Um Doce Sacrifício

2 Carta nº 2 - Um pequeno conceito sobre solidão


Notas iniciais
Os dois primeiros capítulos são curtos mesmo, me desculpem, à partir do terceiro ficarão mais longos. Apreciem a leitura!

Ah, bom dia Anônimo.

Hoje é dia dois de janeiro, e eu preciso te avisar, quando você receber (e ler) todas as minhas cartas, eu já terei feito algo, muito importante, que venho tentado fazer ao longos dos últimos quatro anos.

Por conta de estar e se sentir sempre sozinha, eu comecei a fazer coisas, que para uma garotinha de 11 anos eram bem precoce. Eu me machucava Anônimo, sempre me sentia mal, que me sentia sozinha, eu esperava anoitecer e me trancava no banheiro, e chorava por horas e horas, sentada no chão gelado com duas pequenas lâminas metálicas como companhia.

Quer uma dica? Nunca faça o primeiro corte, porque depois, você não vai conseguir mais parar. Olha, eu vou compartilhar com você um pouco da minha experiência.

Na primeira vez dói, dói muito. Dói porque você tem medo da lâmina, de sua ponta afiada, e de como ela pode transmitir frieza ao fazer contato com sua pele, tem medo de acertar uma veia e ter que se explicar para sua mãe depois, tem medo de não parar de sangrar, de alguém ver as cicatrizes, e coisas do gênero. Mas, depois, você não liga para mais nada, o que você quer na verdade é acertar aquela exata veia arroxeada de seu braço. Você não liga, fica horas e horas trancada no banheiro esperando o sangue encostar no chão perfeitamente branco; às vezes sangra mais, às vezes menos.

Mas pelo menos eu nunca consegui ver o branco virar vermelho.

No total, eu tenho noventa cicatrizes em meu corpo. Nas coxas, na perna direita e no braço esquerdo. Ao longo de quatro anos, noventa são poucas, mas não foram noventa cortes fracos, mas sim fundos, tão fundos a ponto de eu ter que passar pomada para as cicatrizes não ficarem visíveis. Sabe Anônimo, o bom é que minha pele é branca, quase pálida, e as cicatrizes se camuflam nela, mas, de vez em quando elas aparecem.

Ok, agora chega de falar disso. Mas, eu vou lhe contar mais um segredo, que não tem nada a ver com cortes ou sangue, mas sim, com almas.

À três anos atrás, quando eu tinha treze anos, eu morava na casa de meus avós com minha mãe, Sophie Lancaster. Em uma noite agitada, eu adormeci chorando, tinha acabado de brigar com minha mãe. Por volta das três horas da manhã, ou algo do tipo, me dei conta que estava sentada no meio da cama, com os olhos semicerrados, conversando com alguém que estava sentado nos pés da mesma, e com uma mão estendida quase encostando em mim. Quando abri meus olhos, vi uma silhueta humana, inteira preta, magra, e sem cabelos, se dissolvendo e sumindo em meio a escuridão do quarto. Ela ou ele parecia uma sombra, na verdade, era.

Puxei de volta as cobertas e me deitei, sem se dar conta do que acabara de acontecer, sem perceber que eu estava falando com alguém inexistente em plena madrugada, no meu próprio quarto. Quando acordei no dia seguinte, tentei me lembrar o que eu falava com a alma, e por que ela sumiu quando eu abri meus olhos e tive parcial consciência do que estava acontecendo. Parecia que eu estava falando com ela sobre alguém, e pelo jeito que minha voz soava, sem som e ao mesmo tempo doce, com um pequeno ar de preocupação, parecia que era sobre alguém que eu amo, amava, ou até mesmo irei amar.

Apenas me lembro de uma única palavra que eu falei.

“Ela”

Ela quem? Ela porque? Ela quando, como e onde? Não sei a alma não me falou a resposta.

Pelo jeito, era (ou vai ser) uma pessoa realmente importante para mim, pois me lembro de uma única lágrima fria escorrer do meu olho esquerdo, de deixar um rastro molhado e gelado em minha bochecha.

Quando abri meus olhos naquela noite, a alma, mesmo sem rosto, pareceu assustada, como se eu não pudesse vê-la, como se ela fosse um segredo que precisava ser escondido do meu consciente. A alma fugiu assustada, só que ao mesmo tempo fugiu para me proteger. Depois dessa noite, eu nunca mais me senti sozinha, pelo menos não completamente.

Bom Anônimo, me desculpe por não estar mandando cartas com acontecimentos sólidos, é que eu ainda tenho mais um mês de férias pela frente, então nada importante está acontecendo. Mas eu juro que elas ficarão melhores.

Até logo,

Agnes Lancaster.

Notas finais
Por favor, comentem! Me ajuda muito ter a opinião de vocês c: Abraços.