Um Conto No Inverno
11 Daenerys
Notas iniciais
Ele não sabe. Repetiu pela centésima vez para si mesma. Não tem como ele saber. Ela suspirou tentando trazer alguma calma para si, mas estava impossível. Suas mãos tremiam e seu coração estava acelerado. Sentia-se mal agora que parecia estar mentindo para ele, como nunca se sentira ao longo de todos esses anos que escondera aquilo. Mas naquela hora... Por um segundo pareceu que ele sabia.
Eles estavam tendo um ótimo momento, ele a beijando daquela forma... Apenas a lembrança já trazia calor à seu corpo. E havia sido tão bom senti-lo perto de si novamente depois de tanto tempo. Dany se remoera durante cada dia daqueles meses, na indecisão de mandar ou não alguma letra. Chegara a escrever dezenas de cartas, e todas haviam encontrado um caminho para o fogo. Havia certa lógica naquele pensamento, o de não contar nada a ninguém, mas ela não era qualquer pessoa. Ia se casar com ele, isso devia significar algo, então proibira a si mesma de colocar qualquer gota de tinta no papel para ele.
Reconciliar-se logo havia sido agradável, e se todas as vezes que eles brigassem algo daquele tipo fosse acontecer, ela não se importaria com algumas discussões. Mas ele falara aquilo, sobre os segredos. Uma pergunta quase boba para ela, que não pretendia esconder nada dele nunca, exceto por tê-la feito se lembrar do que mais ninguém sabia.
Até que o sol nasça no oeste e se ponha no leste. Até que os rios sequem e as montanhas sejam sopradas ao vento como folhas... Dany expirou, a imagem de Jon Stark caído no chão branco, com flocos de neve derretendo nos cabelos e um riso morno, surgiu em sua mente. Ela mordeu o lábio. Você se casaria comigo se soubesse que eu nunca lhe darei filhos? Aquilo era algo dela, nunca conseguira compartilhar com ninguém, mas parecia tão errado ele não saber — como nunca parecera errado que Hizdahr zo Loraq, o falso homem que casara por paz em Meereen, não soubessese de coisa alguma. Mas Jon... ele tinha esse direito, não? De forma alguma havia escondido propositalmente, mas também não sabia como contar.
— Vossa Graça está bem? – Missandei parou as tranças que fazia para olhá-la. Daenerys assentiu, recusando-se demonstrar suas dúvidas, e a mulher voltou ao penteado em seus fios prateados.
Olhando-se no espelho, mesmo em um quarto iluminado por velas, ela devia se sentir radiante. O vestido em seu corpo era o mais belo que já usara em toda sua vida. Da saia até o busto a maior parte era linho branco como o leite, mas, onde começava sua cintura, ramos vermelhos de seda se entrelaçavam, indo formar espirais que engrossavam até que seus ombros fossem cobertos apenas de fios rubros. As linhas de seda de Myr abraçavam seus braços até os punhos, num bom amparo para o frio da noite. Nas costas, cordões de veludo escuro haviam sido trançados para manter a roupa presa em seu corpo, desenhando suas curvas de mulher.
Dany levou os dedos à sua coroa dourada, cravejada de rubis da cor do sangue. Não sabia porque, mas ouro parecia inadequado ali no Norte, como um manto de peles nas areias de Dorne durante o Verão. Mas era preciso que ela usasse seu maior símbolo de poder, para que a solenidade do seu casamento fosse percebida.
Ao lembrar-se da cerimônia que aconteceria daqui a minutos, suas entranhas se contorceram. Não lhe ocorrera que ficaria nervosa apenas para dizer algumas palavras em frente a uma árvore com rosto, mas suas mãos suavam e ela sentia frequentes arrepios.
A princípio ela idealizara um casamento em Porto Real, no Grande Septo que ela reconstruíra, de frente para o Alto Septão, sob a vigília dos Sete. Mas devia ter imaginado que seu futuro esposo seria apegado demais aos costumes nortenhos para aceitar tal coisa. Não, ele queria que eles fossem unidos com os deuses antigos como testemunhas, de pé, entoando seus votos para um rosto de madeira enrugado. Ela tentara se opor, mas ele estava resoluto, daquele jeito silencioso, e ela apenas conseguira a barganha de que um septão estivesse presente e que eles também dissessem as falas da sua religião. Resmungando um pouco, ele concordara.
— Terminei. – A pequena escriba anunciou.
A rainha encarou-se no vidro que a refletia turvamente, tentando banir de sua mente qualquer pensamento amedrontado. Assentiu para si mesma. – Pode chamar Tyrion.
