Um Conto No Inverno
12 Jon
Notas iniciais
O metal fez um ruído abafado ao se encontrar com a madeira. Ele não costumava beber sem nenhum motivo, mas deu uma taça de folga a si mesmo, os deuses sabiam o quanto ele estava precisando. Seus olhos foram para as dúzias de cartas que se amontoavam sobre sua mesa, aquelas trazidas por corvos enroladas em si mesmas para esconder seu conteúdo. A maioria não era boas notícias, apenas mais problemas dos lordes que marchavam para o Norte, como se ele não tivesse complicações suficientes. Mas uma carta o fizera abrir o odre de vinho escuro e encher um cálice. Seu cavaleiro chegara naquela manhã, com uma bandeira branca às suas costas, mas ele só tivera tempo de ler seu conteúdo agora, tarde da noite. Havia quebrado o selo monotonamente, o sono enevoando seus olhos e mal o deixando perceber o sigilo gravado na cera vermelha. Lera as linhas que a preenchiam, de uma caligrafia trabalhada, rapidamente. Mas a leitura nem valera o esforço, era apenas mais um exército anunciando sua vinda para a Muralha.
— Ao menos não pedem carne... Eu tenho cara de açougueiro? – Perguntou para Fantasma que aproveitava as últimas ondas de calor das brasas incandescentes da lareira. O lobo mal ergueu as orelhas para ele, escancarando a boca em um bocejo repleto de dentes afiados. – Também estou com sono. – Murmurou ao jogar a carta para o lado. Por algum capricho dos deuses, uma brisa gelada entrou pela janela, fazendo o papel virar a parte escrita para a mesa, deixando o lacre à mostra. Jon franziu a testa ao ver o desenho brilhando ao fogo das velas. Apanhou rapidamente a carta e baixou a visão para o remetente e sua assinatura. “Rainha Daenerys, da Casa Targaryen.”
A carta ao estava lá. Em cima de todas as outras, mas ele não a leria mais, não precisava. Já havia a relido até que as palavras começaram a ficar borradas e a correr juntas. Passou a mão pelo rosto. O que ela quer aqui? Na verdade sabia o que ela queria. O Norte sendo o último país que restava para seu domínio era lógico que ela subisse para reclamá-lo. Ele apenas havia imaginado uma chegada mais hostil da sua tia. Jon fechou os olhos e estremeceu quando aquela palavra apareceu em sua mente. Não, pensou levando a taça à boca e sorvendo o último gole. Não pense nisso agora. Há coisas mais importantes.
De fato havia, e uma delas bateu em sua porta naquela noite. Arya segurava um rolo de papel, tão fino como seu dedo, enrolada no antigo manto do irmão, e sorria fracamente.
— Estão lhe chamando lá embaixo. – Disse afastando fios soltos do cabelo que voltava ao tamanho que ele se lembrava. O rei no Norte abriu a boca para discordar, diria alguma desculpa sobre trabalho a ser feito, quando ela ergueu o papel e bateu em seu braço rapidamente como um bote de cobra dornesa. – Eu não viria se não fosse importante, então não recuse.
Ele sorriu, se desculpando. Agarrou as luvas e pôs o manto que Sansa lhe dera por cima dos ombros. Fantasma ergueu-se nas patas e se espreguiçou assim que percebeu que ele iria sair. – Não precisa vir, rapaz. – Mas o lobo o ignorou e passou pela porta aberta roçando o corpo ao dele como se o apressasse. Não estranhou isso, o lobo gigante não o deixava por muito tempo só, a não ser quando saía para caçar, desde que ele retornara do outro lado.
Eles desceram as escadas de seu novo quarto. Edd Doloroso Tollett não aceitara que o Rei no Norte dormisse atrás do arsenal, e inventara que seu antigo quarto estava cheio de lã. “Muita lã. Você se sentiria uma ovelha se entrasse lá.” Tudo para instalá-lo na Torre do Rei.
A neve era nova e o ar fresco quando eles chegaram ao pátio. Arya o guiou para além dos limites de Castelo Negro, para onde muitos haviam montado seus acampamentos. Levou-o por entre as inúmeras tentas, onde muitos provavelmente dormiam, até que parassem em frente a grande locação do Lorde Manderly, onde um estandarte de tritão tremulava.
