Notas iniciais
Olá! Bem, bem, quase que esse não sai a tempo. Porque eu sinceramente não sabia o que escrever. Acabou saindo um pouco de algumas coisas e um pouco de nada. Mas ele é um capítulo necessário. Boa leitura, tamagoshis! (Eu escrevi escutando La Vie En Rose, com a versão da Daniela Andrade. É fofinha)

A coroa pesava em sua cabeça. As espadas do trono incomodavam e ela mantinha as costas eretas para não espetar-se com as lâminas do encosto, de uma maneira que ela nunca precisara fazer antes. Suas mãos estavam cruzadas polidamente sobre o colo com os dedos brancos de tensão, mas seu rosto estampava a placidez e imparcialidade que Sor Norryn Hightower buscava para a solução de seu problema.

As terras do lorde, recém adquiridas pela morte de um primo, permaneciam nas mãos da tia, Lady Opúria Hightower, e ele solicitava a intervenção real para ser seu direito garantido.

— A mulher esta ocupando meu castelo! Ela e todas aquelas dezenas de filhas choronas. Comendo minha comida, gastando a água dos meus poços, dormindo nas minhas camas e usando meus cavalos de justas para arar! – Ele abriu os braços, falando mais para a corte que assistia do que para a rainha. – Qualquer idiota sabe que esse tipo de cavalo não pode puxar uma tração de ferro. Mas como é mulher, acho que posso entender. – Alguns desajuizados, ou tolos, riram como bajuladores que eram. Ele voltou-se para a mulher no Trono de Ferro. – Tudo o que peço é que a retire de minha casa. Nada mais do que meu direito, Vossa Graça.

A rainha olhou para ele, com desprezo destilando de seus olhos. Um homem de meia idade, com a barba castanha meticulosamente aparada e um gibão colorido com o cinza e vermelho da sua Casa. A barriga proeminente, filha do vinho em excesso e falta de real ocupação, servia de suporte para a pesada corrente de ouro que ele usava com orgulho. Homem... Ele não é um homem de verdade. Apertou as mãos, para controlar a fúria de alguma forma.

— Sor Norryn, quantos dias do nome tem a mais velha de suas primas? – Perguntou com o queixo erguido. A criatura contorceu o rosto inchado, em confusão. – Responda. – Exigiu rispidamente.

— Acho que Selena tem oito. Não presto atenção nessas futilidades, tenho coisas mais importantes para fazer. – Suas bochechas flácidas tremeram e ela viu gotículas de saliva voar.

— E tudo o que me pede é que eu expulse uma senhora viúva, com filhas pequenas da única casa que elas têm? – Sentia as unhas perfurarem a carne macia das palmas, tamanha era a força que ela usava para se conter. Por que um ser como este ainda está respirando e andando livre, enchendo a barriga de vinho, dormindo em lençóis de seda, enquanto ele... Fechou os olhos para se acalmar. Depois de encher os pulmões e soltar o ar vagarosamente ela fixou suas íris violetas no homem. – Eu deveria expulsar você, Sor Norryn. Tirar-lhe todos e quaisquer títulos e posses. Deveria garantir que nunca mais tivesse conforto pelo resto de sua vida medíocre. – Viu, com certa satisfação, ele arregalar os olhos já esbugalhados por natureza e seu queixo tremer. O homem precipitou-se para ela, caindo de joelhos ao chão. O som dos ossos contra o mármore acerado ecoou no salão mortalmente silencioso. Antes que ele pudesse implorar pateticamente pela vida, ela falou. – Não irei fazer isso. Ao contrário, de hoje em diante você irá cuidar de Lady Opúria e suas filhas até o dia das suas mortes. E se acaso chegar aos meus ouvidos um sussurro sequer, de que elas não estão sendo bem tratadas, eu servirei sua cabeça para Drogon apreciar.

Ainda com os olhos saltando das órbitas, o homem assentiu, balançando a cabeça repetidas vezes e tropeçando nos próprios pés ao sair apressado do recinto. Dany segurou um suspiro e relaxou os ombros discretamente. Olhou para Tyrion Lannister, sentado em uma cadeira acolchoada alguns degraus abaixo.

— Quantos ainda faltam? – Perguntou sem demonstrar o cansaço que dominava seu corpo.