Havia um caminho até a árvore-coração do bosque sagrado, delimitado por archotes fincados na neve pura, as chamas sendo protegidas dos ventos com proteções de vidro quase transparente. E inúmeros lordes tanto do Sul, vindos em sua comitiva, quanto do congelado Norte, estavam lado a lado com soldados em fileira. A camada mais recente da neve havia sido limpa por onde ela pisava, o que tornava seus passos mais fáceis e o vestido não pesava tanto ao se arrastar pelo chão. Uma lufada de ar carregando brancos flocos agitou seus cabelos e a fez tremer.
Daenerys olhou em volta, procurando por entre a pequena multidão rostos com algum traço de hostilidade, mas tudo o que viu foi faces sorridentes, assentindo para ela em encorajamento, e as que não sorriam prostravam-se seriamente para ela. A rainha conseguia ver a lua despontando por um raro momento da tampa claustrofóbica e assustadora que eram as nuvens do céu, estava gorda e clara, iluminando brevemente a noite. Ela sentia o mesmo nervosismo de antes, e sabia que Tyrion percebia isso, pois apertava sua mão de tempos em tempos para lhe transmitir confiança. Escolhera-o porque não poderia pensar em outra pessoa, e agora, vendo-o sorrir gentilmente para ela como um irmão, vira que havia feito a decisão certa.
Depois de mais alguns passos ela viu Arya. A pequena loba sorria amigavelmente, de braços dados a Gendry Baratheon, Lorde de Ponta da Tempestade. Eles formavam um casal incomum, mas que de alguma forma se completavam, e ela gostava de vê-los juntos. Ao contrario da irmã, Sansa Stark permanecia séria, com seus estranhos olhos azuis fixos na Mãe dos Dragões, junto a Missandei, a ex-escrava das Ilhas de Verão, que sorria para ela apertando as mãos. Mas isso tinha pouca importância agora, ela o tinha visto.
Ao lado do septão idoso de Winterfell e do filho mais novo dos Hawkstark, com o maior represeiro do bosque às suas costas, Jon a esperava. Naquela noite, de pé com as mãos cruzadas atrás do corpo, ele estava mais Stark do que nunca. Vestia negro, desde as botas de couro que quase chegavam aos joelhos, até a capa pesada que o protegia dos ventos gelados. Os detalhes de sua roupa eram de prata fosca, tanto os pinos do cinturão – que servia apenas para ajustar o gibão escuro mais ao corpo –, como também os broches de cabeças de lobos gigantes, que se uniam para prender o manto. Não portava a espada, assim como todos os outros lordes, seguindo as boas regras dos casamentos, e, apenas porque ela o via mais de perto agora, enxergava dois rubis no lugar dos olhos dos lobos. Seu cabelo estava rigidamente puxado para trás, preso naquelas amarras que ela adoraria retirar mais tarde, para correr os dedos livremente por seus fios cacheados. A barba estava aparada, quase apenas uma cobertura rala em seu rosto duro, que o deixava com a aparência mais limpa, e Dany observou sua boca, mantida e uma linha rígida para depois criar coragem e olhá-lo nos olhos.
O cinza daquelas íris brilhavam claros ao receber luz de uma das chamas mais próximas. Ela viu que eles estavam calmos e ao encará-los encontrou a tranquilidade que estava lhe faltando desde o raiar daquele dia. Então ela fixou-se naqueles olhos e não tremeu mais.
Andou rápido, ansiosa para chegar até ele, mas Tyrion a fez parar. Olhou para o meio-homem com o cenho franzido para depois se lembrar do que havia sido ensinado por Sansa.
— Lorde Tyrion à apresentará. – Ela dissera naquela manhã. – Tudo o que precisa dizer é que o aceita, no final. – Não gostara de ser tão submissa naquela cerimônia, mas não havia o que fazer.
— Quem vem aos deuses antigos esta noite? – Reynelle Hawkstark fez sua voz ser ouvida. Jon o escolhera sem nenhuma razão aparente, e ela apenas via o fato de que ele estava muito próximo do jovem rapaz que casaria com sua prima mais velha.
— Daenerys, da Casa Targaryen, Rainha de Westeros, Protetora do Reino – O Lannister falou em alto e bom tom –, veio para se casar. Uma mulher formada, e de nobre nascimento. Apresenta-se para pedir a benção dos deuses. Quem se apresenta para reivindica-la?
Jon olhou-a profundamente. Em seus cabelos escuros, alguns flocos perdidos prendiam-se nos cachos soltos. Ele andou dois passos para mais próximo a ela.
— Jon, da Casa Stark. Lorde de Winterfell e Protetor do Norte. – Ela sentiu falta do titulo de príncipe e quase reclamou em voz alta, mas impediu-se a tempo. – Quem dá a mão dela?
