Um Amor que Cura
40 Ventre Vazio
Notas iniciais
Quase quarenta e oito horas após a cirurgia Adélia acordou aparentando estar um pouco melhor, com os olhos abatidos Alberto se aproximou da cama vendo sua amada despertar confusa.
—Alberto? — a voz era fraca.
—Olá meu amor, como está se sentindo?
—Fraca... E com fome... – ela falou buscando um meio sorriso.
—Fome? Isso é sinal que está melhorando...
—Não entendo... O que aconteceu? – Adélia com dificuldade sentou na cama, apoiando-se nos travesseiros que o marido arrumou vendo seu esforço. – Está tudo confuso na minha cabeça...
Alberto hesitou por um momento sem saber como falar com a esposa que o filho deles não tinha sobrevivido.
Durante um pequeno espaço de tempo em que os olhos atentos de Adélia o avaliavam para tentar entender o que estava acontecendo, um vislumbre do passado preencheu a visão da mulher, e ela se viu desesperada fazendo força para ajudar o filho a nascer. Os olhos ficaram aflitos e marejados quando ela levantou a coberta pesada e encontrou sua barriga, ainda inchada mas era obvio, vazia.
—Alberto! Nosso bebê... Nosso bebê nasceu? – Ela deu um sorriso agitado com as lágrimas descendo pelo rosto. – Está tudo bem? Está tudo bem, claro que está! Eu estou aqui, estou bem... E onde levaram nosso filho?
Ela falava e afirmava numa torrente de palavras e lágrimas. Olhou ao lado da cama onde era comum colocar o bercinho do recém nascido, e sua experiência denunciou que algo estava muito errado, sem vestígios de criança pelo quarto e seu marido com o semblante arrasado sem conseguir interagir com ela.
—Não... – disse com voz baixa depois de mais um breve silêncio.- Não...
—Adélia, precisa ficar calma... – Alberto começou, mas a voz embargada foi o que bastou para que ela entendesse tudo.
—Nãoooo... – ela gemeu baixinho prolongando a vogal com dor em seus lábios. –Meu bebê não pode ser!
Alberto sentou na cama e a puxou para seus braços com delicadeza, enquanto ela caia no choro, onde repetia interminavelmente a palavra “não” como uma prece fervorosa.
—Deixe essa dor sair meu bem... Eu estou aqui! – Alberto falou se rendendo as lágrimas também. Quem olhasse aquela cena saberia que ambos estavam sentindo uma dor jamais classificada em seu tamanho, a dor de perder um filho que era tão esperado.
**
Algum tempo depois Joana se juntou aos dois. Alberto havia sentado na cama com as costas apoiadas nos travesseiros e Adélia estava em seus braços como uma criança em choque, já não chorava, mas também não falava nada.
—Querida... Eu imagino como está se sentindo... Mas precisa ser forte, enfrentar isso, em casa há dois pequenos te esperando. -Joana segurava a mão dela e tentava colocar uma força que sabia que neste momento sua menina não estava conseguindo encontrar, a força para superar.
Ela fechou os olhos desejando que aquilo tudo fosse um pesadelo ruim e que quando acordasse tudo estaria normal novamente.
—Não deve haver nada pior que esse sentimento... Minha menina olhe para mim... Por favor!
Adélia encontrou os olhos da mulher que tanto amava, mas tudo que viu foi um borrão causado pelas lágrimas que voltaram aos seus olhos, sem que ela percebesse.
—Joana, vamos dar um tempo para ela... Acho que não está pronta para falar.
—Sim, você tem razão. Seus pais eles estão lá fora...
Adélia num ato automático virou o rosto para o peito do marido se fechando totalmente.
—Diga para eles que o melhor é deixamos as visitas para quando chegarmos em casa, amanhã cedo seguimos viagem, Adélia ganhou alta.
—Vou falar com eles.
Joana deu uma última olhada para os dois, a dor que sentia por vê-los sofrendo era semelhante a dor da perca de sua filha, estava se sentindo impotente e sem dizer nada os deixou sozinhos mais uma vez.
—Alberto? -Adélia disse procurando os olhos do rapaz.
—Sim? — ele segurou o rosto dela em suas mãos ao mesmo tempo que limpava algumas lágrimas restantes nos olhos dela.
—Quero enterrá-lo ao lado do túmulo de meus avós.
Alberto sentiu no peito uma dor imensa e puxou a de volta para seu peito.
—Faremos como você quiser, não se preocupe. Mandaremos rezar uma missa assim que chegarmos em casa.
Adélia se afastou dele mais uma vez com o rosto talhado de dor disse:
—Eu queria tanto esse bebê... Não sei se conseguirei viver assim, seria muito melhor...
—Por favor... Por favor Adélia não termine essa frase. Eu te amo tanto seria uma morte coletiva, jamais vou saber viver sem você!
Adélia sorriu dizendo.
