Um Amor que Cura
39 A Escolha
Notas iniciais
Muito tempo depois Adélia se lembraria daquele dia, lembraria de detalhes que talvez devesse apagar de sua memória, como a cor amarelada das paredes que levavam até a sala de partos, as portas barulhentas de vaivém que passaram até chegar ao seu destino final, o cheiro de álcool numa mistura desagradável com formol, ela estava habituada aquela cheiro, mesmo assim o que era característico de um ambiente hospitalar ganhou lugar de “cheiro de angustia”, as lâmpadas passando sobre sua cabeça era o que mais a marcaria, não fazia ideia de onde estava indo era como se estivesse a dias seguindo naquela procissão lenta, conhecia os dois enfermeiros que a acompanhavam, os mesmos que nos dias que ficou internada se ocuparam de seus cuidados, mas tudo se transformava em borrões estranhos e desconhecidos sobre ela. O solavanco que a maca dava devido a alguma irregularidade do piso, fazia com que a dor que sentia triplicasse, estava em trabalho de parto, mas era tão cedo, não completara o oitavo mês, mas seu bebê não sobreviveria se não fosse tirado imediatamente, no quarto tinha visto o desespero nos olhos de Alberto, mas não teve tempo de dizer nada, a não ser: “Vai ficar tudo bem...” não era uma afirmação de todo e sim uma angustiante pergunta sem resposta. Joana com os olhos molhados tinha colocado um terço de pedras vermelhas em sua mão, envolvido no pulso, as contas pareciam ser um elo de fé com a mulher que tanto amava mas não impediam Adélia de chorar com medo do que estava por vim, as lágrimas empossando em seus cabelos caídos ao redor do rosto pálido com expressão de dor.
Muito tempo depois sentiria as várias mãos se unindo para ajudar seu corpo a sair da maca e ir para a mesa de cirurgia. E como as dores foram ficando insuportáveis, mesmo assim resistiu, ficou acordada escutando as orientações e fazendo força até seu coração quase parar e nada do bebê nascer, quanto mais força fazia mais fraca ficava e mais pavor sentia. O médico saiu e demorou a voltar, a parteira fazia massagem em sua barriga e uma enfermeira molhava sua testa com um pano branco. Em algum momento logo após a volta do doutor, sentiu algo gelado pouco acima da virilha e a faca cortando sua pele a dor era aguda mas suportável. Ouvia as vozes mas não identificava o que as palavras diziam, mexiam nela, em suas entranhas, e ela pensava “salvem meu bebê, salvem...”
A dor foi se intensificando e tão logo ela viu algo que imaginou ser o seu bebê, embora não escutasse choro e a pele lembrasse um azulado sem vida, perdeu os sentidos, caindo num sono inquieto onde era novamente uma menina correndo pelos campos na fazendo do pai, com um pequeno escravo e alguns outros garotos que visitavam a fazenda, Alberto também corria com ela, mas não era a mão dele que segurava e ria a cada tropeção que dava, era Joab, o menino de sorriso cálido, que a ajudou diversas vezes a subir nas árvores e comer frutas ainda no pé. Ela desejou ter olhado para o menino desajeitado de cabelos enrolados e olhos amendoados, quem sabe se tivesse amado Alberto desde o começo toda a sua vida seria diferente.
***
Alberto andava de um lado para o outro no corredor a espera de notícias, foi tudo tão rápido Adélia precisou ser operada as presas, Joana estava sentada num banco ao lado rezando e chorando sem parar.
—Alberto?! – levou um minuto para reconhecer a mãe de Adélia bem ali ao lado.
—Sogra vejo que enfim resolveu ver sua filha! – não conseguiu evitar o desprezo no tom de voz, provavelmente Nestor tinha conseguido convencê-los.
—Como haveria de ser não é mesmo?! Adélia age como uma filha sem pais, nos excluiu da vida dela, mesmo com essa malcriação não podemos ficar longe nessa hora.
Logo o sogro estava ali também e tudo ficou mais estranho, como um presságio que algo daria errado. Ele quis mandar todos embora e ficar apenas com Joana como deveria ser, se arrependeu de insistir que viessem, mas agora só podia esperar. Quase meia hora depois o doutor apareceu, sua testa suada mostrava que as coisas não estavam nada bem.
—Alberto, a situação está se complicando, não conseguiremos fazer o parto normal, receio que a criança tenha se atravessado e esteja com o pescoço enrolada no cordão umbilical.
—O que isso significa? – Alberto sentiu um peso enorme nos braços e a boca seca.
—Que não há muitas chances de seu bebê sobreviver, mesmo Adélia corre grande risco, preciso que me diga com consciência o que quer que eu faça... O médico dela em seu relatório deixou claro que Adélia quer que façamos de tudo para salvar a criança...
—O que? Meu Deus! Minha filha está louca? — a mãe de Adélia se meteu na frente de Alberto.
