Um Conto Nada Perfeito

3 Um Filme de Terror pode mudar tudo


— Oi pessoas — disse

— Hmm que milagre é esse que você não se atrasou hoje? — perguntou Erick em tom de brincadeira.

Sorri de volta.

— Vamos entrar?

— Vamos ficar só mais um pouquinho aqui — falou Johanna — adoro Sol.

O dia estava realmente perfeito. Um Sol alto, mas não escaldante, poucas nuvens cobriam o azul celeste do céu. A praça em que estávamos era pequena, haviam quatro mesas uma em cada canto da praça com quatro cadeiras, as mesas possuíam cores diferentes verde, amarelo, laranja e nós estávamos na laranja. No centro da praça tinha uma árvore alta, grossa e frondosa que fazia sombra em metade da pequena praça.

Sentei-me no banco de frente a Johanna. Ela tem um cabelo preto relativamente grande e uma pele bem alva (digamos que ela chega a brilhar no sol), ela tem os olhos castanho-claros mostrando um olhar desafiador e transbordando atitude. Seus lábios são rosados e quando ri revela covinhas profundas em ambas as bochechas.

— Então, sobre o que estavam conversando? — perguntei

— Erick estava me contando algumas coisas — Erick olhou com um olhar ameaçador para ela — o que foi? Ele me perguntou e... AI! Não precisa me chutar.

Erick sorriu como se nada tivesse acontecido.

— Não era nada de mais

— Por que não posso saber? — perguntei curioso

— É que... — começou Johanna, mas Erick a cortou

— É que você não precisa saber — disse ele com o mesmo sorriso forçado de antes

— Nossa, pensei que você confiasse em mim

— Confiar confio — disse o garoto — mas é complicado

— Ok. Se você não quer falar eu te respeito. Mas só porque sou um amigo muito legal — disse em tom de brincadeira

— Aposto que é — respondeu ele também rindo

— Isso tá muito gay — disse Johanna tentando ser indiferente

— E se ficar muito gay, o que você vai fazer Jojo? — perguntou Erick com um sorriso sarcástico

— Aí vou ficar sobrando

— É só você arranjar um garotinho por aí — eu disse ainda de bom humor

— O que eu quero não está disponível — respondeu ela olhando fixamente para mim

— Se ele não te quiser eu posso dar um jeito nisso — falei com uma risadinha sacana

— Então é assim tão fácil? — perguntou Erick indignado

— Ah... é... Vamos mudar de assunto? — falei

— Acho bom — disse Johanna — isso já está muito estranho

— Já podemos entrar no Shopping senhorita Jojo? — perguntou Erick brincalhão

— Tá bom — e assim eu vi o primeiro sorriso do dia vindo de Johanna

Quando entramos no Shopping estava lotado. Mães levando as crianças para um último passeio antes das aulas começarem, velhinhos conversando nos bancos que ficam no meio dos corredores adultos fazendo compras para aproveitar as promoções de férias... Todos os tipos de pessoas.

— Wow — me espantei — pensei que estaria mais vazio.

— Eu te apresento o Shopping no fim das férias — falou Johanna

— Pra onde vamos agora? — quis saber Erick

— Eu estou com muita fome — respondi — podíamos ir logo comer alguma coisa?

— Eu também estou com fome — falou Jojo

— Então vamos comer — Erick disse por fim

A praça de alimentação fica a dois andares acima do de onde estávamos, então fomos direto para a escada rolante mais próxima. Em cada degrau cabia duas pessoas e Erick ficou ao meu lado.

— Adoro escadas rolantes — ele puxou assunto

— Legal — disse desinteressado olhando para o outro lado

Enquanto minha visão estava focada em qualquer outra coisa abaixo de nós, ouvi alguns sussurros aleatórios — puxando assunto com escadas rolantes?— perguntou uma voz feminina — Não sei o que dizer — respondeu uma voz masculina — E não era você que tinha pensado em tudo? — falou de novo a voz feminina — olha, eu vou dar meu jeito, e espero não estragar tudo — se repetiu a voz masculina.

Quando a escada rolante nos deixou no segundo andar ainda faltava mais um andar para chegar finalmente a praça de alimentação. Fomos para o outro lado e continuar subindo pela escada rolante.

— Realmente, este Shopping está muito cheio — disse Erick com certa dificuldade para passar entre as pessoas

— Pois é — disse — respondi me identificando com a dificuldade que era a mesma que a minha

Do que será que Erick e Johanna estavam falando? Estragar tudo? Planejado o que? Muito estranho isso. Mas não liguei muito. Minha fome estava me levando em direção aos restaurantes. Quando finalmente chegamos no andar desejado.

