Notas iniciais
Gente, eu estou triste. Sério. Vocês que não apareceram capítulo passado... Sintam-se culpados. O capitulo é de Arya, não estava previsto mas... Enfim, espero que gostem. Boa leitura!

Mesmo tendo sido poucos dias, ela havia se acostumado com a corte. Vê-los se afastando pela estrada do Rei era estranho, sabia que não ficariam muito tempo, mas não esperava esta partida tão repentina. Os últimos mantos negros dos imaculados desapareceram por entre a curva da colina, ficando fora do alcance de sua visão. Deixavam para trás uma estrada triturada, quase apenas de neve escura, o estoque de Winterfell parcialmente desfocado e Gendry Baratheon.

Ele quisera continuar ali e Arya ficara exultante até se lembrar que precisava pedir ao irmão antes. Ainda recordava do que ele lhe falara para tentar alguma coisa, mas sabia que beijos não estavam incluídos nesse pacote. Só que ela queria que Gendry ficasse, então encheu o peito de coragem e foi falar com ele.

— Tudo bem. – Foi o que ele lhe respondera, sem ao menos olhar para ela. Seu rosto estava voltado para um pequeno papel com um furo no topo. Arya apostaria seu melhor arco que ele não havia escutado nem uma palavra dela, mas não se importou, tinha o que queria.

Olhando para Jon agora ela percebia que devia ter se importado. Ele ainda encarava a estrada vazia, mesmo que todos já começassem a se dispersar e voltar para suas respectivas atividades. Seus olhos estavam tristes e ele tinha o semblante carregado. Ela devia ter notado que havia algo errado quando Daenerys montara em sua égua sem ao menos olhar para ele e não apenas agora. Ela não sabia muito bem sobre isso, mas noivos não se despediam daquele jeito.

— Por que eles foram embora tão cedo? – Ela perguntou, mas ninguém se dignou a responder. O irmão permanecia de pé, mão na espada e olhos no portão. Arya resolveu ser persistente. Puxou sua manga direita, fazendo-o olhar para ela. – Por quê?

Jon a encarou, parecendo mais cansado do que ela lembrava, mas não falou nada. Negou com a cabeça e começou a andar para as torres do castelo. Ombros caídos e passos lentos. Arya adiantou-se na direção dele, mas sentiu alguém segurar sua mão.

— Deixe-o. Algo deve ter acontecido entre ele e a rainha. – Sansa a soltou e alisou o vestido. Seu noivo estava ao seu lado, de testa franzida para o Lorde de Winterfell.

— E você quer que eu o deixe? – Arya suspirou, mas não foi atrás dele. Quando a irmã não estivesse prestando atenção, ela iria. Não gostava quando Jon remoía as emoções dentro de si, isso não fazia bem.

— Venha, vamos indo também. – Sansa segurou o braço do Hawkstark e o dela. Ah, não. Eu tenho que falar com ele.

Mas antes que pudesse pensar em alguma desculpa para se livrar dela, outra pessoa segurou seu braço esquerdo. Dessa vez, Gendry com um sorriso. Estou com cara de cabo? Ela puxou as duas mãos, soltando-se.

— O quê? – Perguntou para o Baratheon. Sansa se virou para reclamar, seu rosto contorcido em aborrecimento, mas ela se refreou ao ver o garoto. Bufou irritada e saiu arrastando o noivo. Pobre homem.

— Seja mais gentil, eu estou lhe salvando de horas de costura torturante. – Ele parou de analisar as unhas. – Não é assim que você chama?

— Quieto. – Ela não conseguiu se impedir de empurrá-lo com o ombro ao passar. Mas a pedra nem se moveu ao receber o impacto.

Arya começou a seguir para onde Jon havia ido quando o garoto tomou seu braço e entrelaçou-o. Ela sentiu o rosto esquentar e tentou puxar o braço, mas ele o segurava firmemente.

— Vamos andar um pouco, minha lady. – Ele arrastou-a por alguns passos, mas Arya decidiu que aquilo estava se tornando uma cena, ela tropeçando nos próprios pés, e endireitou o corpo para acompanhar-lo.

