Um Doce Sacrifício
4 Carta nº 4 - Olhos vermelhos demais para serem azuis
Domingo dia vinte de janeiro, meio dia e meia.
Acordo babando no travesseiro, olho para a janela e penso “uhm, quero sair daqui”. Levantei da cama, o chão está gelado como de costume, andei até o armário e peguei uma blusa preta regata, um shorts de cotton preto e um casaco estilo aqueles de colegial americano, com as mangas cinzas clara e o tronco preto, meu all star vermelho até o joelho e lógico, roupas intimas. Entrei no banheiro e me troquei em quase um passe de mágica, escovei os dentes e lavei meu rosto. Sai do quarto, minha mãe estava na sala.
— Mãe, vou almoçar fora, beijos. – Falei e sai do apartamento antes que pudesse me contrariar ou fazer qualquer outra coisa.
Sai do prédio, sem skate e sem celular, sendo apenas um espírito livre. Andei pelas ruas, quase correndo, como se estivesse sendo perseguida por alguém.
E sim, eu estava.
Era ela me perseguindo de novo, quando eu estou vulnerável ela sempre aparece. A solidão corria atrás de mim, como crianças correm atrás umas das outras quando brincam de pega-pega, ela sorria e falava em minha mente.
“Eu sei que você quer amar alguém.”
Eu andei mais rápido, e comecei a correr de verdade, tentando despistar esse sentimento, antes que meu coração fosse pela razão e cantasse “vamos assumir a porra toda aqui!” em minha mente e corpo. Corri até o parque, passei pela ala nova, crianças brincavam felizes no parquinho enquanto os pais conversavam entre eles, as vezes sorrindo e acenando para seus filhos e encorajando-os a irem ao escorregador, ou balançar mais alto no balanço.
“É isso que eu preciso, de altura” pensei.
Ainda correndo, passei pela praça do parque e cheguei nos arbustos. Parei, olhei em volta e entrei passando pelos galhos secos, cor verde escuro e com pequenas flores vermelhas murchas, algumas caídas no chão. Alguns anos atrás, o parque era muito menor, havia apenas um terço da praça de hoje, e esse parquinho abandonado, que fica escondido entre os arbustos. Nele tem dois balanços, um vermelho e o outro amarelo, e ao lado, três argolas de diferentes tamanhos, e uma dessas argolas, dava para enfiar a cabeça por dentro.
Era um domingo feliz, uma criança estava brincando nas argolas, um garoto de oito anos, seus pais estavam longe, e o parquinho estava vazio. O menino colocou as mãos na argola do meio, e se pendurou nela, ficando com os pés no ar. Sem ter muita consciência das consequências, ele passou o pescoço pela argola, e soltou as mãos. Os pais voltaram, com sorvetes na mão, e ao olharem para frente, derrubaram os sorvetes e correram. O pequeno garotinho morrera enforcado, em um brinquedo amado pelas crianças, que agora, é rigidamente fabricado com padrões de tamanho. Você deve estar se perguntando Anônimo, de como eu sei tudo isso... Bom, quando isso aconteceu, o parque não estava tão vazio, e o domingo não era tão feliz. Eu tinha sete anos, e estava ao lado do garoto, me balançando, e ao ver o que tinha feito, corri e me escondi antes que os pais dele chegassem. Eu vi ele gritar baixinho enquanto se debatia, e não fiz nada, estava em choque, simplesmente olhei para o chão de areia e prossegui os movimentos, para frente e para trás. O acidente correu pela cidade, e depois de sete anos a prefeitura construiu um novo parque no lugar, três vezes maior. Mas todos ficaram com remorso de arrancar o parquinho de lá, então os operários cobriram ele com arbustos grandes e robustos, de mais de dois metros de altura, e em frente, deixaram uma placa no chão, “Em memória ao pequeno Bill”. Hoje, ele é conhecido como o parquinho abandonado. Na verdade, não é nem um pouco conhecido, pois ele fica depois da praça, e ninguém vai lá... Apenas eu. Quase todo dia, sempre que quero fugir, eu venho para cá e me sento no velho e enferrujado balanço vermelho, que fica à mais um balanço de distância das três argolas. Eu me sentei e recuperei o fôlego, pelo menos tentei recuperar.
