Um Amor Shinobi
35 Time 7
Notas iniciais
Sasuke fitava o céu escuro.
Ainda devia ser dia, mas as monstruosas nuvens escuras que pairavam o céu davam a impressão de ser noite. Raios caíam das nuvens e iam em direção ao chão, criando enormes clarões de luz. Sasuke sentia o retumbar dos trovões remexer seu estômago. As pesadas gotas de chuva castigavam seu rosto e corpo.
Ele suspirou fracamente. Então, é assim que vou morrer?
Sasuke não conseguia mover seus membros; era como se houvessem derretido feito borracha. Ele respirava com dificuldade. A dor se alastrava por todo o corpo. Ele sentiu quando seu chakra se esvaiu completamente.
Sasuke havia lutado contra os maiores shinobis que o mundo já viu; lutou contra um dos três Sennins, Orochimaru; lutou contra membros da Akatsuki; lutou contra seu próprio irmão, Itachi, o gênio Uchiha; lutou contra o lendário Madara; lutou contra a própria mãe de Rikudou, Kaguya, que tinha os poderes equivalentes aos de uma deusa; lutou contra um dos ninjas mais fortes que já existiram: seu melhor amigo, Naruto.
Mas, de todos os centenas de adversários que enfrentou durante sua vida, aquele foi o pior. Aquele foi o que o fez perder como se fosse um genin.
Aquele foi o que o deixou à beira da morte.
Sasuke lutou bravamente contra Amanojaku. Mas, enquanto o demônio era possuído pelos poderes de Akuma, ele viu que não tinha chance. Nem seus maiores golpes funcionaram contra ele; nada funcionava contra ele.
Aquele era o fim.
Sasuke roçou a grama com as pontas dos dedos. Até esse mínimo movimento lhe causava dor.
O Uchiha sentia que, agora que estava à beira da morte, havia tido uma vida infeliz.
Quantas escolhas erradas havia cometido? Quão sozinho ele foi durante todos esses anos? Mas Sasuke sabia que não podia culpar ninguém por sua vida: ele havia escolhido se abster de felicidade.
Agora, percebia o quanto isso foi ruim.
Foram poucos os momentos que Sasuke se sentiu genuinamente feliz. Apesar de ter uma infância sofrida, ele era feliz quando possuía uma família. Ele foi feliz quando a Guerra acabou e percebeu que, enfim, havia feito uma boa escolha.
Ele era feliz quando era apenas um genin membro do Time 7.
Sasuke cerrou os olhos. O Uchiha guardara tanto ódio no coração naquela época que sequer pôde perceber que gostava da vida que tinha. Não pôde perceber que ele tinha amigos de verdade; pessoas que se importavam com ele. Pessoas que não desistiram dele até mesmo quando virou as costas.
Era justamente por esse motivo que Sasuke estava lá, à beira da morte: ele queria retribuir tudo o que recebeu. E, se morrer para atrasar Amanojaku e Akuma era a maneira, ele a faria.
O Uchiha sentiu os olhos se enxerem d’água. Ele não queria que as coisas acabassem assim. Ele queria ter tido tempo suficiente para se redimir com todos. Ele queria agradecer à Kakashi por ter sido um bom professor que o ensinou mais do que apenas técnicas ninja; ele queria agradecer à Naruto por ter sido seu melhor amigo, que não desistiu dele nem quando ele mesmo havia desistido.
Ele queria agradecer à Sakura por nunca tê-lo abandonado; por nunca ter deixado de amá-lo. Ele queria ter tempo suficiente para mostrar a ela o sentimento que ele sufocou por anos; o sentimento que ele guardou, tentando fingir que não estava lá. Mas esteve o tempo todo.
A primeira lágrima escapou do olho de Sasuke e escorreu por sua têmpora. Ele apertou os lábios.
Se eu vou morrer, devo morrer com honra.
Sasuke retirou forças de lugares que ele não sabia que tinha. Forçou seus braços e pernas pra cima e, com dificuldade, ficou de pé.
A água da chuva levava o sangue que escorria de seus ferimentos. Sua camisa estava estraçalhada. Ele mirou Amanojaku, que estava à vários metros de distância dele.
Sasuke apertou os punhos com força. Sua expressão facial era dura, mas ele não podia impedir que as lágrimas descessem por suas bochechas.
O Uchiha respirou fundo. A única coisa que passava em sua mente era ela. Seus olhos cor de esmeralda; seus cabelos cor de rosa; seu sorriso. Seu único alívio nesse momento era o de que ela estava bem longe dali à esse ponto. Ele queria que sua última lembrança fosse o rosto dela.
