Um Doce Sacrifício
3 Carta nº 3 - Eu atropelo um vulto ruivo
Notas iniciais
Olá Anônimo, como vai?
Hoje é domingo, dia 6 de janeiro e eu acabei de voltar de viajem. Ainda estou em plenas férias, já que as aulas voltam apenas dia 28.
Eu realmente não gosto de domingos, para mim são os dias mais chatos do ano. Pensando assim, levantei do sofá e decidi ir ao parque. Bom, isso eu ainda não te contei, na cidade em que eu moro, à uns nove anos atrás, existia um parquinho bem pequeno, com apenas uma dupla de balanços, e três argolas. Por causa de uma tragédia que ocorreu nesse pequeno parque, a prefeitura construiu um parque novo e três vezes maior em volta, e escondeu o pequeno em meio á altos arbustos, de mais ou menos uns três metros, e ele ficou conhecido como parquinho abandonado. Na verdade, ele não é conhecido. Nem mesmo os mendigos ou os drogados vão nele, pois quem sabe o que aconteceu lá, não tem coragem de ir.
Apenas eu.
Aquele parquinho é o meu refugio de casa, é aonde eu vou quando eu quero ficar completamente sozinha, sem pais ou amigos por perto. É lá que eu consigo organizar meus pensamentos, lá, e na praia.
Fui em direção ao meu quarto, abri o armário e peguei uma blusa regata e um shorts de cotton ambos pretos, meu moletom preferido, ele é todo preto, com capuz e com o desenho de três soldados ingleses, peguei meu all star vermelho que vem até o joelho e minha meia ¾ , me vesti, pequei meu capacete, minhas luvas e, lógico, o skate. Fui até a sala procurar minha mãe, ela não estava, então corri até seu quarto
— Mãe – ela estava vendo televisão – vou andar de skate pelo centro.
— Ok Agnes, cuidado com os carros – ela olhou para mim e me encarou com leve seriedade – e com os pedestres também.
Sai do quarto e fui até o hall de entrada esperar o elevador, em menos de dois minutos ele chegou e eu entrei. O elevador é panorâmico, então enquanto descia até o térreo fiquei olhando as crianças brincarem de pega-pega no meio do pátio, correndo e as vezes caindo no chão. Quando me dei conta, já havia chegado no hall principal do prédio, sai do elevador, atravessei o pátio (quase sendo atropelada por quatro crianças diferentes) e enfim cheguei na portaria. A porteira que estava de plantão era a Suellen, ela deve ter uns cinquenta e poucos anos, tem cabelos grisalhos e levemente cacheados na altura dos ombros e olhos azuis, usa um óculos fundo de garrafa e o uniforme azul do prédio. Ela deixa na cara que não gosta de mim, na opinião dela, eu sou uma delinquente e tudo de ruim que acontece no prédio é culpa minha. “A torneira do apartamento dezenove no quinto andar quebrou.” “Ah! É culpa da Agnes, aquela rebelde delinquente.”
— Para onde você vai? – Suellen pergunta no momento que eu encosto na porta para sair
— Vou vender drogas para crianças da escola – olho para ela e dou um sorriso irônico – vai, me deixa sair, eu vou andar de skate na rua.
Ela me encara e aperta o portão para abrir a porta, eu saio e começo a andar de skate, seguindo em direção ao parquinho. Quando cheguei, entrei em meio aos arbustos cheios de flores vermelhas, infelizmente murchas, e passei até os balanços. O chão de areia estava sem pegadas como sempre, significa que ninguém entrou aqui além de mim.
Me sentei no balanço vermelho, e comecei a me balançar levemente. Me permiti pensar um pouco sobre a volta as aulas, pensar o quão grande estava minha saudade de Matt e Loup, meus dois únicos melhores amigos, mas a saudade era só deles mesmo, porque de resto... Eu odeio aquela escola. Fiquei cerca de cinco minutos pensando, então me levantei e decidi ir embora. “Hmm... um sorvete” pensei “um sorvete vai cair bem.” Sai do parquinho e segui em direção a uma pequena sorveteria que havia no final da rua. Coloquei o skate no chão e subi, a rua do parque é uma grande descida, então é meio perigoso eu desce-la de skate, mas bom, foda-se, estou com preguiça.
Quando eu estava na metade da descida, me distrai procurando a sorveteria, e não percebi que havia uma pedra pequena (porém grande demais para eu passar com o skate) em meu caminho. “Merda” pensei, desviando bruscamente da pedra. Eu quase caí, mas consegui retomar a direção.