A garota pôs o dedo indicador sob os lábios. – Faça silêncio. – E, não dando tempo para que ele perguntasse “por quê?”, empurrou-o panos adentro. O ambiente era abafado e estava cheio de pessoas, com uma lareira lutando para espalhar o calor a todos e uma mesa abarrotada de bacias d’água turva. Mas a primeira coisa que ele viu foi o sangue. Uma mulher deitava-se em meio às cobertas e o cheiro metálico invadiu suas narinas, fazendo-o se lembrar da visão que Bran lhe mostrara recentemente. “Prometa-me, Ned...” Piscou para afastar o eco e a sensação ruim. Pensou em perguntar por que infernos haviam deixado a pobre mulher naquela situação, quando viu o bebê. A pequena criatura aninhava-se nos braços do pai, o enorme Lorde Manderly, que sorria para o embrulho de panos como um tolo.
O rosto rubro do homem virou-se para ele ao perceber sua presença.
— Vossa Graça. Eu me curvaria, mas... – Jon balançou a cabeça negando a necessidade do ato. O lorde sorriu para a criança novamente. – Fico imensamente honrado que tenha podido vir. Nós sabemos que reis são pessoas ocupadas, principalmente nesses tempos, mas minha esposa não descansaria antes disso.
A mão de Arya empurrou suas costas com força, fazendo-o andar na direção dos pais. Ele não queria, mas se afastar talvez fosse interpretado como covardia, e era apenas um bebê, eles não mordiam. Ao menos não daquele tamanho. Chegou o mais perto que as mulheres permitiram, e viu a esposa do lorde sorrindo orgulhosamente para ele, parecendo exausta. O homem estendeu o embrulho em sua direção. Jon lutou para não arregalar os olhos e limitou-se apenas a engolir em seco discretamente. Eles queriam que ele o segurasse? Lorde Manderly sorriu mais largamente, o encorajando.
O Snow respirou fundo e ergueu os braços para aparar a criança. Ao sentir o pequeno peso em seus braços, seu coração acelerou-se, de uma maneira diferente de quando entrava em batalhas. O bebê moveu-se ao ser tirado da posição confortável junto ao pai, e Jon soube que o estava segurando de forma errada, provavelmente ridícula. Mas o que poderia fazer? Era minúsculo e... se mexia. Sentia-se um gigante tentando segurar uma agulha. Mas logo o bebê acomodou-se e parou de movimentar as pernas, escolhendo as mãozinhas para junto do peito. Seu queixo tremeu, e o rei, impotente, quis fazer alguma coisa para impedir o frio de chegar até ele.
— Se chamará Corlan. – A mulher na cama falou com a voz fraca. – Queríamos que Vossa Graça desse sua benção, para que ele cresça forte e honrado como o senhor.
Ele trincou os dentes. O que devia fazer? A única coisa que passava por sua cabeça era levantar a voz e anunciar: “Eu o abençoo.” Mas isso parecia inapropriado até em sua mente. Então o que faria? Jon olhou para o bebê em busca de respostas. O corajoso Corlan mexeu-se em seus braços e abriu as pequenas fendas sem cílios que eram seus olhos pela primeira vez para aquele mundo gelado. Duas minúsculas íris cinzentas brilharam para ele por meio segundo antes de abrir a boca em um bocejo que arrancou suspiros das mulheres. Como por instinto, Jon Snow abaixou o rosto e beijou a testa do mais novo filho do Norte. E sentiu seu coração aquecer-se com aquele gesto, fazendo muito mais bem a ele do que ao inocente.
Abriu os olhos repentinamente ao sentir alguém mexer em sua perna. Suas pupilas se contraíram à luminosidade do dia nascente e ele procurou quem o tocara. Mas seu quarto estava vazio e deixou-se afundar novamente nos travesseiros. Ouviu a mulher suspirar em seu sono e ele olhou para ela. Não totalmente vazio.
Daenerys dormia de bruços, com os braços segurando o travesseiro. A coberta havia escorregado até sua lombar, deixando suas costas nuas amostra, completamente arrepiadas pelo frio. Os cabelos prateados bagunçavam-se sobre ela, até mesmo em seu rosto, como um véu de seda. O Stark piscou e afastou as peles de cima de seu corpo, levantando-se. Os ventos da imensidão branca de lá fora invadiram o quarto pela janela e ele sentiu o corpo tremer. Apanhou as roupas do chão e começou a dobrá-las, deixando-as em cima da cômoda. De lá tirou uma calça, camisa e gibão limpos.
O sol deixava um brilho pálido no recinto quando ele terminou de se vestir. Cruzou o quarto para pegar a espada e foi até a porta. Antes de abri-la, olhou por cima do ombro. Suspirou. Com passos leves, foi até a cama e não pode impedir-se de puxar as peles aquecidas até os ombros da mulher e tirar os fios espalhados de seu rosto. Voltou para a porta e saiu sem olhar para trás outra vez.