— Tyrion, da Casa Lannister. A Mão da Rainha.
Em teoria, era necessário que houvesse uma relação mais familiar entre quem os apresentava e os noivos, mas tanto Dany quando Jon não possuíam nenhum deste tipo. E infelizmente, a cerimônia não seria validada se mulheres acompanhassem um dos dois. Mas ela sentia como se o Lannister fosse parte de sua família, a nova que ela criara.
— Rainha Daenerys, você aceita este homem? – O Hawkstark perguntou como praxe. E ela mal pode esperar para aproximar-se dele e responder firmemente:
— Eu aceito este homem.
Jon andou e apertou mão do Lannister, segurando a sua respeitosamente quando o Lorde dos Leões a entregou, como se nunca a tivesse beijando com fervor nada santo. As pontas de seus dedos nus estavam dormentes e o calor que a mão enluvada dele a oferecia era acolhedor. Jon levou-a até a curta distância que os separava do septão e o religioso começou a falar.
Dizia palavras bonitas, sobre a união das almas pela eternidade, que até poderiam tê-la inspirado se sua atenção não estivesse completamente voltada para o homem ao seu lado. Sem mencionar o calor que ele lhe transmitia de forma inconsciente, o que mais ela percebia nele era o cheiro. O aroma amadeirado que ela aprendera a reconhecer em qualquer lugar, enuviava todos os seus sentidos, deixando apenas o olfato no controle. Ela queria arrastá-lo, literalmente se fosse preciso, para o quarto mais próximo e tirar todas as suas roupas para saber se todo o corpo dele exalava daquele jeito. E depois o provaria em todos os sentidos.
Jon virou-se ara ela, as mãos deles já unidas por uma fita de cetim branco, e olhou-a. Já estamos aqui? E agora nós... Ele apertou seus dedos com suavidade e de repente ela sabia o que fazer.
— Pai, Ferreiro, Guerreiro, Mãe, Donzela, Velha, Estranho. – A voz rouca dele era a única que preenchia seus ouvidos, mesmo que eles falassem em um só tempo, em um só tom. – Eu sou dela e ela é minha, deste dia, até o fim dos meus dias.
Ela deixou o ar escapar por entre os lábios, estava feito. Eles agora estavam unidos pelos olhos dos novos e velhos deuses. Aquilo tinha uma proporção que escapava de seu entendimento. Jon a encarava com intensidade, o fogo dos archotes dançava em seus olhos, e ela esperou o que pareceu uma eternidade até que ele a beijasse na frente de todos. Quando seus lábios se tocaram pela primeira vem em público, ela pensou ter escutado as pessoas segurarem a respiração, mas logo se esqueceu de tudo, podendo sentir apenas a maciez da boca dele contra a sua. Suas mãos seguravam sua cintura, trazendo-a para mais perto e por três segundos a língua quente dele invadiu sua boca, fazendo-a flutuar, mas logo ele se afastou e o septão retomou sua fala.
— Assim como Aegon, o Conquistador, ao casar-se com suas irmãs tornou-as rainhas dos Reinos, Daenerys da Casa Targaryen, filha de Aerys, tornará o príncipe Jon da Casa Stark, filho de Rhaegar, seu rei consorte por meio deste. – A voz do homem era melodiosa e ele falava aquele discurso com fervor. Dany viu uma jovem septã se aproximar, trazendo nos braços estendidos uma almofada de veludo negro, onde um aro de ouro repousava. Era consideravelmente mais simples do que a coroa que ela própria usava, mas também adornada com rubis brilhantes. A rainha não gostara daquela diminuição tão visível de importância, mas Varys insistira que era daquela forma que as coisas deveriam parecer ao povo. E Jon não se opusera ao tamanho, argumentara contra a necessidade de ele usar um símbolo como aquele. Mas a Targaryen nem dera ouvidos a isso. – Pelos olhos dos deuses e dos homens, ajoelhe-se perante a soberana. – O homem velho olhou para ela, fazendo-a perceber que era o momento de pegar a fina coroa. Jon abaixou-se no chão, se apoiando na neve com um joelho. Ela sentiu o metal frio e maleável contra suas mãos, e as pontas pressionaram-se contra sua carne. Com delicadeza, ela pousou-a sobre a cabeça dele, observando com satisfação como encaixara-se com perfeição. – Levanta-se como um novo governante, e apartir de agora, até o fim dos tempos, reinará junto com Daenerys, Primeira de Seu Nome. – Seu esposo se ergueu, a coroa dourada reluzindo a luz do fogo. – Longo seja seu reinado! – O septão aclamou e todos repetiram calorosamente.
