Um Amor Complicado.
20 Capítulo 20 - Reviravolta.
Notas iniciais
Capítulo 20
Do lado de fora da piscina, espero do meu treinador a permissão para entrar na piscina. Isso acontece porque, duas vezes por semana, a piscina aquecida é ocupada por senhores e senhoras de terceira idade, praticantes da hidroginástica.
Quando o exercício acaba, todos começam a sair devagar. Uma das velhinhas escorrega na escada e quase cai, porém eu consigo segurá-la. Ela segura minha cintura e se apoia em mim, para poder se firmar.
– Machucou? – pergunto. Rindo de si mesma, ela nega.
– Não, eu estou bem. Você me segurou no momento certo, rapazinho! – fala, totalmente alegre. Sorrio de volta.
– Que bom. – respondo. – Desculpe-me pela pergunta, mas... A senhora tem quantos anos?
– Me responda você!
– Eu tenho 22, por enquanto. Faço 23 em novembro. – respondo. Ela parece impressionada.
– Tão novinho e com essa cara de homem feito! Você tem a idade do meu neto mais novo! – responde. – Eu tenho 89 anos muito bem vividos, meu filho.
– Nossa. Espero chegar na sua idade com toda essa força. – admiro.
– Está pensando longe, querido. Porque não pensa no seu presente? Está na faculdade? Já atingiu seus objetivos? E sua vida amorosa? – pergunta, fazendo-me pensar. – Na sua idade, a única coisa que importava para mim era vivenciar tudo o que pudesse e ser feliz.
– Vai ver que é por isso que viveu tanto, né?
– Ah, pode ser... Bom, não liga para o que eu falo, não. Eu já estou lelé da cuca. Tenho um monte de doença nos ossos, artrite, labirintite, bronquite, tudo com “ite”... Bom, enfim. Tenho que fazer o almoço para o meu marido.
– A senhora é casada? – pergunto. Ela ri.
– Infelizmente sim! Há 68 anos! – responde. – Eu já não ligo, não sei o que é sexo há uns quarenta anos, nós brigávamos muito... Mas a gente aprende a perdoar, né? A vida é feita disso, e eu sou a prova viva. Pelo menos por enquanto.
Ela cai na risada e eu sorrio.
– Vou indo. Boa sorte, garotão! – fala. Ela puxa meu rosto e beija minha bochecha. Sinto seu cheiro de sabonete e talvez... Amendoim.
Ela se vai e eu aceno.
“Está pensando longe, querido. Porque não pensa no seu presente?”
Meu presente...
Faz quase três meses que eu não falo com Sanji. Ele vai ao clube, trabalha, mas sua renda diminuiu muito. Nami diz que ele está tentando mudar, mas eu sinceramente não acredito em nenhuma palavra. Acredito que as pessoas possam mudar, mas ele demorou muito.
Ela diz que ele está melhorando, mas sei que está mentindo, e isso me preocupa. Quase toda semana eu vejo Chopper preocupado, correndo até o apartamento dele. Ouvi dizer que ele voltou a fumar e, pelo que sei, ele não encontra mulheres há muito tempo.
Mesmo com tudo isso, não consigo juntar coragem suficiente para procurá-lo. O medo da rejeição e meus rancores não me deixam seguir minha vida.
Porque, por mais que eu tente todos os dias, horas e minutos, Sanji não sai da minha cabeça. Meu cérebro insiste em resgatar memórias de seu sorriso, seus gestos carinhosos, seu jeito irritado, o gosto de seus lábios, seu cheiro... Tudo. Lembro-me de tudo, nitidamente. E sinto muitas saudades.
Por mais que eu não queira, eu o amo mais do que minha cabeça e coração podem suportar.
– Zoro, pode entrar! Quer que eu conte seu tempo? – pergunta o treinador. Eu suspiro.
– Não, hoje não. Quero só relaxar um pouco. – respondo. Ele assente.
– Você manda. – diz ele, colocando a mão em meu ombro.
Entro na piscina, sentindo toda aquela água em minha volta. Deito-me sobre a sua superfície, meu corpo tão mole que chego a boiar facilmente.
Ah, estou exausto.
Depois de alguns minutos, o treinador vem em minha direção, com meu celular em mãos.