— Bom, pelo menos eu não caí no ch... – antes que eu pudesse completar a frase, um vulto ruivo entrou em minha frente.
Eu e o tal vulto rolamos pelo chão, e quando paramos, percebi que eu acabara de atropelar uma garota, e agora estava em cima dela.
— Merda – falei me levantando – desculpa, eu não te vi passar. – Estendi minha mão para ela, na espera que ela aceitasse minha ajuda.
— Não faz mal, eu também não olhei para o lado. – Ela segurou minha mão, e se levantou.
A garota (que aliás, eu não havia perguntado o nome) tinha volumosos e cacheados cabelos ruivos cor de fogo, usava lápis preto nos olhos verdes vivos, e que olhos viu? Dava para ver uma floresta dentro deles com diferentes tipos de vegetação: primeiro, nas bordas, se via a densa e escura floresta amazônica, depois, no meio dava para ver o verde claro de uma grande campina, e por último, grudada na pupila, um verde limão muito claro e denso ao mesmo tempo. Ela era realmente magra, com braços e pernas finas, usava uma blusa preta das relíquias da morte com uma das mangas caída, um shorts jeans preto com pequenos fiapos, e para a minha surpresa, ela usava um all star igual ao meu, só que preto, com uma armação de patins presos a eles. Ao ver o tênis eu sorri, não sei o motivo, mas achei legal eu não ser a única na cidade com aquele tipo de tênis. Ela percebeu que eu sorri, e sorriu de volta, com vergonha.
— Desculpa mesmo por ter te atropelado – falei rindo – qual seu nome?
— Bianca – ela deu uma breve pausa, como se estivesse me analisando, mas depois sorriu e continuou – Bianca Scarlett, e você?
— Agnes Lancaster. Bom... Be, eu estava indo toma sorvete, quer ir comigo?
Ela pensou um pouco, olhando de lado para o céu com seus olhos médios e curiosos, e por fim respondeu.
— Lógico, só tenho que tirar meus patins.
— Ok, e eu tenho que pegar o meu... puta merda, cadê meu skate? – Então eu olhei para rua á baixo, e vi ele atravessando a rua paralela. – Merda, vão passar por cima dele.
Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, Bianca desceu a rua em alta velocidade, atravessou a rua paralela (observação: quase foi atropelada de novo, só que desta vez, por um carro) e pegou meu skate. Eu desci a rua, e ela o entregou para mim.
— Obrigada, não precisava ter feito isso – sorri – olha, a sorveteria é logo ali.
Apontei em direção á um lugar com paredes da cor azul bebê e algumas nuvens brancas desenhadas, com uma porta retrátil de aço azul marinha. É uma sorveteria bem pequena, que não serve coisas muito complicadas, como uma vaca preta por exemplo. O nome da sorveteria é Algodão Doce, e por mais infantil que ela pareça, quase todos os jovens da cidade gostam de vir aqui á noite, comprar sorvete e depois ficar no parque conversando.
— Que nome mais infantil que essa sorveteria tem... – observou Be
Eu ri, e nós entramos. Fomos em direção ao balcão, eu apoiei meus cotovelos no mesmo e Bianca ficou batucando os dedos. Uma funcionaria veio nos atender.
— Boa tarde, já foram atendidas? – Ela perguntou
— Não – falei – quero um sunday de creme. E você? – Me virei para Bianca, que olhava com cara de duvida para o menu.
— Ah... não sei... Acho que, ah, não... – Ela olhou para mim com seus grandes olhos verdes
— Do que você gosta?
— Ovo maltine.
— Moça, – falei, me virando para o balcão – um milk-shake de ovo maltine.
Enquanto nós esperávamos os nossos sorvetes, ficamos conversando. Bianca me falou que era nova na cidade, e que eu fui a primeira pessoa que ela conheceu. Os sorvetes chegaram, nós os pegamos e fomos até o segundo andar, e continuamos a conversar. Ficamos na sorveteria cerca de uma hora, até que a Be falou que precisava ir embora, nós descemos, e ela insistiu que pagasse os sorvetes.
— Eu vou pagar sim e pronto, ok? Ok. – Ela entregou o dinheiro para a moça do caixa.
Eu fiquei quieta, pela primeira vez na vida não tive vontade de discutir, e sabe, como uma ariana nata, isso é difícil. Nós saímos da sorveteria e fomos juntas até metade do caminho, depois, cada uma foi para a sua casa. Quando cheguei, adicionei o celular de Bianca aos meus contatos, mandei uma mensagem para ela, nós ficamos conversando por horas, e depois fomos dormir.
Boa noite Anônimo,
Agnes Lancaster
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