Um Doce Sacrifício

7 Carta nº 7 - Gatinho preto da sorte


Boa tarde Anônimo.

Hoje é dia primeiro de fevereiro, sexta-feira. Agora são meio dia e meia, e eu estou saindo da escola, ao lado de Cooper. Nós conversamos muito essa semana, e quando se sabe mais sobre ele, é muito divertido tê-lo por perto.

— Cooper, eu vou indo, a van já está me esperando, – falei dando um abraço nele – até segunda.

— Até segunda, Agnes.

Eu não sei o que aconteceu exatamente, mas quando Cooper foi retribuir o abraço, eu não sabia se colocava a cabeça do lado direito ou esquerdo, então, nós quase nos trombamos umas duas vezes, até que nossos lábios se esbarraram, e nós demos um selinho.

— Meu deus, desculpa. – falei, enquanto ele olhava para minha boca.

— Não precisa se desculpar, – ele sorriu de canto, e olhou para meus olhos – foi proposital.

Antes que eu pudesse dizer (ou fazer) alguma coisa, a van buzinou e eu tive que ir embora. No caminho, pensei em toda essa semana com Cooper, em todas as confusões que a gente havia se metido, e como já tinha ficado um bom clima pairado no ar. “Ele só esperou o momento certo...”. Ele não foi daqueles garotos que simplesmente chegam e pedem para te beijar, ou aqueles que enrolam décadas, ele me conquistou, aos poucos, de um jeito que quando ele me beijasse, eu não recuaria. “Mas que filho da putinha” pensei enquanto ria sozinha.

Cheguei em meu prédio, desci da van ao lado de James e nós fomos conversando até elevador.

— Sexto andar, né? – ele me pergunta olhando fixamente para o painel de botões e girando seu dedo em cima deles, esperando a resposta.

— Aham.

— Ok... então temos seis e oito. – em uma fração de segundos, os botões já tinham sido apertados.

Nós subimos, quando chegou em meu andar, me despedi de James e abri a porta do apartamento.

Acho que nunca falei sobre ele para você né, Anônimo? Bom, James foi meu primeiro amigo aqui no prédio quando me mudei, ele é alto e magricela, tem cabelos cor de mel e um pouco de barba, sempre está com os cabelos bagunçados e olheiras de insônia abaixo dos olhos, ele é um ano mais velho que eu e estuda em uma escola pública aqui perto de casa.

Quando entrei, minha mãe estava sentada na mesa de jantar, com uma caixa em sua frente, olhando para mim enquanto sorria.

— Oi? – falei enquanto fechava a porta.

— Bom, em comemoração á minha conquista no emprego, eu comprei um presentinho para você. – Ela apontou para a caixa.

— Uhm... ok. – Eu estava prestes a chacoalhar a caixa quando minha mãe berrou.

— NÃO FAÇA ISSO! – ela recuperou o controle – Cuidado, é frágil.

Ao olhar mais detalhadamente, percebi que em cima, haviam buracos do tamanho de canetas. Abri a tampa, e ao olhar para dentro da caixa, não sabia o que dizer, apenas sentir.

Um gatinho. Um lindo gatinho, de no máximo quatro meses brincava com suas próprias patas na caixa vazia, pequeno, bem peludinho, da cor preta, e olhos verdes intensos, ele miou baixinho ao me ver.

— Como ele irá chamar? – minha mãe pergunta, observando minha cara sem reação.

— Dixon, – falei pegando a pequena criaturinha em minhas mãos – em homenagem aos meus personagens preferidos de The Walking Dead, os irmãos Dixon. – fiz uma breve pausa – Meu deus, eu preciso contar isso para a Bianca.

Fui até meu quarto com Dixon no colo, entrei e fechei a porta, peguei meu celular e liguei para Bianca.

— Alô?

— Be, sou eu. – falei, sem citar meu nome, como se ela tivesse decorado minha voz – Agnes.

— Eu sei que é você, – ela ri – tudo bem? Por que ligou?

— Você está ocupada?

— Não... – o telefone fica brevemente mudo – por que?

— Estou indo para a sua casa, se arruma que a gente vai sair. – falei, desligando o telefone

Joguei o celular em cima da cama, peguei minha calça leggin preta rasgada na frente, uma blusa preta estampada com um esqueleto de um tórax, meu all star preto de couro, e fui em direção ao banheiro escovar os dentes. Peguei o Dixon, e cem reais do meu cofrinho para comprar algumas coisas. Fui até a sala, minha mãe estava vendo televisão.