— Aonde vamos comer? — perguntei

— McDonald’s — disseram Erick e Johanna em uníssono

— Tudo bem — respondi contrariado

Nunca fui muito fã do McDonald’s, prefiro restaurantes de verdade mas um Hambúrguer de vez em quando não faz mal. Fizemos nossos pedidos e ficamos caçando por pelo menos 10 minutos por uma mesa vazia (eu disse que o Shopping estava lotado).

— Josh — começou Johanna — tenho que te perguntar uma coisa

— Pergunte

— Bom, você sabe o que as pessoas pensam de você lá na escola... É verdade?

Aquela pergunta era tão direta que foi como uma pedrada na minha cabeça. Como eu poderia saber? Nunca namorei ninguém, nem se quer beijei ainda. Como poderia saber a resposta para aquela pergunta? Mas já reparei em garotos antes, foi só quando me dei conta de que enquanto subia as escadas rolantes meus olhos não estavam focados em qualquer coisa, eles observavam os meninos em baixo de mim. Olhando sua aparência, fisionomia, seu jeito de vestir. Eu reparava em garotos. Então as pessoas sabiam que eu era gay antes de mim? Como? Quer dizer, eu não sou gay, eu só presto atenção em garotos da mesma idade que eu, só isso, nada de mais. No fundo eu sabia que aquilo não era normal, aquilo podia sim ser um indício de alguma coisa. Eu não sabia o que eu realmente era então fui sincero na resposta.

— Eu não sei — respondi receoso

Erick e Johanna trocaram um olhar intrigante como se ela dissesse — eu não te avisei — então foi quando vi um lampejo de sorriso surgiu nos lábios de Erick

— Você já beijou outra garota ou vontade de beijar uma?

Outra pergunta que me deixou desorientado. Realmente eu nunca beijei e nem tive vontade de beijar uma menina. Que homem sou eu que não tem vontade de beijar uma mulher? Mas pra que eu beijaria uma? Elas são sensíveis de mais, complicadas de se entender... Mas esse é o certo, não é?

— Eu nunca beijei — disse omitindo o fato de que não sentia a mínima vontade de beijar uma menina

Outro olhar entre eles percorreu a mesa mas desta vez não consegui identificar que expressão pairava em seus rostos.

— Satisfeitos?

— Eram apenas dúvidas — falou Erick

— Isso aí — rebateu Johanna

O resto do almoço passamos conversando sobre tudo, mas alguém sempre direcionava o assunto para minha sexualidade que recentemente descobri não estar definida. Terminamos de comer e resolvemos assistir um filme de terror embora eu odeie esse tipo de filme, fui voto vencido e obrigado a assistir. Compramos os ingressos, pipocas e refrigerantes e entramos na fila para assistir ao filme.

— Podíamos assistir outro filme — disse chateado

— Terror junta as pessoas — respondeu Erick com um sorriso malicioso

Johanna estava muito entretida com sua pipoca para responder alguma coisa.

O filme começou. Os cinco primeiros minutos foram relativamente normais, mas aí começaram a surgir monstros, pessoas possuídas e coisas parecidas.

— Eu estou começando a ficar com medo — disse em voz baixa para Erick

— Eu te protejo — ele falou olhando para mim tão perto do meu rosto que senti seu hálito de Coca-Cola misturado com o aroma amanteigado da pipoca.

— Obrigado — consegui responder depois de observar cada mínimo detalhe dos lábios de Erick

Ele virou o rosto e continuou a assistir o filme. De perfil seu rosto era ainda mais bonito, era forte e másculo, e se tornava ainda mais irresistível com o brilho da tela iluminando os olhos dele e os transformando e pérolas verdes. Mas eu resisti. Em outro momento do filme quando o suspense dominava a sala, Erick discretamente foi guiando sua mão em direção a minha até que elas se encontraram e ele disse:

— Agora eu estou com medo

Suas mãos eram grandes, quentes e acolhedoras mas eu não podia fazer aquilo, ele era apenas meu amigo. Seria isso o que ele e Johanna estavam falando? Erick gosta de mim? Mas ele não é gay. Ou pelo menos eu não sabia. Uma voz lá no fundo me dizia — Se entregue, Josh, você não tem nada a perder. Experimente. E meu corpo respondeu a essa voz. Cruzei meus dedos com os dele e assim ficamos até o filme se apagar e as luzes acenderem, quando tirei minhas mãos das dele.

— Podem continuar, eu estava vendo tudo — falou Johanna normalmente

Mas eu não queria fazer aquilo com todos vendo, as pessoas achariam que somos um casal — mas foi isso que você sempre quis, um namoro, aproveite enquanto tem. Mas dessa vez não ouvi a voz. Voltamos para casa e Erick conseguiu convencer Johanna de que me levaria em casa. Fomos todo o caminho sem dizer uma palavra, até que chegamos em frente a minha casa.

— Então, é aqui — falou Erick meio sem graça

— Pois é — disse

— Posso tentar uma coisa?

— Depende — respondi desconfiado

Erick se aproximou e me beijou. Eu não recuei.