Notas iniciais
Olá! Desculpem a demora, sejam lordes e ladys bonzinhos e me perdoem. Boa leitura! (Música do capítulo: Dirty Paws - Of Monsters and Men)

A espada caiu de surpresa com um barulho metálico que foi abafado pelos outros sons do pátio.

— Muito bom Jon. – Sor Rodrick elogiou sinceramente e ele retirou a lâmina sem fio do peito do irmão. – Pegue a espada, Robb. – O garoto ruivo se abaixou para obedecer, mas Jon já lhe estendia o objeto, erguendo as sobrancelhas em uma interrogação provocadora. Robb por sua vez sorriu, auto depreciativo, aceitando o que era oferecido. — Por hoje é só, meninos. Vão se lavar, estão mais fedidos que cavalos depois de chuva. Vão, andem. – Ele empurrou as cabeças deles em direção ao castelo que acordava.

Os garotos riram se sentindo doloridos e cansados, e apoiando-se um no outro, como sempre acontecia depois dos treinos diários. Mas Jon os preferia, aqueles com espadas, arcos e cavalos, do que as aulas do Idioma Comum, contas e ocasionalmente dança.

— Jon! Robb! – Seus nomes foram gritados por uma voz esganiçada e tipicamente infantil de um garoto de 6 dias de seu nome. Eles se viraram a tempo de ver um chumaço de cabelos ruivos e bagunçados correr e abraçar a perna do bastardo.

— Bran. – Ele lhe assanhou os fios, mais como um cumprimento do que um carinho. O menino levantou o rosto alegre com alguns dentes faltando no sorriso, moveu-se para trás e passou a espiar os lados entre as brechas dos corpos dos dois garotos. Sua posição era como... Se ele estivesse usando os meninos de escudo.

— O que você fez dessa vez, Bran? – Robb chegou à mesma conclusão que o meio-irmão e franziu o rosto jovem, mas enormemente superior como 12 anos sabem ser, para o mais novo.

— Eu escalei. E mamãe viu.

Os mais velhos trocaram olhares. Isso significava que Lady Catelyn estava vindo, irritada, e puniria qualquer um envolvido no crime, a escalada, incluindo possíveis irmãos mais velhos que tentassem acobertar o criminoso, Bran. Principalmente Jon, apenas pelo fato de ser ele.

— No três. – Robb sussurrou, Jon assentiu e agarrou a mão do irmão menor. – Um...

— Brandon! – A voz da mulher fez-se ouvida e eles correram em euforia.

Jon abriu os olhos devagar, o sono ainda agarrado à seu corpo, o deixando letárgico. Não precisou de muito tempo para se situar, pois só havia um lugar onde ele conseguia dormir tranquilamente. Ele respirou fundo o ar puro e gelado, esfriando satisfatoriamente suas vias internas, sabia que era uma irresponsabilidade sua dormir ao ar livre, correndo o risco de ser pego por uma tempestade repentina ou alguma doença do frio; mas não conseguia se impedir de ir ali e fechar os olhos. Apenas no Bosque Sagrado ele se livrava de seus fantasmas e podia pensar em paz. Ocasionalmente acabava dormindo, já que todas as suas noites eram perturbadas, sempre mal dormidas, e ele acordava terrivelmente cansado.

E tinha bons sonhos. O único lugar onde tinha sonhos quando dormia, e esses eram sempre lembranças agradáveis como aquela de a pouco, que deixavam um vazio dentro de seu coração, mas ainda preferíveis que os costumeiros pesadelos da noite.

Fantasma mexeu-se para tirar a neve acumulada em seu focinho. Jon viu que havia um pouco em sua própria cabeça e, percebendo que deveria estar ali mais tempo que normalmente ficava, ele apenas limpou o amontoado de gelo, para depois acomodar-se melhor no represeiro e no lobo, aproveitando o corpo quente do animal.

— Não vamos voltar ainda, – murmurou acariciando as orelhas do lobo, – você sabe que eu tive uma reunião difícil.