– Estava tocando lá dentro, no vestiário. – fala. Eu pego o celular vejo as cinco ligações perdidas. Três do Law, duas do Luffy.
Eles nunca me ligam. Por quê agora?
Retorno a ligação para o Luffy, e ele atende em poucos toques.
– Zoro! – exclama, feliz como sempre. – Onde você está?
– No momento, estou em uma piscina. Que foi?
– Ah, queria estar numa piscina agora também... – fala, e eu sorrio um pouco. – Ah, é. Liguei para te chamar para vir aqui em casa hoje! Eu convidei todo mundo, porque preciso de um bom motivo para o Sanji cozinhar o tanto de carne que eu quero comer!
– Isso é bem típico de você. – falo. Hesito e suspiro. – Eu vou. Que horas?
– Sei lá. O pessoal vai começar a chegar daqui uns dez minutos, já é quase de noite.
– Eu vou me atrasar um pouco, então. Estou de carro, e nesse horário tem muito trânsito. Mas vou sair daqui agora mesmo. – aviso. – Luffy, não coma toda a carne.
– Hm... Não sei se vou conseguir, Zoro... – fala. Parece triste por não poder comer tudo.
– Diz pro Law que eu disse para ele prender você um pouco. – respondo, sorrindo minimamente.
– TORAO, O ZORO DISSE PARA VOCÊ ME PRENDER UM POUCO! – grita ele, fazendo meu ouvido apitar com o volume da voz. Ouço uma voz ao fundo. – Eu não entendi direito, mas ele disse que vai fazer isso direitinho.
– Okay... Tchau, Luffy. – falo, rindo sozinho. Dou um último mergulho e saio da piscina, tirando minha touca de mergulho.
– Já vai, Zoro? – pergunta o treinador.
– É, apareceu algo para eu fazer. Tenho que correr, senão não vai sobrar comida para mim.
Ele ri.
– Certo. Até amanhã, então. Se cuida.
– Valeu, treinador.
Vou até o vestiário e tomo um banho rápido. Com a mesma rapidez, seco-me e coloco uma calça jeans, uma camiseta preta e meu tênis.
Seco meu cabelo e guardo minha toalha na mochila. Coloco-a nas costas e fecho o armário.
Ao chegar no meu carro, jogo a mochila no banco de trás e sento-me na frente, apertando o cinto de segurança.
Hoje eu o verei, depois de quase três meses sem nem ao menos trocar uma palavra.
Meu coração acelera.
Sua risada gostosa acaba ecoando em minha cabeça, e eu sorrio sozinho com a lembrança doce.

Duas horas depois...
Quando consigo entrar na rua correta, suspiro de alívio. O trânsito que enfrentei me faz sentir exausto mentalmente.
O GPS me pede para andar mais alguns metros, e quando estaciono, a mulher diz: “Você chegou ao seu destino”.
Luffy mora em uma casa grande, porém de fachada já restaurada, pois a residência antes foi de seu avô, e agora ele vive nela com Law e Ace.
A única coisa que sempre achei esquisito é que a casa fica numa rua movimentada, com muitos carros, caminhões e ônibus trafegando o tempo inteiro. Em circunstâncias normais da atualidade, a casa já teria dado lugar a um prédio gigantesco.
Pego minha mochila no banco de trás e fecho o carro, ativando o alarme. Espero o farol se fechar para os carros e atravesso a rua, andando pela calçada até parar na varanda da casa.
Aperto a campainha e ouço uma enorme confusão. De repente e de supetão, Luffy abre a porta, com um enorme pedaço de carne na boca.
– O ZORO CHEGOU! – grita. Assusto-me com seu grito. Acho que me desacostumei com toda a intensidade dele. Feliz o tempo inteiro. – YAHOOOOOO!
Acabo rindo de sua reação.
Sinto duas mãos segurarem meu braço esquerdo e me puxarem para dentro, e é quando vejo que é a Nami, já meio bêbada.
– Zoro, você veio! – exclama, feliz. A música é alegre e alta.
Olho para a sala e vejo Chopper dançando com um palito em cada narina, esticando a boca para baixo. Franky está tentando imitar um robô dançarino, mas por mais que ele seja um ciborgue, sua tentativa é um fracasso.
