Notas iniciais
-Parece que restou algo do amor entre Alberto e Gaia... Boa leitura!!!

Alberto chegou ao quarto do hotel cansado, os ritos fúnebres de Gaia foram simples, mas, mesmo assim, ele teve que fazer várias coisas para que ela não fosse enterrada como indigente. A capital estava agitada com o final da guerra e muitos conflitos se espalhavam pelo país, qualquer homem a espreita era olhado como um desertor. No quarto Nestor embalava o pequeno pacotinho nos braços afetuoso, o amigo tinha sido seu porto seguro nesses dias terríveis que antecederam a morte da mulher que um dia tinha amado.

–E então, como foi?

–Foi como tinha que ser.

–Olha só ele parou de chorar agora, estava quase tendo um ataque aqui.

–Nestor, o que vou fazer agora?

–Amigo, eu realmente não sei, mas aconselho que seja o que for que faça, a primeira coisa é falar com Adélia, contar tudo sobre Gaia, sobre a criança e sobre a morte dela.

–Não posso fazer isso... Como vou explicar que tenho um filho com outra mulher? Ela nunca vai entender!

–Se você contar a verdade como de fato ela é, tenho certeza que ela entenderá. Para isso você precisa falar com ela.

–Não sei se terei forças.

–Bom meu amigo, segure aqui o menino que vou na cozinha pegar mais uma mamadeira, antes que abra o berreiro novamente.

Nestor colocou o bebê embrulhado numa manta roxa nos braços de Alberto que logo começou a balançar o pequeno com ternura, era um menino lindo, havia sofrido mais nos três primeiros meses de vida que qualquer outra pessoa, Gaia pegou uma infecção terrível após o parto em péssimas condições, o menino foi encaminhado para uma espécie de orfanato, onde muitas crianças que perderam o pai na guerra estavam alojados, Alberto teve que mover mundos para chegar até no filho e resgatá-lo. Gaia havia engravidado ainda quando estavam juntos, mas sob ameaças do pai de Alberto preferiu se afastar e com a promessa de fama foi mais fácil, a gestação foi sofrida e o pequeno ainda nascera prematuro. Téo era um menino abaixo do peso e provavelmente com alguma infeção, precisou ser registrado em seu nome e no nome de Gaia para ser liberado, isso deixou Alberto muito preocupado como explicaria tudo isso para sua esposa. Era uma aposta alta achar que ela acreditaria em seu bom coração.

***

–Oi pequenina... Está parecendo uma princesa hoje. -Adélia brincava com Maria enquanto Joana organizava as coisas na cozinha.

–Ei está gostando de ficar aqui com a tia Adélia? Hein bonequinha?

Joana chegou e ficou observando a cena, a menina brincava com as mãos de Adélia e ria encantada. Pareciam mãe e filha, a neta com a pele toda branquinha assim como a moça que ela tinha por filha, a velha sentiu uma leve tontura ao imaginar a situação que sua filha verdadeira estava passando, iludida por um falso amor, engravidará e agora não queria mais viver.

–Joana, você está ai? Olha Maria quem chegou? A vovó! Vem vovó vem ficar com agente!

–Adélia eu ainda não acabei de organizar as coisas na cozinha, essa nova ajudante não é muito eficiente.

–Joana por favor, deixe que depois terminamos, quando essa pequena dormir, agora vem aproveitar um pouco essa fofura, antes que ela cresça e ganhe o mundo.

–Ah menina, essa dai vai ter sorte se sair viva da infância, que Deus me perdoe.

–Deus, Joana não diga uma coisa dessas!

–Minha filha está cada dia mais apática, outro dia a vi perto do bercinho onde estava Maria com uma faca nas mãos.

–Não pode ser!

–Adélia ela odeia a menina!

–Joana, isso não pode ficar assim...

–Não tenho o que fazer, não posso estar sempre junto delas.

–A não ser que...

–Que o que?

–Que a deixe aqui...

–Como assim?