E era verdade. Parte principal da razão para tantas famílias nortenhas terem sido convocadas a sair de seus castelos para vir até Winterfell durante um Inverno daqueles, havia sido aquela reunião. Durante os curtos anos do Outono e os primeiros do Inverno, Westeros havia estado em guerras. Mesmo os Starks com seu permanente aviso “O Inverno Está Chegando”, haviam entrado nessas batalhas levando o povo do Norte para a carnificina e esquecendo completamente do tenebroso frio que chegava. Agora, eles estavam enfrentando o mais longo e gelado Inverno em mil anos sem terem se preparado. O gelo consumira plantações, congelara rebanhos inteiros e o que ele não tocara os Caminhantes haviam terminado de destruir. Sem nenhum estoque realmente aproveitável, Jon fazia o seu melhor para não deixar todo o Norte morrer debaixo da neve.

Não era de maneira nenhuma fácil, ele se contorcia entre pedidos e farpas trocadas pelos seus vassalos todos os dias, trazidos por corvos ou, na maioria das vezes, cavaleiros que chegavam de lábios azuis de frio. Mas eles estavam resistindo, há 3 três anos, sem nenhum tipo de ajuda do Sul, que mal conseguia se virar ainda com auxilio nortenho.

Apesar de estarem sobrevivendo ele sabia que precisavam de mais para enfrentar o que ainda estava por vir. Por isso havia enviado cartas a todas as Casas, grandes ou pequenas, convocando uma reunião com seus principais membros ou representantes para discutirem formas de melhorarem a situação. Era uma decisão arriscada, no último grande encontro deste tipo ele havia sido eleito Rei no Norte, mas necessária. Com o aviso da chegada repentina da Rainha, apenas 1 mês de antecedência era pouco para preparar uma comemoração e estadia para a corte e todos que a acompanhassem, ele mandara outras dezenas de cartas notificando a vinda da Rainha. Aproveitou para incluir a comemoração do dia do nome de Sansa na mesma data, sabendo que faria a irmã mais do que feliz.

Assim, como Lorde de Winterfell e Protetor do Norte, ele sentara no cadeirão e dera início à pior reunião de sua vida. Havia sido tão ruim e frustrante quanto ele pensara.

Lorde Glover precisava de mais peles, e a Casa Umber se recusava a conceder mais por ressentimento de quando eles precisaram de carne e os Glover não haviam dividido. Lorde Tarly cobrava mais trigo da Casa Mormont, por pagamento da madeira emprestada. A Ilha dos Ursos alegava estar com estoque de trigo baixo e oferecia as comuns maçãs de inverno. Lady Hawkstark trazia planos de cultivo de cereais em terras montanhosas e frias, e Jon agradeceu a ela e aos deuses por um ponto positivo. Mas tudo quase entrara em colapso quando chegara o momento de dividir as cargas de sal que Jon comprara de Pentos.

Ele ouvira, negara, discutira, aceitara e mandara alguns calar a maldita boca, este último apenas mentalmente, ele não precisava de mais desafios gritados por bravos homens de barbas brancas clamando uns aos outros para tiraram a desforra na lâmina da espada. Já bastava Lorde Manderly com os dois olhos em tom arroxeado. Horas depois haviam parado para a refeição do meio do dia, e ele pode respirar por alguns preciosos minutos antes de voltarem para a sala e continuarem a levantar questões sobre como poderiam vencer o frio sem arrancar as cabeças uns dos outros.

Ali, no fim do dia com a lua brilhando no céu sem nuvens, ele sentara para descansar depois de um dia inteiro de discussão. Não havia sido de todo ruim, e ele estava satisfeito pelo pequeno progresso, extremamente cansado, mas satisfeito. Mas como se ele não estivesse com problemas suficientes, ainda havia a questão Daenerys.

Não bastando ela ter lhe pedido em casamento – que por si só já era uma ideia intrigante –, e que causava-lhe dores de cabeça diárias quando imaginava todas as complicações que se desenrolariam, havia agora aquele momento de duas noites atrás. Tentara de tudo para não pensar naquilo, fazendo questão de se ocupar o máximo possível durante as manhãs até as noites. Ele não queria analizar o que tinham tido, ou não tinham tido, não queria pensar na emoção que borbulhara em seu corpo naquela hora, e muito meno no que poderia ter acontecido.

Na fatídica noite ele havia começado tudo indo pedir desculpas por seu comportamento imperdoável. Ficara sem fala, com a garganta seca, quando a vira no começo da festa. Sentira vontade de puxá-la para seus braços e aproveitar a noite inteira ao seu lado, e depois, quando as velas de todo o castelo fossem apagadas, ele a tiraria daquele vestido recatado demais e daria vida a alguns de seus desejos profundos. Ele precisava fazer isso. Mas essa necessidade inexplicável e tais pensamentos o tinham deixado assustado, de uma forma que ele nunca havia experimentado. Era um medo diferente dos medos de batalhas, um medo que ele não compreendia.