Brook está tocando seu violino, ao invés da guitarra. Robin, sentada ao lado de Law. Vejo-a sorrir para mim. Do jeito que ela é pessimista e ele é maníaco, devem estar conversando sobre vísceras, sangue e morte.
Nami tenta acompanhar a dança de Chopper, junto com Usopp (que agora se juntou). Luffy não consegue parar de comer.
Ah, como eu senti falta disso. Sinto-me em casa.
Olho para os lados, mas não vejo Sanji em canto nenhum. Não que eu quisesse vê-lo. Eu só... Queria perguntar onde está minha bebida.
O simples fato de estar no mesmo lugar que ele faz meu coração acelerar.
Respiro fundo.
– Luffy, tem problema se eu dormir aqui? Posso dormir na sala, depois que todos forem embora. – falo. Ele engole um pedaço de carne e sorri abertamente.
– Que isso, Zoro! Pode dormir no meu quarto! – exclama. Eu o olho.
Às minhas costas, sinto uma aura maligna vinda de Law.
– Melhor não, vá por mim. Não quero arranjar briga tão cedo. – falo. Seu rosto vira uma interrogação.
– Por que não? – pergunta, inocente. Apenas sorrio.
– Por nada, Luffy. Vou deixar minha mochila no seu quarto, porque vou tomar banho depois.
Saio da confusão alegre e vou na direção dos quartos. Subo as escadas para o andar de cima e passo pela primeira porta do corredor, sabendo que é o do Garp, que nunca está presente por ser Vice-Almirante da Marinha. Continuo andando e vejo um quarto aberto. Nele, uma pessoa está deitada na cama assistindo TV. Ele me vê e acena por um momento, pausando o filme.
– E aí, Zoro? – pergunta, sorrindo como sempre. – Beleza?
– Como sempre, Ace. Por que não está na festa? – pergunto. Ele dá de ombros.
– Eu achei um filme muito legal aqui. E o Luffy deve se divertir sem mim, às vezes.
– Ele tem quase 21 anos, cara. Pra quê essa frescura?
Ele suspira.
– Está bem, eu admito. Esse filme é muito bom! – exclama, animado. – Tem um lance de navio, com luta, e aí o capitão é muito foda, e do nada ele perde o navio, aí vem uma maluca e invoca um polvo gigante...
– Espera. Não entendi nada. – falo, rindo. – Que filme?
– Piratas do Caribe! – responde.
– Imaginei. – falo, ainda rindo. – Bom, preciso fazer algumas coisas. Depois a gente conversa mais.
Caramba. Ele e o Luffy são iguais, em personalidade.
Chego ao quarto e deixo minha mochila, pegando só meu celular no bolso da frente.
Olho ao redor do cômodo e encontro uma cama totalmente desarrumada, além de um homem na sacada, de costas para mim. Pelo que me parece, Sanji está apenas observando o céu e a rua.
Observo suas costas.
Está vestindo uma camiseta e uma calça de moletom, além de chinelos nos pés. Parece relaxado, e chego à conclusão de que ele também vai dormir aqui.
Guardo o celular no bolso da calça e saio dali, indo em direção à sala outra vez.
Luffy agora está dançando junto aos outros. Quase vou até lá, mas percebo uma nova presença. No sofá, ao lado de Robin, consigo ver uma mulher de cabelos escuros, de costas. Elas conversam junto à Nami.
Ando até lá e vejo que é Violet, a mulher que conheci na mesma noite em que conheci Sanji.
– Ah, Zoro! — exclama Nami, ao me ver chegando. – Lembra da Violet? Vocês se conheceram há um tempinho, já.
Sorrio para a mulher.
– Claro. Olá, Violet. – falo, dando um aceno de cabeça simples. Ela cora.
Provavelmente veio atrás do Sanji. Por que a Nami trouxe essa mulher?
– Eu vou pegar algo para beber. Vocês querem algo? – pergunto, por educação. Todas negam, então eu vou até a cozinha e busco minha garrafa de saquê.
Ali mesmo, bebo a garrafa inteira. É isso ou vou ficar com a cara virada para Violet a noite inteira. Preciso de uma distração.
– Zoro! – ouço. Nami vem correndo pelo corredor, apressada. Ela me encontra e se apoia em meus braços para não cair.
