Um Conto De Tammah
1 1 - O surgir da escuridão.
Notas iniciais
Há quem diga que as bases do continente sul foram forjadas por batalhas entre o bem e as trevas. Histórias como essa, hoje são apenas devaneios daqueles que ainda se lembram do significado de seu passado, que ao contrário dos outros, não se renderam as coisas do mundo, e levam apenas em sua mente aquilo que a boca não pode contar, mas que mesmo que pudesse, não haveria ouvidos para prestar atenção nelas. Dentre os tão antigos contos de Tammah, o continente sul, talvez o mais famoso seja dos jovens escolhidos para deter aquele que em seu tempo foi conhecido como Hammesh, o Senhor das Almas Perdidas. Ganancioso e poderoso, Hammesh pretendia dominar todo o mundo, começando pelo sul e para o azar de todo o povo, não havia quem pudesse o deter... Ou era isso que eles pensavam.
No sul do continente, banhado pelo Oceano de Mareeh, existia um país tammaniano conhecido como Lokmmah. O país de Lokmmah era próspero e invejado pelos quatro cantos do planeta por seu desenvolvimento e riqueza. O seu rei era conhecido como Jaalkeh, o Forte, por anos ele governou o país, tirando-o e fazendo-o sobreviver a várias guerras e crises. Mas, chega uma hora que todo rei já não tem mais tempo e forças para continuar seu legado, e foi nessa hora em que Dustiel, seu único filho, estava habilitado e pronto para continuar seus caminhos. Mesmo com apenas dezesseis anos, Jaalkeh decidiu que aquele era o tempo certo para coroar seu filho. No dia 43 de Morok do Décimo Primeiro Século, o rei ordenou que fosse preparada a coroação em cerca de três dias. Imediatamente, a notícia se espalhou pelo país e todo o povo celebrou a vinda do novo rei de Lokmmah.
Na noite da coroação, toda a Cidade Principal se dirigiu para a Catedral de Mitraah, no lado oeste da cidade, lá podia se ver que a rua havia uma decoração especial, e na sacada de cada casa existia uma vela acesa, simbolizando prosperidade e luz ao novo rei. A rua estava fechada ao público para a passagem real e os guardas cercavam a entrada da catedral. O povo esperava ansiosamente enquanto o som da melodia tocada pelos músicos da corte invadia o lugar. Muitas crianças corriam pelas ruas, rindo e brincando, podia-se ver até alguns animais acompanhando-as, como um pequeno tauko (um pássaro pequeno, descendente de grandes aves de penas coloridas). Nunca houvera alegria tão grande por ali em anos, pelo menos era o que se pensava, até que ouviram as trombetas reais e no horizonte via-se três grandes cavalos, dirigidos pela família real. O que vinha a frente, era forte e branco, sobre ele se assentava o rei, que com um sorriso acenava para seu povo. A sua esquerda, vinha um cavalo marrom, belo e formoso, sobre ele assentava-se a rainha, admirada por sua beleza e bondade. A direita do rei, vinha o tão esperado príncipe Dustiel, conhecido por sua nobreza e coragem, símbolo para os guerreiros de todo o país. Enquanto eles passavam, a banda alegremente tocava, os cidadãos aplaudiam e davam brados de vitória, alguns pais colocavam as crianças sobre os ombros para que pudessem ver o que acontecia na rua.
Assim que se passou a família real, vieram os grandes soldados, protetores das ruas e guardiões do povo. Muitos deles eram homens humildes e corajosos, representando os cidadãos batalhadores. Até então, achava-se que o povo estava animado, até ver a chegada do grupo de mágicos, que com as mãos fizeram a neve cair dos seus e uma enorme chuva de um pó brilhante caía sobre o povo.
Entrou-se então, a família real na catedral, dirigindo-se para o altar, lá esperava o sacerdote da catedral, que realizaria a coroação acompanhado do rei.
Todo o povo procurou lugar para se assentar e apreciar a coroação, os que não conseguiram, ficaram de pé e observavam dali mesmo. O engraçado do reino de Lokmmah, é que o rei não fazia questão se os súditos eram da nobreza ou da plebe, todos tinham os mesmo direitos por lá, o que fazia com que viver ali era algo bom.
Então um enorme silêncio inundou a catedral, de forma que não havia uma voz sequer ecoando por entre as paredes da construção. Todos voltaram seus olhares ao altar e ao príncipe, que aguardava a vinda da coroa. O rei se pôs diante dele e o sacerdote a seu lado.