As vozes em minha cabeça ocupavam todo o espaço físico e psicológico que havia em volta. “Ame, ame alguém. Ache o que você ama e deixe isso matar você.” Elas ecoavam com um som doce e sonolento, o mesmo som de sempre, mas agora diferente. Eu fiquei sentada no balanço com as costas retas, me concentrei no chão e fechei meus olhos, deixando as vozes me possuírem. “Abra os olhos...” elas soaram calmas “ELE ESTÁ AÍ!”
No momento em que elas falaram, eu ouvi um barulho nas plantas, de como se alguém tivesse entrado no parquinho abandonado. “Alguém entrou no meu parquinho” pensei.
Ao abrir os olhos, vi jogado de joelhos no chão um garoto com aparentemente a minha idade. Ele usava um casaco de capuz preto, calça jeans cinza escura e um all star cano alto de couro, todo preto. Ele escavou o chão desesperado, como se estivesse tentando entender aonde estava, e levantou seus olhos para mim. Eram olhos azuis cor do céu, mas havia alguma coisa errada com eles. Eram olhos vermelhos demais para serem azuis.
— Quem é você? – Ele perguntou, sua voz ecoou estranha.
Eu permaneci quieta, sentada no balaço o fitando. Estava com raiva demais para responder, mas percebi que não podia deixa-lo assim, prestes a desmaiar.
— Moça? – Ele repetiu, com a voz trêmula de medo.
— Oi – eu pisquei – quem é você?
Ele piscou incrédulo, e se apressou.
— Pode me ajudar por favor? – Ele disse com a mão na barriga, então percebi que ele estava sangrando.
— Puta merda, – me assustei – o que você fez? – Levantei correndo do balanço para ajudar. Por mais que eu queria encher ele de perguntas, mas era mais fácil fazer isso com ele vivo.
— Eu estava... comprando umas coisas, e o cara não quis fazer fiado e tentou me dar uma facada. – Ele se sentou com dificuldade no balanço amarelo.
O garoto colocou a mão na cueca, por um momento eu pensei que ele iria coçar o amiguinho dele, mas de algum lugar de lá ele tirou um pacotinho de cigarros, na verdade, pelo menos cinco rolinhos de maconha.
— Eu estava comprando isso, desculpa – ele bufou – olha, eu percebi que invadi seu espaço, e que você de pessoas assim, mas por favor, não chame a polícia – ele olhou dentro de meus olhos, tentando decifrar minha reação.
— Ok, ok. Calma. Meu Deus, quantos você fumou hoje?
— Três.
— Caralho garoto, – por um segundo perdi a calma, mas depois me acalmei novamente – olha, se estiver vendo gnomos me avisa ok? – tentei ser engraçada, mas foi puro nervosismo.
— Ok... – Ele riu, e caiu um pouco para a frente com os olhos semicerrados.
Eu o segurei pelos ombros, o chacoalhei e falei.
— Só por favor, não desmaia, porque eu não tenho força para te carregar.
Ele riu de novo, e desmaiou.
— Merda.
Eu me levantei, e olhei em volta procurando alguma coisa para estocar o sangue, mas não achei nada. “E agora?” pensei “Não posso deixar ele aqui sozinho para ir buscar remédios, mas não posso deixar ele aqui sem primeiros socorros.” Pensei mais um pouco, enquanto aos poucos, uma mancha de sague ia se formando em seu casaco. Me agachei e coloquei a cabeça do garoto em meu colo, tirei com cuidado seu moletom e sua blusa e repousei novamente sua cabeça em meu colo. Tirei meu casaco, e com um suspiro, arranquei as mangas, fiz um nó unindo-as e as passei entorno do tronco dele, cobrindo o corte e amarrando bem forte para o sangue parar.
— Bom, pelo menos eu tentei – suspirei e me sentei no chão.
A cabeça do garoto ainda estava em meu colo, eu não poderia deixa-lo totalmente no chão. “Sempre proteja as pessoas, nem se for de pequenas formigas...” pensei enquanto meus dedos dançavam levemente em seus cabelos castanhos escuros do garoto desconhecido. Foi engraçado o modo de como ele teve confiança em mim, sem ao menos me conhecer, ou saber meu nome. Talvez tenha sido culpa do desespero de acabar na cadeia, e teve que confiar sua vida no primeiro que visse, e por que eu? E de novo, aquela voz irritante soou em minha cabeça, amargamente doce, baixa como um sussurro.
“Quem você vai amar?”