— Mãe, vou ir comprar algumas coisas para o Dixon, e eu vou de carro, ok?

— Ok filha, só não gaste muito por favor.

Fui até o hall e chamei o elevador, apertei o botão da garagem e comecei a descer. Ao chegar na garagem, fui até o carro, coloquei Dixon dentro de uma caixa de papelão e á prendi no banco do passageiro, liguei o carro e fui em direção á casa da Bianca.

Ao chegar lá, buzinei, e cerca de dois minutos depois, o portão se abriu, e eu me deparei com um garotinho de treze anos, baixo, com a pele branca, cabelos pretos e olhos verde-limão.

— Oi, – ele disse olhando atentamente para mim – a Be já está vindo...

Desliguei o carro e esperei, um tempinho depois Bianca apareceu e abriu a porta do carro.

— Agnes, desculpa pela demora, eu estava procurando meu shorts. – ao olhar para o banco do passageiro Be parou de falar – Meus deuses, o que é isso?

— O nome dele é Dixon, – sorri ao falar – pode colocar a caixa no banco de trás, e se você quiser ficar com ele em seu colo...

— Lógico que eu fico! – Bianca pegou Dixon, jogou a caixa para trás e se sentou – Para onde vamos?

— Para uma loja de animais. – Falei ligando o carro e dando a partida.

Chegamos na loja em quinze ou vinte minutos. A CenterPet é uma das maiores (e melhores) lojas de animais da cidade. Ela é definitivamente gigante, ocupa um quarteirão inteiro, é azul e tem como logomarca o desenho de um cão e um gato abraçados e sorrindo. Na loja pode entrar com seu bichinho de estimação (dependendo do tamanho), tem uns carrinhos com compartimentos próprios para acomoda-lo.

— Ag, eu posso empurrar aquele carrinho? – Perguntou Bianca, quando entramos na parte dos carrinhos.

— Pode, só vou por o Dixon na gaiolinha. – Falei, enquanto abria a portinha da mesma.

Depois de coloca-lo, saímos da ala dos carrinhos e entramos na loja. Havia vários tipos de produtos para escolhermos, nós ficamos olhando e revirando as prateleiras, quando achávamos alguma coisa legal mostrávamos uma para a outra, e as que gostávamo,s iam para o carrinho. Eu estava vendo umas camas do fundo quando meu celular vibrou, o peguei para ver o que era.

“Oi Agnes! Tdb? Então, eu estou convidando vc para uma festinha que eu vou dar lá em casa. Sexta q vem as 19:30, vc sabe aonde eu moro né? Caso n saiba eu moro na rua Major 33, Bairro Donatelli. O Cooper vai estar na festa! Espero vc lá, bjs. Rachel.”

Eu não respondi a mensagem. “Ok, mas que diferença faz se ele vai ou não?” pensei, enquanto guardava o celular no bolso e segui em frente.

— Quem era? – perguntou, Be.

— A Rachel, ela estava me convidando para uma festa.

— O Cooper vai? – sorriu. Bom, Anônimo, eu contei tudo sobre o que aconteceu comigo e com Cooper durante a semana para a Be, enquanto nós estávamos vindo para cá.

— Ah, cala a boca, Bianca.

Ela sorriu e estendeu os braços, enquanto segurava algumas caminhas de gato.

– Nossa, quantas caminhas... É melhor nós escolhermos uma legal, e que de preferência combine com o meu quarto.

— Sim, eu seguro as caminhas e você avalia, – disse Bianca, colocando as caminhas no carrinho e escolhendo uma – essa é azul com patinhas de gatinho preta.

— Não, muito clichê. – Falei

— Ok, – ela guardou a azul na prateleira e pegou a próxima – essa é de bolinhas laranjas com o fundo rosa.

— Rosa? Sério, Bianca?

— Relaxa, só estava brincando, – ela riu – e essa de arco íris?

— Legal, mas não combina. – falei

— Como você desaprova a rosa mas gosta da de arco íris?

— Ah, não sei. – dei de ombros, enquanto ria.

— Ok, a última, – Be suspirou – contorno preto e fundo branco.

— Gostei.

— Só? Não vai falar mais nada? – Be parecia querer me bater pela minha pouca importância – Ai, ok. – ela riu.