Com os olhos dentro dos dele, Dany escutou alguém começar a bater palmas, até que todos aplaudissem. Jon tomou sua mão e entrelaçou-lhe os dedos sem que ninguém visse, guiando-a para a festa com os outros a segui-los em seguida.
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A música inundava o Grande Salão. Lordes e criados misturavam-se por entre as grandes mesas, em um emaranhado de corpos aquecidos. Dançavam e riam, falando entre si em uma balburdia como se competissem para saber quem era capaz de gritar mais alto. Fartavam-se com as comidas das mesas, enchendo os pratos de todas as centenas de convidados. Pernis de veado ao mel e costelas de porco cobertas de limão eram o que mais emanavam cheiros, mesmo que os peixes com ovos, frangos grelhados, cabritos assados em camas de cebolas fatiadas e carnes vermelhas temperadas também lançassem seus aromas. Vinho e cerveja escura corria por entre as taças, deixando os homens alterados.
Eles comiam, riam e bebiam, não necessariamente nessa ordem, e Dany ocasionalmente pegava um lorde sendo mais atrevido com uma criada. Pensou muitas vezes em ordenar que algum de seus soldados fosse intervir, mas ou elas ignoravam os abusos ou davam continuidade a eles, então ela resolveu não agir.
Era a terceira vez que presenciava um casamento, e a primeira em Westeros e no Norte, mas em todos os anteriores ela vira o noivo em questão sorrir, nem que apenas um repuxado de cantos forçadamente. Menos aqui.
Jon sentava-se ao lado dela, eles em um patamar mais elevado do restante das mesas do Salão. A sua esquerda, Sansa e o homem sorridente que era seu noivo, e ao lado da rainha, Arya junto ao Lorde Baratheon. Tyrion sentara-se na ponta mais extrema, perto de onde todas as criadas passavam para as cozinhas, com Missandei ao seu lado, concentrada em não sujar-se do vinho que ameaçava cair da taça do homenzinho todas as vezes que ele movia-se para apalpar uma nádega. Todos riam e conversavam, tirando algum momento para comer um dos pratos que se apertavam sobre a grossa mesa de carvalho. E apenas o rei consorte mantinha-se impassível como uma pedra de gelo.
Seu cálice de vinho estava cheio, mas ele já o havia esvaziado algumas vezes. O que acontecia era que uma moça, de quadris largos, estava dedicando a noite e sua existência em manter seu copo cheio. Dany estava prestes a bani-la de Westeros, pensando em uma desculpa adequada para a punição, uma melhor do que: “assédio da figura real.”, enquanto a vigiava atentamente. E só não concretizava esse desejo por Jon nem ao menos perceber o modo como ela inclinava o corpo, exibindo os seios fartos, ao derramar a bebida em sua taça. Ele observava os vassalos se divertirem, como se não aprovasse aquela alegria, com o cenho carregado e os punhos rigidamente fechados. Aquela atitude estava mexendo com ela. Se está com tanta raiva, por que quis se casar em primeiro lugar? Segurou sua taça, mas não conseguiu bebê-la. Apenas olhou seu reflexo turvo no líquido escuro. Percebeu que também não estava com uma expressão muito melhor e suavizou o rosto, respirando fundo. Não vou deixar que estrague nosso casamento, seu cabeça dura.
Recolocando o cálice sobre a madeira, ela se levantou. Jon ergueu os olhos para ela, o rosto se tornando mais tenro, mesmo que um pouco, quase imperceptivelmente. Daenerys forçou um sorriso para aqueles frios olhos metálicos, agarrou sua mão esquerda e o puxou para cima. Ele ficou de pé, unindo as sobrancelhas.
— O que houve? – Perguntou perto dela, deixando-se ser guiado pelo meio do povo festivo.
Na sua pressa, Dany trombou com alguns convidados desavisados, até parar onde ela achava ser o meio do Salão. Soltou-se dele e girou o corpo. Nunca havia sido especialmente boa com danças e as músicas do Norte eram muito diferentes daquelas que os bardos tocavam para ela na corte, e não tinham nenhum acorde em comum com as que vira e apreciara em Essos. Qarth possuía luxúria nos passos, valorizavam o contato e a exposição do corpo, já os meereenses gostavam de cobrirem-se com sedas e rendas, fazendo ilusões com os movimentos fluidos. Mas ao escutar as batidas compassadas nortenhas, uma porta pareceu abrir-se dentro de si e ela dançou. Não se importou com os olhares iniciais, nem em como poderia estar parecendo tola. Agarrou a mão do esposo e rodou com o braço dele sob sua cabeça, rindo sem saber se era ela ou o vinho. Meu esposo.