Encontrou Fantasma e dois mantos brancos ao sair. Os homens inclinaram as cabeças em uma reverência discreta e ele apressou o passo com o lobo em seus calcanhares. Acabara de se lembrar de como se irritava com todas aquelas futilidades reais, e vira seu animal de pelos eriçados para os guardas de armadura.
Percorreu os corredores aquecidos, com uma mão sobre o lobo, ficando aliviado ao notar que os criados de Winterfell não se curvavam para ele, agiam como sempre, sorrindo e alguns lhe desejando bom dia. Chegou ao Salão e quase deu meia volta, a mesa da primeira refeição estava vazia de pessoas, excetuando-se um lugar no banco da ponta, ocupado por Tyrion Lannister. Prioritariamente a última pessoa que ele desejaria encontrar, mas o anão já o tinha visto, então se forçou a continuar seu caminho. Antes que pudesse se sentar, o Lannister soltou sua primazia.
— Não pude deixar de notar que você e a rainha saíram incomumente cedo da comemoração. – Ele arrancou um pedaço do pão com os dentes sem tirar os olhos dele. – Supus que os pombinhos passariam o dia no ninho.
Jon afastou a mão da faca de cima da mesa e tentou não ficar tão consciente da espada de aço valiriano presa em sua cintura que não teria dificuldade em separar aquela cabeça feia do corpo atrofiado. Com a paciência, se não de um santo, mas de um religioso muito devoto, ele segurou a jarra de vinho e despejou uma boa quantidade no cálice.
— Vinho a essa hora? A noite não deve ter sido tão boa quanto pensamos. – Ele inclinou o corpo com os olhos arregalados. – Ela tem um terceiro peito? Sempre fui curioso a isso, ela não pode ser perfeita, pode? E escutei que isso é mais comum do que imaginamos. – O Stark fechou os olhos. – Não seja egoísta e compartilhe sua descoberta para o bem de Westeros. A menos que você não tenha descoberto nada... – Os olhos de Tyrion ficaram do tamanho de pratos. – Vocês não...? Ah, claro que sim. Estavam se atracando em todo lugar, claro que vocês tiveram uma noite tórrida. – Ele abanou a mão, displicente. – Vamos Snow, conte tudo. Oh! Acho que talvez prefira ser chamado de Vossa Graça agora. – Jon decidiu que aquilo era suficiente e levantou-se vagarosamente, rodeando a mesa em direção ao homenzinho. Corra, seu idiota. Mas ele apenas sorriu para o rei irado em sua frente. – Ou seria Vossa Magnificência?
O rei agarrou o colarinho de Tyrion e o tirou do banco com violência. Arrastou-o pelo pescoço, provavelmente apertando com mais força do que seria necessário. Os criados sobressaltaram-se e os soldados fingiram que não viam. Segurou o meio-homem até que eles saíssem dos portões do castelo e andassem para longe das ameias cobertas de neve de Winterfell. Tyrion massageou a nuca.
— Se queria passear, bastava ter pedido. Eu me sentiria honrado.
Ele começou a andar com passadas propositalmente largas, forçando o Lannister a uma quase corrida para acompanha-lo.
— Eu ia mata-lo. – Jon ergueu os olhos para uma das torres de vigília. O soldado assentiu para ele, respeitosamente. Baixou a visão para a neve. – Mas preciso falar.
— Oh, não. Não, não. Eu não quero ouvir sobre suas lamúrias amorosas com a rainha. – Tyrion girou o corpo e começou a voltar para a fortaleza. – Vocês já são grandinhos o suficiente para saberem falar um com o outro. E já estão casados, meu trabalho de conselheiro acabou. – O Stark virou-se para o homenzinho que se afastava resmungando sobre não ser pago para ser ama de duas crianças. Andou alguns passos e depois parou. Suspirou com um pantomineiro e voltou-se para o homem que o esperava. – Certo, mas você vai ficar me devendo essa. E eu cobro caro.