Eu ri com ela, nós guardamos as caminhas desaprovadas e colocamos a escolhida no carrinho, então nós continuamos andando pelos corredores.

— Ei, gatos adoram aranhar as coisas, – Be prosseguiu – ele precisa de um arranhador e alguns brinquedos, nâo?

— Sim, vamos para o setor de brinquedos então.

Ao chegarmos, vimos uma infinidade de opções de arranhadores, brinquedos, coleiras, e mais um monte de coisas.

— Olha, você procura arranhadores, e eu vou procurar uma coleira para ele. – falei pegando Dixon de dentro do carrinho.

— Ok, posso aproveitar e pegar outros brinquedos para ele? – perguntou Be, pegando o carrinho.

— Pode. – falei, enquanto me virava e ia para a estante de coleiras.

Peguei 3 coleiras que tinha gostado e pendurei-as no carrinho, e fui ajudar Be com dois arranhadores que ela tinha gostado. Notei que ela estava carregando uns outros brinquedos também.

— Então, vamos ver primeiro as coleiras? – perguntei, enquanto colocava Dixon de volta na gaiola.

— Pode ser, – ela analisou as opções – eu voto na vermelha com o cabo preto.

— Nossa, – eu ri – está decidido então.

— E, Agnes, qual desses dois arranhadores? – disse Be apontando para o chão – O primeiro é bem normal, só um cabo reto, mas o segundo é um cabo reto mais grosso, que tem alguns galhos e da para subir em cima, e em um dos galhos tem uma bolinha pendurada.

— Se eu fosse um gato eu gostaria do segundo.

— Ok. – ela riu.

— Vamos colocar no carrinho tudo que a gente vai comprar, e depois nós vamos na máquina de preço e vemos quanto da. – falei, enquanto Be guardava o arranhador – Qual brinquedo você trouxe?

— Ah, um ratinho. – ela o balançou no dedo.

— Gostei, vamos, nós temos que ver ração para ele.

Nós guardamos as coisas e seguimos para o setor de tigelas e rações. Mal chegamos, e Bianca já saiu correndo pegar alguma coisa.

— Ei, que tal essa tigela azul e branca? O azul é para água e o branco para a ração, eu gostei. – falou Be balançando uma tigela na mão.

— Ok, pode ser. – sorri

— Agora só falta a ração... – suspirou Be

Eu chamei um atendente para nos ajudar em relação á ração, pois como Dixon é praticamente um bebê, não pode comer qualquer coisa. Uma moça de aparentemente 30 anos, negra, de cabelos encaracolados e olhos pretos, com um sorriso lindo veio nos ajudar.

— Olá, meu nome é Aline, como posso ajudar? – sorriu a moça

— Oi, eu estou procurando uma ração para o meu gato, tem que ser uma ração para filhotes, mas não sei qual.

Aline nos guiou até o setor de rações, pegou um pacote roxo e colocou em nosso carrinho, enquanto nos explicava sobre ela.

— Ok, Aline, obrigada pela ajuda. – sorri, e seguimos em direção ao caixa.

— Vamos ver na maquina de preço o total? – perguntou Be, quando nos afastamos da moça.

— Vamos.

Fomos até o corredor que havia uma maquina dessas, e passamos tudo que tinha no carrinho.

Caminha preta e branca – R$ 25,00

Ratinho de brinquedo – R$ 5,00

Potinho para água e ração – R$ 10,00

Arranhador de árvore– R$ 20,00

Coleira – R$ 10,00

Ração – R$ 20,00

— Deu noventa reais, – Be anunciou – quanto a gente pode gastar?

– Eu estou com uma nota de cem aqui. – sorri – Vamos para o caixa.

Chegamos ao caixa, o atendente passou as compras, eu paguei e na hora de ir embora eu perguntei ao atendente.

— Ah, moço, por que os preços estão todos redondos?

— É aniversario da CenterPet de dez anos e para comemorar nós arredondamos todos os preços. – respondeu

— Ah sim, obrigada. – Agradeci, e saímos da loja.

Fomos até o estacionamento, eu abri o porta malas do carro e Be colocou as coisas, fechamos, deixei o carrinho no lugar certo e fomos embora. Deixei Be na casa dela e agradeci pela ajuda e companhia.

— De nada, Agnes. – disse ela me abraçando – Cuida bem do Dixon, nos vemos algum dia! – ela saiu do carro.

