Ultima esperança
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― É sério isso? ― Sara perguntou parecendo não acreditar ― A gente... Se vingar?
― Sim, ele merece, esta fazendo essas ruindades com você que fez nada, não é? ― Eu disse convicta da minha palavra.
Sara desviou os olhos de mim os baixando, não entendi muito bem, talvez estivesse com medo de Nico depois de tudo que já fizeram.
― Pode confiar, você vai me ajudar, mas dependendo do que a gente pensar, eu vou levar a culpa toda. ― tentei tranquilizá-la ― Mas vou precisar da sua ajuda, vai ter uma festa na piscina daqui alguns dias, certo?
― Sim. ― Ela concordou agora me olhando novamente.
― Então, se fomos colocar o que estou pensando em prática, essa festa será o melhor momento.
― Se você está dizendo... Posso te ajudar sim. ― Sara, no final, deu um grande sorriso, seus olhos sorriam juntamente, não havia reparado que ela tinha um pouco de uma beleza infantil, porém com um ar maduro.
― Podemos sair amanha, depois da aula? Tem uma lanchonete que fica algumas quadras daqui.
― Sim, pode ser. ― Respondeu parecendo meio surpresa por eu tê-la convidado.
― Ok, fechado então, te vejo amanha. ― Eu disse por fim, em seguida sai da sala para ir embora.
Só de pensar que finalmente poderia me vingar de Nico já me deixava extremamente empolgada, coisa que não ocorre comigo a muito tempo.
Nico não é um garoto muito rico, nem conhecido entre a classe nobre da nossa pequena cidade, mas entre o meio dos jovens, principalmente de festas e essas coisas, todos conheciam seu nome.
Sua venda de energéticos e drogas em geral começou a menos de dois anos, mas sua fama se espalhou rapidamente, logo que conseguia arrecadar mais dinheiro que seus próprios pais, a qual não se importavam da onde vinha, contando que ele não desce dor de cabeça. Nico com sua esperteza e uma boa lábia, conseguia criar grandes laços entre certas pessoas que o defendiam, ele não é tão inofensivo quanto aparenta.
Muitas vezes apareciam pessoas no colégio, por exemplo, machucadas ou simplesmente pediam transferência sem um motivo aparente, praticamente todos tiveram ou tinham alguma ligação com Nico. O colégio sabe que existem essas coisas internamente, mas como um "bom" lugar que quer prezar seu nome renomado na região, sempre agiu com uma máscara no rosto, como se nada estivesse acontecendo, cabe a cada aluno conseguir sobreviver a essa "selva".
Final das contas, algo de muito ruim poderia acontecer comigo fazendo algo contra ele, para destruir sua moral perante os outros alunos, já que ultimamente, tem tido muitos concorrentes querendo pegar seu lugar, mas faz um longo tempo que eu não fico medindo as consequências dos meus atos, não é mesmo?
De noite, deitada em minha cama pensando no que poderia fazer contra Nico, lembrei de Sara.
De certa forma, o que queria fazer contra ele também era em relação a ela, a menina parecia tão inofensiva e inocente, e por uma ironia do destino, virou vitima de uma pressão absurda. Clara sempre dizia desse meu "senso de justiça", nunca fui uma pessoa de ficar correndo atrás das outras, mas quando elas estavam com algum problema, eu sentia que tinha que ajudá-las, e o fazia.
Vendo aquela menina sendo humilhada, sofrendo ofensas por algo que nem mesmo fez, me embrulhava o estômago.
A ajudaria e fim da história, afinal, nem mesmo tinha algum contato com ela.
Sara chegou no colégio pouco tempo antes de Clara falecer, mas somente esse ano ela entrou para minha sala, com seu jeito tímido e quieto, nunca conseguiu se enturmar verdadeiramente com a turma, logo sempre se mantinha longe e misteriosa.
E por mais algumas ironias da vida, cá estava eu a ajudando, após mais três encontros de nós duas, talvez fosse um sinal para eu socorrê-la.
Pensando tanto, acabei pegando no sono e tendo mais um pesadelo com Clara, que até então haviam parado, mas parece que resolveram voltar.