Então eu percebi, que eu olhava para o garoto de um jeito diferente, um jeito curioso. Ele definitivamente tinha a minha idade, era alto, magro e um pouco musculoso, tinha a pele branca como a neve e cabelos castanhos escuros e bagunçados. “Ah, não.” Pensei, dobrei o resto do meu antigo casaco e coloquei como travesseiro para ele, peguei suas roupas, o cobri, e fui embora.
— Me desculpe, mas eu não posso ficar aqui com você – falei enquanto saia do parquinho.
Fui andando pelo centro em busca de um restaurante. Já era hora do almoço, e meu estômago roncava de fome. Mexi no bolso do shorts e, por sorte, encontrei uma nota de dez reais.
— Bom, dá para comprar um cachorro quente. – suspirei enquanto atravessava a rua
Fui em direção à escola pública que fica perto de casa, em frente á ela tem um homem chamado Carlinhos, que vende o melhor cachorro quente da cidade (e o meu preferido). O bom, é que um cachorro quente duplo custa quatro reais e cinquenta centavos, e o refrigerante três reais.
Peguei o cachorro quente (que ficou pronto em menos de cinco minutos) e o refrigerante e fui até uma pequena praça ali perto, quando cheguei me sentei e comecei a comer. Pombos se aglomeravam em volta do pequeno chafariz, procurando desesperadamente migalhas de comida para satisfazer o vazio alimentar dentro deles. O engraçado é que todos nós temos um vazio para ser preenchido. Por comida, por outra pessoa, não importa. A gente pode ter tudo, material ou psicológico, mas sempre terá aquele vazio que no fundo da alma, vai te incomodar quando você for deitar e pensar em seu dia. Um vazio de sonhos perdidos, de pessoas esquecidas, de fracassos. Uma coisa é certa, que ninguém é cheio por inteiro.
Ao terminar de comer me levantei e simplesmente fui para casa. Cheguei em vinte minutos, minha mãe estava sentada no sofá da sala vendo televisão.
— Cheguei mãe.
— Ok filha, o que você almoçou?
— Cachorro quente – respondi e fui para o meu quarto.
Minha mãe já se acostumou com minhas fugas, comecei a fazer isso com quatorze anos. Antes ela sempre reclamava, falando que um dia eu poderia sair e não voltar mais, que ligaria para o meu pai e que eu teria que ir morar com ele. Mas após anos fazendo isso, ela percebeu que eu sempre voltava e que não iria parar de “fugir”, então ela acostumou, e quando eu completei dezesseis anos ano passado, meus pais me emanciparam.
Entrei no meu quarto e tirei minha roupa, coloquei um blusão do capitão américa e me deitei na cama. Minha cabeça estava a mil, os pensamentos circulavam por todo meu cérebro, até que, naquele pequeno escuro do quarto, em plenas três e meia da tarde eu adormeci.
***
Cerca de três horas depois
Olá de novo Anônimo, acabei de acordar com uma merda de um barulho de mensagem. Pego o celular no chão, são seis e meia e uma mensagem de Lizzie estampa a tela.
“Agnes, quer ir na sorveteria do parque?
Eu e mais uma turma vamos as 19:45, vê se aparece J”
Eu penso um pouco, olho para a cama, e ao meu lado está uma cachorra pastora alemã de pelúcia, ela chama Katyucha, é a representação de uma verdadeira pastora alemã que eu tive desde quando era apenas um feto, até meus dez anos de idade. Olho para seus olhos pretos e foscos de brinquedo, e pergunto à ela.
— Você acha que eu devo ir? – ela me encara, silenciosa como sempre – ok, eu vou então.
Me levanto e vou até o banheiro. Tomo um bom banho, depois de ter andado tanto e ter suado muito não é agradável sair suja, minha meta de vida é ser uma pessoa cheirosa, pois ficar perto de pessoas feias, desarrumadas, grossas ou chatas é fácil, mas ninguém consegue ficar perto de alguém fedido... Pelo menos eu não. Ao sair do banho, fui até o armário e peguei um shorts de cotton preto, meu all star vermelho até o joelho e minha blusa do superman. Me vesti, penteei o cabelo, passei perfume, lápis preto no olho e um pouco de rímel e escovei os dentes. Fui até a sala procurando por minha mãe, ela estava na cozinha fazendo suco tang.
— Mãe, eu vou na sorveteria com a Lizzie ok? Vou de carro.
— Ok filha, – ela disse sem se virar para trás – aproveita e enche o tanque na volta, o dinheiro está no potinho vermelho do meu quarto.