—Ainda bem que temos um ao outro... E temos dois pequenos em casa como bem lembrou Joana, uma hora essa dor há de diminuir não é mesmo?
Ele concordou a abraçando sem ter certeza alguma que tudo isso, de fato passaria algum dia.
***
No dia seguinte Alberto e Adélia chegaram em casa, acompanhados de Joana, a casa estava silenciosa, as crianças ainda estavam com Glória e Nestor.
—Senhora eu preparei um café para tomarem... — Estela estava nervosa ao ver todos tão desolados.
—Não tenho fome... Quero tomar um banho, dormir... Que horas é a missa?
—Parece que Nestor conseguiu marcar para as seis da tarde. Meu amor precisa se alimentar ou então não terá forças para sair.
—Primeiro o banho, depois como alguma coisa. — disse resignada.
Alberto e Joana a ajudaram subir as escadas, um pequeno tremor passou por seu corpo ao passar em frente ao quarto das crianças que já estava preparado para receber o novo bebê, mesmo assim seguiu até seu quarto.
—Joana, acho que pode descer vou ajudar minha esposa no banho.
—Sim, qualquer coisa me chamem.
Assim que Joana saiu e se viram a sós no quarto Alberto e Adélia se abraçaram.
—Parece que nada mais está como antes... — ela disse sufocando seus sentimentos para que não chorasse mais uma vez.
—De fato não está... — ele disse ajeitando algumas mexas de cabelo atrás da orelha dela. — Não somos mais os mesmos que saímos daqui outro dia... Eu por exemplo te amo ainda mais.
Ela se afastou para encontrar os olhos dele e deu um sorriso carinhoso.
—Eu te amo muito... Mas acho que essa dor, tem tomado conta dos meus sentimentos... Se eu for dura e fria com você, me perdoe...
—Não seja boba, não há nada para perdoar... — ele parou pensando que talvez ele não fosse digno de falar essa palavra e resolveu mudar de assunto. — Vou preparar seu banho.
Ele depositou um beijo na testa dela e foi para o banheiro, colocou a água morna na banheira com alguns sais de banho e a chamou. Com cuidado extremo ajudou a esposa a se despir, tinha insistido em usar um vestido de luto, Joana acabou tendo que ir comprar em uma pequena loja próximo ao hospital, o vestido era liso marcando a protuberância do ventre e entregando as curvas de Adélia que não havia engordado muito durante a gestação.
Ela sentiu um arrepio quando a mão dele tocou seu ombro para deslizar o tecido pelo corpo, esse se depositou facilmente aos seus pés. Segurou a mão de Alberto e devagar mergulhou na água gostosa.
—-Você não vai se banhar?
Ele a encarou em busca da Adélia ousada que o fazia perder o foco, mas apenas encontrou a esposa de olhar resignado sem sombra de desejo nos olhos.
—Depois...
—Não, venha comigo, não quero ficar sozinha aqui...
—Eu estou aqui com você... — disse pegando a mão molhada dela entre as suas.
—Não devo estar muito atraente não é mesmo? — ela brincou.
Ele sorriu e imediatamente tratou de tirar suas roupas as deixando espalhadas pelo chão e logo se instalando na banheira com Adélia entre suas pernas. Não era algo exatamente sensual, apenas uma carícia discreta, com a esponja cheia de espuma ele esfregou suavemente as costas dela, a ajudou lavar os cabelos, e depois tirar o sabão do corpo. Por fim ficaram abraçados vivendo aquele momento, ambos querendo que não fosse real tudo que havia acontecido. Quando a água estava ficando fria ele se levantou colocou o roupão e voltou com toalhas para ajudar ela a se secar.
Adélia fazia tudo numa espécie de torpor, como se estivesse travada, ou então em câmera lenta se deixando ser manipulada, Alberto secou seu corpo e depois os cabelos, achou outro vestido preto no armário que ela vestiu e virou para que ele fechasse e os vários botões que ficavam nas costas. Eles não falaram nada durante esse processo, como se palavras fossem estragar a sintonia que estavam tendo, já vestida e calçada ela sentou em sua penteadeira e deixou que ele escovasse seus longos cabelos lisos com tamanha delicadeza que a fez se sentir bem por alguns instantes.
—Sabe... A gente pode fazer isso alguma outra vez no futuro...
—O que? — Alberto perguntou olhando para o reflexo dela no espelho.
—Você pentear meus cabelos, isso é muito bom.
—Podemos sim, quando você quiser.
—Você acha que poderei ter outros filhos? – perguntou com os olhos fixos nos dele no reflexo.
—Não vamos falar sobre isso agora...
—Está certo... Agora estou sentindo um pouco de fome.
—Vamos descer? Já estou acabando aqui. — disse passando a escova uma última vez nos fios lisos. –Você come um pouco e vai ficar mais forte.
Ela concordou em silêncio, no seu peito a ferida ficando ainda maior por constatar que provavelmente não poderia ter mais filhos.
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