Jon revirou os olhos para a cena, recomeçando a andar normalmente agora. A sensação da neve afundando a cada passo era conhecida e reconfortante, então ele fazia isso regularmente, sempre com Fantasma ao seu lado. Ouvindo os estalos do gelo, cedendo ao seu peso e por vezes escorregando uma pequena parte de sua consciência para o lobo, sem perceber, e com isso tinha um vislumbre do mundo mais vivo e cheio de sons e aromas que o animal vivia. Mas tentaria impedir-se de fazer isso agora, mesmo que o lobo estivesse ali, caminhando silenciosamente, e ele não controlasse isso muito bem. Sua cabeça estava permeada de dúvidas e ele só via Tyrion para ajuda-lo. Mas começar a falar era difícil. Para ele sempre fora mais fácil guardar tudo para si e tentar analisar sozinho. O único problema era que sentia que não conseguiria apenas ele dessa vez.
Daenerys o fizera sentar. Respirara fundo duas vezes e escondera as mãos nervosas nas cobertas. Não entendera a princípio porque ela estava assim, agindo com reclusão desde o dia que voltara, mas ele não perguntara nada e deixara a mulher dizer por si só. A rainha começou por onde ele sabia. Contara que durante anos ela havia andado de cidade em cidade com o irmão, buscando abrigo, dependendo da boa vontade dos outros como uma pedinte, e que um dia Viserys a vendera para um Khal dos selvagens dothraki. Mas ela então contou o que instalou um desconforto estranho em seu peito; dissera que havia amado seu marido. Jon lembrava-se de como aquelas íris violetas haviam brilhado de tristeza à luz da lua, o chamara de um nome que ele não entendera, mas não precisava saber dothraki para sentir o afeto que ela nutria por ele. O Stark movera-se nos travesseiros, sentindo-se estranho.
— Não precisa me falar dele. – Sua voz saíra rude, sem que ele pudesse controlar. – Aonde quer chegar?
A rainha baixara os olhos para as mãos, e ele imediatamente sentira-se culpado pela atitude, mas ela levantou a cabeça, olhando-o, cheia de apreensão.
— Eu fiquei grávida dele. Estava esperando o garanhão que montaria o mundo. – Ressentimento e raiva preencheram seus olhos e ela apertou as peles que a cobriam. – Mas ele foi tirado de mim, muito antes de conhecer seu domínio. Meu pequeno Rhaego e meu Drogo, mortos por uma bruxa. Eu mandei queimá-la na fogueira e ela... – Engoliu em seco e apertou os lábios. – Ela me amaldiçoou. – Dany precipitara-se para ele, uma das mãos segurando a coberta em torno dos seios e a outra buscando a mão dele de forma ávida. – Não foi minha intenção esconder isso de você, eu juro. Tudo foi acontecendo e eu...
Jon apertou seus dedos frios. – Não tenha tanto medo, eu não acredito em maldições de bruxas assassinas. Isso não tem importância.
Ela sacudiu a cabeça, seus lábios tremeram como se ela fosse chorar. O que era estranho, sua rainha não chorava. – Você não entendeu. Essa bruxa, ela tinha poder, ela... – A mulher suspirou e ergueu os olhos para ele, um pedido de desculpas estampado nas janelas da alma. – Ela disse que eu nunca mais geraria um filho. Não até que o sol nascesse no oeste e se pusesse no leste, até que os rios secassem e as montanhas fossem levadas ao vento como folhas. – Apertou seus dedos e sussurrou em um fiapo de voz. – Desculpe-me.
Ele não soubera o que dizer. Gostaria de ter segurados suas mãos e dito que aquilo não era o fim do mundo deles, que ele nunca aceitara a ideia de ser pai em sua mente por ter sido criado como um bastardo e aquilo não era uma boa vida para uma criança, por tanto ele nunca condenaria um filho seu a isso. Queria ter dito que eles não deviam acreditar na maldição de bruxas que falavam sobre montanhas voadoras e rios secos. Queria ter dito que eles poderiam sim viver sem filhos, e que aquilo não tinha importância, como falara há segundos atrás. Mas não seria verdade, estaria mentindo para ela e para si mesmo. Então não disse nada. Também não podia ter dito que aquilo era a pior coisa porquê... Ele não tinha noção do quanto estava perdendo.
— Por que você não me disse antes? – Sua voz estava rouca como se ele não soubesse que tom usar.
— Eu não sei. – E tentou puxar sua mão para mais perto dela, mas ele soltou-se de seu aperto. Daenerys baixou os olhos e sussurrou. – Eu não pensei nisso. Você me fez esquecer.
— Você esqueceu? Como pode ter esquecido?
— Eu estava me... Não conseguia pensar que você aceitaria. E quando aceitou, eu fiquei tão feliz que não pensei sobre isso, só sabia pensar que você seria... – Ela impediu-se pela segunda vez, parecendo contrariada. Esperou por um bom tempo que ele disse mais alguma coisa, mas por fim, desistiu e dormiu de costas para ele.