Fui até o quarto de minha mãe, peguei dez reais para o sorvete e dinheiro o suficiente para encher o tanque do carro. Passei novamente pela sala, sai do apartamento e o elevador estava no hall, entrei e apertei o botão da garagem. Entrei no carro e saí, em alguns minutos cheguei na sorveteria. Estacionei no lado direito do parque e fui de lá até a sorveteria a pé, parece longe mas é pertinho.
— Agnes, aqui! – Lizzie acenou ao me ver, ela estava no meio de uma roda de mais quatro pessoas
Lizzie estuda comigo dês do quinto ano, ela tem cabelos loiros, estilo californiana, bem lisos, olhos castanhos escuros, tem ombros meio largos, peitos e bunda grande, pele morena, mas meio branca, tem um sorriso lindo, e ao contrário de algumas meninas da classe, ela é muito gente boa, adora sair, quase todo fim de semana ela está em um lugar diferente, e quase sempre, ela me convida. Ela estava usando uma calça leggin de couro preta, e uma blusa branca de renda, justinha no corpo realçando suas coxas, e nos pés, uma botinha preta. Ao lado dela, estava a Charli, ela é loira de olhos azuis, pele clara e cabelos na altura dos ombros, estava usando uma blusa de alcinha azul e uma saia jeans branca, nos pés, uma sandália preta. Eu adoro a Charli, apesar da gente ter brigado algumas vezes, ela é legal. Ao lado delas, tinham dois garotos, o primeiro que eu avistei era alto e musculoso, tinha pele levemente bronzeada, cabelo castanho estilo militar, usava uma blusa regata branca e uma calça camuflada, e botas grandes e pretas, tinha olhos castanhos claros e um ar malicioso, que combinava perfeitamente com seu sorriso. E o outro menino ao lado dele, era apenas um ou dois centímetros mais baixo, e seus olhos azuis eram totalmente reconhecíveis. “Você?” pensei olhando para o garoto de olhos azuis cor do céu, o mesmo que apareceu esfaqueado e sangrando em meu parquinho hoje na hora do almoço. Só que agora, estava com uma blusa do batman, calças bege e o mesmo all star preto de couro, o cabelo estava levemente molhado, sinalizando que ele tomou banho para vir aqui. Ao me ver, ele corou e desviou o olhar, a pele dele era apenas um pouco mais escura que a minha, então era muito embaraçoso ficar corado.
— Meninos, essa é a Agnes. – Rachel me puxou para o meio da rodinha –Agnes, esse é o Chris, – ela disse apontando para o garoto cópia de soldado militar – e esse, o Charlie. – Ela apontou para o drogado – Eles são novos aqui na cidade, eu já conhecia o Chris, mas não o irmão dele. – Lizzie riu
— Olá. – falei com um leve desinteresse para o soldado, mas curiosa sobre o tal Charlie.
Todos ficamos conversando por um pequeno tempo, até que Charli resmungou.
— Hm, eu quero um sorvete... – ela olhou para mim com seus olhos azuis piscina – Agnes, vai pegar um pra mim?
— Quatro reais, – falei – e a taxa de serviço é vinte.
Todos riram, deram quatro reais (que é o valor do sorvete de palito) falaram os sabores e eu fui até a sorveteria com Charlie me acompanhando. Nós entramos, eu me apoiei no balcão e Charlie ficou ao meu lado.
— Quanto você tem de altura? – Perguntei curiosa, pois ele era realmente alto, não mais que o irmão, mas era.
— Um e setenta e seis... Porque? – A voz dele era grossa e um pouco rouca, como se ele tivesse acabado de acordar.
— Nada.
— E você?
— Um e sessenta e três, – respondi – porque?
— Nada. – Ele ironizou
— Vocês já foram atendidos? – Uma funcionária perguntou.
— Não, – falei – eu quero quatro picolés, de limão, abacaxi, uva e algodão doce. E você? – olhei para Charlie, que estava espantado com minha decisão.
— Ah... um de milho.
A moça foi até a geladeira, entregou-os para nós e fomos até o caixa pagar. Enquanto Charlie pagava, eu fui até a rodinha que estava do lado de fora da sorveteria e entreguei os picolés.