A rainha tropeçou no próprio vestido ao rodopiar mais uma vez, e Jon não conseguiu segurar o riso espontâneo que lhe subiu do peito. Apartir daí tudo tornou-se mais fácil. Dany não movimentava-se mais sozinha e ele sorria para cada bobagem sua. Seguindo nenhum ritmo e ao mesmo tempo, um só deles, até que dançassem em meio a uma roda que os aplaudia a cada passo. Seu rei a segurou pela cintura e levantou-a nos braços. Por segundos encantados ela conseguiu ver todo o Grande Salão saturado de pessoas e sentiu-se feliz.
Jon escorregou-a de volta para o chão, com o corpo colado ao dela. A rainha deixou as mãos em seus ombros e quando seus olhares se encontraram, todo o mundo pareceu ficar silencioso, como se eles estivessem dentro de uma estufa vazia. Ela sentia que sorria com a alma quando ele encostou a testa na dela, deixando suas bocas tentadoramente próximas e eles apenas não se entregavam ao beijo porque aquele quase toque era instigante demais para ser interrompido.
Uma mão agarrou seu braço, arrastando-a para longe dele. Dany se virou naquela direção, surpresa, mas felizmente Jon a segurava com firmeza, impedindo-a de ser levada. Agora uma mulher de rosto rubro, aparentemente nobre, tomou a saia de seu vestido entre as mãos cheias e, para seu espanto, puxou com força, como se quisesse rasgar.
— O que eles estão fazendo? – Ela se envergonharia depois por sua voz quase não ter passado de um silvo amedrontado, mas outra mulher, uma criada de Winterfell, havia agarrado seu ombro de seda e ela sentira o tecido ceder à violência.
Jon passou o braço em torno dela, como um escudo e, com uma das mãos, encostou o rosto dela contra seu peito de forma protetora. Ela sentiu um som profundo, vindo das profundezas do homem e, com o tom de voz mais assustador e imperativo que ela já o vira usar, ele gritou: – Parem! – O coração de Dany deu um salto quando todo o recinto mergulhou em um silêncio sepulcral, mesmo a música morrendo repentinamente. – Ninguém tocará nela. – Sentindo-se uma garotinha perdida, viu rostos assustados por entre as brechas da proteção de seus braços. Aparentemente ninguém o havia visto daquela maneira também. O rei soltou-a de seu aperto para em seguida segurar sua mão e arrastá-la dali.
Dany não entendia o que estava acontecendo, mas não ousou contraria-lo ou fazer alguma pergunta. O modo como ele agira... De certa forma a havia lembrado Drogo quando ele comandava seus companheiros de sangue. Em um tempo que ela ainda tinha medo do seu Sol e Estrelas.
As pessoas abriram caminho enquanto ele a levava para fora, parecendo chocadas e intrigadas. Assim que passaram a porta central, a música recomeçou e gradativamente os sons da comemoração voltaram. Dois de seus homens da guarda real começaram a segui-la, mas seu esposo os dispensou rispidamente. Guiou-a em uma fúria silenciosa, com rapidez, e sua cabeça estava tão confusa que só percebeu que estavam indo até o quarto dele quando pararam em frente a porta.
Tirou do bolso da calça uma chave de ferro e depois de aberta a fechadura, a fez entrar quase rudemente. Dany ouviu-o trancar a porta e pulou de susto ao escutar um estrondo. Virou-se e percebeu que ele socara a madeira grossa. Por que você está assim? Perguntou-se inocentemente. Ele apoiou a cabeça contra o escuro pinho, respirando com sofreguidão, quase ofegante. Ela engoliu em seco, andou três passos inseguros até estar perto o suficiente para sentir suas ondas de calor. Ergueu a mão até seu ombro e apertou-o gentilmente. Ele a olhou, confuso e desolado ao mesmo tempo.
Daenerys trouxe-o consigo, fazendo-o se sentar na cama forrada. Deslizou os dedos por sua face, sentindo as cicatrizes brancas com as pontas dos dedos. Ele fechou os olhos e suspirou pesarosamente. Ela depositou um beijo cálido em sua testa e aninhou sua cabeça entre os seios sobre o vestido. Puxou devagar os cordões que prendiam seus cabelos e sorriu ao finalmente poder correr os dedos pelos fios sedosos. Manteve-o assim até sentir que ele estava mais calmo, acariciando sua cabeça como uma mãe faria com um filho inconsolável, ou, ela não pode deixar de sorrir mais uma vez, como uma esposa faria com seu marido. Suavemente ela afastou seu rosto e o olhou nos olhos que agora apresentavam a calma e a serenidade que ela tanto apreciava.
