Um Conto No Inverno
3 Daenerys
Era muito frio. Ela havia estado no Norte uma vez, há anos atrás, mas parecia que o tempo no Sul, mesmo durante o Inverno, a fizera esquecer o quanto aquele país podia congelar até os ossos.
Achava uma estação bonita, a neve com sua capacidade de transformar paisagens e seu aspecto de pureza, as árvores congeladas, mas de alguma forma ainda vivas e os represeiros, ao menos naquela terra, se destacando no mundo branco com suas folhas vermelhas. Era lindo. Mas ela nunca seria capaz de viver ali. Como conseguiria ficar em um lugar que mesmo no auge do Verão era frio?
Dany era uma Targaryen, tinha o sangue do dragão, ela precisava do calor.
Mas mesmo tendo passado um mês congelando pela Estrada do Rei vindo de Porto Real até Winterfell, ela havia vindo. Tinha subido ao Norte durante um dos mais rigorosos Invernos que se tinha lembrança. Com todos os problemas e dificuldades que se podia imaginar de uma viagem dessa magnitude.
Por ele. Essa imprudência toda por ele. Tudo para chegar e ele a tratar com toda a formalidade e distância que a ocasião exigia. A Rainha fazendo uma visita política a um país era uma situação solene, afinal. Mas Dany não queria a frieza da parte Stark dele, ela ansiava pelo lado da Antiga Valíria.
Quando o vira pela primeira vez, algo se agitada dentro de seu coração, um calor que estivera adormecido desde que ela perdera seu Sol e Estrelas. Mas Dany fizera o que podia para aplacar aquele sentimento. Era um tempo de guerra contra o frio e ela nem o conhecia. Ele era um estranho, que despertava desejos que a faziam passar noites em claro, mas ainda um estranho.
Depois de descobrir a sua verdadeira ascendência, que ele era o sobrinho dela, as coisas não haviam ficado mais fáceis. O homem que a atraía era filho de seu irmão, sua única família, como ela lidaria com isso?
Não lidou. Não expressou nenhum de seus sentimentos confusos para ninguém, deu-lhe o Norte que ele tanto desejava e escondeu-se na Fortaleza Vermelha por 3 anos. Vendo aquele Inverno que enfrentavam, era um plano de ação aceitável. Mas não para ela. Sentia como se estivesse fugindo, e ela não fugia.
Assim que se resolveu do que faria, contou a Tyrion. Não o convocou, preferiu subir a Torre da Mão e falar-lhe seus planos. Precisava que outra pessoa além dela achasse que aquilo era sandice sua.
— Eu acho uma ótima ideia. — Foi a resposta dele. — Nesses tempos o Norte teve dois reis, eles já eram muito independentes, depois disso... Acho que seria ótimo se você se casasse com o último desses reis. Até porque o anterior está bem morto. — Ele alisou a barba. — Você sabia que os Frey costuraram a cabeça do lobo em Robb Stark? Deve ter sido um espetáculo. Grotesco, mas ainda assim um espetáculo.
Dany sentou-se em uma das cadeiras da pequena mesa redonda. Ele não a estava chamando de louca? Não seria a primeira vez e ela não o mataria por isso, então por que não?
— Eu pensei que você gostava dos Stark. — Balbuciou. Se ele concordava, tudo o que tinha a fazer era ir realmente para o Norte. Ela percebeu que estivera contando com Tyrion para impedi-la.
— Ah, não. Eu não gosto dos Stark, gosto de alguns Starks. Como gosto do seu futuro esposo. — Ele arqueou uma sobrancelha, como se a estivesse provocando.
— Ele nem aceitou ainda. — Retrucou, aliviando a testa, franzida inconscientemente.
— Ah, só que eu tenho certeza de que ele irá. — Os olhos do Lannister brilharam como se ele soubesse de tudo que a afligia.
Dany deixara-se ter alguma esperança depois dessa conversa, pois se Tyrion dizia que ele iria aceitar então ela não tinha motivos para se preocupar. Afinal, a fama dele era exatamente essa, saber das coisas. Além de ingerir mais vinho do que muitos pensariam que ele fosse capaz, levando em conta sua estatura, por assim dizer.