—Saia da minha frente! –Alberto gritou assustando a todos. – Quais as chances da criança sobreviver se colocar a vida de Adélia em segundo plano?
—Está tão louco quanto ela?! – a mãe de Adélia gritou novamente ao lado de Alberto.
—Pequenas, Alberto, a criança não tem muitas chances... Talvez viva algumas horas, temo que nem esteja totalmente formada...
—E quais as chances da minha esposa?
—Se tirarmos a criança agora, ela poderá aguentar, temos que ser rápidos, se prologarmos perderemos tanto ela quanto a criança.
—O que quer que eu diga? – ele ficou aflito sem saber o que decidir, salvar a esposa ou tentar salvar a criança.
—Salvo a mãe ou a criança., preciso que responda isso agora. — o médico falou sério.
—É lógico que salvará a minha filha...
Ele sentiu o chão abrir sob seus pés, sabia que Adélia ficaria terrivelmente abalada com a morte do bebê, mas não poderia correr o risco de ficar tanto sem a mulher quanto sem a criança.
—Alberto? – o médico insistiu vendo o empasse que ele vivia.
—Alberto seja sensato, salve a sua mulher, podem ter outros filhos! Aliais você já tem um filho bastardo!
Analisou o que a sogra dizia, apesar da provocação explicita, parecia tão aflita quanto ele.
—Salve... Salve minha mulher! – disse por fim vendo o doutro concordar e dar a meia volta enquanto ele caia de joelhos chorando no meio do corredor, tinha decidido o destino do seu filho, e o destino era a morte.
***
Adélia abriu os olhos e encontrou o olhar carinhoso de Joana, velando por ela. Estava novamente no quarto em que ficou até o parto, reconheceu a luz fraca no teto e as paredes manchadas pelo tempo eram as mesmas, mas sentia que algo estava diferente, não conseguiu dizer o que, talvez, um buque de flores brancas ao lado da porta, pareciam destoar do restante, ou então as colchas pesadas sobre seu corpo, lembrava-se vagamente que sentiu muito frio.
—Jo..a...na – a voz saiu entrecortada como se não lembrasse mais como falar.
—Shiii querida, estou aqui, está tudo bem!
Adélia tentou dizer algo mas seus olhos pesaram e adormeceu novamente. Joana sorriu triste, no leito sua menina fraca e quase sem vida após sair de uma batalha em que teve uma perda terrível, desde de pequena foi uma menina romântica e decidida, mas a vida escolheu ser cruel com ela, não tivera o amor da mãe, se apaixonou por um negro, sentiu a ira do pai, tentou contra a própria vida, casou obrigada e agora estava ali naquele quarto tentando recuperar suas forças para descobrir que havia sido apunhalada pela sua sina, o filho que tanto desejará estava morto.
—Minha menina, precisa ser forte, te amamos tanto! – a negra sussurrou acarinhando o rosto da mulher adormecida. Joana olhou o rosto de feições perfeitas e desejou que em seus sonhos ela estivesse feliz, pois ao acordar sua realidade traria uma tristeza sem fim.
***
Alberto que tinha passado as últimas vinte e quatro horas andando pelas ruas da capital, lugares que costumava andar aos risos de mãos dadas com Gaia, estava de volta ao hospital, os pais de Adélia foram para uma pousada e ainda não voltaram, ele foi até a maternidade, lá através do vidro viu diversos bebês adormecidos e um chorando como se o mundo fosse acabar, ele sorriu, lembrou-se de Téo quando o pegou nos braços pela primeira vez, o menino não parava de chorar, já os outros lembravam Maria, doce enrolada nos braços da esposa quando com custo veio ao mundo. Tudo ao seu redor estava fosco, sem vida, encostou o rosto no vidro e deixou as lágrimas descerem, o seu bebê não estava ali, era um menino, o doutor mostrou que o bebê morreu logo que tiraram de dentro da mãe, para que vivesse precisariam fazer uma intervenção muito mais complicada, e sem muitas garantias, isso implicaria a vida de Adélia, mas, mesmo assim, ele sentia os ombros doloridos pela escolha que vez, Joana e sua sogra tentaram convencer que foi o melhor, só que a agonia da escolha o machucava muito mais que a morte em si, ele teve que escolher por duas vidas que amava mais que tudo.
**
Adélia abriu novamente os olhos e dessa vez encontrou Alberto, os olhos cansados do marido a deixaram apreensiva.
—Como se sente querida?
—Fraca... Estou meio confusa...
—É normal, vai ficar tudo bem, logo iremos para casa. — ele sorriu de uma maneira nada feliz.
—Meu corpo está dolorido... E não consigo manter meus olhos... — a fraqueza venceu e seus olhos se fecharam.
Alberto segurou a mão branca entre as suas, e tirou o terço ainda estava embolado ali em seu pulso.
—O que será de nós? — ele falou para si mesmo olhando para o objeto cristão. — Será que ainda posso ter fé?

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