro vezes, ele começa a sair sozinho, e foi isso que eu fiz. Enquanto Cooper ia buscar ajuda, eu induzi meu vômito, todas as vezes possíveis, assim, quando ele voltasse com alguém, eu já estaria vomitando sozinha, sem dedos em minha garganta. Olha Anônimo, por favor, nunca faça isso, nunca se machuque, de qualquer maneira que for. Existem pessoas que fazem isso todo dia, propositalmente, são pessoas tristes, Anônimo, pessoas que tem doenças como a bulimia, ou outras do gênero, as vezes, elas fazem isso para aliviar a dor, então por favor, nunca faça isso, não siga minhas atitudes. Por mais que eu esteja “salvando” Cooper e eu de uma detenção, isso vicia, e eu estava induzindo de uma forma muito violenta, praticamente sem parar. Já estava ficando suando frio, e com dores cabeça de tanto vomitar, até que ouço passos rápidos, e a voz de Cooper soa abafada. “Por aqui”. Eu apenas senti as mãos de alguém me segurando antes que tudo ficasse escuro.
***
— Pode repetir o que aconteceu, por favor?
— Sim, – a voz de Cooper parecia abatida – Nós estávamos voltando para a sala, logo após o sinal do recreio ter batido, ela caiu no chão e começou a passar mal, e vomitou. Eu não consegui chamar alguém antes porque se não ela poderia ter desmaiado antes, então quando ela pareceu melhor, eu corri para chamar alguém.
— E ela ficou meia hora vomitando? – uma voz feminina pergunta
— Não, no começo ela apenas suou frio e não conseguia levantar, e eu não tenho força para levanta-la. – Cooper suspirou – Eu esperei uns dez minutos, e quando me levantei para chamar alguém, ela vomitou, e ficou assim por mais quinze minutos, eu acho.
Então me dei conta que havia desmaiado. É, induzir vômito realmente não foi uma boa ideia. Olhei para os lados tentando entender aonde eu estava, até que uma voz harmoniosamente conhecida me respondeu.
— Você está na sala dos professores, – Loup acariciou minha cabeça – e foi estupida a sua ideia.
Eu resmunguei e tentei levantar.
— Não adianta ficar assim, você sabe que eu sei de tudo, e que essa era uma ideia horrível e arriscada. – Loup me ajudou ao perceber que eu iria cambalear e cair.
— Olha, vejamos quem acordou! – a coordenadora da escola sorriu ao me ver de pé – Está melhor, querida?
— Sim, obrigada. Eu... eu devo ter passado mal por causa do meu café da manhã, não costumo comer muito ao acordar.
— É, foi isso mesmo. – Ela sorriu – Da próxima vez cuidado, você quase teve que ir tomar soro no hospital.
Eu sorri e olhei para Cooper, que ao me ver em pé, ficou aliviado.
— Bom, – a coordenadora se levantou da cadeira – vocês dois podem descansar um pouco, e você – ela apontou para Loup – pode voltar para a aula, sua amiga já está melhor.
Loup e a coordenadora saíram da sala, no momento em que ela fechou a porta, Cooper andou até mim e me abraçou com força.
— Se você fizer isso de novo, eu juro, eu juro que eu... – Ele me apertou mais ainda.
— Eu falei para você, não é fácil. – Eu ri, enquanto abraçava seu pescoço.
Nós esperamos um tempo, quando deu dez horas voltamos para a sala. Estava tendo aula de filosofia, foi uma pena ter perdido alguns minutos de uma das aulas que eu mais gosto, mas não faz mal. Cooper entrou na classe primeiro, e quando foi minha vez de entrar, todos olharam para mim. Algumas pessoas sussurraram, outras apenas se voltaram para frente. May lançou um olhar para mim, “você está bem?”, eu acenei com a cabeça e me sentei. Cooper e eu havíamos combinado uma história, caso alguém perguntasse o que aconteceu, a gente contaria a mesma história que ele contou para a coordenadora.
— Sabe de uma coisa? – me virei para trás, e apoiei meu braço na mesa de Cooper – Você é muito parecido com o Nathan, aquele cantor da banda The Wanted. – Eu ri.
— É, – ele riu – já me falaram isso.
Eu sorri, e me virei para frente.
Sabe, Anônimo, as aventuras do meu dia acabaram por aqui mesmo. Quando cheguei em casa, o pessoal da coordenação da escola havia ligado para minha mãe, ela apenas me abraçou e perguntou se eu estava melhor, e eu respondi que sim, pois eu estava mesmo. O resto do dia, eu fiquei estudando, e fui dormir cedo por causa da exaustão de hoje.
Bom, até mais Anônimo.
Agnes H. Lancaster
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