Sasuke abriu um sorriso quase imperceptível. Se ele houvesse aceitado viver ao lado dela antes, provavelmente teria provado essa felicidade que ele evitou por tanto tempo.
– Sakura... Eu te amo. – Sasuke sussurrou. Ele sabia que ela nunca saberia disso, mas mesmo assim; precisava afirmar para si mesmo.
Então, reunindo todas as suas forças, Sasuke partiu ao ataque.
Ele sequer conseguiu chegar perto do demônio quando foi atingido por uma onda de energia negra. Sasuke voou vários metros com o impacto. Ele sentiu a pele de seu peito queimando em uma dor terrível; mas não tinha mais forças para gritar.
Caiu no chão, imóvel.
Sasuke sentiu que era sua hora.
Fechou os olhos devagar... O céu escuro seria a última coisa que veria. Pensou ter escutado a voz de Sakura pela última vez.
Espere... Aquela era realmente a voz dela!
– Shannaroo!
Sasuke abriu os olhos e ergueu a cabeça com muita dificuldade. Sua visão turva identificou Sakura em posição de ataque à frente dele; seus punhos brilhavam com chakra.
– Espere aqui, Sasuke-kun... Dessa vez, eu vou te proteger.
Ela correu na direção de Amanokaju.
O coração fraco de Sasuke começou a bater mais rápido. Akyio deveria tê-la levado pra longe dali... Sakura não seria capaz de lutar contra aquele demônio.
Não.
Sasuke usou o que restava de suas forças se mover. Ele não conseguia mover as pernas. Arrastava-se com dificuldade. Ele tinha que protege-la.
Quando Sakura chegou perto de Amanojaku, foi golpeada pela mesma onda de energia negra. Ela foi jogada pra trás com violência.
Sasuke levantou os braços, apoiando o peso do tronco. Ele começou a entrar em desespero; aliviou-se um pouco quando viu Sakura se levantar, mas ela já tinha vários ferimentos sangrando pelo corpo. Sua expressão era determinada; seus punhos voltaram a ser envolvidos por chakra.
Ela partiu para o ataque outra vez. E, como da primeira, foi repelida pela energia escura; dessa vez, o golpe foi mais violento. Ela caiu com força contra o chão, abrindo uma cratera.
Sasuke se arrastava fracamente na direção de Sakura, mas ela estava longe demais. Ele precisava ir até ela; não podia deixar que morresse. Não podia.
A Haruno se levantou outra vez, seus ferimentos já estavam piores. Suas pernas tremiam. Ela encarava Amanojaku com ódio, mas não pareceu ter notado Sasuke. Começou a curar em ferimento em seu braço.
Mas, dessa vez, a energia veio ao encontro de Sakura, e não ao contrário. Sasuke tentou forçar sua voz para fora, tentando chama-la; mas a voz não saiu. Ele não conseguiu avisá-la.
Sasuke observou sem poder fazer nada quando a energia a golpeou.
Dessa vez, Sakura não se levantou.
Levante-se, Sakura! Fuja daqui!
O peito dela não se movia; ela não estava respirando.
Não!
A energia negra se ergueu novamente na direção de Sakura. Sasuke não conseguia se mover. Amanojaku ia matá-la.
Foi nesse momento que uma luz dourada explodiu, fazendo os olhos de Sasuke doerem.
Quando ele conseguiu olhar de novo, Naruto havia surgido. Ele estava na frente de Sakura; havia protegido-a do golpe de Amanojaku.
Sasuke não conseguia ver a expressão facial de Naruto – uma sombra cobria seu rosto. Ele ficou parado ali por alguns momentos, a luz dourada brilhando ao redor de seu corpo. Sasuke logo viu que havia algo de errado.
O tentáculo de energia negra voltou, dessa vez vindo na direção de Naruto. Ele não se moveu. Quando estava à milímetros de distância, o Uzumaki segurou a energia com a mão – algo que era quase impossível – e puxou-a com toda a força, fazendo com que Amanojaku voasse em sua direção.
Naruto socou a cara do demônio como se ele fosse um boneco de pano. Amanojaku caiu dezenas de metros pra trás, abrindo uma cratera gigante no chão.
– Você... Você não se cansa? – Naruto murmurou; ainda era impossível ver sua expressão facial.
Ele correu em direção à Amanojaku. O demônio estava sendo possuído pelo poder de Akuma, por isso não conseguia controlar seu corpo. O poder de Akuma parecia ter vida própria; estava protegendo-o.
Mas Naruto não parecia se importar.