Sempre sendo a mesma coisa, os pesadelos eram do dia que chegou a notícia do seu falecimento.
Tudo parecia esta acontecendo naquele momento novamente.
Todos os sentimentos.
Sempre acordava suando frio e não conseguia dormir mais.
Ótimo.
Só que não.
***
No dia seguinte fui para o colégio com grandes olheiras, acabei encontrando Rodrigo no caminho que depois ficou me enchendo de mensagens perguntando se havia apanhado na rua para está com um "hematoma" no rosto, idiota como sempre.
A última aula seria educação física, e por algum motivo que eu desconhecia, Sara não participava, logo ela ficou me esperando no pátio da escola, pois foi liberada cedo, como eu não tinha essa sorte, tive que participar.
Após um banho para tirar todo fedor de ficar correndo durante uma hora e meia, fui ao seu encontro.
― Demorei? ― Perguntei parando do seu lado.
Sara levantou rapidamente dizendo.
― Ah claro que não, foi mais rápido do que eu imaginava.
― Você sempre fica sem graça facilmente? ― Perguntei meio curiosa, novamente ela parecia tensa perto de mim.
― Cla... Clar... Claro que não. ― Respondeu gaguejando, seu rosto estava mais vermelho que um tomate.
Resolvi não prosseguir no assunto antes que ela tivesse um ataque ali.
― Vamos então, estou com um pouco de fome.
Passei andando e Sara me seguiu, em vez de andar do meu lado.
Não é possível que intimide tanto assim uma pessoa.
Quando chegamos na lanchonete, fomos para uma mesa mais reservada e fizemos logo nossos pedidos, Sara me surpreendeu pedindo um suco e uma salada, como se ela precisasse emagrecer.
A conversa só começou mesmo depois que acabamos de comer.
― Então quer dizer que vai ter uma festa na piscina, organizada por quem? ― Perguntei depois que ela acabou de beber seu copo de suco.
― Hm, sim, foi o que eu ouvi falar também, e quem está organizando é justamente o Nico.
― Ótimo, perfeito para o nosso plano. ― Pela primeira vez uma festa que Nico organizava valia para alguma coisa, era o momento perfeito.
― O que pensa em fazer? ― Sara perguntou meio desconfiada.
― Conheço uma coisa do passado de Nico que poderá ferrá-lo, e que tem a ver comigo, simplesmente, você tera que filmar tudo. Pra você, vai dar nada de errado.
― Filmar? Como? E o que vai fazer com o vídeo?
― O lugar poderemos conversar em breve, mas quanto o que farei, muito simples, mostrarei para todo mundo durante uma aula.
― Você é maluca, ele vai te matar. ― Ela disse meio preocupada.
Eu tinha total noção que isso poderia acontecer.
― Todo mundo me chama disso. ― Respondi rindo ― Se caso eu não aparecer mais, saiba o que aconteceu, pelo menos ele vai parar de te importunar.
Sara baixou os olhos dizendo.
― Se for por minha causa, não precisa se importar com isso.
― Agora já era, já estou animada com a ideia. E também, eu sei que deve está sendo algo horrível, tem que acabar logo isso senão fica mais complicado.
― Uma hora ele cansa, não precisa se preocupar.
― Quanto antes melhor, você não fez nada, certo? Não o denunciou para a polícia.
Ainda com os olhos para baixo, ela me respondeu.
― Não...
― Então, não precisa se preocupar comigo, imagine que sou apenas uma super-heroína que vai salvar o mundo mais uma vez.
Ela voltou a me fitar, rindo timidamente do que eu disse.
― Que humilde você.
― Me chamando de maluca, sendo irônica sobre a minha humildade, não sei da onde tirou tanta intimidade. – Comentei tentando descontrair.
Mas teve efeito contrário, ela voltou a ficar extremamente corada e murmurou.
― Desculpa...
― Não, não, não, eu não estou brigando, era pra ter tido o efeito ao contrário o meu comentário, na verdade...