- Dustiel, filho de Jalkeeh, — começou o sacerdote – sendo seu único herdeiro, você é o descendente escolhido a governar esse povo. O tempo é chegado, o rei tomou a decisão de que você agora é o mais novo governante, por isso estamos aqui hoje, para lhe coroar sobre o olhar das divindades. Que Mitraah guie seus passos, tornando seu reinado forte e próspero.
O rei, ouvindo o final do discurso, pegou a coroa que estava deitada sobre uma almofada de tecidos nobre, e a colocou diante do príncipe.
- Meu filho, aqui estou hoje para retirar-me de meu poder ao trono e passá-lo a você. – Então o rei foi lentamente colocando a coroa sobre Dustiel. – Eu o coroo, e o declaro rei de Lokmmah.
O novo rei se voltou a seus súditos e fez uma reverência. Todos se levantaram para aplaudir e glorificar o nome do novo rei: Dustiel, o Forte.
Em meio a festa e alegria, ninguém percebeu a escuridão que tomou o céu noturno, fazendo sumir todas as estrelas de um lindo azul marinho. As ruas se escureceram e as chamas das tochas foram aos poucos ficando fracas. Os guardas que protegiam a entrada da catedral, começaram a notar o estranho acontecimento. Sem entender direito, apenas ficaram ali parados observando aquilo. Até que, acompanhado de uma névoa negra e sombria, surgiu um exército de cavaleiros. Todos eram feitos das sombras, mas não eram fáceis de se espantar como fumaça. Seus cavalos eram negros e em seus olhos uma chama vermelha queimava. O grito dos cavaleiros assombrou a cidade, trazendo consigo escuridão para ela. Logo todos puderam ver o que ocorria com o povoado e com medo, corriam para se proteger em suas casas, enquanto os mais corajosos e fortes tentavam deter as almas negras, o que foi em vão. O desespero tomou contar de todos os corações, que tentavam achar em um canto quieto a paz e a proteção. O antigo rei logo sacou sua espada e em um brado de vitória partiu para cima dos amaldiçoados. Dustiel seguiu o pai, que agora já havia jogado ao chão cinco dos guerreiros. Uma coisa incrível dessas almas negras, é que segundos após sua morte, se transformavam em fumaça, que num piscar de olhos sumia.
Dustiel lutava bravamente, e a essa altura, quinze já haviam caído por sua espada. Então, em um erro fatal, abaixou sua guarda para um dos inimigos, que vendo a chance partiu para cima do novo rei. Quando se voltou para trás, viu a escuridão da alma vindo para cima de si, e antes que pudesse sacar sua espada, pode vê-la se dissipar no ar rapidamente, atingida com uma flecha no peito. Flecha? Havia mais alguém na batalha? A essa altura, todos os guardas já estavam feridos, ou até mortos. Sem entender, se voltou para o lado de onde a flecha havia vindo e sobre um cavalo branco viu um homem alto, de pele escura e olhos raivosos. Era jovem e tinha por volta dos vinte anos. Ele lançava flechas com a mais perfeita mira sobre os guerreiros, que em instantes sumiam no ar. Dustiel ficou impressionado e antes que pudesse dizer que já havia visto de tudo, uma luz branca e forte veio de trás do rapaz, quase chegando a cegar seus olhos. Quando recuperou sua visão, viu que dezenas dos inimigos que estavam em volta do jovem haviam virado fumaça. Então, surgiu um cavalo negro, e nele estava montado uma garota. Dustiel não pôde ver seu rosto, pois o capuz de sua grossa capa escondia-lhe a face, deixando apenas uma sombra negra abaixo dele. Ela se virou para ele, apontando um cajado, provavelmente responsável pelo extermínio das dezenas de almas negras. Então uma negra e espessa magia jorrou do cajado e se desviando do novo rei, atingiu dois inimigos que estavam prestes a atacá-lo. Dustiel se voltou para trás assustado, e antes que pudesse fazer algo, viu os homens desaparecem diante de seus olhos.
“Que diabos é isso?”, pensou, e então ouviu um grito, que rapidamente reconheceu. Tentou procurar seu pai entre a multidão e o viu caído no chão com a espada de um dos guerreiros enfiada em seu peito. Naquele instante, não conseguiu se mover. Tentou gritar, mas nada saiu de sua boca, até que conseguiu correr até o homem caído. Foi atravessando sua espada em todos os adversários que via pela frente. Não conseguia pensar direito, só tinha na cabeça que deveria salvar o pai ferido. Então alguém lhe puxou da multidão e lhe colocou sobre um cavalo. Era o cavalo negro que levava a jovem garota. Sem entender, deixou-se levar por ela, que foi abrindo caminho entre os homens. Ao chegar perto do antigo rei, o pegou e colocou em sua frente, segurando-o para que não caísse. Saiu pelas portas da catedral, aonde a luta continuava entre os homens que, mesmo feridos, voltaram a lutar contra o exército invasor. Entrou com o cavalo por uma ruela vazia e lá parou.