Agora não sabia o que pensar. Uma parte de si quisera que ele ficasse irritado com ela, não pelo problema da maldição, mas sim por de certa forma sentir-se traído por ela não ter contado a ele. Não ter confiado nele. Mas ela dissera tantas vezes que não havia tido intenção que ele tentou sufocar qualquer traço de raiva. Em sua mente, em um lugar escuro, ainda havia a questão do dothraki, com que ela fora casada. Não entendia porque, mas não gostara de ver os olhos dela ao lembrar-se do khal morto. Outra vez traído. Mesmo que não quisesse aquele pensamento aparecia, aquilo deixava um desconforto em seu peito que o fazia querer entrar em alguma luta.
Sentiu um material frio e duro atingir seu rosto. Levou a mão à lateral atingida e olhou para Tyrion. O homenzinho sentara-se em um amontoado de pedras meio cobertas pela neve, que tentava apagar os rastros dos Boltons naquele lugar. Há muito, aquelas pedras haviam sido usadas para segurar as cruzes dos homens e mulheres esfolados, e agora o Lannister balançava as pernas, confortavelmente acomodado nelas. Em sua mão direita amassava outro punhado de neve suja. Pela brincadeira, Jon resolveu não contar-lhe sobre onde ele se sentara.
— Pare de divagar com essa cara de lobo amuado e venha falar logo o que tem para dizer. Eu estou de ressaca e seu Fantasma está mostrando os dentes para mim. – Tyrion repuxou os lábios para o lobo, imitando-o grotescamente. – Viu? Eu também sei fazer.
O rei não mandou o animal parar, ou o repreendeu, se ele arrancasse um braço do anão, ninguém sentiria falta. Arrependendo-se profundamente de ter tido aquela ideia absurda de conversar com o meio-homem sobre suas inquietações, foi até onde ele estava sentado, mas continuou de pé. Respirou o ar gelado, sentindo o frescor clarear os pensamentos. Depois lhe ocorreria que talvez Daenerys não quisesse que ninguém soubesse daquilo, mas se não contasse ao amigo, pedisse ajuda a ele, temia errar irremediavelmente com a rainha. E ele não queria isso.
— O que você sabe sobre o tempo que a rain... – ele pigarreou e tentou usar a nova expressão –, que minha esposa passou com os dothraki? – O gosto das palavras foi estranho e ele decidiu que não as diria mais.
Tyrion revirou os olhos e atirou a neve amassada em suas botas. – Pouca coisa. Vá direto ao ponto, Snow.
Ele olhou para o limite das árvores. Uma bruma clara e leitosa encobria os troncos escuros, e as sombras de árvores menores criava a impressão de que havia fantasmas lá dentro.
— A rainha não pode ter filhos. É esse o ponto. – Apertou as mãos, sentindo o couro macio contrair-se. E ela talvez ame um morto. Por que estou me importando com isso, Tyrion? Mas essa parte ele não disse, era pessoal demais. – Ela me contou ontem.
Tyrion Lannister ficou em silêncio. Pela primeira vez que Jon via, ele não respondeu de imediato ou com um gracejo afiado. Permaneceu o encarando, com os olhos levemente arregalados, aqueles olhos incomuns de duas cores. Mas depois do susto inicial ele pareceu se recuperar. Chutou o ar e deixou a bota bater contra as pedras, fazendo a neve cair desavisada.
— Bem, isso nos leva a um problema de sucessão. – Ele apanhou mais neve cinzenta para entre as mãos nuas. – Mas não devemos ter muita dor de cabeça com isso, o que não falta são lordes se achando aptos a colocarem suas bundas gordas nas espadas de Aegon.
Jon Stark pensou não ter ouvido bem. Era só isso que ele via? – Tyrion... – Começou, mais o homenzinho não deixou que ele continuasse.
— Porque só é esse o problema. – Ele aumentou o tom de voz. – Quem irá sucedê-la. Já que eu suponho que você tenha a inteligência superior a de um cavalo para não ter brigado com ela por uma coisa que nem deve ter sido culpa dela. – O Lannister estreitou os olhos para ele. – Não, faz mais o seu estilo ter ficado calado enquanto ela se culpava. – Quando o rei sentiu o rosto queimar, o meio-homem ergueu os braços para o céu, exasperado. – Já decidi. Você não é um homem, é uma mula!