— Você está bem agora? – Colocou uma mecha cacheada para trás de sua orelha. Jon assentiu devagar, deixando os ombros caírem. – Bom. Tenho duas coisas para dizer a você. – Ela abaixou-se até que a linda de seus olhos estivesse na mesma altura, não ajoelhando-se, apenas se apoiando em suas coxas. – A primeira é: Você não deve dar tanta importância ao que os outros pensam sobre nós. Era por isso que estava com aquela cara, não era? – Dany viu o nó de sua garganta subir e descer e seu olhar se desviar para o chão. Segurou seu queixo, fazendo-o encará-la novamente. – Desde que não toquem em nós, deixe-os enrugarem as caras e rangerem os dentes. Isso não tem importância. – Repetiu e esperou pacientemente até que ele assentisse, ainda que contrariado. – E segundo. – A rainha ergueu-se, querendo que ele a olhasse de baixo. – Eu não gosto de homens que batem em portas. Se ficar com raiva, não me importarei que pegue a espada e saia para ficar sozinho ou para treinar. Mas não desconte em ações sem sentido. – Ela abaixou a cabeça e beijou-lhe os lábios. – Estamos entendidos? – Mas ela não deu tempo para que ele respondesse articuladamente além de um balançar de cabeça, havia sentindo os seus lábios uma vez e queria mais.
Beijou-o profundamente, adorando sentir o agridoce gosto do vinho dentro de sua boca. Passou as mãos de seus cabelos até os ombros como se não soubesse onde segurá-lo e apenas quando ele puxou sua cintura para mais perto fazendo seu corpo sentir o calor dele, se afastou. Sorriu maliciosamente para o rosto do esposo, como lembrava as dançarinas de Qarth fazerem.
— Calma. – Ela desabotoou os broches da capa com destreza. Retirou-a de seus ombros, fazendo questão de andar até a cômoda dele para deixar o manto. Ao voltar para perto, começou a desamarrar os cordões do gibão que ele usava. – Eu quero fazer isso devagar. – Quando já havia revelado pele suficiente, ela abaixou-se para beijar a clavícula dele, e depois subiu até a base do pescoço, sugando levemente a pele para entre os dentes enquanto inebriava-se com o cheiro.
Suas mãos continuaram, trabalhando nas amarras da roupa escura dele, e sua boca arranhava e mordia a pele quente, até que ela sentiu o frio da fivela do cinturão. Afastou-se, gratificando-se ao o ouvir gemer em desagrado, para retirar as peças do dorso. Não prestou atenção dessa vez onde as abandonava, tudo o que ela podia olhar era seu peito esculpido. Deslizou as unhas pelos ombros largos até o abdômen, gostando de sentir como era quente e vivo, e não mármore como aparentava. Ela correu os dedos pelo cós da calça grossa que ele vestia, mas desviou-se propositalmente de onde ela sabia que ele queria ser tocado. Desceu as mãos pelas coxas cheias de músculos, até alcançar o couro macio das botas. As duas saindo facilmente pelo bom material com que eram feitas, deram tempo para que ela desafivelasse as próprias, e deslizasse os pés para fora delas, sem se importar com a madeira fria do chão. Quando voltou para ele, virou-se de costas.
— Tire. – Ela ordenou, afastando os cabelos dos ombros para que o final do laço de veludo aparecesse.
Daenerys o escutou se levantar, mas ele não a obedeceu. Segurou-a pela cintura e puxou-a para perto, fazendo seus corpos colidissem. Ela sentiu-o pressioná-la atrás e suspirou de desejo. Jon percorreu desde a parte interna de suas coxas até seus braços com as mãos, enquanto maltratava penosamente o pé de seu ouvido com os lábios. Apertou-a levemente por todo o caminho que as mãos traçavam e também em seus seios, massageando-os continuamente com uma das mãos até que a rainha não fosse capaz de saber o próprio nome. Estava cada vez mais quente, ao mesmo tempo em que lutava para não esmorecer em seus braços. Quando ela pensou em implorar para que ele a virasse a tomasse logo como sua, o tratante parou. Dany mordeu o lábio para não exclamar um “por quê?!” indignado.
O rei começou pelos cabelos. Desatando as linhas e presilhas que estavam agarradas a seu cabelo. Ela mal teve tempo de registrar como ele fazia aquilo agilmente quando ele passou a trabalhar nos cordões de seu vestido. Sentia seus dedos ocasionalmente roçarem a pele e aquilo bastava para arrepiá-la. Ou seria o frio? O aperto da roupa diminuiu até ser quase inexistente em seu busto. Ele baixou-o, a seda acariciando seus ombros ao descer como uma amante experiente. Dany tremeu quando o ar da noite circundou-a e a pegou desprotegida da cintura para cima.