– O que foi? – pergunto, curioso. Seu rosto ostenta uma expressão maliciosa.
– Imagino que você já sabe o motivo de eu ter trazido a Violet aqui, né? – pergunta. Eu suspiro, deixando a garrafa vazia sobre a pia.
– Foi mal, Nami. Não vai rolar. – falo, desmontando seu ânimo. – Não estou no clima.
– Como assim? Você é homem! Homens estão no “clima” o tempo inteiro. – responde, colocando as mãos na cintura.
– É. Mas hoje é uma exceção. – respondo, abrindo a geladeira à procura de algo gelado para beber.
– Vai me dizer então que, se por acaso eu quisesse transar com você agora, você não aceitaria? – pergunta. Eu a olho pelo canto dos olhos. Sim, está bem bêbada. – Mesmo que eu tirasse a roupa na sua frente?
– Não. Eu te levaria para a cama e te colocaria para dormir. Já fiz isso algumas vezes. – respondo, abrindo uma garrafa de vinho tinto.
– E se fosse a Robin? – pergunta.
– Bom, a Robin nunca ficaria bêbada até chegar neste ponto. Se ela estivesse em sã consciência, com certeza. – respondo novamente. Ela parece surpresa.
– Mas isso iria estragar totalmente a amizade de vocês! – fala, indignada. Eu sorrio.
– Se uma amizade é forte e verdadeira, não é um pau que vai romper um laço desses. Não concorda? – pergunto, bebendo um pouco do vinho. Sinto-o descer gelado por minha garganta.
Ela ri.
– Então por que não tenta com a Violet? Ela é bonita, educada...
– Não. – respondo, imediatamente.
– Por quê? – pergunta, intrigada.
– Você realmente acha que eu conseguiria ficar com alguém que já beijou e fez outras coisas a mais com o Sanji? – respondo, com outra pergunta. Ela finalmente entende e suspira.
– Está certo. Verdade. Não sei onde eu estava com a cabeça. – diz ela, com as mãos no rosto.
– Volte para a sala. Suas amigas estão te esperando. – sugiro. Ela assente e faz o que peço, dando as costas.
Quase no mesmo instante, Luffy aparece.
– Zoro, não roube minha comida! – reclama, fazendo uma careta.
– Não estou roubando sua comida! Estou bebendo! – exclamo. Ele ri.
– Aconteceu alguma coisa? Zoro, você está estranho... – observa, olhando meu rosto. – Parece um morto. Meio pálido, sei lá.
– Obrigado pela sinceridade, Luffy. – falo, rindo. – Mas fica tranquilo. Estou perfeitamente bem.
– No inferno que está. – responde Law, chegando na cozinha e se intrometendo descaradamente. – Luffy-ya tem razão. Você está abatido. Quando foi a última vez que comeu alguma coisa?
A intensidade de suas perguntas me irrita um pouco, mas lembro-me que ele salvou a vida de Sanji, e me acalmo.
– Na verdade, eu não sei. Tenho treinado muito esses dias. – falo.
– É, dá para ver. Olha, eu sei eu você está passando por uma fase difícil, mas não deveria parar de comer. Nunca desmaiou? – pergunta.
Eu nego.
– Não. Eu sempre tenho uma reserva de nutrientes suficiente para não enfraquecer. Por isso não perco massa muscular. – explico.
– Não duvido nada que esteja anêmico. Assim como o cozinheiro. – fala, respirando fundo.
A informação me passa despercebida, até eu pensar novamente nela e interromper meu gole de vinho.
– Espera. O que você disse?
– Falei que você pode estar anêmico. – repete. Eu nego.
– Não. A outra parte. – peço.
– Sobre o Cook? – pergunta. Eu assinto. – Ele está com anemia.
A informação confirmada me deixa atônito.
– Uau. – deixo escapar, meio assustado. – Caralho.
– Pois é. Há alguns meses ele estava completamente saudável. – fala Law. Sinto suas palavras ácidas numa clara indireta. Encaro-o por alguns segundos.
– Está querendo dizer alguma coisa? – pergunto.
Pelo meu campo de visão, vejo Luffy morder mais um pedaço de carne.