E não há nada mais aterrorizante para um homem do que enfrentar um medo que ele não conhece.

Ela estava tão linda, e como uma criatura destituída da capacidade de pensar, em vez de ir educadamente falar com ela – e talvez até lhe soltar um elogio polido –, a ignorara e mantivera a maior distância que pudera. Mas quando já havia se passado metade da comemoração, ele, de pés e mente cansados de tantas danças, a vira sorrindo de forma doce para Sansa que se levantava para uma valsa com o rapaz Hawkstark. Aquele sorriso bastara para quebrar suas desculpas estúpidas e ele fora até ela. Esperava conversar e apenas ter algum daqueles sorrisos direcionado a ele. Mas nada saíra como ele imaginara.

As coisas haviam sido melhores, e bem piores também.

Você ia beijá-la, Jon. Sua consciência atirou sem piedade. Se o Lannister não tivesse aparecido, você teria beijado sua tia. Ele fechou os olhos e permitiu-se lembrar do momento mais uma vez. A culpa o esmagava, mas não conseguiu impedir que seu corpo se aquecesse com a lembrança dela. O modo como se virara para ele, mais rainha do que nunca e – havia certa vergonha em admitir isso – o olhar dele havia ido imediatamente para... A pequena parte dos seios dela que o vestido revelava, e naquele momento, sentira o corpo incendiar.

Jon suspirou. Seu pai morreu por ser contra a um incesto, e agora você vai fazer a mesma coisa?

Estava tão distraído com todos aqueles pensamentos estranhos que só percebeu que havia algo errado quando Fantasma levantou a cabeça, alerta, olhando para a sombra escura e adormecida que era o castelo. — O que foi? – Sussurrou para o lobo, a mão direita escorregando para o punho da espada sem que ele precisasse pensar na ação. Ele escutou galhos se agitarem em uma árvore próxima e viu grandes porções de neve despencarem para o chão. Jon se levantou lentamente, junto com Fantasma. Não queria se alarmar à toa, aquilo apenas podia ser uma coruja das neves se preparando para caçar.

Outro som, algo grande e pesado aterrissando na neve recém caída, depois, passos abafados pelo gelo fofo. Ele se moveu, tirando a espada da bainha apenas uma polegada para fora. Se uma pessoa estava se aproximando dele, vindo de cima de uma árvore àquela hora...

— Nala! – Por muito pouco Jon não puxou a espada e pulou, pronto para assassinar uma Senhora do Norte, Lady Hawkstark. Ficou quieto vendo a mulher seguir apressadamente até a árvore de onde ele ouvira os barulhos anteriormente. Seu marido a seguia, parecendo sonolento e extremamente certo de que ele não deveria estar ali, segurando uma tocha pendente. Segundos depois, uma mulher mais velha apareceu saindo do arco que fazia a porta de pedras montadas para o bosque, segurando pelo pescoço a mulher baixa que havia sido mais do que atrevida durante a dança na comemoração.

— Ooh, tia! Eu já pedi desculpas! – A menor reclamou quando a mais velha das mulheres pareceu apertar seu pescoço com mais força.

— Não pediu desculpas à Nala. Peça agora, se não, ficará de castigo, – a outra arregalou os olhos durante a fala da tia, – três semanas sem livros. – Jon franziu a testa, empurrando silenciosamente a espada de volta à posição de descanso. Aquilo era para ser um castigo?

— Ah! Ah! Três semanas é muito! Desculpa Nala, linda do meu coração. Não quis rechear aquele esquilo com grama! Foi um acidente! – Um som alto foi ouvido, como um piado de um falcão. Isso se falcões tivessem de 3 pés de comprimento. – Pronto, podemos voltar agora? Está muito frio!

— Muito bem. – A mais velha respondeu. Talvez fosse bom Jon perguntar e se lembrar do nome delas, para próximas aventuras noturnas. As duas seguiram, voltando apressadamente para o castelo, com a mais alta ainda apertando o pescoço da mais baixa.

— Volte aqui, Nala, ela não fará mais isso. E venha ápido, ou vamos congelar aqui fora. – Lady Hawkstark pediu perto da árvore, cruzando os braços para o que quer que estivesse no chão.