Jon sentiu vontade de mata-lo mais uma vez, devia ser a terceira só naquela hora, mas conteve-se. Por saber que merecia ser maldito. Ele devia ter dito alguma coisa melhor do que ter perguntado por que ela não o tinha contado mais cedo. Não teria mudado nada, mas... Ela podia ter confiado em mim. O lorde pulou das pedras, espalhando neve com o manto e saiu andando sem olhá-lo.
— Uma mula. Única explicação. Minha cabeça virou hospedaria de pôneis, que estão fazendo uma festa, de tanta dor, e ele me retira da refeição sagrada para o congelamento. Tudo para dizer que deixou a mulher dele morrendo de culpa na noite do casamento deles. É uma mula. – Virou-se repentinamente, e atirou a bola deformada de neve no homem parado. O amontoado de gelo espatifou-se inofensivamente em seu peito. – Você vai voltar lá, pedirá desculpas e vai fodê-la até que ela não se lembre de quem é. – E tornou a ficar de costas. Mas antes de sair andando para o castelo, acrescentou: — Na verdade, esse é um conselho aplicável em qualquer situação. Na dúvida, peça desculpas e as foda. Sempre funciona.
Jon duvidava seriamente daquilo, mas achou por bem não contestar, sob o risco de mais neve vir voando em sua direção.
*
Ele voltou para o quarto mais tarde do que pretendera. Havia comido apenas um naco de pão recheado de queijo de cabra, com uma xícara de vinho quente com especiarias, e depois saíra para maltratar algum pobre soldado em treinamento. Ao chegar ao pátio, viu Edwen instando ordens. O som de aço contra aço despertou uma fome nele, lembrando-o que há tempos precisava treinar. Aquele som o fez se recordar também de dias mais quentes e mais simples, quando era apenas um garoto em Winterfell, experimentando as lâminas com Robb, sob o olhar atento de Sor Rodrik Cassel. Mas o homem de cabelos brancos também caíra, assassinado por Theon Vira-Casaca e seus homens de ferro quando tentara tomar Winterfell. Lembrou-se de quando a grande fortaleza da Casa Stark era uma desolação queimada. Todas as minhas memórias estão envenenadas. Mas então a imagem da rainha surgiu em sua mente, ele sobre ela, seus fios prateados espalhados no travesseiro, com o rosto contorcido de prazer. Talvez nem todas.
Quando Edwen Arron o viu, levantou a mão e o combate cessou.
— Meu senhor. Como posso servi-lo?
— Com seus três melhores.
Edwen sorriu. – Raith. Phene. Malachi
Dispensou com um aceno os escudeiros apressados que traziam proteções para ele. Se algumas gotas de sangue molhassem o chão de Winterfell, ou ele ganhasse novas marcas, não se importaria. Mas aceitou um escudo cinza com acolchoamento para o braço esquerdo, e uma espada longa e cega para sua mão direita. A espada brilhava cinza-prateado nas primeiras luzes do dia, quase nova. Era mais cura que Garralonga, mas feita de aço comum, o que a tornava mais pesada. Seus golpes seriam um pouco mais lentos.
— Servirá. – Jon virou o rosto para seus novos inimigos. – Venham.
— Qual quer primeiro? – Perguntou o que se chamava Raith.
— Os três. De uma única vez.
— Os três? – Malachi estava incrédulo. – Isso não será leal. – Ele era um rosto novo, que o rei não conhecia muito bem. Vinha de um pouco mais ao leste do Norte, da Ilha Leal. Talvez isso explicasse.
— Verdade. Venha aqui.
Quando ele foi, a lâmina de Jon acertou o lado de sua cabeça, derrubando-o no chão. Ele piscou os olhos, surpreso, e tinha uma bota no peito e uma ponta de espada na garganta.
— A guerra nunca é leal. – Jon lhe disse. – São dois contra um agora, e você está morto.
Quando ouviu o barulho do cascalho, soube que os outros dois estavam vindo. Ele girou, bloqueando o ataque de Raith com a ponta de seu escudo e encontrando a lâmina de Phene com sua espada.