Mas agora ela não tinha tanta certeza, o frio e as atitudes de Jon estavam destruindo suas poucas expectativas. Já haviam se passado 5 dias desde que dissera sua intenção de vir ao Norte no Inverno. E a 5 dias ele a evitava. Outros podiam não perceber tal tratamento, mas ela via. Uma mulher sempre sabe quando um homem a trata com frieza.
Eles às vezes se encontravam nas refeições e apenas esses raros momentos bastavam para que ela amaldiçoasse o dia que o conhecera e o dia que decidira fazer aquela estúpida viagem. Mas dentro de si ela ainda guardava um último fio de esperança, se ele fosse rejeitar o seu pedido, podia ter dito há muito tempo.
Ele pode apenas estar procurando a melhor maneira de declinar, repreendeu-se enquanto sentia o aperto desconfortável em suas costelas aumentar consideravelmente.
— Por que tenho que usar isto? — Experimentou respirar fundo, mas os ossos que abraçavam seu corpo a impediram. — Nenhum de meus vestidos precisa de uma gaiola como esta.
— Mas o que Lady Sansa fez para Vossa Graça, precisa. — Missandei esticou pelo que devia ser a centésima vez, nas contas dela, a longa saia do vestido. — E seria una desfeita sem tamanho se a Senhora não o usasse na comemoração do dia do nome dela.
Ela suspirou. — Eu sei, eu sei. É só que isto parece um instrumento de tortura.
Missandei sorriu solidária, e virou Dany gentilmente para o espelho. — Vossa Graça está mais do que linda.
A Rainha encarou-se no reflexo e teve que concordar. De fato ela estava muito bonita.
Duas tranças contornavam sua cabeça e uniam-se para misturar-se com o resto do cabelo prateado na parte de trás. Ela não costumava usar nenhum tipo de joia, mas hoje tinha um dragão de prata circundando seu pescoço. O vestido longo e escuro como as noites invernais tinha mangas compridas e era grosso e pesado como o frio pedia, mas possuía um desenho curvado abrindo espaço para revelar o vinco entre seus seios. Na opinião de Dany, o que deixava a roupa bela eram os detalhes em fios de prata bordados com uma habilidade que ela jamais teria.
Talvez assim, vestida como uma dama do Norte, ele olhe para mim. Ela endireitou as costas e respirou o mais profundamente que podia dentro de sua prisão de ossos.
— Vamos. — Disse para Missandei e desejou ter um de seus filhos por perto.
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Ele já deve ter dançado com todas as Ladys de Westeros. Ela fechou a mão em punho quando o viu rir de alguma coisa que uma mulher com quase metade do tamanho dele dissera. Lady Hawkstark, se eu incinerasse sua prima, a senhora continuaria leal a Coroa? Sentiu uma quase incontrolável vontade de perguntar à mulher que se divertia ao lado do marido.
Assim que chegara à comemoração havia se surpreendido e se alegrado com o fato de Jon saber dançar. Isso era um qualidade ensinada apenas à filhos de Lordes, e muitas vezes somente ao primeiro filho homem e as mulheres. Até onde ela sabia, ele havia sido criado como o bastardo de Lorde Eddard Stark, um homem que mesmo tendo ajudado o Usurpador a roubar o seu trono, possuía a honra como sua diretriz. Devia ser muito mais do que honrado para ter dado aquela criação a Jon.
Mas a alegria de saber daquilo durara pouco. Esperara que ele a chamasse para dançar, sendo até mesmo apenas uma formalidade ela não se importaria, mas não havia acontecido. No começo ele chamara sua prima mais velha, Lady Sansa, para a primeira dança. Em seguida Arya, Lady Mormont, Lady Umber, Lady Randerlly, Lady Tarly, Lady Hawkstark, Lady Glover... Ela havia parado de contar quando ele dançara com mais uma Lady Hawkstark (aparentemente havia três delas, o mais estranho, duas delas casadas e ainda assim mantendo o nome de nascença).
Todas às vezes ela desejara ter Drogon a seu lado e sussurrar "Dracarys" em cima delas.
Era ridículo. Ela, a filha da Tormenta, Mãe dos Dragões, Rainha de Westeros, se contorcendo de ciúmes. Mas ela tinha certa razão, não? Ele seria seu Rei, se ele aceitasse, passaria o resto de sua vida com aquele homem. Tinha direito de ter algum ciúme.
