Um Conto De Tammah
2 2 - Um segredo incomum
A noite acabara de nascer. Os três acabaram de chegar nos portões do castelo e Dustiel deu a ordem para que fossem abertos e os guardas, mesmo desconfiados dos jovens que o acompanhavam, obedeceram as ordens. O portão se abriu e um jardim foi revelado, era nele que provavelmente ocorriam os treinamentos dos guardas e uma porta a direita levava para o quartel. Havia uma estrada de pedra que dava em outro portão, provavelmente a casa real. Desceram dos cavalos e os entregaram ao tratador, que seguiu para uma porta, provavelmente aonde o estábulo ficava. A essa altura, Madatto já estava impressionado, pois já havia muitos anos que não entrava em um castelo real. Nisso, Dustiel deu a ordem para que o próximo portão fosse aberto, e assim foi feito. Entraram em mais um jardim, mas não era um jardim de treinamento, e sim um jardim com belas flores e uma enorme fonte no meio. Ali haviam mais guardas que o outro, provavelmente para a defesa real.
Entraram na ala oeste e se viram diante de uma enorme mesa de banquete. Além deles, haviam outras pessoas na mesa: a mãe do rei, seu irmão mais novo, o conde de Manttis e seu filho, que estavam ali a negócios. Havia também uma jovem e deduziram que fosse a comandante das tropas dianteiras.
- Ah, Dustiel! — Começou o conde — sinto muito a perda de seu pai, ouvi dizer que o enterro será amanhã.
- É? — Indagou Dustiel — não me falaram nada.
- Eu organizei meu filho — respondeu a mãe, — fique tranquilo.
- Quem são os dois? — Perguntou o irmão.
- Estes são Madatto e Damitra, estavam durante a batalha.
- Oh! Os cavaleiros sagrados? — Indagou o irmãozinho.
- Cavaleiro sagrados? — Madatto tentava entender.
- Sim, vocês foram de grande ajuda ao povo, agora são chamados assim por aqui.
- Nossa, nunca recebi tão honra.
Então se uniram a mesa. Madatto ficou satisfeito com a comida: não parou até encher, enquanto Damitra apreciou apenas alguns morangos silvestres.
- Ora, não seja tímida — disse a comandante das tropas, — devore, pois é difícil encontrar uma comida boa assim!
- Obrigado — disse Damitra, — mas creio que estou bem assim.
Então ela se levantou e se retirou dali. Todos ficaram sem entender e olharam para Madatto, procurando alguma explicação para a atitude da garota.
- Não se preocupem — começou ele, — ela costuma fazer isso. Nem eu mesmo entendo.
Dustiel não se sentiu bem com aquilo e curioso, foi tentar achá-la. Perguntou aos guardas e disseram que ela havia acabado de sair e estaria na floresta do lado do castelo. Um jeito fácil de chegar lá era pelo portão do estábulo, e foi o que Dustiel fez.
A floresta estava fresca naquela noite. Não havia sequer um barulho nela, a não ser os grilos e insetos. Dustiel começou a procurar atrás de cada árvore e arbusto a garota, mas não a achou, até que viu um clarão atrás de umas árvores e para lá foi. Sem fazer barulho, ficou atrás da árvore e reconheceu Damitra, que como na outra vez, estava sentada diante do cajado, mas agora sussurrava algumas palavras. Ela estava de costas para ele, então pensou que ela não o havia notado, mas...
- O que faz aqui? – Indagou ela, sem virar o rosto para trás.
- Como você faz isso? – Tentou entender Dustiel.
- Eu reconheço a sua aura, assim como a de todas as criaturas.
- Isso é estranho.
- É o que todos dizem de mim, já me acostumei. Agora me responda, o que faz aqui?
- Todos viram seu sumiço e ficaram se perguntando o que você tinha ido fazer. Eu fiquei curioso e vim vê-la.
- Entendo.
Então um vento soprou trazendo um silêncio, enquanto ela continuava sussurrando as misteriosas palavras.
- Por que está aqui? – Ele perguntou quebrando o silêncio.
- Gosto de ficar sozinha por um tempo. Não me sinto confortável com as pessoas e sei que elas me odeiam.
- O quê? Ninguém te odeia.
- Você sabe quem eu sou?
- Bom, não muito bem...
- É por isso que diz que não me odeia.
- Então quem é você?