— Essas não são lanças! – Gritou. Estava irritado. Com o quê? – Cheguem mais perto. – Foi para o ataque para mostrar como deveria ser. Phene primeiro. Golpeou sua cabeça e seus ombros, direita e esquerda, e direita novamente. O garoto levantou o escudo e tentou um ataque desajeitado. Jon bateu seu próprio escudo no de Phene e o derrubou com uma pancada na parte inferior da perna... não por muito tempo, porque Raith estava sobre ele, com um golpe esmagador na parte de trás de sua coxa que o fez cair de joelhos. Isso vai deixar um hematoma. Segurou o golpe seguinte com o escudo, então saltou para trás e ficou de pé, conduzindo Raith pelo pátio. Ele é rápido, pensou, enquanto as espadas longas se beijavam uma, duas, três vezes, mas precisa ficar mais forte. Assim que viu o alívio nos olhos de Raith, soube que Phene esta atrás dele. Virou-se e o acertou com um golpe atrás dos ombros que o mandou de encontro ao parceiro de treinamento. Nesse momento Malachi se levantou, então Jon o derrubou novamente. – Odeio quando homens mortos se levantam. Você sentirá o mesmo se um dia vier a encontrar uma criatura. – Andando para trás abaixou a espada.
— Tem um tempo para mim? – Uma voz divertida soou atrás dele. – Os coitados já estão acabados, senhor.
Reynelle Hawkstark pulou o cercado do pátio de lutas sorrindo como uma criança. O rei não se deixava mais enganar por aquele ar infantil, o Hawkstark lutava como um demônio. Por isso não pode impedir o sorriso nos lábios. É disso que eu preciso. Indicou com a cabeça que ele pegasse o que quisesse e aproveitou para massagear a coxa que latejava agora. O garoto recusou o escudo, como sempre, e testou a espada cega de duas mãos, golpeando o ar. Sorriu para ele. – Estou pronto, senhor.
Jon o atacou com força.
Reynelle deu um passo para trás, e voltou à carga com um golpe de duas mãos. Se Jon não tivesse interposto o seu escudo, o couro do gibão seria destruído e metade de suas costelas, quebradas. A força do golpe enviou um solavanco sólido por seu braço, mas ele já conhecia aquele menino, e o pior era a sua rapidez. Eles circundaram um ao outro, trocando golpes. O garoto dava tanto quanto recebia. Pela lógica a espada de duas mãos deveria ser mais difícil de manejar do que a lâmina curta de Jon, mas ele a empunhava com uma velocidade estonteante. Fruto de anos de treino, como ele lhe contara.
Mesmo sendo cega, a força dos golpes fez com que a espada rachasse o escudo, abrindo uma lasca no pinho e entortando o aro. Ele sabia que o Hawkstark poderia continuar com aquilo por muito tempo e quem acabaria se cansando seria ele. Então tentou um golpe na panturrilha do rapaz, para apenas vê-lo saltar com facilidade sobre a lâmina. Jon deu passos para trás, com o rosto concentrado, podia ver o suor brilhando no rosto do adversário como orvalho, mas aquilo não significava que ele estava cansado. Moveu os pés, esquerdo sobre o direito, e direito para fora novamente. Reynelle acompanhou sua dança com maestria até que decidiu atacar. Você é impaciente demais.
Golpeou-o na cabeça, e o impacto fez o escudo quebrar de vez, com madeira clara espatifando-se para todos os lados. Mas dois pedaços maiores ficaram presos nas amarras em seu braço, dando a irresistível oportunidade para o garoto forçá-las para baixo até que ele ouviu um som abafado e soube que seu ombro estava deslocado. A dor não o atingiu na hora, e ele aproveitou a proximidade dos corpos. Com o calcanhar, trouxe o pé esquerdo do garoto para entre suas pernas, puxando com força, fazendo-o cair de costas no chão de cascalho. Jon ficou a espada ao lado de sua cabeça e afastou-se.
— Usou o escudo quebrado como distração. – Estendeu a mão do braço bom para o garoto se levantar. – Muito bom, senhor.
— Ótimo. Isso me rendeu um ombro deslocado. – Resmungou entregando a espada a Edwen. – Você já colocou um no lugar? – Perguntou a ele. Reynelle negou, surpreso. – Tem sempre uma primeira vez. Venha, segure meu cotovelo e embaixo do meu braço. Mais firme. Isso. Você vai subi-lo com força quando eu não estiver esperando. – Ele assentiu, olhando para o ombro do rei como se aquele fosse o trabalho da sua vida. A dor começava a irradiar-se pelo osso. – Para que não doa como está doe... Ah! – Um estalo seco foi ouvido quando um osso encontrou com o outro. Ele trincou os dentes para não soltar impropérios. Tocou o braço do menino. – Boa luta. Apenas tente ser mais paciente.