Ele furou a grande massa de energia negra que envolvia o corpo de Amanojaku e golpeou-o violentamente; o demônio voou outra vez. Como ele estava conseguindo lutar utilizando apenas taijutsu?
– Você não se cansa de destruir tudo o que está ao seu redor?! – Naruto falou, seu tom de voz subiu.
O Uzumaki começou uma série de golpes poderosos. Parecia que ele não ia parar nunca; as explosões puderam ser vistas a quilômetros de distância. Sasuke ficou assustado. Naruto estava lutando daquele jeito por... ódio.
– Você já tirou a Hinata de mim! O que mais você quer?! HEIN?!
Finalmente, Sasuke pôde ver as pesadas lágrimas que caíam dos olhos de Naruto. A voz dele estava carregada de dor, uma dor tão profunda que quase era capaz de se sentir.
Naruto voltou a atacar Amanojaku, que não reagia. O poder de Akuma não conseguia impedi-lo de atacar. Mas Sasuke pôde ver que aquela energia negra estava machucando Naruto, da mesma maneira que havia feito com ele e Sakura.
Nesse ritmo, Naruto ia morrer.
– Você vai morrer! Vou fazer você implorar pela própria vida! – Naruto gritou. Ele não dava brechas para que o demônio reagisse; as lágrimas não paravam de descer por suas bochechas.
O rosto de Hinata era a única coisa que estava na mente de Naruto. Seus olhos, antes lindos e cheios de vida, agora vazios. Sua pele macia e sedosa ficando gelada. Seus lindos lábios ganhando uma tonalidade roxa. Seu peito parando de se mexer.
Hinata estava morta.
O Uzumaki estava louco. Ele não sabia o que fazer; perdeu a razão. Perdeu a noção de que, se ele continuasse, morreria.
Mas ele não se importava mais. Ele havia perdido seu bem mais precioso. Sua vida perdeu a cor.
O corpo de Naruto já estava cheio de cortes; a energia negra tinha a capacidade de corroer a pele, os ossos e os órgãos. O Uzumaki sangrava. Ele não se importava mais
Sasuke sabia que não podia fazer nada para salvá-lo; ele não podia fazer nada para salvar Sakura; não podia fazer nada para se salvar. Havia perdido suas forças definitivamente. Ele não queria que as coisas acabassem assim.
Sakura estava consciente, tentando curar seus ferimentos. As lágrimas transbordaram de seus olhos quando ela viu que Sasuke havia fechado os olhos e parado de se mover. Ela observou, incrédula, enquanto Naruto cavava sua própria cova ao lutar daquela forma suicida. Ela tinha que salvá-los; pelo menos uma vez, ela tinha que salvá-los.
– Sakura! – ela escutou alguém chamar. Viu Shizune e Akyio correndo até ela com dificuldade. Até mesmo àquela distância, elas eram afetadas pela energia negra: pequenos cortes se formaram espontaneamente por suas faces.
As duas se abaixaram ao lado de Sakura.
– Sakura, precisamos sair daqui rápido! – Shizune falou, tentando ajudá-la a se levantar.
A Haruno afastou os braços de Shizune com um tapa.
– Não! Não vou sair daqui! Rápido, ajudem Sasuke!
Shizune olhou o Uchiha e lançou um olhar de compaixão.
– Sakura... Não podemos ajudá-lo. – Ela murmurou. – Precisamos sair daqui.
Sakura soluçou.
– Não! Precisamos salvá-lo! – A garota cambaleou na direção do moreno, mas caiu no chão de novo; seus ferimentos eram muito graves. – Sasuke-kun!
Ela fitou Naruto novamente. Ele continuava a atacar violentamente, mas seus ferimentos eram muito graves. Ele não aguentaria por muito tempo.
Sakura soluçava descontroladamente. Ela via os dois homens que ela amou morrerem em sua frente. E não podia fazer nada.
Shizune e Akyio foram até ela novamente, agora determinadas a arrastá-la. Sakura estava atordoada demais para impedir. As duas começaram a arrastar a garota; os olhos de Shizune estavam cheios de lágrimas.
Os punhos de Naruto estavam sujos de sangue. Ele sentia que seus membros iriam parar de responder.
– Naruto! Você vai se matar! – Kurama gritou de dentro dele, entrando em desespero.
Mas Naruto não se importava mais. Ele não tinha mais Hinata. Viver não fazia sentido.
Ele viu Sakura ser arrastada para longe; viu Sasuke caído contra o chão, desacordado. Sentiu um forte sentimento de culpa se apoderar dele. Naruto sabia que ia morrer, mas iria levar Amanojaku junto. Era a única maneira.