Um piado mais alto do que seria natural e agora um revoar de asas fez mais neve cair. Jon piscou três vezes para acreditar no que seus olhos viam. Um falcão de quase 4 pés de tamanho voou para mais próximo dos pés da mulher e lhe bicou a saia. A mulher sorriu, acariciou as penas da ave enorme e tomou o braço do homem, caminhando de volta para o castelo, o pássaro dando pequenos saltos para acompanha-los.

Jon encarou o lugar onde eles haviam estado por alguns instantes, apenas acreditando na realidade por ainda restar as marcas da neve.

— Se existem lobos gigantes, suponho que não haja nada de estranho em existir falcões também. – Fantasma o olhou sem fazer nenhum ruído. Jon tocou-lhe a cabeça. – Vamos entrar, antes que congelemos.

— Não tenha piedade, Noy, – ele reclamara pela centésima vez naquela manhã, – se você não colocar força, não vai machucar. Deve ter sido a pior frase da minha vida. Jon tentou não gemer quando Meistre Beltoar retirou a agulha de sua pele e puxou a linha.

— Só faltam mais três pontos, meu Lorde. – O homem assegurou sem tirar os olhos de seu trabalho.

— Ótimo. – Conseguiu responder por entre dentes. Ele já devia estar acostumado com pontos, depois de tantos conflitos sangrentos, mas sempre parecia que era a primeira vez, e doía como se fosse.

O menino que o havia cortado chegou ruidosamente com a tigela de água limpa que o Meistre tinha pedido, espalhando água por onde passava. — Pode deixar aqui em cima, Noy. – Ele instruiu e o menino colocou o recipiente em cima da mesinha de canto, se afastando correndo para se esconder atrás da porta. Seus olhos estavam vermelhos e o rosto inchado. Jon iria consolá-lo, assim que o homem mais velho parasse de espetar seu braço. O Lorde conteve uma careta quando a agulha perfurou sua pele novamente, e um soluço ecoou no quarto. Melhor consolar esta criança agora, antes que Winterfell inteira o veja choramingando por minha culpa.

— Noy, venha aqui. – Ele chamou, tentando desviar a atenção da sensação desagradável da linha correndo através de sua pele. O menino aproximou-se receoso, enxugando as lágrimas com as mangas compridas. – Não foi culpa sua, certo? Eu me distraí por um momento e para minha falta de sorte sua espada não estava cega o suficiente. – Noy soluçou mais uma vez e Jon colocou a mão esquerda, a do braço intacto, em cima da cabeça dele. – Não foi culpa sua. E quer saber de uma coisa?

— O q-quê? – Seus olhos brilharam quando o Lorde lhe assanhou os cabelos claros como o sol pálido daquele dia.

— Você agora pode contar para todo mundo que tirou sangue de mim. Não é todo homem que consegue. – Jon sorriu e piscou em cumplicidade. – Só os guerreiros mais fortes e corajosos. – Ele pareceu encantado com isso e sorriu também, um dente faltando em seu sorriso o fez lembrar de outra criança. – Qualquer coisa, diga a sua mãe para vir falar comigo, certo? – O menino assentiu e correu para fora ainda sorrindo.

— Terminei, meu Lorde – Beltoar cortou a linha com a tesoura de lâminas longas, e Jon conteve um resmungo quando lembrou que agora ele iria cauterizar o ferimento. Maravilhoso.

A culpa podia não ter sido da criança, afinal fora ideia dele dar uma pequena aula ao filho de Dicks, o cavalariço. Mas havia sim um culpado, ou melhor, culpada. Ele não teria esse talho no braço se Daenerys não tivesse resolvido sair para uma volta à cavalo com Sansa e o tal rapaz Hawkstark que ele não lembrava o nome. Não estaria com um ferro incandescente de tão quente lhe tocando o ferimento se ela não tivesse olhado para trás, sorrido para ele e acenado. Aquele maldito sorriso o distraíra e um garotinho de 7 anos abrira um corte em seu braço. Maldito sorriso, maldita mulher.

— Ele vai sobreviver, ou teremos que preparar uma pira? – A voz de Tyrion surgiu no cômodo, quando o meistre retirou o ferro dos pontos. Finalmente.