– Não estou querendo dizer. Estou dizendo. – responde, áspero. – Zoro-ya, estou falado sério e sendo totalmente franco. Sei que sua vida não tem nada a ver comigo, e que eu não deveria estar me metendo.
– Hm.
– Mas até quando pretende forçar essa situação? – pergunta. – Caso você não tenha percebido, você dois não vão para frente de forma nenhuma, se continuarem separados. Você acabará rompendo seus músculos, com tanto esforço. E Sanji ficará tão magro e doente que parecerá um paciente em estado terminal.
Nossa. Otimismo sempre muito tocante. Law me irrita, e sei o motivo. Toda a informação jogada sobre meus ombros é verdadeira, e perceber o quanto fui negligente com nossa situação me deixa enraivecido.
– Quando pretende viver novamente? – pergunta.
– Está dizendo que eu deveria ir falar com ele? – pergunto de volta, desconfortável.
Ele me responde primeiramente com um olhar pesado, mas cúmplice.
– Estou dizendo que você deveria pensar no bem de vocês dois. São jovens demais para estarem assim. – fala, dando de ombros. – Um de vocês tem que tomar uma atitude, e eu tenho certeza que ele não tem força para isso.
Olho-o por mais um momento e encaro Luffy em seguida, segurando seu ombro com uma mão. Quase sorrio.
– Você fez um ótimo trabalho de manutenção aqui, Capitão. Ele é outra pessoa. – falo. Luffy não entende nada, mas sorri abertamente.
Law me estende a mão, que eu aperto, agradecido.
– Seja paciente. – aconselha. Eu sorrio em resposta e saio da cozinha.
Pensando bem, não entendo a lógica do Law. Ele me manda ser rápido e falar com Sanji logo, mas pede para eu ser paciente. Qual dos conselhos eu sigo?
Calmamente e devagar, passo pela sala e subo as escadas, passando novamente pelo quarto de Garp e Ace. Quando chego no quarto do Luffy, respiro fundo ao ver Sanji na mesma posição de antes.
Adentro ao cômodo e fecho a porta atrás de mim. Ele não me ouve, por causa do barulho dos carros.
Com cuidado para não fazer barulho no assoalho, ando até ele e coloco as duas mãos em suas costas, perto do quadril. Ele se vira de repente, e nossos rostos ficam a centímetros de distância. Meu nariz quase encosta no dele, e consigo sentir o cheiro de cigarro em sua boca, cabelo, roupas e até na pele. Minha pele chega a formigar de desejo.
– Zoro. – murmura. Meu nome escapa de seus lábios como um suspiro de saudades.
Subo minhas mãos por sua barriga e envolvo seu tronco com meus braços. Ele está gelado, mas a sensação de sua pele contra a minha me deixa extasiado.
– Você emagreceu. Muito. – observo. Seu rosto é a única parte de seu corpo que não mudou. Continua lindo como sempre, porém com olheiras profundas.
Ele suspira.
– E você? Para quê todas essas veias? – pergunta, passando as mãos por meus braços. – Você parece pálido.
Suas mãos em meus braços quase me fazem perder o controle. Respiro fundo, controlando-me para não jogá-lo na cama e fazer amor até amanhã.
– E você parece bulímico. – respondo.
– Bingo. – responde, sorrindo um pouco.
– Já faz uns três meses. – comento. A sensação de tê-lo em meus braços novamente deixa meu corpo inteiro alerta, minha ereção quase pronta. Por mais que seu cheiro natural esteja camuflado pelo cheiro do cigarro, eu adoro. Adoro seu cheiro, seu aroma.
– Eu sei que isso vai parecer ridículo demais, mas... Como você tem passado? – pergunto, corando um pouco. Percebo minha voz mais rouca do que normal. Seus olhos sustentam um brilho de divertimento.
– Bom... Como você pode ver, eu não morri. Pelo menos, não ainda. – responde. Ele parece meio... Dolorido. Como se algo o incomodasse por dentro.
– Não foi uma resposta satisfatória. – falo. Com os braços ainda em torno dele, sinto sua barriga roncar fortemente. – Como imaginei.
Ele cora violentamente. Meu Deus, como eu senti saudade disso.