O meio-homem baixou os olhos para um pergaminho comprido que estava sobre sua pequena mesa redonda. – Sessenta e sete. – Seu semblante carregava uma expressão de desculpas, mas não era falta sua que o povo de Westeros exigisse a atenção de sua soberana.

Daenerys assentiu séria, encarando a enorme porta da Sala do Trono. Guardada por dois homens corpulentos em armaduras douradas, elas se erguiam como imensas colunas de carvalho grosso, facilmente superando a altura de quatro homens. Estava prestes a ordenar que elas fossem abertas pela centésima oitava vez naquela manhã, para deixar mais um pedinte entrar, quando sua visão escureceu. Ela sentiu as paredes girarem e, em reflexo, segurou-se em um dos mil cabos de espadas do Trono. Felizmente ela não desmaiou na frente da corte de Porto Real e apenas algumas pessoas mais próximas a ela haviam notado seu rápido desfalecimento.

Meistre Alester adiantou-se para seu lado.

— Vossa Graça está bem? – Apertou com suas mãos frias e pegajosas os dedos da rainha.

A mulher engoliu em seco, com seu campo de visão voltando às cores gradualmente. Ela murmurou uma concordância simples.

Corria um burburinho no Salão, como sempre acontecia quando a rainha não estava em audiência, e Tyrion escolheu esse momento para levantar-se e ir até ela.

— Vossa Graça precisa descansar. Pode deixar os outros comigo. – Ela abriu a boca para contrariá-lo, mas, como sempre, ele foi mais rápido. – Aproveite hoje que estou me oferecendo para o trabalho sujo. – Piscou o olho preto para ela. – Saia para respirar ar fresco, coma alguma coisa mais substancial do que a porção de um passarinho e – ele apertou seu antebraço carinhosamente –, não pense nas buscas.

Ela balançou o queixo para baixo e para cima, ainda torpe, e levantou-se do trono. As vozes se calaram, mas ela deixou que Missandei anunciasse a troca. Escutando o timbre firme e doce da voz da pequena escriba, ela desceu as escadas. Os homens da guarda real a seguiram, ecoando passos pesados e tinidos das armaduras. Tentou não prestar atenção aos rostos que abaixavam-se um a um em reverências à medida que ela passava. Na verdade não conseguia notar as particularidades deles, eram manchas turvas e idênticas. E isso prosseguiu enquanto ela percorria os corredores, as janelas resplandecentes estavam com seus vitrais coloridos escancarados, mas mesmo assim ela se sentia sufocada. Sentia como se uma pedra colossal estivesse sob seus finos ombros, coberta de acolchoamento de plumas e veludo para que não ferisse sua pele, mas a empurrando cada vez mais para baixo, até que ela não fosse capaz de respirar de verdade.

Dany apoiou-se na amurada. Olhou para os lados, tentando saber para onde seus pés à haviam lhe levado. A arena dos meus filhos. Ao menos ainda os tenho. Decidiu que precisava mesmo vê-los, que talvez ao sentir as escamas quentes e negras de Drogon aquele peso esmagador diminuísse.

“Não pense nas buscas.” As palavras de Tyrion eram como uma ordem que ela queria seguir, mas como não pensaria? Como não se lembraria que há quase quatro semanas ele estava desaparecido? À quase uma volta de lua completa nenhuma notícia dele havia sido ouvida... Como ela poderia não pensar nisso? Suas mãos corriam a pedra fria, com um sol pálido fazendo a neve reluzir em branco puro, enquanto seu corpo a guiava para suas crianças.

— Os enviados ao Gargalo retornaram ontem à noite, e, como não trouxeram nenhuma notícia, decidimos não incomodá-la em seu sono. – Lorde Varys falara mais cedo daquele dia, com sua voz sussurrante. Dany assentira placidamente, escolhendo não dizer que há muito não dormia uma noite inteira. O eunuco enrolara as longas mangas de sua túnica ao cruzar os braços. – Depois de quase uma mês, muitos diriam que valorosos homens estão sendo desperdiçados em tentativas frustradas, e que é hora de aceitar o fim do vosso consorte, por mais doloroso que seja.

Ela erguera os olhos para a Aranha, sentindo o âmago arder em chamas. Mas foi poupada de responder, a sua Mão pronunciou-se antes.