— Vou sobreviver sim, se isso foi tudo obra sua, vai precisar ser mais criativo se pretende me matar. – Jon tentou colocar a camisa, mas uma dor aguda o fez mudar de ideia; não fazia mal ele ficar com o torso nu, estava em seu quarto, e a lareira estava acesa, deixando o ambiente suficientemente quente.

O Lannister riu e sentou-se na única cadeira livre, longe da cama, mas ainda perto o bastante para que Jon o chutasse. Caso a oportunidade surgisse. – Quer dizer que você fica resmungão quando leva um arranhãozinho? – Jon murmurou um xingamento fazendo o lorde rir novamente.

Meistre Beltoar depois de recolher seus materiais, fez uma reverência sucinta e saiu fechando a porta. Jon girou o corpo e agarrou um punhado de neve que o homem tinha deixado. Levou o material frio de encontro ao corte, cerrando os dentes, e arrependeu-se de não ter engolido o vinho amargo que lhe fora oferecido.

— Quantos foram? – Tyrion indicou o braço machucado dele com a cabeça.

— Sete. – Ele retirou a neve e a recolocou no pote rústico. – Sete malditos pontos.

O outro riu mais uma vez. Talvez ele estivesse precisando ser chutado... – O grande Jon Snow tem medo de pontos? – Jon preferiu ignorar o comentário e experimentou flexionar o braço, outra má ideia. – Eu vi o que o distraiu. – Ele levantou os olhos para o homem que falava. – Ou melhor, quem o distraiu. – O Stark suspirou, baixando o olhar para o chão de madeira. Agora além de Arya e Sansa, outra pessoa sabia, e ele não duvidava que os empregados fizessem rumores circularem. Apenas ainda não tinha certeza se isso era bom ou ruim. — Não há mal nenhum em se sentir atraído pela mulher com que irá casar. – Tyrion analisou as unhas. – É até um ato louvável.

Ele sentiu vontade de socar a cabeça do anão. Ele também não via o quanto aquilo era errado? Primeiro Arya, depois Sansa e agora o Lannister. Jon era o único que enxergava a verdade? — Eu não posso. – Murmurou em agonia. – Isso é errado, é... Deuses, ela é...

— Sua tia. – Tyrion revirou os olhos. – Sim, Westeros inteira sabe disso.

— E eu e ela nos... – Ele engoliu em seco, tentando forçar a palavra a sair. – Casarmos, não lhe incomoda nem um pouco?

— Ah, não. Meus irmãos me acostumaram bem. – Jon contorceu o rosto, e o homem cerrou as mãos ao notar isto. – Não estou dizendo que vocês são iguais a eles. Ela não é sua irmã, é apenas sua tia. E se fosse sua irmã, você esqueceu que os Targaryens costumavam casar entre si? Ninguém estranharia se vocês o fizessem para, hum, restaurar linhagem pura, digamos.

O Stark fechou os olhos, uma emoção se agitara com a fala de Tyrion. E se...

— Como eu deixaria o Norte, Tyrion? O Inverno está apenas no começo, não posso largar tudo agora. – Seus olhos estavam transparentes e ali, o meio-homem conseguiu ver uma confusão de sentimentos.

— Tenho certeza que nossa rainha não quer casar amanhã de manhã cedo, ao canto dos pássaros. Ela dará tempo para que você prepare um substituto antes de arrastá-lo para a noite de núpcias. – O anão riu quando viu o outro ruborizar. – Você pode casar uma das garotas com um Hawkstark. Eu soube que eles não tem problema em assumir o nome da família da mulher.

Jon balançou a cabeça, ele não iria forçar nenhuma das garotas a um casamento. Se bem que Sansa estava muito próxima daquele rapaz Hawkstark que tinha vindo com a mãe. Seu nome talvez começasse com R, ele não tinha certeza.

— E desde quando você tem a solução para todos os meus problemas? – Perguntou mal-humorado, sem saber porque.

— Todos esses “problemas”, – ele fez questão de reproduzir as aspas com os dedos, – é você quem está criando. Eles só parecem tão grandes na sua cabeça. E eu acho que é para mascarar alguma coisa.

Jon franziu a testa. Será?

Foi poupado de responder qualquer coisa por três batidas na porta. Tyrion se levantou, sorrindo. Tinha um ar maléfico, na opinião do lorde. — Deve ser ela. – Foi até a maçaneta e antes de abrir sussurrou em tom conspiratório: — A convenci a vir. A camisa. – Tarde demais ele entendeu o aviso fingido. A porta já havia sido aberta e a Rainha o encarava, inexpressiva. — Já estou saindo para dar privacidade ao casal. Acho que esqueci a sopa no fogo. – E pulou para fora, sem dar tempo de Jon lhe lançar um olhar mortal, ou chutá-lo como tanto queria.