– N-Não é nada. – diz ele, ainda corado. – Eu te encontro depois de tanto tempo e meu corpo me faz passar uma vergonha dessas. Obrigado, estômago.
Apenas sorrio.
– Você precisa de abastecimento, estômago do Ero-Cook. – falo, tocando sua barriga.
Minha vontade é de tocá-lo por inteiro, mas não posso ainda. Subir para seu peito, acariciar sua nuca, beijar seu pescoço, segurar sua bunda... Mas não posso ainda.
– Eu vou buscar algo mais leve na loja de conveniência. Você não pode comer essas carnes todas que assou, senão vai vomitar tudo.
Usando quase toda a minha força, solto-o e dou um passo para trás.
– Espera. – pede.
– O que foi?
– Você... Não pode fazer isso. – fala. Está desconfortável. – Não depois de tudo que eu te fiz. Eu não mereço seus cuidados, Marimo.
Sorrio. Sinto-me feliz.
Ando em sua direção novamente e o seguro contra mim, encontrando seus lábios e dando-lhe um selinho demorado.
– A gente conversa sobre isso depois. Sua fome está impaciente. – brinco, soltando-o novamente. Antes que ele me peça para ficar e eu ceda, saio do quarto rapidamente. Pego meu dinheiro na sala e abro a porta.
– Luffy, vou sair um pouco. – aviso. Ele aceita, dando-me a chave da casa, para quando eu voltar não precisar esperar.
POV Sanji
Zoro me deixa no quarto, completamente sem ação. Acho que estou até assustado com sua abordagem repentina.
Acima de tudo, estou assustado com o que senti quando ele me abraçou, segurou-me, olhou-me... Ele não parecia bravo, irritado ou ressentido. Estava só sendo Zoro.
Meu coração ainda bate forte em meu peito. Sinto minha pulsação em meus pulsos, e minha respiração está desregulada. Eu não sei o que está acontecendo. Estou estranho.
Não pensei nisso durante muito tempo, mas... O que ele representa para mim? Eu sempre soube que ele era importante para mim e que seu sexo é incrível, mas não foi isso que fez meu coração acelerar deste jeito.
Eu estou morrendo de saudades. É isso que está acontecendo. Preciso dele perto de mim.
Sorrindo bobamente, toco meus lábios com a ponta dos dedos. Só de tocar a pele dele, me sinto mais vivo.
Meu Deus, como eu senti falta disso.
Ainda sustentando meu sorriso idiota, viro-me para o muro da sacada.
Olho para o céu, brilhante pelas estrelas. O barulho dos carros, ônibus e alguns caminhões pesados me distraem.
Dirijo meu olhar para mais para baixo, e vejo Zoro na calçada, se preparando para atravessar a rua com mais duas pessoas. Um carro para no farol, do lado esquerdo da rua. Outro, do lado direito. A faixa do meio se encontra livre.
Zoro dá alguns passos na faixa de pedestres. O casal anda na sua frente, despreocupado. Vejo o farol anterior se abrir e os carros começarem a andar. Uma carreta vem em uma velocidade muito maior do que a permitida.
E a partir daí, tudo fica em câmera lenta. A carreta chega cada vez mais rápido.
O casal, ao invés de se apressar, parece mais lento. A mulher se ajoelha na rua e começa e amarrar o tênis. Zoro, logo atrás, percebe a aproximação do caminhão tarde demais. O homem corre, mas a mulher continua amarrando o cadarço.
Zoro a segura por baixo dos braços, levanta-a e a joga no colo do homem. Porém, a única coisa que tem tempo de fazer é dar um passo para frente. O para-choque da carreta o acerta em cheio, e Zoro desaparece embaixo do veículo.
No mesmo momento ouço o som dos pneus freando com força, e por fim, o caminhão derrapa e capota.
Meus olhos percorrem o asfalto à procura dele. E sim, eu o acho. Um soluço e um grito se prendem em minha garganta.
Sem qualquer ar nos pulmões, saio do quarto correndo como nunca antes e desço as escadas, passando pela sala. Minhas panturrilhas quase gritam de dor.
Quando abro a porta e deparo-me com a cena de Zoro caído no asfalto, o desespero toma conta de meu cérebro.
Não. Não. Ele não pode ter morrido. Não agora. Não pode ser.
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