— Quantas vezes eu terei que repetir que eu não sou uma lady para que a informação entre nessa sua cabeça oca? – Ela sabia muito bem que ele continuava com aquilo apenas para irritá-la. E tudo se tornava pior porque ela, mesmo sabendo disso, não conseguia impedir-se de rebatê-lo.

Gendry não respondeu nada, continuou levando-a para o bosque sagrado, andando por entre as árvores e pela neve sem nenhuma pressa. Mantinha-se em silêncio, deixando que os únicos sons fossem as botas deles machucando a neve da tempestade e vozes ao longe, vindas do pátio de Winterfell. Arya normalmente não suportava longos períodos sem fala, a paciência aprendida na Casa do Preto e do Branco se desfazia mais e mais a medida que ela voltava a ser ela mesma. Mas estava gostando daquele silêncio. Seu braço estava confortavelmente sendo aquecido pelo tronco do homem e a companhia dele a acalentava sua alma.

Sorriu e aproximou-se ainda mais do corpo dele. Com o canto dos olhos o viu olhar para ela, percebendo a ação, e sorriu também.

— O que há entre seu primo e a rainha? – Ele perguntou quando chegaram à árvore-coração do bosque.

Arya sentou-se numa raiz mais grossa e apoiou os pés nas outras menores. Encarou o tecido escuro da calça que usava, alisou a coxa achando fios soltos para puxar.

— Acho que eles brigaram. Mas isso não é novidade, eles vivem se desentendendo.

Gendry moveu-se para perto de uma macieira invernal. Seu tronco escuro era como o pau-de-ferro, mas as folhas eram tão claras como o gelo que cristalizava no teto das criptas. Parecia uma árvore frágil, mas sua copa estava coberta por um capuz branco de neve que devia pesar mais do que as estátuas da praça Torrhen. O homem esticou os braços e sem muito esforço tirou com as mãos desnudas uma das frutas que pendiam nos galhos mais baixos.

— Eu não estava falando disso. – Ele arrancou um pedaço da maçã com uma mordida ruidosa. Arya mordeu o lábio. Não me pergunte sobre eles, Jon não deve querer que eu fale. De boca cheia, ele completou: – Estafa falanfo fe... – Ele engoliu o pedaço. – Esqueça, eu não estou aqui para falar dele.

A garota suspirou discretamente de alívio, mas um alerta soou em sua cabeça. – E está aqui para falar de quê? – Ela perguntou devagar.

Gendry mordeu a fruta mais uma vez e cruzou os braços. Seus olhos castanhos estavam penetrantes e sérios. – Nós. – Respondeu displicente.

Arya engasgou com a própria saliva. – N-Nós? – Sentia o rosto e o pescoço quente e as palmas das mãos começarem a suar. – C-Como assim, nós?

O Baratheon moveu os ombros e Arya tentou não prestar atenção em como o sumo da fruta cítrica molhava seus lábios cheios. – Eu e você. Você e eu. Nós. – Ele encheu novamente a boca com a maçã branca, as bochechas ficando estufadas de um jeito engraçado. – Eu quefo fafar fom fofê.

— Você o quê? – Agora sentiu um nó no estômago. Ficou de pé e apoiou-se na árvore para tentar se acalmar.

Fafar.— Ele repetiu impaciente. Quando tentou engolir seus olhos se arregalaram, saltando das órbitas como um peixe recém-pescado. Gendry levou a mão para a garganta e começou a imitar um peixe também, com sons estrangulados saindo de sua boca aberta.

Arya foi até ele, irritada. – Isso é alguma brincadeira?

— Margaahhff! – Foi tudo o que ele respondeu com seu rosto ficando vermelho. Ele levou a outra mão ao pescoço e dobrou seu tronco.

A garota franziu a testa. – Deixe de ser idiota, Baratheon. – E bateu a mão na nuca dele. O homem cambaleou para frente, ainda soltando os sons de peixe. Virou-se para ela, o rosto rubro e apontou freneticamente para a própria boca. – O quê? Fale homem! – Dessa vez o tapa que deu foi em suas costas.