— Você está sugerindo isso, Lorde Varys? Se quiser dizer alguma coisa, diga sem palavras enigmáticas e floreios ridículos. Você é do pequeno conselho, e, até ontem, servíamos para aconselhar a rainha. – O Lannister a observava através do líquido avermelhado de seu vinho. Havia falado sem olhar para o eunuco, encarando a pequena rainha entre gotas distorcidas. – Continue procurando por ele. Se o ama, não deixe aranhas capadas lhe impedirem de acha-lo. Este é o meu conselho. Viu como se faz, Lorde Varys?

Dany quase sorrira ao ver o rosto redondo e liso do eunuco se contorcer como se um limão houvesse rasgado sua garganta com o sumo azedo. Mas não conseguira ter nem aquele pequeno gesto de felicidade. Eu o amo? Perguntou-se ao ouvir a porta de ferro subir para revelar a entrada da arena dos dragões. Mas deixou o assunto escondido nos compartimentos mais afastados de sua mente, saber se o amava ou não era indiferente naquele momento. Ela só o queria de volta, vivo, para que ela pudesse curar as feridas de sua alma e gastar o resto da vida descobrindo o que sentia por ele.

Os dois dos dragões estavam à vista. Drogon descansava com as asas cobrindo o corpo, a cauda em uma curva graciosa e a cabeça apoiada em uma pedra chata. Rhaegal quebrava a camada de gelo do pequeno lago com curtos jatos de fogo e cutucadas com as patas dianteiras. Ela sentiu o vazio oco que Viserion deixava, mas já era mais brando. Eles estavam a vista, mas a arena era gigantesca. Além do teto curvo, formado por aros de ferro escuro da grossura de homens, havia uma grande abertura, por onde qualquer um deles podia sair. Por uma questão de aparente segurança para o povo de Porto Real, uma porta de aço podia ser içada para fechar o grande buraco. Ela nunca usara o recurso e sabia que o fogo de Drogon poderia derreter o aço como o sol da Primavera derreteria a neve do Inverno. Era localizada atrás da Fortaleza Vermelha, para que os cidadãos da capital não passassem por perto sem intenção.

Ela escutou as portas se fecharem atrás de si, enquanto se aproximava do mais velho de seus filhos. Sentiu o ar ficar mais quente e sentou-se na pedra, próxima a cabeça do dragão. Um dos olhos amarelos de Drogon se abriu, dourado como ouro derretido, e ele moveu o pescoço, indo para mais perto de suas coxas.

Dany pousou a mão nas escamas quentes. Um dia ela levara uma de suas aias, uma garota particularmente fascinada pelas feras, para vê-los mais de perto; a mulher ousara tocar Rhaegal pensando que, estando adormecido, o dragão não a perceberia. A pobre menina tola terminara não resistindo às dilacerações que os dentes de Rhaegal abriram em seu tronco, antes que Dany pudesse fazer alguma coisa para acalmá-lo; e as queimaduras em suas mãos, no formato das escamas assimétricas eram o menor de seus ferimentos. Mas a rainha não se queimava ao tocá-los, não poderia, era a mãe deles. Jon também não se queimou ao colocar suas mãos em Rhaegal. Mesmo tendo sido apenas uma vez.

O nome dele ardeu em sua mente, quando seus pensamentos o trouxeram. Estava evitando falar em voz alta, ou até mesmo pensar. Era como se ao formar o som de uma sílaba, toda a culpa e dor que ela todos os dias empurrava para baixo, fossem evocadas de uma vez só. Ela perpassou os dedos pelo topo da cabeça do dragão negro, sentindo as protuberâncias afiadas e as ondulações crespas.

— Onde ele está, Drogon? – Sussurrou, deixando que todo o sofrimento que estava tão bem trancafiado viesse à tona. Para suas crianças ela podia ser ela mesma. Circundou um dos chifres laterais em uma volta delicada, tomando muito cuidado para não se furar. –Você poderia encontrá-lo, se quisesse. Eu sei que poderia. – Mas o dragão não fez nenhum movimento que desse a entender que ele ouvira alguma coisa. Ela suspirou. – Ou talvez Rhaegal o fizesse.

Ela só o queria de volta, realmente não importava quem ou o que o trouxesse.