― É que faz tempo que eu não converso com alguém assim, que não seja da minha família, daí não entendo muito bem algumas brincadeiras... ― Ela explicou ainda envergonhada.
― Sério? Não tem amigos fora do colégio?
Sara apenas negou com a cabeça sem ainda olhar nos meus olhos.
― Que estranho, pelo menos no colégio, nunca vi você conversando com alguém, por isso achei que já tivesse suas próprias amizades... E por que não tem amigos?
― Então tá certo, né? A gente vai ferrar com o Nico, como você diz ― Deu uma risada nervosa da própria "piada e continuou – pode contar comigo nesse seu plano. ― Sara simplesmente ignorou totalmente a minha pergunta.
Fiquei meio surpresa, mas resolvi não me aprofundar no assunto, senão estaria sendo fofoqueira demais, se ela não queria comentar sobre isso, quem seria eu para ficar perguntando?
― Exato, para a gente organizar tudo, posso dar o meu número e você me dá o seu?
― Meu número?
― É, pra gente se comunicar melhor, posso te passar todos os detalhes, até será melhor, por que quanto menos gente nos encontrar, menos vão desconfiar do seu envolvimento.
― Mas Ramona, vão saber que outra pessoa filmou.
― É o de menos, é só eu inventar uma desculpa que foi alguém de fora, relaxe.
― Certo... – Ela pegou um pequeno papel da mochila e anotou seu número, depois me entregou.― Está aqui, pode me mandar mensagem a hora que quiser.
― Valeu. ― Eu agradeci pegando o papel e guardando no bolso da calça e em um guardanapo, anotei o meu a entregando.
― Então eu tenho que ir, foi ótimo o lanche, Ramona. ― Ela disse se levantando da cadeira, parecia, pela primeira vez desde que nos encontramos hoje, mais calma, voltava a aparentar a menina que estava empolgada no dia que apanharia de Nico e que conseguiu fugir comigo.
― Obrigada por está me ajudando, Sara. Sei que não quer problemas, prometo que não vai ter.
― Ah que isso, está tudo bem, acho que vai ser até divertido.
― Com certeza.
― Então, até mais.
― Até.
E ela saiu primeiro da lanchonete, mais empolgada e mais calma.
Será que ela estava doida para ir embora ou eu tenho cara de má?
Ou as duas coisas?
Bem, não importa agora, estava tudo certo, pelo menos ela vai me ajudar com o plano que vai tanto me beneficiar, quanto beneficiá-la.
Naquela noite não cheguei a ir direto para casa, fiquei na rua bebendo, para não perder o costume, acabei chegando de madrugada, meus pais já estavam dormindo, logo evitou qualquer tipo de conflito.
No momento que me deitaria para dormir, chegou uma mensagem no celular.
Me aconcheguei na cama e o peguei para ver quem era, aquela hora do dia me mandaria alguma mensagem, qual minha surpresa sobre o que estava escrito.
[ Ramona, eu fiquei pensando sobre o nosso encontro na lanchonete hoje, me desculpa ): Eu agi meio estranha, na vdd, eu sou, mas não vem ao caso, pode ter parecido que eu não queria te ajudar, mas eu quero muito, como está fazendo isso, não quero que se ferre sozinha, pode contar totalmente comigo.
E desculpe por agir de forma tão bizarra na lanchonete, fiquei mt surpresa que veio conversar comigo x_x
E desculpe por está mandando mensagem essa hora, espero que não esteja dormindo (provavelmente vai esta né, até porque temos aula amanha)
E desculpe por esta pedindo desculpas toda hora TT-TT
De: Sara]
― Mas o que foi isso? ― Eu comecei a rir daquela mensagem inesperada. – Que menina mais estranha, e porque tanto emotions?
É claro que iria a responder.
[ Está de boa, fique tranquila, você parecia meio tensa, mas acredito que seja mais minha culpa, sou meio assustadora, mas prometo cortar o cabelo para a festa. Vai dar tudo certo, pode relaxar e dormir.
E não me acordou, estava indo dormir agora.]
Minha mensagem chegou nem na metade do tamanho que foi a dela, mas acho que consegui passar o recado completo.