Quando cheguei em casa, subi com as coisas (e com Dixon na coleira) até meu apartamento e toquei a campainha, já que não conseguia abrir a porta. É, Anônimo, eu sei que não é comum ver um gato de coleira, mas é sempre bom ter uma. Minha mãe abriu a porta e perguntou.

— Como foram as compras?

— Ótimas, – respondi, jogando as sacolas no sofá, fechando a porta e tirando Dixon da coleira – vou tomar banho, mãe.

— Não pense nisso, – minha mãe me segurou – arrume tudo primeiro, depois você toma seu banho.

Suspirei levemente irritada, e comecei a desempacotar e arrumar as coisas. Deixei em meu quarto a caminha e o ratinho de pelúcia; na sala, o arranhador e na cozinha os potes. A coleira eu guardei no porta-chapéus.

Fui para o meu quarto com Dixon no colo, deixei ele no chão para ser livre e brincar pela casa.

— Eu tenho que te ensinar a fazer cocô no lugar certo, né? – me lembrei, enquanto deitava na cama.

Fiquei olhando ele brincar com o ratinho por um tempo, até esqueci que era para eu ir tomar banho, então minha mãe bateu na porta do quarto falando;

— Você não vai almoçar? Fiz bife com batata!

— Ok, mãe, já vou.

Ela saiu e fechou a porta. Fui até o banheiro e abri a gaveta da pia, peguei um elástico de cabelo e fiz um rabo de cavalo bem alto, voltei para o quarto, tirei minha roupa e coloquei um blusão do capitão américa, minha meia ¾ listrada preta, cinza e vermelha, abria porta e fui para a cozinha. Meu prato já estava pronto, peguei ele e sentei no sofá, e percebi que Dixon tinha me seguido, e ao entrar na sala, resolveu explorar seu arranhador novo, e pelo jeito estava gostando. Liguei a televisão em um canal aleatório e comecei a ver um filme, quando terminei de comer, me levantei e deixei meu prato na pia. O telefone começou a tocar, e como estava perto, atendi.

— Alô? – perguntei

— Sophie?

— Só um minuto. – fui até o quarto de minha mãe e entreguei a ela o telefone – É para você.

Sai do quarto e fechei a porta, fui até a varanda da sala e me sentei em uma cadeira, que fica pendurada em uma barra no teto, fazendo com que ela balance, gire, e etecetera. A vista do prédio é incrivelmente linda, no começo, é a cidade, com os outros poucos prédios e se estende para o centro todo, logo depois muda para um grande campo inteiramente verde, com poucas arvores, e no fim, varias montanhas, distantes, mas lindas. Como sempre, comecei a pensar. Vários assuntos surgiam em minha mente, mas eu não conseguia me focar em nenhum, a não ser ele. É, ele, o garoto safado dos olhos verde-musgo, o que me faz rir de tudo, e sempre ver o lado engraçado nas coisas. Estava prestes a decolar para meu mundo particular, quando minha mãe me cortou, e fez com que a espaçonave caísse.

— Filha, – ela me empurrou levemente na cadeira – segunda terá um passeio, para um parque de diversões, a escola ligou avisando, você pode ir.

— Ok, mãe, – suspirei – para onde é?

— Parque Wonderland.

E no exato momento que minha mãe falou o nome do parque, eu me levantei e comecei a correr pela casa. O parque Wonderland é “apenas” o parque de diversões mais incrível do país, e meu sonho é ir para lá. Corri tanto, que quase tropecei em Dixon quando estava indo para meu quarto.

— AI GATO, DESCULPA. – Gritei, e comecei a rir.

Ao entrar em meu quarto, pulei na cama e abracei a Katyucha.

— Katy, nós vamos para o Wonderland!

É, Anônimo, eu sei que ela é uma cachorra de pelúcia, mas ela é muito importante para mim, eu juro que algum dia mandarei uma carta apenas falando dela, eu só... estou esperando o dia certo chegar. Me levantei, deixei a Katyucha na cama e finalmente fui tomar banho. Bom, Anônimo, eu não fiz mais nada no dia além de lição, estudo e séries, então não tem mais motivo para eu continuar esta carta, mas segunda, terá o passeio, e eu tenho certeza que será incrível.

Até daqui dois dias,

Agnes H. Lancaster

Notas finais
Estou terminando o 8, e logo, logo o postarei. Espero que gostem :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.