*

Na manhã do dia que ele desapareceu Dany acordara sentindo falta do corpo quente onde estivera confortavelmente abraçada. Com as pálpebras pesadas e sonolentas ela vira as costas dele, desenhadas pela dança com lâminas, se esticarem quando ele alongou-se. O homem apertara os músculos do pescoço e movera a cabeça para os lados. Ela sorrira, gravando aqueles gestos na memória. Estava percebendo que era uma das melhores sensações que já experimentara descobrir aos poucos suas pequenas ações e manias. Assim, não pudera se impedir de, vagarosamente na medida em que a letargia a permitia, levantar-se e passar os braços por sua cintura. Colocara o rosto na curva de seu pescoço e aspirara o cheiro de seu corpo. Ele sussurrara bom dia para ela, e a rainha sentira-se a mulher mais feliz do mundo.

Agora ela apertava um travesseiro contra o peito.

Mais cedo, o sol claro do meio do dia brilhara no céu quando ela saíra da arena. A fonte de luz se escondera atrás das árvores, sendo empurrado pelo manto estrelado e cheio de nuvens da noite. E com essa senhora fria e bondosa, vieram os ventos gelados do Norte, que fizeram Dany recolher-se mais cedo em seu quarto e enrolar-se nos cobertores finos.

Girou o corpo para a esquerda, sentindo-se uma criança naquela cama tão grande, e os travesseiros de penas eram tão desconfortáveis como espinhos de cactos dorneses. Daquele lado ela podia ver a única vela que iluminava seu quarto. Ela estava quase no fim, restava menos de uma polegada, projetando-se de uma piscina de cera morna derretida para lançar sua fraca luz sobre a cama da rainha. A chama começou a tremular.

Não durará muito tempo. Dany percebeu, e, quando se apagar, outra noite terá terminado.

O amanhecer sempre chegava tarde demais em suas longas noites, arrastando-se como um menino preguiçoso que não queria acordar, mas mesmo assim não era suficiente.

Ela ainda não dormira, não conseguia, não podia dormir. Todas as noites tinha medo de fechar os olhos e acordar em outra manhã, com a notícia que o corpo do seu rei havia sido encontrado. Se tivesse poder para tanto, teria feito as noites durarem para sempre, mas o melhor que podia fazer era ficar acordada contando os segundos para que assim eles durassem mais, antes que o nascer do dia transformasse tudo em não mais que memórias se desvanecendo. Ela esperaria, com a apreensão apertando as entranhas, que Missandei viesse, trazendo seu primeiro pão e, se os deuses fossem bons, alguma notícia dele.

Três batidas firmes na porta de madeira a assustaram. Daenerys sentiu o coração falhar um segundo e começar a pulsar enlouquecidamente. Uma pedra parecia pesar em seu ventre quando ela se levantou, e seus passos eram trôpegos. Com a mão trêmula, ela abriu a porta.

— Desculpe por acordá-la, Vossa Graça. Mas ele... – Dany viu o lobo antes que Sor Constell Randyne encontrasse as palavras exatas. A rainha não o via desde que seu rei desaparecera, mas a todo o momento instruíra que um lobo gigante albino, com olhos de sangue deveria ser deixado fazer o que bem entendesse, até mesmo entrar em sua tenda, durante o resto da viagem. Não se lembrava de ter dado a mesma ordem quando chegara em Porto Real, mas era bom que eles tivesse tomado o comando para a Fortaleza Vermelha também.

Fantasma tinha os pelos eriçados para os homens em roupas de metal, mas quando a viu, sentou-se sobre as patas, com os olhos vermelhos fixos na rainha. Dany perdeu o fôlego ao encará-lo. Já havia olhado as orbes rubras do lobo diversas vezes, mas, naquele momento... Ela não saberia dizer, mas estava diferente. Um olhar distinto, sem toda aquela ferocidade que o habitava, mais brando e quase terno. Lobos gigantes não são ternos. Ela engoliu a sensação incômoda.

— Deixem-no entrar. – Falou para os guardas, dando passos para dentro do quarto. Viu os homens hesitarem, mas logo afastaram-se, abrindo espaço para que o lobo entrasse no recinto mal iluminado.

Daenerys fechou a porta quando o enorme animal entrou por inteiro. Mordeu o lábio e virou-se para ele. Fantasma havia se acomodado ao lado de seu dossel, sentado sobre as patas mais uma vez. Assustadoramente ela o via como um grande corpo branco no escuro, com olhos vermelhos e brilhantes. Reuniu coragem, mas não conseguiu ir até ele, preferiu voltar a deitar-se na cama. Virada para o animal que a observava atentamente.