Jon a fez ficar de frente para ele. Por um momento os olhos do homem ficaram indecisos entre desejar seus lábios e apreciar seus seios livres, entumecidos pelo frio. Mas ele logo atacou sua boca, com uma das mãos quentes em suas costas, puxando-a para mais perto, e a outra deleitando-a com movimentos suaves e firmes no peito direito. Ela colocou uma das mãos sobre aquela que a acariciava, incentivando-o. Seu rei beijou-a no osso da mandíbula, deixando uma trilha ardente até chegar em seu colo alvo. Dany fechou os olhos e sua boca entreabriu-se quando ele a sugou, faminto. Afundou os dedos em seus cabelos, mal podendo perceber que ele descia o resto de sua roupa, até que seu belo vestido de casamento não passasse de um amontoado de panos em seus pés.
Daenerys sentiu-o abaixar-se mais. Não se esquecendo de beijá-la por onde passava, Jon colocou um joelho no chão e suas mãos foram parar nas macias nádegas da rainha. Ela o olhou com olhos turvos. O que ele está... Qualquer pensamento foi cortado pelas borbulhantes sensações que a fizeram soltar uma lamúria carregada de desejo. Ele beijava seus outros lábios, como nenhum homem jamais havia feito e tudo o que ela podia fazer era sentir e se agarrar em seus ombros para não desabar, por vezes cravando as unhas quando sua língua se mostrava mais atrevida. Cedo demais ele parou. A rainha puxou-o para cima, ansiosa para tudo e qualquer coisa dele, beijando-lhe os lábios cheios vorazmente, enquanto ele segurava suas coxas. Jon a levantou nos braços e ela enlaçou sua cintura com as pernas institivamente. Sentiu sua masculinidade mais uma vez e desejou fervorosamente que aquela calça grosa não estivesse entre eles.
— Jon... – Ela sussurrou com a respiração entrecortada. Prendia-se aos cabelos dele, enquanto seu marido atacava seu pescoço com beijos quentes e molhados. Uma minúscula parte de sua mente registrou que ele a levava para a cama, mas quase não sentiu o impacto ao ser deitada nas peles suaves.
O homem não a respondeu com palavras, continuou a inebriá-la com leves mordidas e sucções em seu seio esquerdo que se tornavam mais urgentes a cada segundo. Dany ergueu seu corpo para mais próximo a ele, ao mesmo tempo em que o sentia investir seus quadris contra os dela. Todo o cheiro que invadia seu nariz era o dele e o ar gelado daquela noite, há muito esquecido, a fez tremer quando ele apoiou os cotovelos ao lado dela e se ergueu. Encarou-a com luxúria, percorrendo com os olhos desde suas íris violetas até o busto arfante. Ela queria que ele continuasse, queria com seu âmago, com o ventre chegando enviar-lhe uma dor vazia, mas vê-lo daquele jeito, praticamente nu em cima dela, seu membro pressionando-se à sua intimidade – quase como uma tortura –, observando-a com desejo, apenas incendiava seu corpo ainda mais. Ela apertou a curva de suas coxas e depois puxou o tecido da calça o mais baixo que pode.
— Tire logo. – Sua voz estava tão urgente quanto ela se sentia.
Jon se levantou de cima dela, deixando-a estranhamente desconfortável pelos segundos que ela não pode senti-lo por cima, mas logo isso foi sanado e ela pode suspirar de desejo quando voltou a ter consciência do delicioso peso que era o corpo de um homem naquela situação. Nunca gostara que seus amantes a controlassem por cima, como se a dominassem, mas quando sentiu-o infundir-se a ela da forma mais primitiva jurou que, se ele quisesse, todas as vezes seriam daquela forma.
Seu rei moveu-se dentro dela, com toda a força e rigidez que ela ansiara desde que o primeiro pensamento impuro sobre ele dominasse sua mente. Mas agora era diferente de como ela imaginara. Agora, além de deseja-lo como homem, Dany arfou de prazer, ela o queria da mesma maneira que o dothraki morto fora para ela. Queria que ele fosse o seu...
Uma exclamação muda saiu por seus lábios junto com o ar de seus pulmões. Sentiu o êxtase percorrer seu corpo como correntes de emoções intensas, seus músculos internos se contraindo ao redor dele, apertando-o, e ela ergueu os quadris para recebê-lo ainda mais até que o mesmo fosse tomado pelas mesmas sensações que a inundavam para preenchê-la de vida.