Um grande pedaço branco de maçã coberto de saliva voou para fora da boca do homem. Ele caiu de joelhos no chão e apoiou as mãos na neve. Arfando, ele levantou o rosto para ela. – Casar, Arya. Queria casar com você. Mas não sei se quero mais. – Ele puxou o ar com força. – Já que você aliou-se à maçã para... Urf, me matar. – Respirou fundo e tossiu algumas vezes. – Você não viu que eu estava... Morrendo?!

A Stark sentiu o sangue se esvair do rosto. Seu coração falhou um batida e depois voltou a bater enlouquecidamente. Casar? Suas entranhas se contorceram e sua cabeça pareceu girar. As cores ficaram mais vibrantes e ela pensou que pela primeira vez na vida fosse desmaiar.

O homem tossia e respirava com sofreguidão. – Essa... Louca. Você não vai... Durar dois dias se casar... Com ela. – Parecia falar consigo mesmo sem ter noção da garota parada ali, em estado de choque.

Arya piscou quando algo pareceu pulsar em sua alma. Eu nunca quis me casar. Lembrou-se. Um sorriso surgiu em seus lábios enquanto olhava o Baratheon se recuperando do engasgo. Nunca esperei por nenhum homem, eu não precisava deles. A garota ajoelhou-se perto dele, que a olhou curioso. A cor de seu rosto voltava ao normal, mas ele ainda respirava descompassadamente. E isso parece deixar tudo ainda melhor. Levantou o queixo dele com os dedos e o beijou sem medo.

A boca de Gendry estava com o gosto adocicado e azedo da maçã do inverno. Dessa vez ela não era mais uma pedra imóvel. Movia os lábios indo de encontro aos dele em uma dança estranhamente sincronizada. Suas mãos foram para os curtos cabelos castanhos dele, que deslizavam por entre seus dedos como seda de Myr. Sentiu as grossas mãos dele se acomodarem em sua cintura, irradiando calor pelo caminho que ele percorreu até sua coxa. Arya aproximou-se mais, ansiando senti-lo ainda mais contra si. Uma corrente de novas sensações pareceu percorrer seu corpo quando sentiu a língua dele contra a sua.

Gendry arfou e tinha seu característico sorriso bobo quando se separaram. Não muito longe, mantinham as mãos no corpo um do outro e seus narizes se tocavam.

— Então você aceita? – Perguntou com surpresa nos olhos. Levou uma mão ao rosto dela e acariciou sua bochecha com o polegar. Arya conseguia sentir os calos nas nãos dele, lembranças de anos trabalhando como ferreiro, mas ela gostava mais assim.

— Para seu azar, sim – Ela falou com os lábios colados aos dele. – Aceito me casar com você.


*

Arya se esgueirou pela brecha da porta, pisando primeiro com o calcanhar e depois com os lados dos pés para não fazer barulho. As botas macias ajudavam a abafar o som contra a madeira. Mas assim que avistou a sombra perto da janela, uma voz que ela reconhecia no âmago soou na sala.

— Eu sei que você está ai, Arya. – Jon não virou-se para confronta-la e não parecia irritado com sua bisbilhotice.

Ela se moveu normalmente agora, indo até o irmão com passos largos. Sentiu vontade de abraçar sua cintura e descansar a cabeça em suas costas, como costumava fazer quando era mais nova. Quando ela era pequena demais para alcançar a cintura dele, se agarrava às pernas dele e encostava a bochecha contra sua coxa. Fazia isso quando ele não estava prestando atenção, adorava ver como ele se assustava com a minúscula criatura pendurada em sua perna. Depois, ele ria e lhe assanhava os cabelos, dizendo-lhe com a voz leve: “Não faça mais isso.” Mas ela continuava a fazer, surgir de repente por debaixo das mesas e pular no irmão e ele sempre ria.

Faz tanto tempo. Parou a poucos passos dele, sentindo-se estranhamente melancólica.

Jon não usava seu manto de lobo, vestia apenas um gibão marrom com uma camisa grossa por baixo. Seu cabelo estava solto e o cinto da espada prendia-se a seu corpo em um abraço frio.

— O que você está fazendo aqui? – Aquele não era um lugar que ele costumava ir, na verdade ninguém aparecia na torre do leste, ela tinha fama de assombrada.