Daenerys correu o olhar pela parte do corpo desnuda dele. Com o rosto inexplicavelmente quente, ele agarrou a camisa e tentou ignorar a dor no braço enquanto a colocava desajeitadamente.

— Eu posso ajudar. – Ela avançou para ele e antes que a impedisse, Jon sentiu os dedos quentes da mulher tocando seus ombros para pegar a peça de roupa.

Extasiado, ele deixou que ela o vestisse, vagarosamente. Sem conseguir se concentrar em outra coisa senão as trilhas de pele formigante que as pontas dos dedos dela deixavam quando tocavam em sua pele. Sua consciência não lhe deu nenhum alarme e ela se afastou quando quis.

— Não sabia que Tyrion cozinhava. – Murmurou como um tolo, levando a mão esquerda distraidamente ao ombro que doía.

Ela ignorou seu comentário. – Você está bem? Soube que precisou de pontos. – Jon levou tempo para voltar de seu torpor e se concentrar na fala dela.

— Não foi nada. – Seus olhos foram para o chão quando o corte costurado latejou ao ser lembrado. – Já recebi piores.

— Eu ouvi rumores a seu respeito. – Ele sentiu uma parte ao seu lado da cama afundar quando ela se sentou. – Escutei que voltou dos mortos com olhos cinzas.

O Lorde cometeu o erro de tentar encará-la depois dessas palavras. Dentro do hipnotizante violeta que eram seus olhos, viu curiosidade e... Algo mais. Sentiu o corpo esquentar e teve que desviar o olhar. — Acho que pode ser descrito assim. – Levantou-se. Teve de levantar. Havia começado a ficar muito consciente do calor do corpo dela e eles estavam perigosamente sozinhos.

Ela ficou em silêncio. Ele apoiou-se no móvel baixo, colocando as duas palmas na madeira fria, sentindo o olhar dela arder em suas costas. Jon se cansou de encarar a madeira e olhou para o fogo da lareira, suas labaredas o lembravam da noite que queimou as mãos brandindo uma lâmina em chamas. Ele suspirou, tentando extrair de si esses tormentos.

— Na noite da comemoração, – ela começou e ele sentiu a mandíbula travar, – você disse que estava pensando na minha proposta. – Uma pausa agonizante. – O que decidiu?

Ele não soube o que dizer, como não sabia há sete dias, quando ela o disse pela primeira vez. Mas muito havia mudado, Jon já não achava aquilo um absurdo. Em algum momento, mesmo pensando em todas as dificuldades que teria que passar, ele começara a ver tudo de uma forma diferente, mais positiva. Ainda não sabia se aceitaria, mas também não tinha tanta repulsa pela ideia. Tudo era apenas complicado. Ele só não sabia ainda se essa mudança era algo bom.

Sentiu um hálito quente em sua nuca desprotegida e a mão dela na base de sua coluna. Uma parte de si quis mandá-la se afastar, sair de perto dela, mas outra parte queria ficar onde estava, sentindo a pressão suave e o calor viciante de sua mão e respiração. Para seu terror, essa parte estava ficando cada vez maior.

— Não faça isso. – Forçou-se a murmurar, se ele não conseguia se afastar dela, então ela teria que fazer.

Daenerys não fez nenhum movimento para obedecer, ela apenas riu e percorreu sua coluna até a nuca com os dedos, o fino tecido da camisa impedindo o contato com a pele. Em um pensamento fugaz, Jon desejou que a peça não existisse e quis se virar para ela, sentir ela incendiá-lo daquela forma olhando-a nos olhos. Cerrou os punhos para se conter de fazer algo estúpido. Ele sentiu ela se pôr nas pontas dos pés e com um arrepio escutou um sussurrar provocante em seu ouvido: – Você está sentindo a mesma coisa que eu, nós dois sabemos que está. O que resta saber é quanto tempo vai nos impedir de sentir de verdade.

Ela se afastou, ele ouviu a porta bater ao fechar e sentiu-se estranhamente frio ao constatar que estava sozinho.

Notas finais
Eu gosto de reviews, tá? Só pra vocês saberem.