— Queimar é demais, não acha? — Aquela era uma prima dele falando, a ruiva Sansa. Mas ela havia lido sua mente?
Dany virou a cabeça para a garota rapidamente. — Como?
— Bem, eu disse que queimar a carne do porco é demais, mesmo para pessoas que gostam dela bem assada. — A Stark riu voltando seu olhar par um rapaz jovem de cabelos castanhos, que sentara-se ao lado de Lady Hawkstark (talvez aquela fosse a Lady da Casa). — Mas acho que Vossa Graça estava muito ocupada observando Jon.
A Rainha desviou o olhar do dito Lorde sentindo as faces arderem.
— Eu não o estava observando. — Retrucou um pouco rápido demais. Corando como uma menininha. Patético, Daenerys.
Lady Sansa lançou-lhe um olhar de esgueira e parecia prestes a responder quando percebeu o rapaz que ela estivera olhando vindo até ela. A menina arregalou os olhos e Dany sentiu satisfação quando viu o rubor tingir suas bochechas de vermelho.
— Vossa Graça. Lady Sansa. — Ele fez uma reverência para a Rainha e curvou-se para a garota, beijando-lhe a mão em seguida.
Dany limitou-se a um acenar com a cabeça, mas a outra falou:
— Lorde Hawkstark.
O rapaz riu e a Targaryen viu que ele era bonito.
— Oh, não. Essa honraria é do meu irmão. Ou vai ser, quando nossa mãe morrer. — O sorriso galanteador dele direcionava-se para a garota ruiva e Dany achou interessante ser apenas uma espectadora na cena. — O que eu espero que demore muito. Chame-me apenas de Reynelle, se assim a agradar.
Ela viu o rosto da garota aproximar-se do tom de seu cabelo, não podendo evitar divertir-se com a situação.
— Em que posso-lhe ajudar, Lorde Reynelle? — Ela tremeu nas palavras, mas o rapaz fingiu não notar.
— Ainda não tive o prazer de apreciar uma dança com a senhora. Gostaria de não perder essa oportunidade, m'Lady.
A boca de Sansa fechou-se e ela comprimiu os lábios quando ele estendeu-lhe uma das mãos. Pareceu propensa a recusar por alguns instantes, mas depois aceitou o convite levantando-se com um sorriso.
— Eu adoraria.
Dany acompanhou o casal afastar-se da mesa e conteve um suspiro, pensando em como queria que as coisas para ela fossem fáceis daquele jeito. Rainhas não suspiravam, ao menos não na frente de todos.
Vasculhou os rostos felizes a procura de um certo homem de cabelos escuros, não percebendo quando ele sentou-se na cadeira à seu lado. Segundos depois ela viu seu braço levar uma taça de vinho à boca e conteve o sobressalto o melhor que pode.
Recusou-se a olhar imediatamente para ele como uma tola de coração mole e concentrou-se na mulher que acabara de dançar com ele. Euelle Hawkstark. Todos os nomes dessa família terminam em "elle"? Tentou não fervilhar de ciúmes, mas era difícil vendo-a voltar para a prima quase saltitante com um sorriso de orelha a orelha.
— Aquela ali me assustou um pouco. — As entranhas de Dany contorceram-se numa sensação esquisita quando ela percebeu que ele falava com ela. Uma sensação muito parecida como quando voou pela primeira vez em Drogon.
Patético.
— Não ia acreditar nas coisas que ela disse que faria comigo se não estivesse casada. — Ele sorveu um bom gole da bebida e pendeu a cabeça, pensativo. — Acho que ela apertou minha... Bem, eu não me importaria de nunca mais ter que dançar com ela.
Dany cerrou os dentes. Queria que ele falasse com ela, mas não sobre outra mulher.
— Então agora você fala comigo? — Suas palavras eram ácidas e ela não se arrependeu quando ele a olhou com olhos escuros.
Jon a encarou sem dizer nada. Como sempre. Ela procurou o fogo que corria nas veias dele naqueles olhos, mas não achou. Fechou as mãos entorno da saia de seu vestido.
— Foi uma comemoração muito agradável, Lorde Stark, mas irei me recolher. Agradeço tais honrarias. — Levantou-se rigidamente e fez o que pode para sair dali o mais rápido possível.