— Charli abacaxi, Chris limão, Lizzie uva, eu algodão doce e Charlie milho. – olhei para trás, e Charlie vinha em direção à rodinha chupando a ponta de seu picolé, com os olhos arregalados e pupilas dilatadas, esboçando felicidade como se fosse uma criança. Ao ver a cena, eu não consegui conter um sorriso. Ele viu que eu sorri e retribuiu, me deixando levemente corada. – Do que vocês estavam falando? – Perguntei para as meninas.
— Sobre signos – Lizzie respondeu animada – Eu sou de sagitário.
— Eu de aquário, e Chris de leão... – Charli falou – E vocês?
— Áries. – Falei enquanto lambia meu sorvete azul.
— Câncer. – Charlie disse
Lizzie e Charli se entreolharam e perguntaram.
— E o ascendente de vocês?
— Gêmeos. – Eu e Charlie falamos em coro.
— Que legal, – Chris riu atrapalhado – o atendente... ascen... Ah, esse treco aí de vocês é igual.
— Não significa nada, – Charlie interrompeu – eu acho.
Lizzie e Charli se entreolharam e trocaram risadas, eu revirei meus olhos e Charlie riu. Nós cinco ficamos mais um bom tempo conversando, sobre várias coisas, até que por volta das onze e meia Charlie se levantou.
— Ahm... Eu tenho que ir pessoal. Já são onze e meia e eu tenho um compromisso.
— Maninho, maninho... O seu compromisso é longe para você ir a pé. – Chris deu um sorriso malicioso.
— Quer que eu te leve? Meu carro está parado aqui perto. – Falei olhando para Charlie.
— Você já tem um carro? – Ele perguntou
— Ah, a Agnes é emancipada, ela já faz de tudo, só não tem cartão de crédito. – Charli riu
Charlie olhou apreensivo para o irmão, que sorriu e acenou com a cabeça.
— Ok... eu vou com você. – Charlie ficou de pé ao meu lado.
— Tchau pessoas, – falei enquanto me levantava da roda – Lizzie e Charli, até daqui oito dias. Chris... até algum dia.
— Tchau Agnes – os três falaram em couro.
Então, eu e Charlie fomos em silêncio até o carro. Quando chegamos, entramos e eu perguntei.
— Qual é o nosso destino?
— Ahn? – as bochechas dele assumiram um tom vermelho fraco ao ouvir minha pergunta – Ah sim, o cemitério... – ele olhava apreensivo para frente.
Eu liguei o carro, e fui em direção ao cemitério, sem fazer perguntas. Enquanto nós íamos, o silêncio predominava no veículo, e logo percebi que Charlie tirara do bolso da calça uma miniatura de cubo mágico, e estava bagunçando e arrumando-o diversas vezes seguidas, enquanto olhava para o mesmo com os olhos preocupados.
— Bom... – tentei quebrar o gelo – em qual escola você vai estudar?
— Pontchartrain. – ele fez uma pausa, como se não quisesse puxar assunto, mas... – e você?
— Eu estudo na Washington. Segundo ano do ensino médio né?
— Aham. Meu irmão está no terceiro ano. – ele disse, e acrescentando o irmão sem motivo aparente.
Ouve um breve silêncio, até que eu perguntei algo que estava entalado em minha garganta á algum tempo.
— Por que você é tão diferente de seu irmão? Digo... ele é bronzeado, musculoso, e com os olhos escuros. E você... bom, o oposto. – A pergunta pareceu chatear Charlie, que se mexeu desconfortável no banco.
— Ele é mais parecido com meu pai, – suspirou – e eu, com minha mãe.
Chegamos no cemitério. Charlie desceu do carro e falou para eu esperar, foi até um bar no final da rua, e voltou com duas garrafas de cerveja, e seu pacotinho branco.
— Você vem? – ele estava fora do carro, olhando para mim e levantando as garrafas, uma em cada mão.
Eu sai do carro, e nós entramos no cemitério.
Vou admitir à você Anônimo, estar em um cemitério em plena madrugada pode ser bem aterrorizante, mas Charlie parecia não ter medo de nada sólido. Já eu, apesar de realmente não ter medo de nada, estava em estado de alerta caso acontecesse alguma coisa envolvendo pessoas vivas, como bandidos ou estupradores. O cemitério é antigo, então é cheio de túmulos parecidos com pequenas casinhas acima da terra, seriam bonitos se não ficassem tão sombrios á noite. Eu olhava ao redor, seguindo Charlie até o fundo do cemitério. Uma das vezes que olhei para a esquerda, vi um vulto em forma de um cachorro grande, correndo e colidindo em um dos túmulos. “Não...” pensei. Eu não me assustei, mas foi como se alguém quisesse me derrubar remexendo em antigas (e horríveis) lembranças.