— Fugindo de você. – Ele olhou para ela por cima do ombro com um pequeno sorriso nos lábios. – Mas eu devia saber que e impossível.

Arya sorriu também. Que se dane se faz tempo. E num impulso ela enfiou os braços por entre os dele e abraçou seu tronco. Deixou o ouvido apoiar-se contra suas costas e aproveitou o som rítmico do coração do irmão.

Jon teve um pequeno sobressalto, mas depois cruzou os braços perto das mãos dela, mantendo-a perto de si. Arya sentiu o riso dele contra seu rosto.

— Por que você está fugindo de mim? – Ela não resistiu a perguntar, mesmo sabendo que ele não responderia. – Tem haver com a Daenerys, não tem?

O irmão apertou suavemente seus dedos. – Não quero falar sobre isso, Arya. Por favor.

O tom de voz dele era tão machucado que ela teve que apertar o abraço, por sentir que era daquilo que ele estava precisando. Às vezes, ela sabia, tudo o que se precisava era de um abraço bem apertado.

Continuou escutando o coração de Jon, as batidas compassadas deixando-a em um estado de transe. Era bom sentir o calor do corpo dele espantando o frio, como ele fazia com seus pesadelos. Seria tão bom que ela pudesse fazer mais por ele, ajuda-lo com seus fantasmas... Mordeu o lábio quando se lembrou do que queria falar com ele. Espero que você esteja de bom humor. Ou ao menos sem nenhum inclinação assassina.

— Jon, você sabe o Gendry, não é? – Perguntou cautelosa.

O irmão riu. – Eu pensei que fosse “Lorde Baratheon”.

O rosto da menina esquentou ao perceber o que havia dito. – Er, sim. É ele.

— Eu sei quem é. – Jon ainda tinha o riso na voz. – O que é que tem ele?

— Bem... Eu e ele. Ah, sobre aquilo que você tinha me falado. Mas não é sobre isso. Bem, é, mas não exatamente. – Pare de gaguejar, estúpida. Arya respirou fundo. – Ele me pediu em casamento. Na verdade ele se engasgou com uma maçã e... E-Eu aceitei.

A garota prendeu a respiração, com as entranhas se contorcendo de ansiedade. Mas teve que voltar a respirar. Jon não havia se movido com surpresa, ou agarrado Garralonga para cortar fora a cabeça do homem, como ela havia imaginado. Continuava na mesma posição, observando o céu se tornar púrpura atrás das árvores.

— Eu sei. – Foi o que ele respondeu. Pela segundo vez naquele dia Arya engasgou com a saliva.

— V-Você sabe? – Soltou-se dele e arregalou os olhos para seu rosto, pondo-se na frente do irmão. – C-Como assim?!

— Ele veio falar comigo ontem a noite. Parecia meio amedrontado, se quer saber. Será que ele pensou que eu iria cortar a cabeça dele fora? – Jon pareceu pensativo por meio segundo. – Isso só aconteceria se ele tivesse magoado você, ou te machucado. Ou à desonrado, ou...

— Pare! – Suas bochechas ardiam. Não acreditava que estavam falando sobre isso.

O lorde riu, aproximou-se um passo e beijou-lhe a testa com carinho. – Quero que seja feliz, irmãzinha, Se é aquele homem que a ajudará com isso, então eu ficarei feliz também.

Arya levantou os olhos para os dele, cinzentos e iguais aos dela. Naquele momento estavam claros e mansos como aço líquido. A garota foi de encontro a ele, abraçando seu corpo e afundando o rosto contra seu peito.

— Obrigada. – Sussurrou com a voz abafada.

— O que estou vendo é vocês duas indo embora. – Ele murmurou, parecendo amuado.

— Você é que vai embora! – Ela reclamou erguendo o rosto. – Vai para Porto Real.

— Quanto a isso, não tenha tanta certeza. – Ela abriu a boca para perguntar, mas ele balançou a cabeça, encerrando o assunto.

Notas finais
Amores da minha vida. Meus lindos tamagoshis... Digam o que acharam, suas pes... Docinhos de coco. ^^ Esperando lindos comentários, não me decepcionem.