Escutou um "Vossa Graça" às suas costas, mas não se virou. Estava na hora de começar a desistir daquela ideia. Culparia Tyrion por tê-la feito acreditar que daria certo, mas no fundo sabia que a culpa de ter tantas ilusões era só sua.
Dany serpenteou por entre as pessoas alteradas, ficando extremamente aliviada assim que sentiu o ar fresco quando conseguiu sair do Grande Salão. Ela não tinha certeza se lembrava do caminho até seu quarto, mas fez um esforço. Tudo o que menos queria era pedir ajuda a alguém porque estava perdida.
Quando os corredores começaram a se tornar familiares, ela ouviu passos. Percebendo que eles a acompanhavam, aumentou seu ritmo. Não queria ter que inventar nenhuma desculpa para algum lorde bem intencionado que perguntaria por que ela havia se retirado da festa cedo.
— Dany.
Aquela voz a fez parar. Não exatamente a voz, mas o som de seu nome saindo pela primeira vez daqueles lábios.
Tentou respirar fundo para acalmar seu coração que havia começado a palpitar enlouquecidamente, mas aquela maldita gaiola a impediu. Amaldiçoou mentalmente o inventor daquilo e virou-se para ele com o rosto firme o mais indiferente que conseguiu.
— Sim?
Ele aproximou-se e ela sentiu o ar ficar mais aquecido, como se ela estivesse perto de uma fogueira, mesmo em um corredor na penumbra da lua, no pior Inverno em mil anos.
— Eu... — Jon tentou encara-la, mas seu olhar escorregou para o dragão de prata em seu pescoço. Ele limpou a garganta em um som constrangido desviando os olhos e Dany percebeu que ele havia olhado mais do que apenas o adereço. — Queria pedir desculpas pelo meu... Comportamento. Eu estava pensando sobre sua proposta.
As entranhas dela se contorceram mais uma vez e seu coração simplesmente perdeu qualquer compasso. Dany tentou concentrar-se em qualquer parte dele que não agitasse seu baixo ventre, enquanto dava pequenos passos, estreitando ainda mais a distância entre eles. Resolveu olhar para a boca dele, mas sentiu-se ainda mais ansiosa com inúmeros pensamentos impuros enevoando sua mente.
— E, — ela molhou os lábios, — o que decidiu?
O ambiente gelado parecia ficar cada vez mais quente, e ela viu com satisfação Jon fechar os olhos quando ela finalmente estava perto o suficiente para sentirem o calor aconchegante da respiração um do outro. Ela não era única que estava sendo afetada.
— Eu... Não sei. — Sua voz saiu mais baixa rouca que o habitual e Dany sentiu-se vibrar. De repente ela não fazia mais ideia de qual era o assunto da conversa. Tudo o que via era os lábios dele, entreabertos, deixando nuvens de ar morno escaparem de tempos em tempos.
Ela queria beijá-lo. Queria do fundo de seu ser, tanto que sentia um aperto em seu peito quase sufocante. E ele estava tão perto que ela desejava que ele nunca se afastasse, envolvendo-a com seu calor e seu cheiro amadeirado que a deixava tonta. Tão perto, respirando com sofreguidão como se... Estivesse prestes a beijá-la.
Dany deixou as pálpebras baixarem e levantou a face, deixando que ele decidisse o que fazer, completamente entregue.
Ela chegou a sentir seu nariz roçar com o dele antes que uma porta fosse aberta com um estrondo, e Tyrion Lannister saísse de dentro de um quarto segurando as mãos de duas mulheres. Ambas praticamente nuas.
— Ooh! Acho que Interrompemos algo aqui, moças. — Disse com a voz enrolada. Ele riu e levou as duas com ele, mas não sem antes piscar para ela e acrescentar: — Pegue-o como se ele fosse um cordeiro!
Dany nunca sentiu tanta vontade de estrangular alguém. Ela virou-se para Jon, agora a seguros vários pés de distância, procurando a emoção que havia sentido há segundos atrás, mas o encanto se fora.
Ele franziu a testa para a parede atrás dela, parecendo confuso. — Uma boa noite, Vossa Graça. — E a deixou só, planejando formas de fazer aquele maldito duende pagar.
Tão perto..., pensou frustrada quando chegou a seu quarto. Mas nem tudo havia sido perdido, ela finalmente encontrara o fogo Targaryen dentro do gelado Jon Stark, e não iria perdê-lo por nada.
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