Notas iniciais
-Adélia viveu um amor tão grande que deixou marcas em sua vida e em sua pela... Alberto está disposta a curar essas feridas... Será que ele terá uma chance? Boa leitura!!!

O parto foi complicado, a filha de Joana não queria colaborar, pois esse filho não era desejado, Adélia ajudou e acabou fazendo o parto. Do lado de fora do casebre vários negros se reuniram para esperar o nascimento em volta de uma enorme fogueira, todos olhavam atravessado para Alberto, era um branco inimigo, mas todos trataram bem Adélia, isso o deixou curioso.

Era uma menininha linda e por mais estranho que fosse, era branca, pele quase rosada e fina parecendo um papel. Adélia entendeu na hora, aquela bebezinha era filha de algum fazendeiro, que se acham superiores e poderosos, abusam de jovens como a filha de Joana e depois as abandonam a própria sorte.

Joana deixou Adélia com a bebê e foi atender a filha, Alberto entrou percebendo que os gritos tinham acabado e encontrou a esposa com aquele pacotinho tão carinhosa e maternal que ficou com seu coração repleto de esperança e vontade de ter um filho com Adélia.

–A filha de Joana está bem?

–Vai ficar… Olhe meu amor… Que linda.- Adélia estava tão cativa na pequenina que nem percebeu o que havia falado. Alberto viu que a criança era branca e também entendeu porque a mãe estava repudiando a pobre, era fruto de alguma violência, a pequenina dormia aconchegada nos braços dela, e as palavras “meu amor” palpitavam em sua mente.

Quando Joana voltou se despediram, pois ela ficaria com a neta aquela noite, na saída da vila, vários homens e mulheres estavam observando os dois, Alberto puxou Adélia perto de si e foram andando rápido até uma voz escutarem.

–Adélia…

Adélia parou e olhou sim ela sabia quem era a mãe de Joab, estava escuro apenas as chamas da fogueira, mas ela reconheceu aquela mulher na mesma hora.

–Parece que você está muito bem. — a mulher disse com fúria.

–Adélia, vamos?! -Alberto a puxou mas ela não saiu do lugar.

–Você sabe o que ele me disse quando o vi pela última vez? Ele me disse: “Mãe se eu morrer, morrerei feliz e meu amor estará comigo.” Bobagens de apaixonados, apaixonados podem ser negros, escravos e pobres, mas sempre só falam bobagens. Ele realmente morreu… mas feliz? Não sei… agora… sozinho isso sim. Alguém reconstruiu sua vida enquanto Joab morreu por amar uma branca…

–Chega, chega.- Joana apareceu e puxou a irmã para dentro.- Desculpem vão para casa por favor, minha irmã está louca.

–Louca? Louca nada, ela matou meu filho! —a irmã de Joana blasfemava enquanto era empurrada para dentro.

Alberto puxou Adélia e conseguiu levá-la, em casa a esposa parecia em choque, ele a ajudou deitar, deu-lhe um calmante e ela logo adormeceu.

Joab, esse nome… O que significava tudo isso. Pegou o livro de Adélia e desceu para a biblioteca a fim de descobrir se ali moravam as respostas que procurava.

Morte de um negro, pelo pai da moça branca, que a prometeu em casamento a um desconhecido filho de família rica, dor e sofrimento, chibatadas, depressão, suicídio. Na história a moça tirava a própria vida. Essa não podia ser a história dela, ela estava viva não estava? Aquilo tudo deixou Alberto muito preocupado.



***



Na manhã seguinte ao acordar Adélia encontrou o marido sentado em poltrona próximo da cama, a contemplando.

–Bom dia…

–Bom dia, está sentindo-se melhor?

–Sim, ontem foi muito cansativo.

–Adélia… Quem é Joab?

As cores sumiram do rosto dela e começou a suar frio.

–Não sei do que está falando…

–Por favor, eu preciso saber ontem aquela mulher falou aquelas coisas… Eu quero entender o que aconteceu com você, porque parece tão triste quando lê sua história? Eu preciso confessar que de madrugada li o final…

–Você leu?

–Sim… E fiquei com uma sensação que aquela história era verdadeira, por favor, Adélia, eu preciso saber o que aconteceu antes de nos casarmos, porque sei que diferente da maioria das moças da sua idade, você não estava nem um pouco feliz em subir ao altar.

Alberto havia se aproximado e sentado na beirada da cama ao lado dela, aquilo era muito difícil para Adélia, mas não teve escolha.

–Joab é o filho daquela mulher, e sobrinho de Joana pelo qual eu me apaixonei… Mas não preciso te contar essa história porque na verdade eu já contei e com riqueza de detalhes, você tem razão o que você leu é o que aconteceu comigo…

–Mas o final…

Adélia puxou as mangas da camisola comprida e virou os pulsos marcados para que ele pudesse ver. Alberto tocou as cicatrizes e sentiu os olhos úmidos, ela tinha um amor que era maior que ele podia imaginar guardado nas suas memórias nem de longe se comparava a sua história com Gaia, que agora ao conhecer sua esposa chegava em alguns momentos questionar seus sentimentos de antes.

–Eu fui impedida de concluir como queria minha história… Mas era como se na verdade eu tivesse morrido…

–E ainda não esqueceu esse amor?- Alberto questionou amedrontado.

–Como poderei esquecer, está marcado na minha pele.

–Adélia eu sinto tanto por você.

Eles estavam tão perto e os olhos vidrados um no outro. Ele a puxou num abraço forte e ela retribuiu. Permaneceram assim até que devagar ele a soltou. E foi se aproximando da boca dela, quando seus lábios se tocaram, Adélia foi acometida por um choque de lembranças, a única pessoa que havia beijado foi Joab, e depois de tudo que a mãe dele havia dito, ela sentiu que estava sendo uma leviana e se afastou do marido.

Alberto a olhou com magoa, mas deu um pequeno sorriso.

–Eu preciso ir tenho um dia cheio…

–Tudo bem… — ela teve vontade de dizer que aquele amor por Joab estava marcado em sua pele, mas que agora só restavam as cicatrizes e as lembranças, mas que no lugar onde só havia escuridão e tristeza agora havia luz e alegria, que estar com ele tinha trazido das profundezas da morte aquela moça apaixonada e com vontade de sonhar, mesmo assim sentia medo e culpa.

Notas finais
Só sei sentir essa história, nada mais! Um dos meus capítulos favoritos! Beijos