Quando alcançamos uma distância boa do colégio, parei a bicicleta e deixamos que as gargalhadas tomassem conta daquela rua vazia, ficamos rindo durante alguns minutos, lembrando de cada cena daquilo. De Nico caindo na piscina, seus servos correndo para ajudá-lo e da maioria das pessoas rindo de sua cara.

— Foi mais legal do que eu pensei. Ramona, você é incrível! – Sara disse em meio aos risos.

— Ai ai, obrigada! Foi difícil, viu? Não é agradável ficar beijando Nico.

— Imagino, mas valeu a pena, né?

— Com certeza, você não sabe o quanto... – espero que ela não tenha reparado o quão profunda aquela vingança foi.

Depois que as risadas passaram, tomei um tom mais sério para falar com Sara.

— Ninguém te viu saindo da festa, não é?

— Não mesmo. Estava tão invisível ali que só alguns poucos garotos vieram dar em cima de mim, mas não foi nada demais.

— Que bom, não quero que se envolva nisso tudo. Segunda-feira a bomba vai estourar e quero que você fique longe disso.

Ficamos nos olhando de novo e logo voltaram as risadas, foi extremamente cômico aquilo tudo, resolvi chamá-la para comemorar.

— Ei, quer comer alguma coisa? Deve ter algum lugar aberto, para comemorar nossa vitória.

— Bem que eu queria, mas está um pouco tarde, não quero preocupar mais a minha mãe. – ela disse parecendo frustrada por não ir.

Não tinha passado nem de três horas da manhã, mas não insistiria, Sara não era acostumada mesmo a sair.

— Ok, tudo bem, vou te deixar na sua casa então.

— E você vai para a sua?

— Hm... Não. Comemorarei com um amigo, ele estava meio preocupado com o resultado disso tudo, dai irei encontrá-lo para explicar como tudo foi. É perto da minha casa, então não tem nenhum problema.

— Aquele Rodrigo né?

— Sim, sim.

— Ele se preocupa mesmo com você.

— Sabe como são irmãos mais velhos né? Quero dizer, ele está quase para meu pai.

— Deve ser bom saber que alguém se preocupa realmente com você...

Poderia jurar que havia um fundo de tristeza na voz de Sara, senti vontade de perguntar, mas me segurei novamente, não tinha direito para fazer isso, ela só me ajudou em um plano maluco, apenas.

Nosso contato terminaria no momento que a deixaria dentro de casa sã e salva.

Mas é claro que eu não me segurei.

— Por que diz isso? Você tem a sua mãe, pelo menos que eu sei, que se preocupa com você... Ou, pelo menos, aparenta se preocupar.

— Ah sim... Minha mãe se preocupa mesmo comigo... Mas... Ah, deixa isso para lá, melhor me deixar em casa logo. – ela desconversou no final.

Ok, se agora ela não queria dizer mais nada, não seria eu quem ficaria importunando.

Indiquei para Sara voltar para a bicicleta, ela subiu e a levei para sua casa. Essa trajetória foi diferente, pois fomos em silêncio o tempo todo, ela parecia mais entretida em seus pensamentos e eu não ousei atrapalhá-la. Até porque aquele silêncio era um tanto bom. Colocar os pensamentos em ordem depois que tudo aconteceu, analisar bem como agiria daqui para frente, e até rir mais um pouquinho.

Quando cheguei em sua casa, pude ver as luzes acesas em um cômodo, provavelmente era a sua mãe.

Sara desceu rapidamente da bicicleta e parou do meu lado para se despedir.

Por algum motivo, seus olhos brilhavam e parecia muito mais alegre do que eu poderia imaginar.

— Obrigada por hoje, Ramona. Foi uma noite muito divertida. – ela disse sorrindo.

Meu rosto ficou um pouco corado, eu tinha feito nada demais para ela agradecer daquele jeito, na verdade, quase correu o risco de se meter em uma encrenca.

— Que nada, um dia você vai agradecer mesmo que o plano tenha dado tudo certo e que seu nome não foi citado.

— Não digo sobre isso, e sim porque raramente saio com alguém, e apesar do que a gente fez, foi realmente muito divertido. Podemos deixar para ir comer alguma coisa, juntas depois, o que acha? – animação estava gritando em sua voz.

