— An?

— Você está distraído — disse minha mãe — o que aconteceu?

— É... nada... eu acho — consegui dizer

No carro, passamos todo o caminho até em casa em silêncio absoluto. Quando cheguei em casa, fui direto tomar banho para ver se me concentrava em outra coisa que não o garoto da loja. Amanhã é o meu último dia de férias, podia sair com Erick e Johanna — pensei — nada melhor que aproveitar um dia com os amigos. Quando estou com eles é como se o mundo parasse e fossemos somente eu e eles. Terminei meu banho e fui assistir um pouco de TV mas nada de bom estava passando, então acabei adormecendo no sofá e flutuei profunda mente em meus sonhos.

Era como se eu estivesse vendo um filme de mim mesmo. Eu estava mais velho, talvez uns 25 anos e de mãos dadas com outro homem. Eu sorria como nunca sorri antes, o mundo tinha um tom de pêssego talvez um rosa suave como as imagens de velhos filmes. Tudo estava em câmera lenta estávamos aproveitando o momento. Andamos sem destino previsto falando sobre tudo que havia em nosso caminho, uma afinidade real um sentimento: Amor. Paramos em frente a uma sorveteria e compramos sorvetes para tomar ali mesmo, sentamos nas pequenas e redondas mesas do lado de fora do local. Vezes eu dava colheradas de meu sorvete à ele, vezes ele fazia isso. O homem era alto, moreno, corpulento, seu cabelo era liso e preto, não longo mas seu corte deixava seu rosto à mostra ressaltando seus olhos castanhos como mel, de uma suavidade incomparável sendo perfeitamente equilibrada pela aspereza de sua barba por fazer rente ao seu rosto anguloso e másculo. Ele se ajoelhou em minha frente e tirou um estojo com um anel.

— Quer casar comigo? — disse o homem.

— SIM — gritei de emoção.

O levantei pelos braços e dei um longo, apertado e demorado abraço. Pessoas à nossa volta aplaudiam o momento, e aplaudiram mais forte quando pousei um beijo delicado nos lindos e rosados lábios de meu noivo.

Acordei. Estava suado, com a respiração ofegante e coração acelerado. Quanto tempo havia se passado? Já era noite, levantei-me e me dirigi a cozinha para tomar um copo d’agua.

— Nossa — minha mãe disse — como você está suado!

— É tanto assim — disse em tom de brincadeira

— Tem um pingo escorrendo da sua testa. Teve um pesadelo?

— Muito pelo contrário.

Subi as escadas sorrindo, ainda extasiado com meu sonho. Fui direto ao banheiro para tomar um banho e tirar todo aquele suor. Um sonho — pensei — ou seria uma visão? Eu casando. Com um homem. Minha mente explodia de pensamentos. Por que isso tudo está acontecendo? Por que comigo? E se...? Não, não pode ser... eu gostava daquela garota na quinta série, como era o nome dela, Megan ? Daphine? Legal... agora nem o nome lembro mais. A água do chuveiro corria sobre meu corpo na mesma velocidade em que minha cabeça trabalhava. Depois de meia hora saí do banho, coloquei um pijama e pulei na cama ( sim, eu durmo bastante ).

Ás vezes seria bom conversar um pouco com minha mãe ou meu pai. Eles se separaram a 10 anos por isso não lembro muito de meu pai, e ele também não se preocupa muito comigo então é como se ele fosse um parente distante. Minha mãe vive para trabalho quando vou para a escola ela já foi para trabalho e quando vou dormir ela ainda não chegou, nos fins de semana ela não desgruda a orelha do celular, falando com investidores, sócios ou qualquer outra coisa relacionada a trabalho. Ela tem uma franquia de um café famoso aqui na Califórnia chamado The Croissant. Fora Erick e Johanna, com quem mais converso durante a semana é Rose, a empregada, ela é bem legal e faz uma comida muito boa.

Sem perceber caí no sono, mas desta vez sem sonhos. Quando acordei o sol atravessava a cortina e batia diretamente em meu rosto, parece ser um dia lindo. Escovei os dentes e desci para tomar café.

— Bom dia Rose — falei de bom humor, nada melhor que uma noite bem dormida.

— Bom dia Josh — respondeu ela alegremente

— O que temos hoje para o café da manhã?

No mesmo instante ela tirou um bolo do forno.

— Bolo — disse ela com um sorriso no rosto

O aroma era delicioso, adoro os bolos da Rose

— Hmm já estava na hora não acha? 300 anos sem fazer, pensei que nunca mais sentiria este aroma!

— Mas como é exagerado esse menino — ela falou cortando uma fatia bem generosa — se falar de mais aí sim nunca mais farei bolos por 300 anos

— Não está mais aqui quem falou — retruquei com um largo sorriso

Depois de comer o bolo e repetir 3 vezes, coloquei uma roupa normal e liguei para Johanna. Quem sabe uma saidinha com os amigos não termina minhas férias com chave de ouro?

— Johanna?

— Oi Josh

— Fazendo o que de bom?

— Nada, acabei de acordar na verdade — respondeu ela

— Ah. Eu estava pensando se não poderíamos ir ao Shopping hoje... eu você e Erick?

— Pode ser, que horas você vai?

— Não sei, talvez ir almoçar e passar o resto da tarde. — disse

— Por mim tudo bem

— 13:00 horas está bom?

— Está sim, você já falou com Erick?

— Ainda não, vou falar com ele agora.

— Então até 13:00. Sem atrasos entendeu?

— Entendi — disse de má vontade

Ela desligou o telefone ( nada como a delicadeza feminina ). Imediatamente disquei o número de Erick.

— Oi Josh — falou ele

— Oi, tudo bem?

— Tudo sim.

— Eu falei com Johanna de irmos ao Shopping hoje, o que acha? — perguntei

— Vai rolar cinema?

— É provável — disse sorrindo

— Então eu vou. Que horas tenho que estar lá? — indagou o garoto

— 13:00.

— Então até lá — falou o menino de bom humor

— Até.

Acho incrível como Erick está sempre de bom humor. Na maior parte das vezes me dou melhor com meninas do que com garotos, meus assuntos são mais compatíveis com os delas. Para mim isso é normal, mas muitas pessoas não veem deste jeito. Johanna me disse uma vez que muitas pessoas da escola acham que sou gay. O que é meio estranho pois não vejo nenhum sinal, bom aquele garoto da loja mexeu um pouco comigo mas deve ser hormônios, nada de mais.

As horas se passaram e fui me arrumar para meu ultimo encontro de férias com os amigos. Tomei um banho rápido e coloquei uma camisa branca estampada, um short jeans claro e All-Star vermelho. Saí de casa e não demorei muito pois o Shopping é somente a dois quarteirões de minha casa. Logo avistei Erick e Johanna conversando em um banco qualquer na pequena praça em frente ao Shopping.