Voltou para o castelo massageando a área dolorida. Teve que parar três vezes no meio do caminho, por criados preocupados. Ele devia estar com uma cara pior do que imaginava, mas for cordial, apesar de estar se sentindo suado e quebrado pelas pancadas que começavam a mostrarem-se presentes. Chegou ao seu quarto, estranhando por meio segundo os homens plantados na sua porta, para depois se lembrar de que não era mais o único que dormia ali agora. Suspirou antes de abrir a porta. Fantasma não o seguiu, soltando uma nuvem de ar branco na direção dos guardas, como se os não aprovasse, deitou junto à parede quente.
Ele não estava esperando o que veria. Sua esposa não estava mais na cama, deslizava um pano sobre os braços, de forma hipnotizante dentro de uma banheira de bronze, com espirais de vapor a rodeando. Ele depois se perguntaria como aquilo fora parar em seu quarto, mas por enquanto apenas podia olhá-la, em seu banho torturante.
— Se eu perguntar onde esteve, suponho que não irá me dizer. – Ela falou sem virar para ele. Continuando o que fazia como se ele não estivesse presente.
Jon engoliu em seco e desviou o olhar dela. Fechou a porta e foi sentar-se na cama. Um gemido escapando de seus lábios quando sua coxa bateu contra a madeira. – Eu andei com Tyrion. E lutei.
Ela deixou o pano afundar dentro d’água e levantou-se em todo seu corpo de mulher. Jon sentiu a boca se entreabrir ao ver a água escorrer por suas curvas, acompanhando a trajetória de gotas mais sortudas que ele, que alisavam sua pele clara desde os ombros, seios, coxas, até voltarem para a água novamente. Daenerys enrolou-se em um tecido grosso, para finalmente olhar para ele.
— O que houve com seu braço? – Ela saiu da banheira e andou até ele de testa franzida. Seu cabelo parecia liso aos moldes da água. Jon fechou a boca e apertou o braço, enviando uma onda de dor por seu ombro.
— Nada. – Murmurou.
Ela o ignorou e afastou sua mão, para tocar delicadamente a área. Pressionou os dedos tão imperceptivelmente que ele não sentiu dor. Uniu as sobrancelhas. – Você deslocou, não foi? – Impaciente, tirou as correias do manto e começou a desatar os cordões do gibão. Trabalhou com o rosto fechado até que seu ombro machucado estivesse à mostra, sujeito aos açoites do frio dos ventos. Ela sentiu a união dos ossos e apertou a juntura. Uma pontada aguda correu pelo lugar e ele instintivamente se afastou. A mulher bateu em seu ombro bom. – Quieto. Eu aposto minha coroa que não foi um meistre que o colocou no lugar.
— Então você continua com sua coroa. – Ele resmungou, olhando para qualquer lugar que não fosse pele que o tecido que a encobria revelava.
— Seu teimoso. – Ela continuou sentindo os ligamentos. – Você vai deixa-lo imóvel por uma semana, no mínimo. Ou ele vai sair do lugar a qualquer movimento.
— Como sabe disso?
— Eu já estive em muitos acampamentos de guerra. Você também deve saber. – Então parou de analisar e deu um passo para trás. Antes que ela se afastasse mais, Jon segurou sua coxa. Sem muito esforço, a trouxe para mais perto, colocando-a entre suas pernas. Levantou os olhos para ela.
— Desculpe-me. – Seus olhos ficaram um pouco maiores ao ouvi-lo sussurrar. – Eu apenas... Esperei que você confiasse mais em mim.
Ela colocou as mãos ao redor de seu rosto. – Eu confio em você. – Disse com urgência. – O que você não entendeu é que você me fez esquecer. Você afastou aquilo que sempre me perseguiu, e eu não sei como expressar minha gratidão.
Eu não quero sua gratidão. Mas ele não deu voz àquele pensamento amargo, puxou-a para mais perto e sentiu-a beijá-lo com os lábios molhados. Suas mãos macias pousaram em seu pescoço, e o frio fez ele se arrepiar. Ignorou a dor no ombro quando se levantou para segurá-la melhor em seus braços. Com uma das mãos, apertou suas nádegas, fazendo-a comprimir o corpo pequeno contra o seu, contra seu membro. Explorou sua boca com a língua, mordiscando seu lábio inferior. Desceu para a pele perfumada do pescoço, não resistindo a sugar a carne quente. Ela perpassou os dedos por seus fios, soltando seu cabelo das amarras, e puxou para o lado o gibão meio tirado. Jon afastou o tecido do corpo dela, deixando-o cair no chão, e ficando satisfeito ao poder tocá-la em pele.
— Por que não toma um banho comigo, meu rei? – Ela murmurou com os lábios sedutores colados em seu ouvido. Ele deixou-se ser guiado por ela daquela vez, e não se arrependeu.
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