Mas não tinha nenhuma ideia em voltar a me relacionar com Sara depois daquilo tudo. Não que eu tenho a usado, só que o melhor seria se afastar mesmo. Ela era uma pessoa muito boa para andar comigo.

— Talvez, quem sabe... Bem, então vou indo, meu amigo deve estar me esperando e está um pouco frio à noite, vai morrer congelado seja lá onde ele esteja.

— Certo, tem razão. Então até mais, Ramona. – ela disse mexendo a mão como forma de despedida.

— Até mais, Sara. – depois afastei a bicicleta para dar meia volta e ir para algum lugar mandar mensagem para Rodrigo.

Mas quando estava me afastando, Sara me chamou.

— Ramona!

Parei em uma distância de quase dois metros dela e deixei que falasse.

— Será que a gente... Poderia ser... Ér...

— Não estou entendendo, se puder falar mais alto. – eu disse estranhando a súbita timidez dela.

— A gente poderia ser... Amigas?!

Meu coração gelou naquele momento, sério mesmo que aquela menina, toda certinha, queria ser minha amiga? Não podia ser real.

Como havia pensado, não tinha nenhuma condição disso acontecer. Ela era muito boa, muito certinha, a mãe dela nem gostou de mim de início, havia muito mais gente da altura de Sara para que pudesse desfrutar de sua amizade.

Fora que, levando em conta meu histórico de amizades e como um terminou...

Resolvi a responder da forma mais educada possível.

— Melhor não, quero dizer, não é nada com você é que... Viu como sou, né? Não sirvo para essa coisa de amizade.

E antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, me despedi e fui em direção à minha casa.

Parecia está sendo metida ou me importando demais com uma coisa pequena.

Mas para mim, amizade não é uma coisa pequena e nem simples demais de ser resolvida, é algo muito importante, complicado, forte... Não poderia esta prometendo para uma pessoa que seríamos amigas sabendo que isso era praticamente impossível.

Eu e Sara somos muito diferentes. E como havia falado para ela, eu não seria a melhor pessoa para ocupar esse espaço.

Andando de bicicleta, consegui mandar uma mensagem para Rodrigo avisando que estaria o esperando na ponte da cidade, que levava para o centro. Era o lugar menos perigoso para ficar parada aquela hora, pois passava carro constantemente.

E ele não demorou muito, apareceu com a sua moto restaurada que parecia mais uma lata velha.

— Veio com essa preciosidade. – eu comentei vendo-o estacionar do meu lado.

— Saiba que muitos querem essa preciosidade, viu? Senti essa ironia na voz, hein!

Dei uma risada e esperei que tivesse desocupado para a gente começar a conversar. Logo ele parou do meu lado, olhando para a vista que dava para o rio da cidade, e a divisão entre o centro e a parte mais "rural", eu diria.

— Como foi na festa? – ele perguntou se voltando para mim.

— Deu tudo certo! Nico pagou o maior mico. Logo Sara vai me passar o video pelo e-mail e irei te mostrar. – e novamente estava rindo do acontecido, nunca me cansaria daquilo.

Mas Rodrigo não pareceu achar graça daquilo tudo.

— E sabe o que ele vai fazer com você e aquela menina?

— Não faço a mínima ideia. Mas com a menina nada, já que ele não vai saber da participação dela no plano.

— Imaginei. – Rodrigo revirou os olhos no final.

Dei um empurrão em seu ombro e disse.

— Para Rodrigo. Ele não vai fazer nada demais. Pelo menos estamos vingados, com certeza vai ser ruim para os negócios dele.

— Por isso mesmo! – Rodrigo disse agora segurando com força meus braços, nunca o tinha visto tão sério como agora. – Vai atrapalhar os negócios dele e ele ficará com raiva e vai querer se vingar de você, nem quero imaginar como!

— Fique tranquilo, nada vai acontecer comigo. – tentei tranquilizá-lo. Em vão, claro.

— Espero que não. Essa cidade ficaria muito chata sem uma menina com um nome estranho chamada Ramona. – no final, ele já estava levando o assunto com um pouco de humor, apesar de haver ainda uma pontada de preocupação em sua voz.

Fiz uma careta para ele.

Rodrigo sempre implicava com meu nome.

— Ramona não é estranho, viu?

Ele soltou o meu braço e apoiado na barra da ponte, perguntou.

— E como você fez o Nico cair de cueca na piscina?