- Desça – falou a jovem, e pela sua voz, Dustiel notou que tinha no máximo, quatorze anos. Ele obedeceu, e com cuidado ela pegou o pai e colocou sobre o colo do filho, que era forte o bastante para carregar alguém da idade dele. – Cuide dele.
- Obrigado – respondeu o novo rei.
Então ela voltou cavalgando furiosa até aonde a batalha começara. Dustiel se sentou com o pai nos braços e se lembrou do remédio que levava em seu bolso. Aquilo era suficiente para curar muitas feridas. Abriu o frasco e antes que o derramasse sobre a ferida do pai, o mesmo colocou a mão na frente.
- Não – disse ele, quase sussurrando, — não é necessário.
- Mas pai, sua ferida...
- Deixe-me ir, meu filho. Meus dias de glória estão no final – então ele tirou algo do bolso, com as mãos tremendo. – Pegue isto.
- O que é?
- O mais precioso amuleto de sua família, usado por seu antepassado na batalha por Daldea.
O filho olhou o amuleto e o pegou. Voltou-se para o pai novamente, quase com lágrimas nos olhos, enquanto ele dava seu último suspiro.
- Eu me orgulho em vê-lo usar a coroa de nosso reino, filho – disse o rei sorrindo.
Então tombou a cabeça para o lado e Dustiel viu que aquele havia sido seu fim. Mais uma vez ficou ali parado, apenas olhando para o pai, enquanto as lágrimas rolavam de seus olhos. Até que então, sentiu a raiva e o ódio correndo por suas veias. Seu olhar mudou e ele já não controlava mais seus próprios pensamentos. Ajeitou o pai ali e fincou sua espada no chão, olhou mais uma vez para e se voltou para a rua da batalha. Sacou a espada e foi em direção aos “homens-fumaça”. Agora já não eram tantos, graças à ajuda dos estranhos e dos poucos guardas que ainda se mantinham de pé.
Agora a fúria do rei caía sobre aqueles homens que restaram. Um a um, todos que iam contra eles viravam fumaça. Agora assustados, os poucos sobreviventes, começaram a fugir pelos portões da cidade, mas não houve tempo para isso, pois foram atingidos pelas flechas do jovem e a magia negra da garota penetrava o coração dos guerreiros, e apesar de parecer serem feitas da mesma matéria, as almas caíam pelo poder da magia.
Então tudo ficou sossegado outra vez. Dustiel, ofegando virou para trás e viu os dois cavaleiros que o ajudara. Mas antes que pudesse agradecê-los, saíram pelos portões e seguiram para a floresta, por onde os inimigos vieram. “Depois dessa luta”, pensou ele, “acho que não vão longe. Talvez possa achá-los novamente não tão distante do reino”. Nesse momento, sua mãe, a antiga rainha, apareceu correndo, assustada em direção ao filho.
- Dustiel! – Gritou ela – você está bem? Não se feriu?
- Fique calma – disse ele, — estou bem, apenas tenho alguns arranhões.
- Quem eram aqueles dois?
- Eu não sei, não tive tempo nem de agradecê-los pela ajuda. Simplesmente partiram pelo portão leste. Acho que estão atrás de mais guerreiros desses.
- Afinal o que eram essas coisas?
- Não faço ideia, mas tenho uma certa suspeita.
Ela olhou ao redor, aonde o sangue de muitos estava por todos os lados, e parecia preocupada com algo.
- Aonde está seu pai? – Perguntou ela, com os olhos ansiosos.