Dany sentiu a exaustão começar a apoderar-se de seu corpo, enquanto ele saia de dentro e de cima dela ao girar. Ela fechou os olhos e por alguns segundos só pode perceber as reminiscências dos espasmos que o ato lhe propusera. A janela mostrava nuvens carregadas e a lareira cheia de cinzas estava vazia de chamas. Pensou em lhe falar isso, mas ele já havia se levantado da cama. Com passos lentos ele foi até a pilha de madeira, pegou nos braços alguns toretes e começou a acender o fogo. Ela puxou o cobertor costurado de debaixo de si e cobriu o corpo, observando com um sorriso satisfeito o que devia ser a melhor visão de sua vida; Jon Stark agachado, acendendo uma lareira, sem nenhuma peça de roupa para cobri-lo, logo depois de tê-la enchido de prazer.
Ele virou-se para a rainha e, sem nenhum pudor, voltou para a cama, encarando-a por todo o caminho, com o fogo recém aceso começando a crepitar às suas costas. Ela sentiu-se perscrutada com aquele olhar, como se ele visse todos os segredos dela, todos os seus medos. Aqueles mais escondidos nos recônditos de sua existência, e até mesmo aqueles que ela não conhecia. Dany mordeu o lábio quando ele ergueu as peles aquecidas e deitou-se por baixo delas. Como eu contarei?
Jon fechou os olhos e se virou para o outro lado, deixando-a por observar suas costas desenhadas e seus cabelos selvagens. Não estava acostumada a essa falta de contato, Daario sempre fora figidamente atencioso, mas Drogo havia sido daquele jeito no começo, e se ela domara aquele Khal, o nortenho não seria páreo.
Moveu-se, levando as cobertas junto de si para proteger-se dos ventos gelados, e apoiou o queixo em seu ombro. Beijou a pele suavemente e a acariciou com os dedos. – Com quem você aprendeu? – Ela tentou ocultar o ciúme que a tomara por um tempo. Jon resmungou uma pergunta. – Aquilo que você fez com sua língua.
Seu marido olhou para ela, um pequeno sorriso no canto de sua boca. Passou o braço por sua cabeça e segurou-a pela cintura, o corpo de frente para ela. Finalmente.
— Isso interessa? – Perguntou quase divertido. Dany sorriu e distraidamente traçou linhas curvas em seu peito.
— Não – ela repousou a cabeça, começando a escutar seu coração bater ritmicamente –, desde que continue fazendo. – Seu peito tremeu quando ele riu. Apertou a curva de sua cintura e ela sentiu sua respiração perto dos cabelos.
— O que eles queriam fazer comigo naquela hora que puxaram minha roupa?
Jon movimentou-se, parecendo desconfortável. – É uma tradição. – Ele rangeu os dentes. – Queriam tirar sua roupa enquanto a levavam para o quarto do casal.
— Ah. – ela lutou contra o sorriso. Ciúmes.— Você já viu muitos casamentos?
— Não. Bem – ele parou para pensar e ela observou a maneira com suas sobrancelhas se juntavam quando ele estava pensativo –, acho que dois. Lady Catelyn não gostava muito de mim e não queria um bastardo acompanhando a família para os casamentos dos vassalos. – A rainha procurou a mágoa em seu tom, mas não encontrou nada. – Em um dos que eu não fui, meu pai veio até mim na noite anterior. Não foi se desculpar por não poder me levar ou pedir que eu perdoasse sua mulher, ele me contou uma história, a do casamento dele. – Dany o observava atentamente, seus olhos claros mirando o teto escuro, enquanto distraidamente fazia círculos com o polegar sobre sua pele. – Disse que havia se sentido como se traísse o irmão, por casar com sua prometida, e jurou a si mesmo que cuidaria dela do modo como Brandon faria. Quando chegou a hora de ser realizada a tradição, ele proibiu. Não consegui entender porque ele estava me dizendo aquilo, então ele sorriu para mim e me disse que um dia eu entenderia como era querer proteger uma mulher com todas as forças e como era querer fazer de tudo para não vê-la infeliz.
Seus olhos voltaram-se para ela e seu peito apertou-se com a culpa. Sentia que aquele momento não devia ser estragado nunca. Queria fechar os olhos e adormecer com ele deslizando a mão desde seus cabelos, até a curva de sua cintura, sentindo a maciez da lateral de seu corpo. Escutando seu coração bombear sangue placidamente através de suas veias e sentindo seu calor. Mas entregar-se a isso seria como fugir, e o sangue do dragão não fugia.
Como contarei?
Levantou-se daquele abraço aconchegante, levando a coberta junto de si. Olhou aqueles olhos liquefeitos, precisando de grande força para não abaixar-se beijar-lhe os lábios diabolicamente desenhados. Respirou fundo.
— Acho que precisamos conversar.
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