A garota virou-se para trás e se levantou. De cabeça baixa, colocou a mão sobre o capuz e o puxou, revelando longos cabelos loiros que iam até seus joelhos. Dustiel ainda não conseguia ver seus olhos, até que ela levantou a cabeça. Um olho era escondido pelos cabelos e outro era um azul quase branco, com uma cicatriz que o atravessa desde a bochecha até a sombrancelha e havia uma pedra vermelha em sua testa.
- A amaldiçoada! – Gritou ele e recuou até ficar completamente colado na árvore.
- Vê? Agora você me odeia.
- Claro que sim! Você é a amaldiçoada! Você traz pragas por onde quer que passe!
- Todos dizem isso por não saberem a minha versão da história.
- Fale o que quiser! Não acreditarei em nenhuma palavra sua, bruxa!
Damitra abaixou a cabeça e colocou mais uma vez o capuz. Depois voltou-se a sentar.
- Por favor, pode dizer para que me matem – disse ela, — mas deixe Madatto fora disso.
Dustiel pensou um pouco e percebeu que estava perdendo a razão, se ela tinha outra versão da história, deveria deixar que ela contasse.
- Então, qual a sua versão da historia? – Disse ele e sem medo se sentou a frente dela.
Ela ergueu a cabeça e dessa vez ele pôde ver seu rosto.
- Eu tenho essa maldição desde que sou criança. Ela me impossibilita de ser feliz e guarda um monstro dentro de mim. Quando era pequena, fui pega por alguém, de quem não me recordo quem foi e ele me deu essa maldição, mas eu deveria ter morrido com ela. Porém, alguém me salvou, o sinal disso é a pedra em minha testa.
- O que a pedra tem com isso?
- Já ouviu falar que os maldeas tinham o dom de dar a vida para alguém?
- Sim.
- Os maldeas tem elixir da vida armazenado em uma pedra, e quando ele se dispõe a salvar alguém, parte dessa pedra é colocada na pessoa, dando-lhe um novo tempo de vida, mas em consequência, a pessoa se esquece daquela que lhe deu a pedra.
- Então você foi salva por um maldea?
- Sim, fui.
- Se lembra quem era?
- Não, apenas me lembro de acordar em um barco no extremo oeste do continente com Madatto comigo.
- Mas, de todo jeito, você tem a maldição, porém, você traz mesmo pragas aos lugares por onde passa?
- Não, isso é apenas algo que as pessoas pensam, e mesmo assim, meu objetivo é ajudá-las.
Dustiel parou por um minuto para pensar, enquanto ela olhava as estrelas.
- Mas não há uma maneira de quebrar a maldição? – Indagou ele.
- A única maneira é ir a Daldea, e é por isso que, além de irmos lá para acabar com o Senhor das Almas Perdidas, nós vamos para tentar curar minha maldição, pois apesar de não ter morrido no primeiro minuto com ela, a cada dia eu estou morrendo por conta disso.
Aquilo tocou Dustiel. Durante sua vida toda ouvira que a amaldiçoada fazia mal aos outros e devastava as cidades, quando na verdade tudo aquilo ocorria apenas com ela. Agora que sabia, ele tinha duas opções: denunciá-la como a amaldiçoada e mandá-la para a forca, ou esconder seu segredo e ajudá-la até o caminho de Daldea.
- Não se preocupe – disse ele, — seu segredo está seguro comigo.
- Obrigado.
No dia seguinte, acordaram cedo e se prepararam para o funeral do antigo rei. Dustiel não conseguia comer nem conversar com as pessoas direito, pois a ideia de ter que ver o funeral de seu pai era algo que nunca havia tido. Apesar disso, tomou coragem e lembrou-se que seu pai nunca quisera que ele se sentisse assim. Ergueu-se da cama e colocou as vestes reais. Desceu as enormes escadas até chegar ao hall da ala norte, aonde os quartos ficavam. A luz entrava pelas enormes portas ao lado direito da escada, que davam uma enorme vista daquela parte do continente, e ao fundo, era possível ver a cidade de Mahatt, que dividia a cadeia de montanhas com a Cidade Principal. Um vento gelado entrou pela janela e então Dustiel se retirou dali. Quando estava prestes a sair da ala e seguir para a parte oeste, ouviu alguém descer as escadas.
- Bom dia – disse Madatto, se espreguiçando. – Nunca dormi tão bem em minha vida!
- Fico feliz que esteja aproveitando – respondeu Dustiel.
- Gostaria de agradecer vossa alteza pela comida e conforto.
- É o mínimo que poderia fazer por terem salvo a cidade e por me deixaram ir com vocês até Daldea.