–Claro Joana! Falarei com Alberto assim que ele chegar. Você já mora com a gente, tem seu cantinho, podemos aumentar, ou ela pode dormir no quarto de hospedes, montaremos um quartinho para ela, essa casa é tão enorme para nós dois.

–Querida isso é um absurdo, eu não posso ficar o tempo todo aqui, tenho que cuidar da minha filha também, e depois logo você terá seus próprios filhos.

–Não Joana, quando você estiver em casa eu cuidarei dela, e quando estiver aqui não terá problemas, filhos, terei um dia claro... — Adélia ficou pensativa.- Isso no tempo certo, agora Maria não pode correr riscos, eu a quero tão bem, fui eu que ajudei você a chegar no mundo sabia meu amor, tão pequenininha que quase cabia numa mão só! Adélia conversava com a bebê que reagia brincando com as mãozinhas e rindo para a moça.

–Bom se senhor Alberto não se opor.

–Imagina, ele vai adorar, não viu o jeito que a segurou outro dia, todo sorridente, tenho certeza que ele vai dizer sim.

–Ele faz todas as suas vontades isso sim, vai ficar mimada! -Joana brincou.

–Nunca fui mimada por meus pais, tenho que ser mimada por meu marido e minha Joana! E eu vou mimar essa mocinha linda!

Adélia fez cócegas na pequena que se contorceu gargalhando. Joana a admirava muito, com toda certeza seria uma ótima mãe.

***

Duas semanas depois

Alberto chegou em casa com sua mala na mão e um cansaço em todo seu corpo mesmo assim quando viu Adélia parecia que o mundo estava rodando na órbita certa novamente, a moça estava no piano tocando uma sinfonia calma, ele largou a mala e se escorou na porta da biblioteca e ficou admirando a doçura de sua esposa e teve medo de perder tudo isso.

Quando ela terminou ele bateu palmas assustando-a.

–Nem a melhor das orquestras transmitiria tamanha beleza em suas músicas!

–Alberto! Até que enfim! – ela estampou um enorme sorriso e correu para os braços do rapaz que a rodopiou no ar e depois a puxou para si se unindo a ela num beijo profundo.

–Pensei que não voltaria mais para mim! – ela disse delicada passando as mãos ao longo do rosto do marido. – Está tudo bem, meu amor, está com uma aparência sofrida.

–Agora está tudo bem, minha Adélia, sentir você assim perto de mim acaba com todo o sofrimento do mundo.

Uma ruga de preocupação surgiu no rosto dela.

–O que aconteceu? Problemas com Nestor, problemas na capital... – Adélia sentiu o peito doer diante da lembrança do que a mãe maldosa havia falado.

–Não, não quero pensar nisso agora... Quero só ficar com você! Posso?

–Pode? Deve! Vamos vou preparar um banho para você deve estar exausto da viagem... — ela começou a tirar o casaco dele.

–Só se você se banhar comigo. -Alberto falou atrevido.

–Claro, em algum momento pensou o contrário? – ela riu o beijando.

***

Nestor chegou na casa de Glória, irmã de Alberto, viúva, Glória morava sozinha no centro da cidade, era lá que o filho de Gaia ficaria enquanto Alberto explicasse tudo para Adélia.

–Oh meu Deus! É um príncipe esse menino!

–Príncipe com uma ótima voz, nunca vi o berreiro desse menino.

–Pobre, está com saudades da mãe, não me admira que tenha chorado tanto, olhe a pele vermelha deve ter algum tipo de alergia ou assadura, por Deus, precisarei levá-lo ao centro médico amanhã sem falta.

–E como vai explicar essa criança?

–Ora, Nestor, direi que é de uma das minhas empregadas, sei lá, inventarei uma boa mentira, agora me ajude a transpor as coisas desse lindo para o quarto ao lado do meu.

Nestor correu ajudar, fazia tempo que não via a irmã de Alberto, quando pequenos viviam todos juntos, mas ela havia se casado cedo, e o marido morto na guerra, a deixou igualmente cedo. Ela era uma mulher bonita observou e assim com o menino nos braços parecia uma esposa perfeita.

Notas finais
O.o #chocada com esse capítulo! Beijos