— Hm... Bem... Digamos que a gente ficou.

— Como é que é?! Tipo ficar de ficar mesmo? – ele exclamou surpreso.

— É, né. Ficar de ficar, a gente se beijou e tudo.

— Como ele conseguiu te beijar antes de mim?! – Rodrigo perguntou parecendo pensativo.

Comecei a rir da sua cara de assustado, poderia jurar que tinha alguma sinceridade na sua frase, mas era impossível levando em conta todo nosso histórico de amizade.

— Foi horrível, tenho nojo daquele garoto. – minha voz mudou totalmente de tom no final, para algo mais sério. – Mas, foi preciso, agora terei que lavar minha boca com detergente, álcool, enxaguante bucal e essas coisas.

— Imagino como deve ter sido para você... Mas, precisava mesmo beijar, assim...

— Sim né?!! Como eu faria Nico tirar as calças? – expliquei rindo da pergunta de Rodrigo.

— Mas foi selinho?

— Não, foi beijo mesmo.

— Mas tipo de língua?

— Sim, foi um beijo de língua.

— Mas ele passou a mão em você?

— Que droga de questionário é esse, Rodrigo?

Ele desviou o olhar de mim fingindo que nada aconteceu.

— Nada, ué. Só quero saber o que aconteceu.

— Estranho. – eu comentei olhando para o rio que era iluminado pelo reflexo da lua.

Por algum motivo, sentia aquela noite agradável, me xinguei por não ter trazido nada para beber e aproveitar o momento.

— Ramona... Se fosse eu no lugar do Nico, você me beijaria da mesma forma? – Rodrigo perguntou após um longo silêncio.

Fala sério, ele estava totalmente estranho, principalmente depois que disse sobre ter ficado com Nico.

— Que pergunta é essa?

— Curiosidade. – ele falava sem olhar para mim.

Foi então que entendi o que estava acontecendo.

— Ah, não! Não acredito nisso!

Rodrigo logo olhou para mim sem entender a reação e eu continuei falando.

— Você está com ciúmes de mim? – apontei para seu rosto que estava corado e ri.

— Claro que não. Que ideia! Só uma dúvida, já que o Nico você beijou.

— A resposta é: Não beijo irmãos.

— Não somos irmãos.

— Mas nos consideramos, certo? Então é quase a mesma coisa.

Depois que disse isso, Rodrigo começou a bagunçar meu cabelo. Tentei me livrar de suas grandes mãos, mas ele era três vezes maior que eu. Até que quando paramos para perceber, eu estava de frente para ele, com as costas encostadas na barra da ponte.

Nossos corpos estavam próximos demais para eu poder dizer que estava realmente a vontade.

E nossas mãos, por algum motivo que eu desconhecia, estavam entrelaçadas.

Meu rosto começou a ficar corado quando sentia sua respiração bater no meu rosto, ficamos ali por alguns segundos até eu que eu ousei dizer algo.

— Acho que estamos perto demais...

— Nem percebi.

Rodrigo soltou uma das minhas mãos, e com essa livre, segurou delicadamente o meu queixo e o levantou. Seu rosto começou a chegar perto demais do meu, a ponto de, interiormente, eu começar a entrar em pânico e no reflexo, consegui escapar do suposto beijo. Consegui soltar minhas mãos e sair de perto da barra que me prendia a ele.

Quando sai, Rodrigo não esboçou nenhuma reação, apenas ficou imóvel ali como se eu ainda estivesse parada em sua frente.

— Irmãos não fazem essas coisas. – me senti meio idiota por ter dito novamente essa frase, mas era verdade. Pra mim, Rodrigo era apenas um irmão.

Ele se voltou para mim com um sorriso, como se nada tivesse acontecido e disse.

— Tem razão. Vai para casa agora?

— Acho que vou beber alguma coisa e...

— Nada disso! Você vai para casa. Esse final de semana irei te vigiar, vai que Nico tente alguma coisa desde já. – ele disse me empurrando para minha bicicleta.

— Ai, pra quê? Não vai fazer nada por enquanto e eu estou afim de beber.

— Nada disso! Como seu irmão mais velho, tenho que cuidar de você.

Poderia jurar que tinha um fundo de amargura quando ele disse "irmão".

— Ok, ok! Mas nesse final de semana, vou ter que beber algo.

— Quem sabe...?!