Logo peguei no sono rapidamente, nos dias seguintes foi uma grande preparação para nosso plano, encontramos um lugar onde seria a festa para colocarmos a câmera, bolamos tudo que iriamos fazer, trocávamos mensagem o dia inteiro e enfim Sara parecia um pouco mais animada e menos medrosa com aquilo tudo.
E comigo.
Como prometido, no dia da festa, me preparei como a muito tempo não fazia, cortei o cabelo voltando ao corte de sempre – sempre antes de eu deixar quase passar da altura do ombro – desfiado atrás, com uma franja um pouco desfiada na frente, coloquei uma roupa que estava jogada no fundo do meu armário, nada muito espetacular, porém mais arrumado, passei até mesmo maquiagem, quando minha mãe me viu, chegou a estranhar.
― Vai aonde tão arrumada assim? ― Ela perguntou vendo eu pegar minha chave de casa no chaveiro.
― Para uma festa no colégio.
― Você? Indo para uma festa no colégio? Está passando bem? ― Ela veio colocando a mão na minha testa.
A afastei dizendo.
― Para, por favor, vai bagunçar meu cabelo.
― Mais que ele já é? Ramona... Você arranjou um namorado?
Preciso urgentemente ir logo para essa festa.
― Não, mãe, tenho que ir, não me espere... ― Eu disse saindo de casa, como sempre, antes de esperar a resposta da minha mãe.
Enquanto estava me arrumando, recebi uma mensagem de Rodrigo que sabia de todo meu plano, ele ainda estava muito preocupado com o que eu faria, pois também sabia da fama de Nico, antes de sair, mandei mensagem o tranquilizando.
Tudo vai dar certo, tem que dar.
Iria de bicicleta, pois teria que buscar Sara na sua casa que ficava no caminho totalmente oposto do colégio e consequentemente da minha casa.
Demorou alguns minutos para eu chegar, era uma pequena casa com um grande jardim, parecia que sua família cuidava muito bem, pois estava tomado por flores. Sara estava parada no portão com a sua mãe.
Ela tinha quantos anos para não poder ir sozinha e a mãe ter que acompanhá-la até o portão?
― É ela, mãe. ― Sara disse ao me ver.
Sua mãe era tão parecida quanto a Sara, a não ser pelas rugas já da idade, estava com um roupão e parecia esta sentindo frio pelo vento gelado que vinha, essa cidade ventava muito, principalmente a noite por conta de ser perto do mar.
― Você que é a Ramona? ― Ela me perguntou quando parei a bicicleta na sua frente.
― Sim, prazer. ― Tentei ser a mais simpática possível.
― Marcela, prazer. Então, vocês duas vão para a festa do colégio?
― É, mãe, eu já falei que vai ser isso. ― Sara que respondeu no meu lugar.
E sua mãe continuou insistindo, parecendo meio preocupada de sua filha esta saindo e ainda comigo que não sou muito "agradável" a primeira vista.
― E vão de bicicleta?
Nessa hora fui eu que respondi primeiro.
― Não irei rápido, ir andando é muito mais perigoso e ir de ônibus seria perda de tempo pelo colégio não ser tão longe assim para isso, a senhora pode ficar tranquila.
Marcela olhou para mim, parecendo me analisar e depois para Sara que parecia um cachorrinho pedindo para brincar.
― Certo... Não demore, filha. ― Ela disse por fim, deu um beijo na testa de Sara, que alias, vestia um vestido florido, não combinava muito com a festa que estávamos indo.
― Ok, até mais mãe.
Sara sentou então no banco da bicicleta para passageiros, me despedi de sua mãe e lá fomos nós para a festa, Marcela nos acompanhou com os olhos ainda parecendo preocupada, mesmo que Sara tentasse passar toda confiança.
Enquanto pedalava até a festa, a perguntei.
― A câmera está ai na sua bolsa?
― Sim, está tudo aqui.
―Preparada?
Pude sentir sua mão tremendo enquanto segurava na minha cintura para não cair.
― Eu acho que sim. ― Sara respondeu rindo, com a voz trêmula.
a.
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