Dustiel não conseguiu responder, apenas pediu para que ela o seguisse. Foram andando pela rua principal, quietos, assim como o ambiente. Ela olhava triste para a devastação da cidade, quase que chorava. Então Dustiel entrou na ruela na sua frente, enquanto ela se distraía com uma bandeira do reino jogada ao chão, com as manchas de sangue dos guerreiros da cidade. Até que ela se voltou para a ruela e viu a espada de seu marido fincada no chão e logo atrás dela havia um corpo, que ela rapidamente reconheceu. Mesmo já com certa idade, conseguiu correr o mais rápido que podia, enquanto tentavam imaginar que aquilo era mentira. Se ajoelhou perante o corpo do marido e começou a chorar loucamente. Dustiel não conseguia aguentar ver a mãe daquele jeito, então se virou e se encostou no muro de uma das casa do fim daquela rua estreita. De cabeça baixa, não conseguia mais pensar em nada, apenas na tragédia que ocorrera. Pouco a pouco o povo começou a sair de suas casas para ajudar a cidade. O povo dali era humilde e gentil, e não importando a situação, estavam ali uns pros outros. Dustiel começou a reconhecer que haviam alguns corpos de homens da cidade entre os mortos e os feridos, o que só reforçava a ideia daquele gentil povo, que lutava com honra e glória. As mulheres cuidavam dos feridos e os alimentavam, enquanto os homens tentavam limpar a baderna. Aquilo demonstrava que nem tudo estava perdido, que ainda havia a esperança que muitos pensaram ter sumido. Dustiel então começou a ajudar também. Levantou os feridos, ajudou os homens na limpeza dos lugar destruídos.
O que ainda o intrigava, era os dois jovens. Quem eram aqueles? O que faziam ali, bem naquele momento? Parou por um instante e se levantou do chão, disse para os homens continuarem ali por ele. Foi até o castelo, aonde tomou seu cavalo e foi ao leste, atrás dos cavaleiros.
Dustiel quase nunca pegava as estradas do leste, aonde a fronteira de Lokmmah e Daldea se encontravam. O motivo disso, era que na maioria das vezes ia com o pai aos reinos vizinhos do oeste, pois a muito tempo, o caminho até Daldea se tornara perigoso. A fronteira entre os dois reinos ficava pouco antes do grande Muro Maldea, na Travessia do Fauno. Lá era um lugar realmente perigoso, e um dos principais motivos eram as criaturas que espreitavam por ali depois que o reino dos maldeas foi derrubado. Dustiel acreditava que outro motivo principal, foi a grande batalha que ocorreu entre os tammaneses ( que eram o povo fundador do continente ) e do maldeas ( que ali já estavam a muito tempo ). Depois da grande devastação de seu reino, os sobreviventes não conseguiram encontrar novos lares por influência dos tammaneses, que convenceram seus reinos a banir os maldeas, dizendo que eram dominadores da magia negra e do culto a Daltaron, o deus do inferno e da maldade. Acontece que, a religião maldea nunca fora igual a tammanesa, mas antes que soubessem disso, os reinos já haviam proibido aquele povo em suas terras.
Dustiel entrou por entre a mata escura, aonde a estrada de pedra já estava quase que totalmente apagada pelo tempo. Nunca havia ido tão longe e já se preocupava com a posição do sol, que indicava o fim da tarde. Já podia ouvir os pássaros retornando a seus ninhos, que ficavam no topo daquelas estranhas árvores.
Já perdia as esperanças até que ao longe avistou os dois, desmontados dos cavalos, que provavelmente estavam cansados depois daquele dia. O jovem alto e moreno falava alguma coisa e logo após ria, enquanto a jovem simplesmente caminhava em silêncio, mas prestando atenção.
- O que foi? – Disse o jovem – você não achou graça?
- Madatto, você sabe muito bem que eu não posso rir – respondeu a garota, — mas que se eu pudesse eu ria de suas piadas – Dustiel viu um tom sarcástico.
- Assim me sinto melhor – disse o moço e logo riu.
Dustiel foi se aproximando, apenas tentando ouvir para onde eles iam.
- Por que está nos seguindo? – Perguntou a jovem.
- O quê? – Tentou entender o outro, que pelo jeito, se chamava Madatto.
- Não estou me referindo a você – disse ela, olhando para Dustiel.
- Hein? Ah! Olá, senhor! O que deseja? – Disse Madatto, sorrindo.
- Eram vocês que estavam na batalha da Cidade Principal hoje? – Disse Dustiel, se aproximando.
Então desceu do cavalo, os dois pararam para conversar com o rei. Agora Dustiel podia ver melhor os cavaleiros. O alto e moreno jovem, provavelmente se chamava Madatto, pois foi isso que ouviu da jovem. Ele não tinha cabelo algum na cabeça, mas havia uma tatuagem que vinha de sua nuca até atrás da orelha. Era forte e levava um arco nas costas, e Dustiel pôde ver que suas roupas, apesar de simples, eram bem pesadas, provavelmente feitas para enfrentar o frio. Da jovem garota, não conseguiu saber mais do que já havia visto: usava uma longa capa com capuz preta, que escondia seu rosto.
