Um Amor que Cura
13 Incertezas
Notas iniciais
Os dias foram passando, Joana estava cuidando da neta e no seu lugar outra moça estava ajudando com os afazeres em casa. Adélia e Alberto não falaram mais sobre Joab, e ela começou a ler um novo livro, um livro que não era dela, mas com uma linda história de amor. Eles mantinham a boa relação, ela teve medo dele não querer mais dormir no mesmo quarto que ela, mas ele não falou nada, na noite após o beijo recusado seguiu normalmente a rotina deles, mas algo estava diferente e ela sabia que era o fato dele não a olhar mais com tanta intensidade, ou não sustentar o olhar dela quando ela o olhava.
***
Alberto conversou com seu amigo sobre seus sentimentos.
–Meu amigo, essa situação deve ser muito dolorosa para ela. Você mesmo acabou de dizer que cada vez que lia as páginas dessa história, real, a voz era carregada de sofrimento.
–Eu sei disso, mas eu sinceramente achei que ela estava me dando abertura para…
–Para mostrar que a ama? – Nestor sabia que Alberto estava apaixonado por Adélia.
–Não, para me aproximar, para tocar… ah nem sei mais.- ele falou desanimado.
–Eu acredito que ela tenha deixado você se aproximar, mas de tempo ao tempo… Ela precisa curar essa cicatriz que pelo jeito ainda está aberta.
–Quando estou com ela, não existe mais nada no mundo que eu queira ter ou fazer, além de estar com ela.
–Você esqueceu a Gaia completamente?
–Não… Não esqueci claro, mas o que eu sentia por ela não tem comparação ao que sinto por Adélia, e me sinto um pouco traído…
–Traído?
–Ela deita ao meu lado e pensa em outro.
Nestor soltou uma enorme gargalhada e recebeu um olhar interrogativo do amigo.
–Ora Alberta, me de um desconto sim?! Como pode dizer isso, esse amor aconteceu antes de você, e não é possível que sinta ciúmes de um cadáver.
–Um cadáver que está marcado na pele dela, ela mesmo me disse.
–Sim, esse amor tem uma importância grandiosa para ela, mas o que está marcado é a dor, dessa moça que o pai tirou todos os sonhos.
–Você está certo, mas não vou fazer nenhuma tentativa de conseguir mais do que tenho agora.
Até porque Alberto tinha medo que ela se afastasse dele de vez, e quem sabe não quisesse mais dormir com ele, e não poder sentir a presença dela ao seu lado, seria muito pior do que qualquer coisa que estava sentindo agora.
–Vá com calma Alberto, não desista dessa mulher, que foi capaz de fazer você mudar seus conceitos com relação às mulheres em geral!
–Não mudei meus conceitos… Algumas são levianas e só querem nos usar… Mas Adélia… Tem uma beleza que está além do seu olhar, uma pureza, um encantamento.
Nestor observou o amigo falar com adoração e em seu interior desejou que Adélia vencesse seus traumas e aceitasse o amor puro que Alberto estava sentindo.
***
Uma certa manhã Adélia acordou assustada de um pesadelo como a muito não tinha, enquanto esteve na casa dos pais, pesadelos terríveis eram seus companheiros constantes, mas não acordava gritando e sim banhada em lágrimas, silenciosas que desciam pelo seu rosto deixando um rastro gelado. Por vezes Joana entrava no seu quarto e a encontrava chorando e tudo que a velha negra fazia era abraçar e beijar sua cabeça enquanto a embalava como se ela ainda tivesse 6 anos de idade. E aos poucos o choro cessava e ela seguia seu martírio. Mas desde o dia que casou com Alberto não teve mais pesadelos, mesmo antes de ter ele ao seu lado na cama, era como se estivesse protegida do ódio que imperava na casa onde cresceu vendo escravos sofrendo todo o tipo de atrocidades. Ali ela sentia-se segura, muito se devia a presença dele, ali deitado com a respiração calma, os cabelos espalhados no travesseiro, uma das mãos firme no peito e a outra pousada bem próxima de Adélia, ela deixou as lágrimas silenciosas correrem, enquanto rezava uma prece pedindo a Deus que levasse embora toda a dor que ela sentia após, em seus sonhos tumultuosos, reviver as suas piores lembranças. Olhou para Alberto que ainda dormia sereno, e sentiu seu coração bater mais apressado, teve vontade de se aconchegar em seu peito, de buscar seus lábios e resgatar aquele beijo rejeitado por ela. Mas não tinha coragem, estava dividida entre o respeito ao amor que viveu com Joab, e esse amor novo que tomava conta dela. Enquanto sua mente debatia suas dúvidas, levou a sua mão até a mão dele mais próxima, e fez um delicado carinho, com cuidado pegou a mão dele entre as suas e a trouxe até seus lábios, deu um beijo casto e algumas lágrimas molharam a pele dele, com o mesmo cuidado largou a mão de volta ao lugar.
***
Mais tarde estava no intervalo da escola técnica a cozinheira levantou o volume do rádio para escutar alguma coisa que era do interesse de todas, mas Adélia desconhecia o que era.
–O que estão ouvindo?- perguntou a uma colega.
–Adélia hoje vão fazer uma chamada de rapazes casados e sem filhos ou com apenas um filho para irem servir ao país, você não lembra cada seis meses é feito uma chamada dessas, pois os homens com mais filhos e solteiros já estão na maioria em campo de batalha.
Era verdade ela lembrou-se que foi uma iniciativa do governo para repreender aqueles que se casavam e ficavam tempo sem ter filhos para não precisarem ir para guerra, alguns até forjavam casamentos. Um estalido no coração de Adélia, a fez entrar em pânico e se Alberto fosse chamado?! As notícias das batalhas eram muito incertas naquele lugar, as vezes até esqueciam que as batalhas seguiam em outros lugares.
Ela levantou e foi até o bolo de mulheres em volta do rádio e ficou torcendo as mãos nervosa enquanto nomes diversos eram citados como numa chamada escolar, mas essa era uma chamada que poderia levar a morte.
Quando a chamada acabou, deixou se cair em uma cadeira.
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