Amigos, me desculpem. Ele pensou.
Ele entrou em posição e começou a criar um jutsu. Reuniu todo o chakra que lhe restava – o que não era pouco.
– Naruto, você enlouqueceu?! Pare com isso! Usar essa quantidade de chakra vai te matar! – Kurama gritou.
Naruto não olhou para a raposa-demônio. Sentia uma dor enorme em ter que fazer isso. Sem se virar, disse:
– Kurama... Me desculpe. Fico feliz em ter sido seu Jinchuuriki... Ter sido seu amigo. Agora, você poderá ser livre... Me desculpe.
Kyuubi não conseguiu impedi-lo.
Sakura olhou para aquela quantidade monstruosa de chakra que Naruto estava concentrando. Ela arregalou os olhos; percebeu o que ele pretendia. Antes que Shizune e Akyio pudessem segura-la, Sakura fugiu dos braços delas e correu em direção ao Sasuke.
Shizune começou a correr na direção da Haruno, mas Akyio a impediu.
– Deixe-a! Sakura escolheu passar seus últimos momentos com o homem que ama! Não podemos negar isso dela!
Uma lágrima escorreu pela bochecha da morena.
– M-Mas...
– Se ficarmos aqui, vamos morrer. Ande logo, Shizune! Não podemos fazer nada!
Akyio também mostrava dor em sua voz. Apesar de não conhecer nenhum deles, podia ver o triste destino que os aguardava.
Shizune olhou Sakura, que corria em direção ao corpo de Sasuke. Lembrou-se da menina que Sakura era; da garota que se esforçou para se tornar uma boa ninja médica; da garota que sabia ser uma boa amiga, uma boa kunoichi. Lembrou-se do quanto ela se parecia com Tsunade.
Shizune olhou para Naruto, que ainda juntava aquela quantidade absurda de chakra. Lembrou-se do menino que sempre foi subestimado; do garotinho órfão que não tinha ninguém; o garoto que, aos poucos, foi conquistando a confiança da vila, que foi criando amigos de verdade. O garoto que havia se esforçado e se tornado forte, muito forte. O garoto que sempre escolheu os amigos em primeiro lugar. O garoto que havia se tornado o herói de Konoha e de todo o mundo.
E, por fim, Shizune olhou Sasuke, que estava caído contra a grama. Lembrou-se do passado terrível que o garoto teve; lembrou-se que isso fez com que seu coração escurecesse e que ele perdesse o prazer de viver. Lembrou-se de todas as escolhas erradas que havia cometido; de como ele ficou forte, mas com as intenções erradas. Mas, no final, fez a escolha certa.
Aqueles três eram os novos Sennins. Eram ninjas honrados. Eram o Time 7. E Shizune percebeu que não podia fazer nada para impedir o que estava por vir.
Com uma dor enorme no coração e lágrimas nos olhos, Shizune virou-se e começou a correr atrás de Akyio.
Sakura enfim alcançou Sasuke.
Ela sentou-se ao seu lado; pegou-o nos braços, apoiando o corpo dele nas coxas. Sasuke não se movia. As lágrimas de Sakura se misturavam com a água da chuva que caía. Ela passou a mão no rosto de Sasuke carinhosamente, tirando mechas de cabelo preto da frente de sua face. Aquele era o homem que a fez sofrer tanto, que ela amou tanto, e que sempre a rejeitou. Mas que, no final, acabou ficando ao seu lado; talvez não do jeito que ela queria, mas ficou.
Sakura pressionou seus lábios nos lábios frios de Sasuke.
– Eu te amo, Sasuke-kun. Sempre vou amar. – Ela murmurou, trêmula.
O jutsu de Naruto estava pronto.
Ele pulou vários metros no ar, pronto para atacar pela última vez. As lágrimas pesadas manchavam seu rosto. Naruto partiria sem realizar seu maior sonho: se tornar Hokage. Mas ele iria salvar sua vila e todo o mundo.
É o fim.
O sorriso sereno de Hinata pairava em sua mente. O pensamento de que ele iria encontra-la do outro lado era a única coisa que compensava tamanha dor.
É o fim.
Naruto soltou um grito tão forte que fez com que sua garganta doesse. Ele voou na direção de Amanojaku. Fechou os olhos com força.
Me desculpem. Me desculpem.
É o fim.
A explosão foi tão grande que fez com que tudo voasse para longe; pôde ser vista até mesmo nos países vizinhos.
A luz azul iluminou o mundo.
É o fim.
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