— Chegamos. – Charlie parou, e eu colidi com as costas dele.
— Desculpa.
Quando olhei para frente, vi um grande túmulo, alto, dava para subir em seu teto por uma escada, e foi exatamente isso que Charlie fez, e lógico, me chamou para subir junto. Subimos, e a vista era sinistramente incrível, à frente, todo o cemitério, e acima, um céu estrelado de lua cheia.
— Sabe, – ele disse abrindo as garrafas de cerveja com as mãos – aqui não é muito melhor que lá.
— Lá aonde? – ele me entregou uma garrafa, que tentei recusar delicadamente, mas você sabe, eu não sou delicada.
— Londres. – ele acendeu um fumo – Eu morava lá, e me mudei quando minha mãe faleceu.
Por um momento tive um arrepio na nuca, e olhei para o túmulo em que estávamos sentados.
— Sim, ela está enterrada bem aqui – Charlie deu tapinhas no túmulo.
— Mas, por que não em Londres? – Perguntei.
— Ela nasceu aqui, nessa cidade. – ele suspirou, e tragou o cigarro – Ela morreu por minha causa. Meu pai e meu irmão falam que não, mas, a culpa foi minha, lógico que foi, eu sei disso... por isso não consigo superar. – Ele terminou o primeiro rolinho de maconha, esvaziou metade da garrafa de cerveja, e acendeu outro rolinho.
Eu fiquei quieta, infelizmente entendo na pele o que é perder alguém e não conseguir superar. Mas eu não sabia como consola-lo.
— Sabe, – ele riu e olhou para mim com seus olhos azuis, que agora estavam marejados e vermelhos – eu achei que você fosse daquelas garotas frescurentas quando te vi no parquinho, mas você é corajosa, usou seu casaco para estocar meu sangue. – Charlie terminou a garrafa de cerveja, e começou a beber a minha.
— É, você está me devendo um casaco novo. – Falei sarcasticamente.
Ele riu enquanto olhava para frente e fez uma expressão séria, quase sombria.
— Mas você não me entende, já que dá para notar que sua vida é perfeitinha. Duvido que você saiba como é se sentir sozinho, perder alguém que ama.
E em questão de segundos, eu peguei a garrafa de cerveja, esvaziei-a e fiquei de pé, olhando para Charlie e ameaçando quebrar a garrafa na cabeça dele.
— Como assim você diz que a minha vida é perfeitinha?
— Lógico, – ele começa a fumar o terceiro cigarro – você tem carro, é emancipada, pelo que as meninas falaram você tem um apartamento pra lá de foda, e seus pais são legais com você. – Charlie revirou os olhos.
— Escuta aqui. – peguei na gola da camiseta de Charlie com tanta força que ergui ele do chão, que no susto ficou de pé, com seu rosto à menos dez centímetros do meu, e ainda sendo ameaçado de ter uma garrafa quebrada na cabeça. – Você não sabe, o que EU passei. Não sabe o que teve que acontecer para que meus pais ficassem “legais” comigo as vezes, você não sabe QUANTAS pessoas eu perdi. Não ouse falar que minha vida é perfeitinha, seu drogado de merda.
Por um breve momento, consegui ver o medo em seus olhos, mas depois eles ficaram sombrios, e Charlie começou a rir. “Chega” pensei “Ninguém pode me acusar do que eu passei ou não.”
— Você nós temos muito em comum então, princesa. – ele deu um sorriso drogadamente estúpido.
— CHEGA. – empurrei Charlie para trás, e arremessei a garrafa na parede ao lado dele, que se quebrou espalhando cacos de vidro para todos os lados – a única coisa que eu tenho em comum com você é o ascendente astrológico, – suspirei fechando os olhos, e depois olhando novamente para Charlie – de resto, é simplesmente nada.
Então simplesmente me virei, e fui embora. Desci a escada, e prossegui até chegar em meu carro.
— Filho da puta, – resmunguei enquanto ligava o motor – ele invade meu parquinho, me faz rasgar meu casaco, ter que aguentar a companhia dele na rodinha e depois fala tudo isso. – virei á direita e fui para casa – Eu odeio aquele garoto.
Quando cheguei, deixei o carro na garagem, subi até o apartamento, tomei um bom banho e dormi, de saco cheio, mas dormi.
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