Madatto sorriu e coçou a cabeça.
- Cadê a Damitra? – Indagou ele.
- Acho que já acordou.
- Provavelmente. Ela costuma acordar bem cedo.
Então os dois seguiram para a ala oeste, aonde o enorme café da manhã havia sido preparado. Pelo jeito, as mesmas pessoas que estavam no jantar da noite anterior já tinham tomado sua parte, e a única pessoa ali era Damitra.
- Bom dia – disse ela, sem olhar para os dois.
- Bom dia – responderam juntos.
Tomaram a ceia, Madatto contando suas piadas e Damitra apenas ouvia atentamente. O rei se divertia com o jovem e até tentou contar algumas também. Aquele foi um momento alegre, pois apesar da morte do pai, Dustiel se divertia e por um instante até esqueceu dos ocorridos dos últimos três dias. Então, alguns minutos depois, um dos guardas entrou por entre as portas chamando os três.
- O funeral de seu pai será realizado agora, vossa alteza – disse ele.
- Sim – falou Dustiel, — nós já estamos indo.
Dustiel se sentiu triste novamente, tentando esconder aquilo na frente dos dois convidados. Levantaram-se e seguiram até a rua principal. Lá, todos os cidadãos estavam em silêncio, aguardando a passagem do caixão carregado pelos guardas. Damitra e Madatto se uniram a multidão, enquanto Dustiel foi logo atrás do caixão, levando a bandeira do reino, representada por um leão prateado de fundo azul marinho. Não havia uma sequer voz, mas podia-se ouvir o choro de alguns entre as pessoas. Logo atrás vieram dois músicos, tocando tamboriletes, formando um fundo musical fúnebre e triste.
Chegaram a clareira, aonde um enorme rio seguia para o norte. Era lá que se realizavam a maioria dos rituais fúnebres da família real. O caixão era posto na água e cremado. E assim foi feito.
Demorou alguns minutos para que Dustiel parasse de encarar o caixão que ia devagar pelo rio, enquanto era transformado em cinzas. Madatto chegou a seu lado, observando também a ida do caixão.
- Eu sinto muito – disse Madatto, — perdi o meu pai da mesma maneira.
Dustiel não disse nada, então virou-se para trás e começou a andar, enquanto Madatto o seguia.
- Temos que partir – falou, — o Senhor das Almas Perdidas não vai nos esperar.
- Que assim seja – disse Madatto.
Localizaram Damitra e se dirijam ao estábulos, aonde os cavalos agora estavam tratados e limpos. Pegaram suprimentos para uma viagem de uma semana, o que era pouco comparado ao tempo que levariam para chegar a Daldea, mas, para não ter que carregar muito peso, decidiram que na próxima cidade iriam reabastecer os suprimentos. Damitra levou uma porção de coisas que Dustiel não sabia para que serviam: flores, frascos com líquidos estranhos e ingredientes que deve ter pego na floresta. Deduziu que talvez fossem para poções, o que seria útil durante confrontos. Deram ordem para que abrissem os portões do estábulos e tomaram a estrada desgastada de pedra até o caminho principal para Daldea.
- E então – disse Dustiel, — qual será nosso caminho?
- Pegar a estrada principal até Daldea ficaria muito difícil – explicou Damitra, — por isso encontramos vários jeitos de cortar o caminho e apesar de perigoso, podemos nos virar sozinhos.
- Qual seriam esses atalhos?
- Primeiramente, há um jeito de chegar em Tohri, a próxima cidade, em menos de duas semanas. Cortaremos caminho pela Floresta do Leste, logo depois que sairmos das montanhas. Deveremos tomar cuidado, pois dizem haver criaturas perigos por lá. Depois de chegarmos a Tohri, iremos pelo Rio Duhk até o Túmulo de Misvar. Então, dentro de quatro dias estaremos na próxima cidade, Mish. Os próximos passos serão decididos depois.
- Túmulo de Misvar? Estão loucos?
- É o jeito mais rápido – disse Madatto, — e apesar de perigoso, já enfrentamos coisas piores, não se preocupe.
Dustiel ficou preocupado em saber que teriam de passar pelo Túmulo de Misvar. Segundo uma lenda local, o próprio Misvar, apesar de morto, ainda andava pelos corredores da caverna. Além disso, alguns disseram que haviam vários martos ( criaturas que lembram gárgulas ) por lá.
- Se eu voltar vivo – disse Dustiel, — agradecerei aos deuses por esse milagre.
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