— Você foi atrás dele? – Perguntou, e logo em seguida sentiu-se tola. Não podia esperar que o lobo respondesse, mas desejou que ele indicasse alguma coisa. Nada aconteceu. Ela fechou os olhos e deixou um suspiro escapar. Incerta, voltou a olhá-lo e ergueu a mão para ele. – Bem, ao menos você voltou. Estou me sentindo tão só. O que é estranho, eu nunca percebi que estava só. – Surpreendentemente, Fantasma abaixou a cabeça, encostando o focinho em sua palma, e andou curtas passadas para perto dela. Seu corpo agigantava-se diante da mulher, e talvez aquilo devesse ameaça-la, como o predador que ele era, mas Dany não sentiu medo. Deixando que seu coração de menina a guiasse, ela ergueu o tronco devagar e abraçou o pescoço do lobo. Os pelos ásperos pinicaram sua pele e ele era muito quente. Ficou parado, como uma estátua, deixando que ela se livrasse um pouco do peso que carregava, derramando lágrimas aprisionadas.

Dany soluçou, sentindo o cheiro de floresta no corpo do animal. – Você ficaria comigo está noite? – Perguntou inconsolável. Não sabia porque chorava. Durante todos aqueles dias não sentira vontade de chorar, nenhuma única vez, mas ao abraçá-lo... Seu espírito havia se libertado das correntes do trono e encontrado alento. Afastou-se dele, limpando as lágrimas atrevidas. – Por favor.

O lobo olhou-a e Dany imaginou ter visto tristeza em seu olhar, mas podia ser apenas a dela refletida. Deitou-se no chão, o mais próximo possível da cama e ela, deixando uma mão sobre seus pelos, afundou nos tecidos finos que cobriam o colchão macio. Sentindo seu calor familiar, ela agarrou-se no sono que a escapava há muito tempo.

No outro dia Fantasma não estava mais no quarto. Viu, por através dos cílios semiabertos, Missandei entrar pela porta, carregando uma bandeja com pães e queijos, e sentiu verdadeira fome. Como não estava sentindo há dias.

Apressou-se em sentar e logo encheu a boca com as massas macias e as saborosas fatias. Em poucos minutos havia comido tudo. Recostou-se nos travesseiros, satisfeita, e preparou-se para esperar o tempo que Missandei e suas aias levariam para encher sua banheira. O sol lançava sua clara réstia nas janelas, quando elas terminaram. A mulher testou a temperatura da água de seu banho.

— Estava com bom apetite hoje, Vossa Graça. – Ela sorriu em seguida. – A água está como a senhora gosta.

Dany afastou as cobertas e virou-se de costas para que a outra retirasse os laços de sua roupa de dormir. Mas antes que a ex escrava pudesse terminar de desatar os nós, a mulher sentiu uma sensação desagradável subir-lhe até a boca e seu corpo projetou-se para frente quando vomitou.

Missandei a aparou, puxando-a para trás, e Dany cuspiu os últimos gostos azedos. O cheiro ruim queimou em suas narinas da mesma forma que ardia em sua garganta. Ela virou o rosto para não ver o que seu corpo colocara para fora.

— O que tinha naqueles pães? E no queijo? – Ela usou a barra da roupa para limpar a boca suja. Missandei a fez sentar na cama e uma das aias lhe trouxe água.

— Não havia nada neles, minha rainha. Eu mesma os provei antes de trazer para a senhora. – Dany sentiu a mulher lhe analisar, e em seguida apalpar um de seus seios. Ela afastou-se, surpresa. – Há quanto tempo seu sangue de lua não vem?

Ela balançou a cabeça, bebendo os últimos goles da água. – Eu não estou grávida, Missandei.

— Mas a Vossa Graça...

— Eu tenho certeza. – Respondeu categórica. Era uma das únicas certezas que tinha, mesmo que aquilo lhe doesse na alma. Com o canto dos olhos viu as aias começarem a limpar a sujeira que fizera.

— A senhora e o rei não...? – Seus olhos castanhos eram significativos para o que ela não conseguia pronunciar.

— Claro que dormimos juntos. – Ela fechou os olhos, deixando-se cair nos lençóis. – Mas eu não estou grávida. – Sentindo um nó no estomago, repetiu uma última vez, mais para si mesma: – Não estou.

Notas finais
Então... quero muito saber se vão notar duas coisinhas que aconteceram aí. Uma está bem óbvia, a outra... também, ou talvez nem tanto. Digam o que acharam! ^^