- Sim, estávamos de passagem – respondeu o jovem, — foi sorte encontrarmos aqueles caras lá, pelo menos agora sabemos que estamos no caminho certo.
- Caminho certo? Para quê? – Indagou Dustiel – Oh, mil perdões, sou Dustiel, o Forte – disse fazendo uma reverência.
- Madatto, a seu dispor – respondeu o jovem, também com uma reverência.
- Madatto, você sabe quem é ele, não? – Indagou a jovem a Madatto.
- Não, por quê? É alguém que eu deveria saber?
- Creio que sim.
Então a jovem se aproximou e se ajoelhou diante dele.
- Sou Damitra, meu rei. A seu dispor – disse ela.
- Rei!? – Exclamou Madatto, assustado – Mil desculpas, Vossa Alteza! – E logo já estava ajoelhado no chão.
- Por favor, não é preciso disso – disse Dustiel. – Então, se vão atrás dos almas negras, provavelmente sabem aonde estão, não?
- Sim, mas pensei que talvez o senhor pudesse saber de algo – disse Damitra.
- Tenho minhas suspeitas.
- Já ouviu falar da praga de Daldea? A que dizimou o povo e trouxe trevas a suas terras?
- Já ouvi falar, mas nunca soube muito bem da história. Meu pai nunca gostava de falar daquilo.
Damitra fincou o cajado no chão, que pelo jeito tinha uma ponta afiada, e se sentou diante dele.
- A praga de Daldea se iniciou não faz muito tempo – continuou ela. – Cerca de apenas seis anos, mas em apenas três dias acabou com o povo. Acontece que, o Senhor das Almas Perdidas, invadiu as terras, vindo do sul, sabe se lá de que lugar daquele monte de gelo, e cidade por cidade, acabou com o povo. Ele não fez isso apenas por diversão, sua intensão é acabar com todos, de todas as terras, que nem aquelas histórias que nos contam. Pelo que vimos, agora que ele está forte em exército e armamentos, já começou seu trabalho. Não invadiu apenas a Cidade Principal, mas as cidades mais próximas da fronteira também foram pegas, poucos sobreviveram. Deve estar se perguntando por que isso não chegou aos ouvidos do rei. O motivo é claro: eles vigiam toda e qualquer pessoa que anda por essas estradas. Na minha opinião, acho que Vossa Alteza devia começar a reforçar a guarda das cidades das montanhas, pois serão as próximas, e assim como vieram hoje, eles vão voltar.
Dustiel ficou pensando por alguns segundos. Madatto apenas encarava o rei, encostado em uma árvore, enquanto Damitra, ainda sentada, usava algum tipo de magia para não se sabe o quê.
- Foram os mesmo que mataram meu pai, não? – Disse Dustiel, finalmente.
- Sim – respondeu Madatto, — esses mesmo.
- Quero ir com vocês até lá e...
- Não é possível – interrompeu Damitra, — é muito perigoso.
- Mais um motivo para que eu vá, serei de grande ajuda, não só a vocês como a meu povo também.
- Acho que mais ajuda ainda traria o senhor se ficasse aqui e cuidasse de seu povo ( e sugiro que faça um corte mais descente de cabelo ).
- O que tem meu cabelo?
- É estranho, e bagunçado.
- Ei, ei! Chega de falar em cabelo – se intrometeu Madatto. – Damitra, eu concordo com ele, acho que seria de boa ajuda. Como rei, deve saber lutar bem.
- Fui treinado pelos melhores guerreiros de Lokmmah.
- Ótimo, pode vir conosco.
- Ainda acho uma má ideia, Madatto – disse Damitra, num tom rabugento.
- Confie em mim, ele será de boa ajuda.
Então ela se levantou, tomou o cajado nas mãos e se virou para o cavalo. Montou e já foi cavalgando.
- Que seja – disse ela.
- Ah, esperem! Antes de irmos – começou a dizer o rei, — gostaria que ficassem no castelo, só até que resolva alguns assuntos.
- Agora ele quer nos atrasar – resmungou Damitra.
- Calma Damitra – disse Madatto, — será uma honra, alteza.
Então foram os três, voltando pela estrada de pedra. Damitra parecia nervosa, pois teriam que voltar tudo o que já haviam andado e já era noite. Madatto olhou para ela e riu.
- O que foi? – Indagou a garota.
- Nada, senhora resmungona – disse ele rindo.
Então ela pegou o cajado e lançou algo em seu braço, que pelo que Dustiel viu, fez uma pequena ferida. Madatto gritou e começou a resmungar com Damitra.
- Como eu queria poder estar rir agora – disse ela.
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