Um Amor que Cura
17 Viagem Inesperada
Notas iniciais
Os dias no chalé foram os melhores dias da vida de Alberto, a alegria compartilhada, os sonhos planejados, as juras de amor intensas. Adélia era doce e ousada na medida certa e agora em seu escritório por vezes se perdia pensando nela e em como tudo parecia perfeito ainda que no inicio parecesse uma tragédia anunciada, seu pensamento voou até o dia do casamento e a raiva que sentia das mulheres, agora não existiam mulheres só existia Adélia, única e maravilhosa, com uma história que ele no fundo sentia até um pouco de inveja, pois o amor por Joab tinha feito com que ela enfrentasse os preconceitos de uma sociedade racista e machista, mesmo com final triste era como ela mesmo disse uma história marcada em sua própria pele. Uma batida na porta fez com que Alberto retornasse a realidade.
–Nestor? – ele surpreende-se com a visita do amigo que havia viajado para capital enquanto ele estivera fora com Adélia. – Que bons ventos da capital te trazem aqui meu amigo.
–Alberto na verdade não são bons ventos, tenho uma notícia que não é das melhores e não sei como te dizer.
Alberto viu que o amigo estava abatido e com olhar sério.
–Pois diga do começo.
–É parece o certo a se fazer, mas antes de mais nada quero que saiba que eu tentei resolver tudo da melhor maneira mas não foi possível.
–Nestor está me assustando, ande homem fale.
–Na semana passada recebi uma carta endereçada a você, mas no meu endereço...
Alberto sentiu um calafrio em seu corpo só podia ser de...
–Gaia, meu amigo... ela mandou uma carta para você no meu endereço como uma vez havíamos feito quando veio passar férias com seus pais.
Alberto lembrou-se que era o noivado de uma prima e os pais exigiram a presença dele, estavam no inicio do relacionamento então deu o endereço de Nestor para que durante o período que ficasse ali eles pudessem se corresponder.
–Fui te procurar mas só encontrei a Joana que me contou que vocês tinham ido para o interior em clima de romance. Então indiscretamente abri sua carta pensando que se fosse um bilhete de amor eu pudesse ocultar de você e impedir que sua história com Adélia fosse prejudicada.
Alberto ainda em choque só chacoalhou a cabeça concordando.
–Não era uma carta de amor Alberto e sim uma notícia nada agradável.
Alberto de repente sentiu uma leve tontura, escutar falar de Gaia o deixava tenso, e agora estava apavorado com oque Nestor tinha a lhe dizer.
***
Adélia chegou do curso de enfermagem feliz, Joana havia trazido a neta para passar o dia ali, a pequena era muito linda, um sorriso encantador, ganhou o nome de Maria em homenagem a mãe de Joana, a sina dela não era das melhores, infelizmente a mãe estava numa depressão tão profunda que assustava a todos. Joana estava dividida nos cuidados com as duas, Alberto contratara uma nova ajudante fixa para ajudar Joana e não sobrecarregá-la mas ela jamais abriria mão de cuidar de Adélia que era como uma filha. Por seu lado a moça estava adorando passar as tardes livres com a bebê. Ainda mais agora que Alberto havia viajado para a capital, no começo ficou muito triste quando poucos dias depois de voltarem da lua de mel tardia, ele chegou em casa muito abatido e nervoso dizendo que precisava viajar a negócios, Nestor iria junto, outra coisa que ela não entendeu pois o amigo dele nem era do ramo de engenharia, não foram esses detalhes que a deixaram tristes e sim o afastamento do marido em si. Aquela noite ele mal tinha tocado nela. Ele mesmo arrumou algumas peças de roupa numa mala pequena e na manhã seguinte se despediu dela com um beijo e um demorado abraço.
–Meu amor, eu logo estarei de volta.
–Sentirei saudades... Tem mesmo que ir?
–Adélia...
–Tudo bem mas volte logo. -ela não queria que ele fosse mas não queria ser uma esposa dependente.
E ele se foi. Uma tristeza tomou conta de Adélia, mas a pequena Maria alegra tudo a sua volta.
Quando a tarde estava quase acabando uma visita chegou para levar a alegria de Adélia.
–Mãe, como tem passado?
–Sozinha em casa, você é mesmo uma filha desnaturada, nunca tem tempo de visitar seu mãe.
Adélia suspirou e rezou uma prece silenciosa para que Maria dormindo no andar de cima não acordasse.
–Ora mãe, bem sabe que eu e Alberto passamos a semana passada juntos e cheguei cheia de coisas para ajeitar.
–Sua madrinha você arrumou tempo para visitar... mas bem não vim aqui para lamuriar e sim para saber sobre essa viagem de seu marido.
–Como assim? — era só o que faltava pensou.
–Ora Adélia deixe de ser cabeça oca, Alberto um jovem praticamente recém-casado viaja com um amigo solteiro que está sempre com um rabo de saia diferente.
–Mamãe, pelo amor de Deus é uma viagem de negócios...
–Ouvi muitas coisas sobre a vida de Alberto na capital.
–Mãe do que está falando? Que bobagem.
–Você estava feito uma morta viva graças aquele negro...
–Chega! -Adélia levantou a ponto de expulsar a mãe.
–Saiba que seu marido vivia com outra mulher na capital.
Adélia escutou aquilo como uma flecha rasgando seu peito.
–O que? Ele... ele não me disse nada.- Adélia sentou-se sentindo um embrulho no estômago.
–Francamente, que mundo de sonhos e contos de fadas você vive? Quando seu pai ficou sabendo da viagem de Alberto logo me alertou, não foi uma viagem de trabalho, embora seu sogro tenha dito que sim, mas na mesma hora ficou aflito pois não sabia que o filho não estava na cidade.
Adélia foi sentindo-se fraca, Alberto não podia ter mentido para ela, não depois daqueles dias maravilhosos.
–E quem era essa mulher da capital mãe?
–Só sabemos de boatos, mas é uma artista, de beleza sem igual e gostos vulgares.
–Não pode ser...
–Você já devia ter engravidado Adélia já tem meses de casada e ainda não deu um herdeiro aos seus sogros. Isso afastaria qualquer possibilidade dele te deixar por outra mulher.
Adélia olhou aquela mulher sem coração na sua frente como podiam ser mãe e filha e ser tão diferentes. Ela sabia que até hoje a mãe se culpava por não ter tido um filho homem, e depois de muitas frustrações uma menina foi tudo o que lhe restou.
–Mãe está tarde e não me sinto bem.
–Claro ouve umas verdades e já fica abalada. Não sei a quem você saiu Adélia.
_________
Depois de mais alguns momentos de desconforto a mãe saiu e Adélia pode chorar no colo de Joana.
–Como ele pode esconder isso de mim Joana?
–Menina por Deus, não acredite nas coisas que sua mãe diz, ela só quer te provocar.
–Não Joana! Tem alguma coisa errada, porque ele levou o Nestor?
–Não sei... Talvez seja algum projeto novo.
–Não, ele estava muito estranho aquela noite. E foi tudo tão inesperado.
–Filha tenha calma sim, vou lhe fazer um chá, e depois você poderá descansar.
Adélia sorriu para aquela que não tinha nada parecido com ela, mas era mais mãe que a mulher que destilou seu veneno pouco antes naquela mesma sala. Ela tinha razão não poderia ficar sofrendo por antecipação esperaria Alberto voltar e conversaria com o marido.
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